Governos também: só com medo da polícia

28 de maio de 2013 § 3 Comentários

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Na mesma semana em que desaparecem Ruy Mesquita e Roberto Civita – cada um no seu estilo, dois dos mais intransigentes baluartes da liberdade de expressão ainda em postos de comando na já muito rarefeita imprensa independente brasileira – a Argentina de Cristina Kirshner abria mais uma frente de agressão ao que resta da imprensa livre naquele país.

Tudo começou com a Lei de Medios que, resumidamente, transforma a propriedade privada de meios de comunicação num favor do Estado reservado a quem a Presidência da Republica escolher agraciar com ele.

Seguiu com os cercos sucessivos dos leões de chácara dos sindicatos peronistas para cassar na marra edições inteiras dos diários de oposição na boca das rotativas.

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Depois veio o cerco dos fiscais da receita primeiro aos jornais (200 invadiram o Clarín de uma só vez ha um par de anos) e agora a jornalistas individualmente, que têm tido suas casas invadidas no meio da noite pelos bate-paus de Cristina.

A manipulação da publicidade oficial era desde sempre o pano de fundo de todas essas agressões mas depois veio somar-se a ela a proibição da publicação de anúncios de supermercados e lojas de eletrodomésticos com os preços de suas ofertas em jornais.

Vieram, então, as alterações na Lei de Mercado de Capitais para permitir que acionistas minoritários – como o governo argentino é dos jornais visados – decretem intervenção nas empresas jornalísticas.

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Agora a senhora Kirshner brande a estatização da única fábrica de papel de imprensa do país, pertencente a um pool de empresas jornalísticas, como golpe de misericórdia, reeditando o esquema inventado pelo grande patrono da decadência argentina, Juan Domingo Perón, que deixou os jornais de oposição de seu tempo reduzidos a seis páginas por dia.

Entre uma e outra dessas brutalidades Cristina Kirshner perpetrou todas as agressões que pôde contra empresas e produtos brasileiros produzindo ou sendo vendidos na Argentina.

Mas nada disso demoveu o PT e dona Dilma Roussef de fazer-lhe visitas cerimoniais e lamber-lhe as botas.

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Nada que surpreenda posto que a Venezuela já vai bem mais longe que a Argentina na senda do banditismo pseudo-ideológico que mistura política com tráfico de drogas e tudo mais que vai pelo meio, fechando televisões, exilando jornalistas e armando “milícias populares” para dar o devido tratamento à metade descontente dos venezuelanos e nem por isso dona Dilma e seus correligionários viram nesses acontecimentos qualquer jaça “à mais perfeita e legítima democracia” que identificam na Venezuela bolivariana que só perde, em matéria de respeito aos direitos humanos, para a Cuba dos irmãos Castro que é para onde olham como fonte de inspiração todos os membros honorários do Clube dos Cafajestes em que se transformou o Mercosul.

No quesito demolição do Poder Judiciário, a Argentina também é, entre os que têm assento de honra no Foro de São Paulo (sim, esta nossa São Paulo), criação conjunta de Lula e de Fidel Castro, o mais atrasado, descontado o Brasil.

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Ainda há um Judiciário em pé por lá, coisa que na Venezuela nem há mais, mas ele fala fino. Está impedido por lei de dar liminares em ações contra o Estado, teve o Conselho da Magistratura que nomeia ou destitui juízes inflado com novos membros nomeados pelo governo até que lhe ficasse garantida uma maioria confortável e hoje vive sob a ameaça de “julgamentos disciplinares” a juízes mal comportados.

Nada que abale a confiança de Dilma na legitimidade da democracia argentina, é claro…

Além de tentar lançar processos semelhantes no Congresso Nacional semana sim, semana não, o PT e Dilma têm em comum com a senhora Kirshner o fato de também estarem perdendo o controle sobre a economia, a inflação e a corrupção que grassa à sua volta, além do vezo de responder a tudo isso com decretos para baixar a coluna de mercúrio dos termômetros que medem a doença que se insinua e discursos irados contra “os que torcem contra o Brasil” que, naturalmente, na cabeça dela, “c’est moi”.

Enfim, parecenças…

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No front planetário, enquanto Colômbia, Peru, México e Chile, agora com Paraguai, Uruguai, Costa Rica e outros quatro sul-americanos entrando na fila para se juntar à Aliança do Pacífico, trabalham a sintonização de suas legislações pró-mercado e o crescimento de sua presença no comércio internacional com regras claras e pouca burocracia, o Brasil de Dilma e do PT segue criando barreiras protecionistas e fazendo leis exclusivas para amigos do governo enquanto multiplica embaixadas, distribui dinheiro fácil e proporciona a ditadores e genocidas do “baixo clero” da África, da Ásia e da Oceania negociatas com os seus empresários amestrados a ver se conquista a “governabilidade” de organismos multinacionais moribundos do século passado do mesmo jeito que aprendeu a fazer por aqui.

Quem ainda quiser seguir sonhando com dias róseos pela frente que o faça. Mas uma coisa é preciso ter clara. Ainda muito mais que as pessoas individualmente, também os governos só se mantêm minimamente civilizados por medo da polícia, sem a qual regridem ao estado feral e fazem estragos proporcionais ao seu peso e ao seu alcance dentro das sociedades. E a polícia dos governos é a combinação de uma imprensa livre com um Judiciário independente.

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§ 3 Respostas para Governos também: só com medo da polícia

  • Luiz Barros disse:

    Diplomacia, espionagem e guerra
    Luiz Barros

    Resenha de
    Crônica de uma Guerra Secreta
    do
    Embaixador Sergio Corrêa da Costa
    Publicada em 2004, no lançamento do libro

    Em 1943, poucas semanas antes da derrubada do governo civil na Argentina pelos militares, o GOU (Grupo de Oficiais Unidos) produziu um manifesto radical. Nele, o coronel Juan Perón consignou que “A luta de Hitler na paz e na Guerra nos servirá de guia”.
    Perante seus camaradas de farda, Perón justificou a iminente tomada de poder da seguinte forma: “Jamais um civil compreenderá a grandeza de nosso ideal; cumpre, pois, eliminá-los do poder e dar-lhes a única missão que lhes compete: o trabalho e a obediência”.
    Alinhado com a intenção de Hitler, declarada já em 1933 (“Criaremos no Brasil uma nova Alemanha. Encontraremos lá tudo de que necessitamos”) Perón elucidava, no manifesto de 1943 parte da grandeza do ideal que abraçava, no que se refere aos brasileiros, da seguinte forma: “Uma vez caído o Brasil, o continente sul-americano será nosso”.
    Essas citações são apresentadas já nas epígrafes – e na própria capa – do livro de Sergio Corrêa da Costa, da Academia Brasileira de Letras, historiador e veterano embaixador brasileiro. Uma publicação da Record, Crônica De Uma Guerra Secreta traz como subtítulo Nazismo na América: A conexão argentina e consiste numa mescla de memórias pessoais do autor sobre os tempos da Segunda Guerra, daí o título “crônica”, e relatos históricos sobre variados aspectos do grande confronto mundial do século XX. Embora o autor considere que a pedra angular de seu livro é dada por uma experiência pessoal vivida quando jovem, os fatos e interpretações do livro se amparam em significativa bibliografia, indicada em notas ao final dos capítulos e coletada em 8 páginas ao final do volume.
    Jovem diplomata sequioso de emoções, Sergio Corrêa da Costa serviu em Buenos Aires durante os últimos anos da Segunda Guerra Mundial e ali viveu a tal aventura de mocidade que considera a pedra angular desta “crônica do ocaso de minha vida”, guardada em segredo até o momento. Penetrou nos recintos mais vigiados do Archivo General de la Nación, onde fotografou documentos ultra-secretos e comprometedores para o governo argentino.
    O núcleo do livro é a caracterização histórica da Argentina de Perón e Evita ao tempo da guerra, incluindo os planos geopolíticos da Alemanha para a dominação da América Latina, análises do fenômeno Perón e do fenômeno Evita.
    Há também diversos relatos interessantes relacionados ao mundo diplomático e aos serviços de espionagem, em especial os dos ingleses, dos americanos e dos alemães. Corrêa da Costa destaca a atuação das atividades de espionagem e contra-espionagem em várias frentes, narrando episódios e caracterizando os personagens envolvidos, até mesmo o espião de carne e osso que, segundo ele próprio, teria inspirado Ian Fleming a criar o personagem James Bond. Tratava-se do iugoslavo Dusko Popov, “o espião mais famoso da Segunda Guerra Mundial, agente duplo de engenho diabólico, playboy inveterado, de hábitos caros, sempre à cata de mulheres bonitas”.
    Um capítulo inteiro (“Duelo de Talentos”) é dedicado ao “maior segredo da guerra”, de codinome Ultra, que consistiu na operação pela qual os serviços de inteligência dos Aliados decifraram as comunicações radiotelegráficas do alto comando alemão. Cifradas nas sofisticadíssimas máquinas Enigma, a proeza da captação e decodificação das mensagens alemãs foi obra conjunta de serviços secretos de vários países e por fim alcançada mediante a concentração de criptoanalistas, matemáticos e mestres de xadrez. “Em nenhum momento, Adolf Hitler suspeitou sequer que seus segredos pudessem estar nas mãos dos Aliados. Graças a esse feito, a guerra foi não apenas ganha, porém seguramente encurtada em vários anos.”
    Talvez melhor coubesse ao livro o título de “crônicas (no plural) de uma guerra secreta” pela variedade dos temas tratados, nem sempre diretamente relacionados uns aos outros. De leitura agradável, não obstante a natureza do assunto, trata-se de um livro de histórias sobre a História. Embora Corrêa da Costa sempre contextualize os fatos e episódios relatados, inclusive descendo a detalhes, é nítido que parte do princípio que o leitor conhece ao menos os rudimentos da história da Segunda Guerra.
    Quando um diplomata se aposenta, sai da ativa mas não deixa de ser diplomata. Pode continuar, da retaguarda, em ocasiões especiais, representando seu país – até mesmo dizendo coisas, por diferentes palavras, que os diplomatas na ativa não podem ainda. Por isto, é interessante também notar que o Embaixador Sergio Corrêa da Costa, que já foi ministro das Relações Exteriores, tenha escolhido para publicar este livro no ano da graça de 2004, quando o neoperonismo argentino parece pretender transformar sua competição econômica com o Brasil em um front de guerrilha comercial fundamentalista.
    Parece necessário trazer à memória quais são as raízes do pensamento e da ideologia dos herdeiros de Juan Perón e, ao fazermos isto, não fica difícil descobrir qual grande nação fundada hoje no poderio militar melhor se beneficiaria com a sabotagem argentina ao Mercosul para o fortalecimento da Alca. Mas a obra do diplomata não trata disto, evidentemente. Essas idéias apenas são coisas que ocorrem a um leitor distraído, que lê um tico de história e a seguir fica olhando para o teto pensando em qual seria a utilidade de se conhecer a história das coisas e das pessoas, afinal.

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  • flm disse:

    excelente resenha, luiz.
    fiquei louco de curiosidade pelo livro…

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  • river island disse:

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