De como o óbvio é revolucionário

10 de dezembro de 2019 § 24 Comentários

Artigo para O Estado de S. Paulo de 10 de dezembro de 2019

Domingo agora J. R. Guzzo escreveu neste jornal que “a igualdade não é um direito, é o resultado do que o cidadão aprendeu”, que “é inútil querer que as pessoas tenham igualdade nos resultados quando não são iguais nos méritos” e que “não há como ser igual nos méritos se o sujeito que sabe menos não teve oportunidades iguais de aprender as coisas que foram aprendidas pelo sujeito que sabe mais”. Conclusão: “ainda não foi inventada no mundo uma maneira mais eficaz de concentrar renda, preservar a pobreza e promover a desigualdade do que negar ao povo jovem uma educação decente”.

Mas como arrancar a educação pública brasileira dos dois atoleiros aos quais está presa, a corrupção inerente ao ambiente estatal e o serviço a um projeto de poder? Ontem, falando de corrupção, Modesto Carvalhosa lembrou nesta página que “um fenômeno sistêmico é o que cria, ele próprio, sua continuidade, permanência, e expansão”. Mas pode haver uma versão virtuosa disso. Eu tenho fascínio pela instituição da eleição direta do school board das escolas públicas em todos os países de colonização inglesa. É a peça mais básica da democracia moderna que é a que foi reinventada por eles. É ali que se dá a intersecção mais concreta entre o público e o privado e que se define, no nível mais próximo do cidadão comum, a relação hierárquica que ha entre ele e o seu representante eleito, de modo a criar a sua própria continuidade. 

Sendo a base de tudo na democracia moderna a necessidade dela ser “representativa” e o sistema distrital puro de eleição a única maneira sem tapeações de se prover essa representação de modo aferível, preto no branco, o bairro, a menor célula do sistema, elege obrigatoriamente entre candidatos que moram nele (pais de alunos) o conselho gestor da escola pública local. Nos Estados Unidos esses boards têm, tipicamente, sete membros para que não haja empate em suas decisões, com duas “metades”, uma de três outra de quatro membros, eleita a cada dois anos, para mandatos desemparceirados de quatro anos. Como todo funcionário eleito também estes estão sujeitos a recall a qualquer momento em que seus eleitores sentirem-se mal representados. Esse conselho tem por atribuição contratar e demitir o diretor da escola e aprovar ou não os seus orçamentos e planos de vôo anuais.

A esta altura os leitores ainda sujeitos ao complexo de vira-latas já estão pensando como o brasileiro das favelas ou lá dos fundões poderá mandar na educação (de seus filhos) com bons resultados. A função do school board, assim como a da democracia como um todo, não é imprimir sofisticação aos currículos, é estabelecer o filtro contra a mais mortífera de todas as doenças que acompanham a humanidade ao longo dos tempos neste vale de lágrimas que é a corrupção pelo poder, e tornar a escola pública “orientada para o cliente”. Hoje, com as exceções que confirmam a regra, ela está orientada para servir seus servidores e manter para sempre nas mãos dos próprios privilegiados o controle sobre a distribuição de privilégios pelo estado que é ao que se resume, despido de sua fantasia século 20, todo o blá, blá, blá em torno da estatização ou não do que quer que seja. 

Qualquer pai terá condições de saber quem são as pessoas mais capacitadas para fazer parte desse board na sua comunidade e, sendo o voto secreto, de defender-se de pressões indevidas. E qualquer ser humano em poder de suas faculdades saberá avaliar a razoabilidade ou não de um orçamento a partir da segunda vez que tiver de tratar do assunto. Além disso, como todos, esse sistema gera os seus próprios meios de tornar-se “sistêmico” e auto-reproduzir-se: centros de apuração e difusão de melhores práticas, cursos de aperfeiçoamento de membros de school boards, etc.

Nenhum prejuízo colateral será maior que o de manter o controle das verbas e das decisões na área de educação nas mãos de quem terá o poder de transformá-las no próprio salário e o de deixar a avaliação de quem deve preparar um país inteiro para a competição global a indivíduos que não têm, eles próprios, de competir por seu lugar ao sol. Ontem mesmo, aliás, editorial na página ao lado desta constatava que ha mais professores do ensino básico sendo formados no Brasil de hoje, onde eles já são 3,1% da força de trabalho e 20% das mulheres com ensino superior, que alunos a demandá-los. Porque seria se os salários são tão baixos? Porque o magistério público atrai pessoas de famílias paupérrimas e, no quadro da miséria nacional, ser professor prestando um vestibular de pedagogia é um modo mais fácil que o vestibular de medicina, por exemplo, para disputar uma posição de segurança vitalícia num emprego estatal. 

Não é, portanto, aumentando salários num ambiente regido pela regra da isonomia – aquela que afirma: “eu merecerei ganhar mais sempre que outra pessoa fizer por merecer ganhar mais” que se vai resolver o problema da qualidade da educação básica no Brasil. E a solução passa obrigatoriamente pelo rompimento com a “mentira analítica”: a crítica do sistema tem de ser feita pelo consumidor e não pelo fornecedor de educação pública como geralmente acontece até mesmo nas bancas (quase exclusivamente compostas por professores de universidades públicas) que os jornalistas convocam para debater o problema.

Nada disso, porém, pode ocorrer isoladamente. Se quisermos viver numa democracia o school board é só a peça mais básica. Um certo numero de distritos eleitorais escolares (bairros) comporá um distrito eleitoral municipal, um conjunto destes fará um distrito estadual e outro múltiplo deles fará um distrito federal que elege um deputado federal, todos eles diretamente atrelados a eleitores específicos e sujeitos a recall, ou seja, submetidos à mesma meritocracia sob a qual vivem os seus representados. 

Não é só o sistema de educação pública. O Brasil inteiro não funciona porque a avaliação e a condição de permanência, seja no emprego, seja no poder públicos, é absolutamente independente da “satisfação do cliente”.

Marcado:, , , , , , , , ,

§ 24 Respostas para De como o óbvio é revolucionário

  • LUIZ OSVALDO CARNIELO CALEJON disse:

    Quero apenas parabenizar o autor do texto por sua capacidade de apresentar com clareza solução para assuntos complexos. Espero que sirva com estímulo para que continue a “colocar o dedo nas feridas” porque um dia alguem vai compreender e começar a agir a respeito.

    Curtir

  • Nilse Belpiede Simões disse:

    O voto teria que ser distrital, mas o eleitor tem que aprender a reclamar sempre, ir pra rua, lutar pelos seus interesses e da comunidade. A Educação e formação de alunos está atrelada à educação e formação de professores. Ninguém dá o que não tem, como que professores mal formados podem se preocupar em formar bem seus alunos, principalmente na escola pública onde eles têm os direitos “adquiridos” pela estabilidade?
    Precisamos de uma reforma geral, acabar com privilégios de todos os parlamentares e juízes e funcionários públicos de alto escalão. Será que eu vou viver o suficiente para ver isso acontecer? Não tenho mais tanta esperança…
    Só a igualdade de direitos e deveres é que pode trazer certa dignidade ao ser humano.
    Continue a lutar Fernão, você é admirável.

    Curtir

    • LSB disse:

      Prezada Nilse

      De fato, existe um ciclo vicioso de apatia (e rompê-lo é que “são elas”…).

      O sistema político (regras eleitorais, responsabilidades,direitos políticos, sistema partidário, etc.) está formatado para que o cidadão influa o MENOS POSSÍVEL sobre as atividades parlamentares, elaboração de leis,etc.
      Isto gera apatia, pois o cidadão percebe que ele pode fazer pouco ou mesmo nada.

      Ex.: estando descontente com um lei, o que uma pessoa no Brasil hoje pode fazer? Quase nada… as leis, quando não são federais, estão vinculadas a outros dispositivos federais e, portanto, quase sempre há a necessidade de mudanças na esfera federal. Isso é quase impossível para um cidadão comum… Você precisa mobilizar o país inteiro… Os congressistas estão “longe” em todos os sentidos.

      Uma vez gerada tal apatia, ela mesma reforça o sistema vigente ao “desincentivar” o cidadão de tentar mudar alguma coisa…

      Enfim, forma-se um ciclo vicioso: o sistema não permite a participação do povo e o povo não consegue mudar isso tanto porque (1) o sistema mesmo não permite a participação do povo quanto porque (2) o povo também já está acostumado com esse sistema que não permite ser mudado nem permite que ele, povo, mude alguma coisa.. (daí a apatia que se retroalimenta e retroalimenta o sistema tornando a mudança muito difícil).

      Abs
      LSB

      (PS.: nesse contexto, só nos resta continuar com a “pregação missionária”… e,obviamente, ter ou manter, caso você consiga, esperanças!)

      Curtir

      • flm disse:

        É exatamente assim, LSB.
        O primeiro passo para romper o circulo vicioso é saber “o que pedir”…
        A pedida que eu sugiro existe, está em funcionamento e provando que de fato funciona.
        O segundo só pode ser dado quando uma quantidade suficientemente grande de gente estiver pedindo a mesma coisa…

        Curtir

      • A. disse:

        flm: “…pedindo a mesma coisa…” Taí o gigantesco nó górdio que, arrisco dizer sem medo de errar, NÃO saberemos desatar! (não nascem “Alexandres” nos trópicos… nem são importáveis)

        Curtir

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

O que é isso?

Você está lendo no momento De como o óbvio é revolucionário no VESPEIRO.

Meta

%d blogueiros gostam disto: