Eu acredito no PT
31 de janeiro de 2010 § 1 comentário

Nada me impressiona mais no Brasil de hoje que a irrepreensível transparência com que o PT reafirma o seu projeto autoritário de sempre e a empedernida recusa das forças democráticas de acreditar no que ele diz.
Não se trata mais de acreditar no que ele diz, aliás, mas de observar o que ele faz. Pois a ação do fundador do PT e seu eterno líder, atual presidente da Republica, é perfeitamente fiel ao que o partido sempre pregou e reafirma cada vez com mais ênfase.
A explicação para essa dissonância pode estar no fato pouco debatido de que, no campo da chamada intelligentsia, há “viúvas do Muro” dos dois lados do espectro ideológico, igualmente incapazes de reconhecer a realidade por mais frágil que seja a máscara com a qual tentam disfarçá-la. É aquele tipo de gente que dá mais valor às embalagens que aos conteúdos. Uns ficam exigindo, raivosamente, que venha o que já está aí; os outros não enxergam o que já chegou apenas porque, na versão Terceiro Milênio, as minúcias semânticas penduradas às definições de tirano e de tiranizado não são exatamente as mesmas que costumavam acompanhá-las no final do Segundo.
Para aumentar a confusão, a China lançou no mercado a novidade da tirania prospera, que veio para testar a resistência do desde sempre duvidoso amor da humanidade pela liberdade (veja o artigo O novo canto da velha sereia, publicado aqui em 5 de janeiro passado). O incipiente ensaio lulista dessa nova conjugação já dá sinais da força do seu apelo com a completa sedação do senso crítico daquela parcela esmagadoramente majoritária das classes trabalhadora e empresarial que só raciocina com o bolso traseiro das calças. No momento, todos os interesses são convergentes: há uma eleição pela frente; gastar dinheiro público a fundo perdido virou a muleta do mundo, o que é um excelente álibi; a esmola que se dá aos pobres e compra votos acaba engordando também o bolso dos empresários.

Alem disso, uma nova nobreza está em formação nesta velha meca do “capitalismo de relacionamentos”. Não convém arriscar o que pode vir a ser a oportunidade de uma vida. É o que basta para silenciar os candidatos aos novos condados e baronatos em formação. Para os demais, está sempre à mão o supercomputador da Receita Federal e a matilha de juízes ideológicos, sempre dispostos a uma nova jihad. E, para fechar o cerco, está prestes a sair do forno o novo “Pacto da Republica” que dá à Procuradoria da Fazenda Nacional a prerrogativa de penhorar os bens de qualquer contribuinte via internet, antes de qualquer manifestação da Justiça.
Nem a ralé está a salvo, como se vê…
Neste admirável mundo novo em que o paradigma de “sucesso” é o capitalismo de estado chinês (danem-se os fuzilados), o nosso Lula deu tratamento especial à obra de desmanche dos movimentos de privatização da economia com que Fernando Henrique tinha conseguido reduzir as reservas de caça privativas dos predadores da política e aumentar a eficiência da infra estrutura brasileira. O “toque de classe” desse capítulo está na seleção dos novos sócios do Estado e atores coadjuvantes do projeto de poder do PT, escolhidos a dedo entre os mais assíduos freqüentadores da lista do basfond do capitalismo brasileiro tantas vezes apedrejados pelo partido por suas relações sempre pecaminosas com o dinheiro publico.
Para a dupla Jereissati/Andrade, o gigante da telefonia. Para o Grupo Odebrecht, o monopólio da petroquímica. Acena-se agora com a “super elétrica”, que produzirá e distribuirá mais de um terço de toda a energia elétrica do país, para a Camargo Correa. A Vale, com seu CEO semanalmente ameaçado em publico pelo presidente da Republica, assesta a mira no setor de fertilizantes. Não foi, ainda, anunciado o titular desse novo feudo…
Os outros movimentos, que confirmam a solidez e a extensão dessa política que visa tambem os setores que estão fora da definição clássica de infraestrutura, acontecem ao sabor das oportunidades que surgem: para os Ermírio de Morais, o gigante de papel e celulose; no setor de alimentos, a JBS controlando mais de metade da carne consumida no mundo e a BRFoods, juntando Sadia e Perdigão, controlando 57% do mercado de carnes industrializadas e 88% do de massas prontas do Brasil. Multiplicam-se as “supernovas” com nucleos superpesados que estão destinadas a tragar todos os outros corpos girando em sua orbita e a preparar o terreno para o embate final. E ha muito mais em gestação. Contam-se nos dedos, hoje, os grupos empresariais brasileiros de maior expressão que não têm um braço do Estado entre os seus maiores acionistas, com representantes do PT ou de seus satélites tocaiados em seus conselhos de administração à espera de uma oportunidade.

Por traz de cada um desses “companheiros de estrada”, desses novos condes e barões da economia brasileira, está a sólida potência dos fundos de pensão das estatais e do funcionalismo publico, alimentado por toda a multidão de brasileiros que subsidia com suas aposentadorias miseráveis e contribuições milionárias as aposentadorias milionárias e contribuições miseráveis dos brasileiros com CPF em Brasília. É de lá que vem o dinheiro para essas fusões e aquisições que o BNDES operacionaliza e o Tesouro Nacional, quando necessário, complementa.
Para pavimentar o caminho, foi limada a legislação antitruste, emasculado o Cade e esvaziadas todas as agencias setoriais independentes, culminando com o golpe de misericórdia da extinção do órgão anteriormente encarregado (SPC) e a criação de uma nova Superintendência Nacional de Previdência Complementar (Previc), com diretores indicados pelo PT, incumbida de “fiscalizar os fundos de pensão”. A Previc é quem vai “ficar de olho” na Previ e cia. (muito) limitada…
Não ha instituições que não se derrube nem regras que não se revogue. Ha, sim, pessoas imexíveis e projetos de poder que a nenhuma lei é dado limitar.
Neste jovem filho de Portugal, a velha Metrópole cuja história se inaugura com sua majestade atiçando o povo contra a nobreza, na revolução de Avis, para resolver o problema do Tesouro Real esvaziado, movimento que lançou um modelo de operação da política nunca mais abandonado aquém e além mar, já se vê para onde tudo isso caminha…
E caminha ao som de loas ao “excesso de democracia” desfrutado, segundo dom Lula I, pelos súditos de Chaves, de Ahmadinejad e da dinastia dos Castro, e dos iracundos apedrejamentos verbais contra as falsas democracias de países como os Estados Unidos, a Itália e Honduras.

No vai da valsa, rodopia cada vez mais rápido, no salão, o Poder Legislativo. Trabalho tão maquiavélico quanto eficiente. Primeiro foi o alinhamento preferencial e automático com os ladrões. Lula + Sarney + Collor = Arruda agarrado à carniça como um carrapato, o deprimente espetáculo que prenuncia a saída de todos eles pelo cano de esgoto assim que surgir uma oportunidade de puxar a descarga.
Num ambiente como este já não se faz cerimônia para decretar a anulação das decisões do Tribunal de Contas da União embargando obras onde a roubalheira está visível demais. É a sequencia lógica do processo de contaminação ideológica e aparelhamento do Judiciário, em especial o dos tribunais superiores. Todos eles, hoje, têm maioria de juízes nomeados por sua majestade (8 em 11 no STF), o que torna pouco surpreendente a vergonhosa rendição do Supremo ao “filho do Brasil” no episódio do julgamento da extradição do “companheiro de armas” Cesare Battisti (leia O ano em que voltamos ao século XVI, publicado aqui em 24/11/2009)…
Com o Programa Nacional de Direitos Humanos, Lula, coadjuvado por 30 ministros e por toda a cúpula do PT, assina a sua versão particular de Mein Kampf explicando, tim-tim por tim-tim, como no modelo famoso, o que quer fazer, como quer fazer e contra quem quer fazer. Escorregadio que é, nosso herói não pega brigas de frente. Havendo resistência, recua para seguir avançando. Atira ossos à direita e à esquerda para que os cães parem de ladrar e segue, focado, para o cofre dos grandes valores. Confia totalmente na falta de perseverança e na alienação da maioria. Os milicos chiaram? Eles ainda têm alguma força: melhor atenuar o capítulo da anistia. Eles não perdem por esperar. A Igreja chiou? Ela ainda é grande o bastante para pesar numa eleição: altere-se o discurso sobre o aborto…
Mas o resto, que é o que interessa; o resto, que muda para sempre o regime, fica como está.
E ainda assim, os nossos novos ricos e os antigos “companheiros de estrada”, sobre quem já começa a pesar o incomodo de tê-los ajudado a chegar lá, “não acreditam” que o PT é o que é. Ainda assim, os modernos Chamberlain da sempre frívola e decadente Europa seguem com prêmios e paparicações numa mão e vendas bilionárias de armamentos na outra, caminho seguro para seduzir essa gente exotique de lá bas…
Eu não. Eu acredito no PT.

Excelente texto. Vivemos tempos sombrios. A alienação e a subserviência gerais preocupam.