Ambições cortesãs e ambições republicanas
6 de junho de 2010 § 2 Comentários
Ambições
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cortesãs e ambições
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republicanas
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Ambição é o que move o bicho homem. Foi ela que nos empurrou para fora do mundo animal. E, hoje mais do que nunca, no limite do “apertamento”, sabemos que essa é a nossa benção e a nossa tragédia.
Entre o céu e o inferno; da negação à obsessão; da criminalização ao endeusamento, já se tentou de tudo para lidar com ela.
A esta altura, sabemos que é uma força da natureza tão irremovivel quanto o sexo e a fome e que tudo que é possível fazer é restringir as maneiras admitidas de servi-la.
Parece pouco, mas faz uma grande diferença. É o que foi possível conseguir nos 2500 anos de luta de Atenas até aqui.
Tomemos o caso extremo. As maiores ambições à solta no mundo. Volto ao Grande Jogo do Poder do qual descrevi um lance em detalhe na ultima série de artigos publicados aqui. Existe diferença, ao redor do globo, entre os que disputam o “Velocino de Ouro” do momento, que é o sonhado controle dos grandes vetores das “mídias convergidas”?
Não exatamente. Nem entre eles, nem na natureza da força que os move.
Mas não ha duvida: dos incentivos e constrangimentos de que se cerca essa volúpia nos distintos ambientes políticos e institucionais resultam benefícios significativos ou prejuízos devastadores para a massa dos que assistem de fora a luta dos que só entendem a vida correndo atras de se tornarem gigantes.
Reza o ditado que pau que nasce torto não tem jeito, morre torto.
E, de fato, nesta boca de Terceiro Milênio, assim como para tudo o mais, ha ambições cortesãs e ha ambições republicanas.

Na velha Europa e em seus rebentos latino americanos , a democracia é epidérmica. Não “entrou”. Joga-se, como sempre, o jogo da corte. Seja nas ricas, seja nas pobres, nada se faz sem a anuência do rei. Disso resulta, para as presas e para os predadores desse eco-sistema econômico, uma determinada lista de fatores críticos de sucesso e, como conseqüência, a seleção de um determinado tipo de “animal” como espécie dominante.
No sistema de cortes, ela não será nem a dos inovadores, nem a dos empreendedores, nem a dos mais dispostos ao trabalho. Será a dos que cultivaram com menos escrúpulo as melhores relações políticas.
Na série que precede este artigo examinei de perto o quadro da disputa pelas telecomunicações em Portugal e ex-colônias. Nenhum dos personagens envolvidos foge a esse figurino.
Não é só lá. Os oligarcas russos; Silvio Berlusconi, na Itália; Carlos Slim, no México; ou os nossos Sérgio Andrade e Carlos Jereissati, para ficarmos apenas nas criaturas deste governo, fizeram suas fortunas em negócios que são fruto de concessões do governo, nos quais as conexões políticas são o fator decisivo de sucesso.
Em tudo se assemelham os lances que determinam a criação e o controle do gigante das telecomunicações brasileiro e do gigante das telecomunicações português. Em tudo se parecem os artífices dessa obra de cada lado do Atlântico e de cada lado do balcão governamental. Não houve criação, não houve inovação, não houve qualquer dose de risco envolvida no processo. No que foi necessário ousar foi na disposição de violar ou de manipular a lei. No que foi necessário superar a concorrência, foi na falta de escrúpulo. Aqui como lá, tendo os respectivos governos como sócios, “capitalistas de relacionamentos” notórios apenas se apropriaram de licenças para a facilitação, em regime de monopólio, do uso de tecnologias desenvolvidas nos Estados Unidos no século passado em vastas extensões dos seus respectivos territórios nacionais. Aqui como lá, eles não disputam clientes; zelam por territórios exclusivos de caça e por sua possível ampliação. Aqui como lá, alimenta-se a expectativa de estender esse poder alem das fronteiras nacionais, aplicando a governos estrangeiros o único expediente “negocial” que funciona para satisfazer as ambições cortesãs.

No universo cortesão, ha um monopólio em cada setor da infra estrutura. E cada monopólio, se não é do governo, é cria de um governo. Com poucas exceções, é fácil traçar a linha direta de filiação entre cada nome da lista dos nossos bilionários e quase bilionários e os ditadores e presidentes que os “fizeram”.
Já no universo republicano, a linha “genealógica” dos bilionários leva diretamente às universidades. É de Stanford? É de Harvard? Sem nenhuma exceção, todos os bilionários da industria de tecnologia da informação, a arena onde se digladiam os maiores egos dos Estados Unidos, podem ser descritos como protótipos dos self made men: Bill Gates (Microsoft), Steve Jobs (Apple), Larry Page e Sergey Brin (Google), Mark Zukerberg (Facebook) têm em comum destacados currículos universitários e horas sem fim de esforço criativo, muitas vezes iniciado em precárias bancadas de obscuras garagens do subúrbio.
Não é só nessa industria. Uma pesquisa recente mostra que um em cada quatro bilionários do pais que se divorciou da Europa feudal sob a máxima “nenhum poder e nenhum dinheiro que não tenha sido fruto do mérito”, partiu do zero, seja qual for o campo de atividade envolvido. Na Alemanha, que tem a melhor marca entre os europeus, um em cada 10 bilionários cabem nessa descrição. No resto do mundo eles são exceções raríssimas…
Se ha algo de fascinante que “a rede do tamanho do mundo” (www), a mais revolucionária das resultantes da meritocracia americana, nos permite acompanhar, é o modo pelo qual os seus candidatos a gigante, tangidos por suas instituições, tratam de alimentar a mesma ganância que os europeus perseguem com a sua mumunha ancestral.

Ha quem pense hoje, depois do iPad na sequência do iPhone, que o jogo de Steve Jobs, longe de ser apenas o de se tornar um dos maiores desenhistas e fabricantes mundiais de gadgets eletrônicos altamente sofisticados e inovadores (coisa que ele também é), é se transformar numa rede de comunicações e de distribuição e venda de notícias, entretenimento e bens culturais de proporções no mínimo googlelianas.
A maior parte do que ele ganha hoje ainda vem das vendas de computadores, iPods, iPhones e iPads. Mas ha sinais claros de que o novo duto de faturamento logo superará o antigo. A ficha caiu com a fulminante caracterização do iPhone como a mais fantástica plataforma de vendas de aplicativos (software) que jamais existiu. Quatro bilhões de downloads já foram feitos e a caixa registradora continua girando em ritmo alucinante. Depois da musica, com o iTunes e o iPod, seria coincidência demais para não ser deliberado. O iPad chegou para confirmar tudo, cobrando uma taxazinha por cada livro, por cada revista, por cada jornal…
O iPad, dizem alguns críticos especializados, é a primeira máquina desenhada com a convergência de mídias em mente. Os computadores, feitos para a gente se debruçar em direção a eles, são muito pouco cômodos como plataformas de entretenimento. E a televisão é péssima para se surfar na web e para se passar e-mails. O iPad, com sua genial e simplérrima capa/bancada, serve para tudo isso e ainda é perfeito para você se afundar numa poltrona ou deitar na cama e ver um filme. E tudo sem que a Apple tenha gasto um tostão enterrando cabos ou esticando fios. Ela conseguiu, enfim, o que os grandes portais tentaram e não conseguiram e o que as “teles” cortesãs ainda sonham obter.
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Qual foi o erro deles? Eles não fabricavam iPhones e iPads. A Apple produz combinações matadoras de hardware e software. E o resto vem por conseqüência. De qualquer maneira ela é, desde já, a única plataforma online que se provou capaz de cobrar com sucesso por conteúdos digitalizados.
Mas ha quem discorde. E as discussões são apaixonadas.
O Google trabalha focado no princípio das plataformas abertas e dos “conteúdos contribuídos” (feitos por contribuições espontâneas dos próprios usuários, cedidas ou roubadas) . Ao contrario de Jobs, que produz softs apenas para as suas máquinas, o Google aposta em programas abertos que podem ser usados em qualquer máquina. O seu sistema para telefones inteligentes, o Android (28% do mercado nos EUA), por exemplo, já ultrapassou as vendas do sistema OS do iPhone ( com 21% de share contra 36% do sistema usado no BlackBerry, ainda o campeão).Mas a Google vende apenas um soft que “motoriza” qualquer aparelho de qualquer fabricante enquanto o iPhone, com seu programa fechado é, por enquanto, uma plataforma imbatível de venda de aplicativos.
Sim, mas o soft do Google é aberto e vai ter desenvolvimentos num ritmo e numa extensão que só os mutirões são capazes de produzir enquanto as máquinas, como o iPhone ou o iPad, vão virar commodities reproduzidas ao redor do mundo, como aconteceu com os PCs no passado.
Mas, que ninguém se engane, o olho grande do Google foca o mesmo objetivo de controle monopolísticos de mercados atribuído a Jobs, mas pelo caminho da reprodução virtual das cidades, das ruas e das lojas que vai sendo acoplado ao seu sistema de mapas interativos, dando a cada comerciante e a cada consumidor ao redor do mundo a condição da ubiqüidade.
E o Windows? O Windows, ainda o rei dos escritórios, parece ter perdido definitivamente a corrida dos telefones inteligentes. Mas esse jogo ainda não acabou…
Por aí vai a discussão.
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Se e quando resultar dessa disputa prejuízo alto demais para a platéia, pode-se sempre recorrer à força de um Estado que não participa diretamente do jogo, no qual a dependência do representante em relação ao representado é real, para aplainar as arestas. O fenômeno de concentração excessiva de um insumo de uso obrigatório como as telecomunicações numa economia moderna, como este que estamos assistindo hoje por aqui, aconteceu nos Estados Unidos ha perto de 40 anos atras. Em 1974 o Departamento de Justiça abriu um processo contra a AT&T por “práticas anti concorrenciais”. Julgada em 1982, a empresa foi forçada a abdicar de seus 22 monopólios regionais, finalmente consolidados em 7 Baby Bells regionais independentes, concorrendo entre si.
A diferença mais notável entre esses dois mundos é que o Estado fica fora da disputa das ambições republicanas – idênticas às cortesãs na sua natureza e, provavelmente, também nas suas inconfessáveis intenções ultimas – e intervém para moderá-las quando isso se faz necessário. Até esse momento, porém, o jogo é jogado dentro de regras claras e estáveis o bastante para o publico admiti-las como tal. E é isso que explica porque, lá, o jogo é acompanhado com um nível de vibração da platéia que aqui só se vê nos estádios. Há torcidas para PC e para Mac como aqui há torcidas para Corinthians e para São Paulo.
Já no mundo das ambições cortesãs, quando os contendores mostram a cara, sempre suja, é nas páginas policiais dos jornais. E é isso que alimenta o descrédito e o nojo da opinião publica contra uma disputa que, entre nós, é invariavelmente viciada.
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Fecha-se assim o círculo vicioso. O tanto que, lá, a vitória consagra, aqui a vitória compromete. É, quase sempre, um atestado de desonestidade. E é isso que arma a mão do Estado para “melar” a partida sempre que lhe convier. O publico, que é sempre o grande lesado no jogo das ambições cortesãs, estará sempre pronto a aplaudir quem se apresentar como “xerife da ética” e vier “para acabar com a bandalheira” … por excelência o discurso dos que vêm lá de baixo loucos para entrar nela.
Para as torcidas de lá, sempre sobram os iPhones, os iPads e as redes do tamanho do mundo com tudo que elas puxam a reboque como subproduto da perseguição de ambições individuais pelo caminho do mérito. É preciso inovar e inventar para ganhar esse jogo.
Entre nós, a inovação atrapalha. Ameaça as fronteiras de territórios privativos de caça ha muito estabelecidas. Os tempos mudaram e já não estamos mais queimando os inovadores em fogueiras monumentais em praças publicas. Hoje as cortes se contentam com o linchamento moral e a sabotagem econômica dos críticos e dos inovadores.
E disso tudo resulta que enquanto “eles”, cheios de duvidas, perscrutam os confins do universo, recriam a vida com o DNA artificial e padecem as dores de serem humanos pairando acima da miséria material, nós perambulamos por este vale de lágrimas cheios de certezas, mergulhados na pobreza e tomando “broncas” de chefes de quadrilhas que se aprazem em cagar regras para o mundo, a quem pagamos as tarifas e os impostos mais altos do planeta.
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(Depois desta, saio para uma semana de Amazônia, que ninguém é de ferro. Até…)
Boas. Gostava de poder falar consigo. sou jornalista do Diário Económico, em Lisboa. E fui saneado politicamente (sou de direita).
abraço
Carlos Caldeira
ola, carlos, mande o seu e-mail e falamos…
abs.