No fio da navalha

13 de setembro de 2017 § 16 Comentários

Artigo para O Estado de S. Paulo de 13/9/2017

O ruído em torno da sessão que vai haver hoje no STF prova a crescente instrumentalização de tudo relacionado à Operação Lava Jato pela luta pelo poder, tanto das corporações que se apropriaram do estado quanto das facções e quadrilhas a elas associadas.

Nem a anulação de fatos que deponham contra Temer, nem a anulação de fatos que deponham contra Marcello Miller, a PGR e a delação dos Batista. Uma coisa não implica necessariamente a outra. Nem, muito menos, a continuação ou não das delações premiadas. Estão em causa só as que porventura tenham sido comprovadamente “armadas”.

Sobre as maquinações de Joésley com Marcello Miller não ha dúvida nenhuma. É o próprio Rodrigo Janot quem as denuncia agora. A questão ainda pendente é estabelecer se o Procurador Geral mandou prende-los porque descobriu a conspiração que desconhecia ou porque descobriu que tinham descoberto a conspiração que conhecia, agora com uma prova irremovivel do processo.

A resposta objetiva a essa pergunta é dada pela cronologia. O relacionamento entre os Batista e a Procuradoria Geral da Republica começa em setembro de 2016 com a Operação Greenfield, chefiada por Anselmo Lopes, que investigava desvios dos fundos de pensão e bancos públicos, modalidade na qual são os campeões dos campeões. De Anselmo os contatos sobem para Eduardo Pelella, chefe de gabinete de Janot, e evoluem para a negociação de uma delação mais ampla. Marcello Miller é o cabeça do GTLV (Grupo de Trabalho da Lava Jato) da PGR desde maio de 2015. Desde pelo menos fevereiro de 2017, segundo emails coletados como prova, advogados de Trench, Rossi e Watnabe discutiam com Joésley, em nome de Miller, o pagamento pelo “sucesso” da negociação de sua delação premiada com a PGR. A 19, 20 e 21/2 ha tres reuniões, a ultima com participação oficial da PGR, para discutir a delação premiada da JBS. Só dois dias depois, em 23/2, é que Miller se lembra de registrar seu pedido de exoneração. Janot, segundo a versão oficial, não sabia nem se interessou em saber a razão dessa decisão de seu auxiliar. Em 2 e em 6 de março ha registro de duas outras reuniões entre eles na sede da PGR. No dia seguinte, 7 de março, Joésley grava a conversa com Temer no Jaburu que, ocasionalmente, preenche os dois únicos requisitos que podem levar um presidente em exercício ao impeachment: obstrução de justiça e crime cometido durante o mandato em curso. Miller só é oficialmente desligado do MPF dois meses depois, em 5 de maio. No dia seguinte já dá expediente no novo emprego.

A 17 de maio a TV Globo estronda o “furo” da gravação no Jaburu. Para o dia seguinte, 18/5, estava marcada a primeira votação da reforma da Previdência que extinguiria algumas das prerrogativas “especiais” para as aposentadorias publicas que explicam porque apenas 980 mil delas custam tanto quanto as 35 milhões de aposentadorias pagas ao resto dos brasileiros somadas. Por todas as contagens publicadas, a reforma seria aprovada por mais de 311 votos. No mesmo 18/5 o país ficou sabendo que os irmãos Batista tinham montado operação de US$ 1 bilhão no mercado de câmbio e outra de venda e recompra maciça das ações de sua própria companhia na véspera da divulgação do escândalo e “ainda longe” do acordo de leniência.

Em 20/5, dois dias depois do escândalo, Vera Magalhães publica neste jornal reportagem com todos os pormenores agora confessados de viva voz por Joésley e Saud em sua “coversa de bêbados”, da história da relação entre Marcello Miller, a PGR e a JBS. Mas em 21/5 Rodrigo Janot afirma que embora tendo-se bandeado para o inimigo Miller “não tinha atuado nessa negociação”, e ponto. Em 30/5, com endosso de Luis Edson Fachin, Janot fecha o acordo com os Batista que, àquela altura, a CVM já investigava (outro assunto que foi engavetado). Um mes depois de intensa polêmica sobre o perdão total aos dois réus pelo menos R$ 400 milhões mais ricos, o plenário do STF confirma a indulgência plenária em 28/6. Somente em 5/7, com a persistência da celeuma, Marcello Miller desliga-se de Trench, Rossi e Watanabe.

Acontece que todo mundo foi gravado por Joésley Batista inclusive o próprio Joésley Batista e tanto ele quanto seu “braço direito”, Ricardo Saud, são funcionalmente “pre-milennials”. “Eu tava sem óculos, puxei pra cá, gravou … sei lá, liga pro Denilson, ele é que entende …”. Daí para a frente a gravação é ácido puro e a trama parece ser do destino. Por engano o áudio corrosivo é entregue à Policia Federal como prova da defesa em 31 de agosto. A 5 de setembro, faltando 12 dias para ser jubilado e na véspera do feriadão da independência, o procurador geral, em subita “crise de consciência”, vai à TV comunicar seu “drama íntimo” à nação, reconhece que Marcello Miller é Marcello Miller, pede a prisão dele, de Joésley e de Saud e, em seu “medo de ter errado”, sai anunciando, em ritmo torrencial, a condenação de todo mundo que passou seu mandato inteiro tratando de não incomodar.

Quanto desse enredo é amor à justiça, quanto é dinheiro no bolso, quanto é a luta pelo poder de salvar o Brasil ou de continuar sendo salvo por ele; em que doses esses componentes todos se misturam, personagem por personagem, são questões que podem ser tão fácil e objetivamente medidas quanto roubalheiras e “contrapartidas”. A impossibilidade de diferenciar métodos e objetivos de “mocinhos” e “bandidos” é que é a questão realmente espinhosa.

A sequência da “virada” do caso JBS abrir com a prisão apenas “temporária” de Joésley e Saud (máximo de 10 dias contra a “preventiva” de extrair confissões que pode ser extendida por tempo indeterminado) e com a negativa de Luis Edson Fachin de prender Marcello Miller, o potencial “delator bomba” plantado no coração do Poder Judiciário, está aí para confirmar. É da fundamental questão da prevalência da prova e do fato sobre o exercício da força (que hoje só o Judiciário detém) que se trata. Do restabelecimento do limite ou da derrocada final de uma fronteira clara entre a civilização e a barbárie, portanto.

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§ 16 Respostas para No fio da navalha

  • Marcos andrade moraes disse:

    estava faltando reflexão como esta. Mas seu texto anda dificil de ser lido, não pelo conteúdo e sim pela forma. Replicando. MAM

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    • Fernão disse:

      meu pai sempre dizia q quando v lê alguma coisa e n entende, o burro é o outro.
      no caso, eu…

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      • MARCOS A. MORAES disse:

        não, tem certeza de que não é a cópia? Infelizmente, não tenho acesso ao estadão…MAM

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      • Carmen Leibovici disse:

        Eu sempre entendo mto bem o que voce escreve e “invejo”sua concentracao ao expressar ideias em frases longas sem quebrar o pensamento.
        Quem le nem sempre consegue acompanhar na primeira,ainda mais pessoas com uma certa dificuldade de concentracao(como eu)
        Mas na escrita,a pressa e inimiga da perfeicao.
        As vezes o pensamento anda mais depressa do que as maos ,assim e preciso revisar.
        Eu tive uma professora que dizia que os textos devem ser deixados de molho pelo escritor para entao serem revistos.
        Mas de qq modo,fico ate constrangida de fazer alguma critica a uma pessoa como voce .Mas de toda maneira,com critica ou sem critica,
        adoro ler seus textos,pois sao sempre estimulantes e lideram ideias.

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      • Fernão disse:

        não se preocupe, carmem. criticas de boa fé ajudam e todo mundo tem direito a elas

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    • luizleitao disse:

      Concordo. A qualidade e a lucidez das ideias de FLM são inegáveis, mas a forma do texto, a falta de acentos e de revisão lhe conferem um ar de estranheza. A “desacentuação”, que tenho notado em escritos de outros autores, talvez se deva à pressa — e concordo que é um saco acentuar tudo no teclado do computador, mas…

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  • Carmen Leibovici disse:

    Uma oligarquia.Uma máfia.
    Não é isso que o Brasil supostamente deveria ser.
    Tem de haver um meio de explodir essa bolha de aço.
    A Polícia Federal parece estar fazendo alguns furos nela,mas ainda está difícil,ainda segue implacável…

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  • Adriana disse:

    Tem que ter a delação bomba do judiciário, para implodir sua extensa parte podre, e preservar os bons. E tem que atingir tb a grande emissora do país, que não pode mais mandar em tudo, eleger e tirar presidente, ditar comportamentos, etc.

    Curtido por 1 pessoa

  • Histórico bem feito e bem complexo. Os “campeões nacionais” , se mostram cada dia mais. É o Brasil que nos envergonha. Tem pai e mãe conhecidos.

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  • José Silvério Vasconcelos Miranda disse:

    Fernão,
    lembro-me que no mesmo dia 17/05 você manifestou as sua desconfiança a respeito do ” furo” do Globo e o carnaval feito na televisão. Chegaram a dizer que Temer estava prestes a renunciar.
    Agradeco-lhe por manter-me na lista dos leitores do Vespeiro.com

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  • Marcos Jefferson da Silva disse:

    Pra mim, nem precisou dessas novas gravações, para constatar que o que se dava no episódio da gravação do presidente era uma conspiração, diga-se de passagem, muito mal formulada.
    No entanto, o hiponotismo da operação lava-jato e de seus supostos heróis fazem com que a maioria da sociedade não enxergue o que há por trás de todas essas ações, travestidas de legais, mas que vão minando o Estado Democrático de Direito.
    Punir os criminosos sim, porém, sem violar direitos e garantias individuais, a ampla defesa e o devido processo legal.
    Mania do brasileiro querer sempre encontrar um salvador da pátria e não precisa ser uma pessoa, pode ser uma ideia. Nosso atual salvador da pátria é a operação lava-jato.

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  • Bete Adami disse:

    Rapaz, me senti na obrigação de me manifestar…Como disseram umas duas pessoas aqui seu texto não é fácil, mas é de uma qualidade impressionante, sempre…Já havia lido pela manhã no jornal físico, o que causa sempre estranheza aos meus alunos da PUC, tendo em vista minha defesa intransigente das vias digitais.
    Bem, o texto é de uma clareza impar e só posso concordar com ele. De resto, saiba que você é um dos meus benchmarkeds favoritos e, tento em minha pequena coluna no estadão, aos domingos (“Foco na Carreira”, alternadamente com Leonardo Trevisan), me aproximar minimamente de sua qualidade….Congratulações

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  • Sônia disse:

    “Não foram os juízes eleitos que fizeram a Democracia americana florescer. Ela floresceu porque os juízes foram eleitos”
    Alexis de Tocqueville – Democracy in America, vol II

    Prezado Fernão, nunca é demais agradece-lo pelos textos que expressam também nossos pensamentos.
    Estou lendo Tocqueville. Diz ele que os americanos são “iluminados”. Penso que ele sim, é um “enlightened.”
    Esse autor deveria ser traduzido e lido obrigatoriamente nessa nossa América Latina que endeusa Cuba, os Castro, Che Guevara e…
    o atraso!

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