Procurando no lugar errado

27 de outubro de 2017 § 36 Comentários

Artigo para O Estado de S. Paulo de 27/10/2017

A capa de anteontem, 25/10, deste jornal é uma síntese perfeita do drama brasileiro. Sob a manchete “Itália faz alerta para a Lava Jato” uma foto ocupando 80% da largura da primeira página por metade de sua altura mostrava Gherardo Colombo e Piercamillo Davigo, respectivamente promotor e juiz envolvidos na “Mãos Limpas”, a operação de combate à corrupção que, encerrada ha 25 anos, tinha chacoalhado a Itália pelos 13 anos anteriores, e Deltan Dallagnol e Sérgio Moro, promotor e juiz à frente da nossa Lava Jato, em campo ja ha 4 anos.

A primeira frase da reportagem que resumia o que se apurou no evento que reuniu os quatro na sede do jornal, era “A corrupção na Itália, 25 anos depois, voltou ao mesmo nível de antes das investigações”. E seguia o texto relatando que os protagonistas da operação brasileira estão cientes de que ela não basta para salvar o país e cobram “a aprovação de reformas políticas, estruturais e de educação” para chegarmos a resultados concretos no campo do combate à corrupção.

Mas aí começa o problema. Que reformas, exatamente?

Por baixo de cada personagem na foto havia uma frase destacada. Gherardo Colombo dizia que “Não é que faltavam provas, é que o sistema de corrupção era muito forte a ponto de proteger-se”. Relacionando Brasil e Itália, Piercamillo Davigo registrava que: “Todos sabem que quem faz as listas eleitorais controla os partidos. Ha filiações compradas”. Deltan Dallagnol emendava que “O Parlamento continua legislando em causa própria; ministros do STF soltam e ressoltam presos”. A Sérgio Moro, mais pé-no-chão, atribuiam um “Claro que como cidadão ha tensão sobre a eleição se aproximando, mas eu vou seguir fazendo o meu trabalho”.

A frase que primeiro chamou minha atenção foi a de Piercamillo. E dentro dela, aquele “todos sabem”. Quando a “Mãos Limpas” chegou ao esgotamento pelo cansaço da plateia com a falta de resultados concretos ja faziam quase 80 anos que a primeira grande operação de sucesso de uma nação unida contra a corrupção tinha terminado nos Estados Unidos. E a primeira bandeira dela, na longínqua virada do século 19 para o século 20, foi precisamente a da adoção da reforma sem a qual “todos sabiam” já àquela altura que nenhuma outra poderia chegar a bom termo no campo da política: a despartidarização das eleições municipais de modo a abrir o sistema à irrigação permanente de sangue novo e a instituição de eleições primárias diretas em todas as demais para tomar dos velhos caciques corruptos o controle da porta de entrada na política.

Daí saltei para a frase de Gherardo, da qual a de Deltan é praticamente um complemento. As duas são meras constatações de uma realidade que nos agride em plena face de forma cada vez mais violenta diariamente. Mas nenhuma aponta o que interessa que é de onde vem, essencialmente, essa força que permite aos políticos “proteger-se” e “legislar em causa própria” e aos juizes “soltar e ressoltar presos” impunemente. Foi essa a segunda bandeira da reforma americana. É de velho como ela que se sabe que essa força decorre, antes de mais nada, da intocabilidade de seus mandatos, problema que remediou-se pra lá de satisfatoriamente dando-se poder aos eleitores para retoma-los a qualquer momento com o “recall” e livrar-se dos juizes que “soltam e ressoltam presos” desconfirmando-os na primeira ação imprópria com a instituição de eleições diretas para a confirmação ou não de juizes em suas funções (“retention election”) a cada quatro anos. A receita se tem mostrado infalível para agilizar a prestação de justiça e fazer esses servidores calçarem as sandálias da humildade e esquecerem para sempre o hábito de se auto-atribuirem privilégios como convém às democracias. Quanto aos promotores, assim como todo funcionário envolvido com prestação de serviços diretos ao público ou, sobretudo, com fiscalização do sistema e com segurança tais como xerifes e até policiais em um grande numero de cidades e estados americanos, esses só chegam ao cargo por eleição direta. Um santo remédio para coibir abuso de poder e violência policial e para incentivar a aplicação da firmeza necessária contra o crime.

Não sei quanto aos italianos, mas Deltan Dallagnol e Sérgio Moro, ambos ex-alunos de Harvard, certamente conhecem essas soluções e já ouviram pelo menos alguma coisa sobre a história da sua implantação. E, no entanto, quando chega a hora de propor remédios para o Brasil, ficam só no mais do mesmo, com dezenas de medidas que reforçam os seus próprios poderes quando o argumento indiscutivel do resultado, que eles chegaram pessoalmente a viver e experimentar, diz claramente que a resposta não está em reforçar os poderes estabelecidos, já pra lá de excessivos no Brasil mas, ao contrário, em fragiliza-los para aumentar os do eleitor.

O problema que matou a “Mani Puliti” como poderá matar a Lava Jato é, portanto, o pouco que ela se propôs ser face ao muito que poderia e deveria ter desencadeado.

Cabe, finalmente, examinar a posição do próprio jornal nessa discussão. Ainda que se destaque pelo esforço para não se submeter à “patrulha” que zurra e escoiceia ante qualquer esboço de argumento crítico racional, com o que ameaça matar não só a Lava Jato mas todo o ensaio brasileiro de democracia, também O Estado não ultrapassa o limite que a latinidade daqui ou de além mar se impôs.

O brasileiro não sabe o que são primárias diretas, “recall”, “retention election” de juizes, federalismo, referendo e iniciativa legislativas não golpistas. Nunca viu uma cédula de uma eleição americana com as dezenas de decisões que se submete diretamente ao eleitorado na carona de cada eleição. Não sabe o que é o sistema de City Manager e porque esse é o modelo de gestão municipal que se generalizou no país que, por dispor desses instrumentos, tornou-se o mais próspero, o mais inovador e o mais livre que a humanidade já juntou sob uma única bandeira.

A imprensa brasileira só se permite difundir, quando não festejar, aquilo que fracassou.

Dêem-nos algo por que valha a pena lutar!

29 de maio de 2014 § 4 Comentários

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O programa Canal Livre, da Rede Bandeirantes, de domingo passado apresentou um dos personagens mais interessantes da História do Brasil de que tomei conhecimento ultimamente.

Luis Gama, hoje quase esquecido como quase todos os personagens mais interessantes da História do Brasil, era negro, foi escravo, autodidata, jornalista e poeta e teve um papel brilhante no Movimento Abolicionista, outra história que é muito mal contada como quase toda a história do Brasil que se conta nas escolas deste país.

Esse momento é, seguramente, um dos mais brilhantes da nacionalidade. Foi um movimento de raiz, vindo de baixo para cima e, por essa qualidade quase único em nossa trajetória como Nação, bem ao contrário do que diz a versão mais conhecida de que a libertação dos escravos foi uma benesse outorgada magnanimamente pela Princesa Isabel.

O Movimento Abolicionista foi um subproduto da Guerra do Paraguai que, pela primeira vez em nossa história, mobilizou brasileiros de todos os cantos de um país que, naquele tempo, mal conhecia a si mesmo e não se pensava como um país, e que envolveu todas as raças e camadas sociais espargidas pelo seu vasto território.

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Foi a primeira vez na História do Brasil que brancos, negros e mestiços de diferentes classes sociais viram-se postos, ombro a ombro, na perseguição de um objetivo comum. E o efeito que isso produziu foi em tudo semelhante ao produzido nos Estados Unidos do norte pela Guerra da Secessão, não apenas em termos de consolidação de um sentido de nacionalidade mas, sobretudo, pela experiência da convivência concreta com a diversidade em situações extremas onde todos dependem de todos e peles de todas as cores e tonalidades rompem-se a toda hora para mostrar o quanto somos iguais por dentro.

A convivência com a diversidade, num mundo em que uns viviam na Casa Grande e outros na senzala e em que a todos, do palácio real à sarjeta, eram impostas as mesmas crenças e as mesmas “verdades” e vedado qualquer desvio dessa linha estreita “por pensamentos, palavras ou obras“, é a matéria prima da ideia de tolerância que se consubstancia institucionalmente na ideia de democracia.

Foi exatamente assim e foi exatamente por isso que ela começou a nascer na Inglaterra de Henrique VIII quando ele baniu a intolerância católica e abriu o país a todas as crenças perseguidas da Europa; foi exatamente assim e foi exatamente por isso que ela saltou das teorias dos fundadores para o real “governo do povo, pelo povo e para o povo” que só se estabeleceu de fato com as reformas da Progressive Era que começaram a se esboçar a partir do final da Guerra de Secessão.

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Assim também foi praticamente aí que a ideia de Nação saiu dos textos dos teóricos e dos idealistas e se materializou nas ruas e nas selvas da vastidão brasileira.

Luis Gama,  que mais de uma vez usou as páginas do jornal A Província de S. Paulo, precursor de O Estado de S. Paulo, como sua tribuna, ao lado de Julio Mesquita, um filho de pai analfabeto ha pouco chegado ao Brasil quase tão pobre quanto aquele ex-escravo, e milhares de outros que, como esses dois, se tinham “feito” sozinhos longe dos latifúndios escravocratas e das benesses do imperador, era um representante da esmagadora maioria dos brasileiros de seu tempo que tiravam do esforço próprio a sua subsistência, ao contrário do quadro falso pintado pela historiografia marxista para a qual só existia, aqui, o senhor e o escravo e nada no meio, que continua sendo a única vendida em nossas escolas.

Essa condição não é alheia à circunstância de ambos terem sido figuras de proa desse momento brilhante da consolidação da nacionalidade brasileira na Campanha Abolicionista que mobilizou o país inteiro. (Leia mais sobre esse Brasil dos empreendedores neste link)

A entrevistada do Canal Livre, Ligia Fonseca Pereira, autora de Com a Palavra, Luis Gama (à venda neste link), uma coletânea de seus textos sem interferências da curadora “pois que ninguém pode explicar melhor o que ele foi do que ele próprio“, como ela ressaltou sabiamente, mostrou-se mais uma da grei dos intelectuais sérios que este país, apesar de tudo, tem produzido, especialmente no campo da pesquisa histórica onde se vem colhendo uma safra cada vez melhor de produtos.

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É essa revisão da verdadeira História do Brasil que, pouco a pouco, vai desintoxicar o inconsciente coletivo nacional fazendo o país passar pela necessária seção de psicanálise coletiva, que é no que consiste a tomada de consciência do que foi o seu próprio passado, experiência que fará com que a nacionalidade entenda, finalmente, como foi que se tornou aquilo que é, passo sem o qual nunca conseguirá tomar as rédeas do seu próprio destino.

É este o processo que, no final, vai nos redimir do estado patológico e da crise de identidade em que nos precipitou um século inteiro da empulhação interpretativa pseudo científica vendida em nossas escolas à guisa de História do Brasil, mas que não passa de manipulação ideológica barata, esta mesma que saltando das universidades para as ruas, chegou ao paroxismo com a vulgata lulista que já não se contenta com manipular apenas os fatos do passado, sente-se à vontade para fazer isso também com os do presente bem diante dos olhos de quem acabou de vive-los.

Luis Gama, como a nata dos abolicionistas de São Paulo e de outros estados brasileiros (as revoluções pernambucanas beberam nessa mesmíssima fonte) pertenceu à Loja Maçônica América, fundada por brasileiros que estiveram nos Estados Unidos, frequentaram a mesma loja maçônica de George Washington e outros dos grandes fundadores da democracia americana, e se encantaram com as promessas encerradas no movimento revolucionário que nascia ali com o propósito de fundar uma sociedade de iguais onde o esforço individual e o merecimento substituiriam a cumplicidade com o último criminoso a conquistar a coroa pela força que tinha prevalecido nos últimos dois milênios e na qual continuamos chafurdando até hoje, como a única fonte de legitimação da conquista de poder e de dinheiro.

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A Loja Maçônica América expressava desde o nome com que foi batizada a esperança do melhor material humano que o Brasil tinha produzido até então, de chegar um dia ao mesmo sucesso a que já tinham chegado os revolucionários do norte.

Como Ligia Fonseca explicou de forma brilhante, Luis Gama e os outros abolicionistas que se congregavam nas lojas maçônicas brasileiras ligadas às suas congêneres espalhadas por todo o mundo de então eram “homens de rede” no sentido moderno da palavra, pois que trocavam ideias e conspiravam através do primeiro protótipo de “rede mundial” criada com o propósito explícito de facilitar a livre troca de ideias e informações que a humanidade constituiu: exatamente as lojas maçônicas.

Sua admiração pela revolução americana, pelo seu federalismo e pelo seu sistema de divisão de poderes era tanta que foi de Luis Gama que saiu a sugestão de batizar o país que surgiria da nossa revolução republicana de Republica dos Estados Unidos do Brasil, nome que o Brasil de fato adotou dos albores da República até o início do regime militar.

Foi a esta altura da entrevista, porém, que um dos jornalistas presentes fez a seguinte intervenção:

É curioso que um negro como Luis Gama não tenha reagido ao (ou “percebido o”, não me lembro quais foram as palavras exatas) fundamento racista que marcava e seguiu marcando a sociedade norte-americana”.

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Lígia Fonseca Pereira, negra ela também, ficou tão desconcertada e perplexa quanto eu ao ouvi-la.

Superadas a surpresa e a dúvida (a afirmação/pergunta teve de ser repetida para ela compreende-la) ela gentilmente tartamudeou algumas palavras hesitantes enquanto na minha cabeça bombava a pergunta: “E precisava um negro ex-escravo no último país ainda escravocrata das Américas, olhar para os Estados Unidos para conhecer o racismo?!!! Seria necessário esse turismo intelectual para experimentá-lo ainda hoje?

Eis aí nu, pelado, com a mão no bolso o drama brasileiro!

O  jornalista autor desse comentário — ninguém me disse, eu mesmo sou testemunha — é das pessoas intelectualmente mais íntegras e cultivadas que conheci na profissão.

O que teria sido aquilo, então?

Não é possível viver no ambiente contaminado do debate intelectual brasileiro, do primeiro ano de escola ao último ano de vida, impunemente, é a resposta. Esse antiamericanismo resiliente, quase orgânico, subliminar, involuntário até, como suspeito que tenha sido o caso desta vez, é uma das manifestações da força que tem a lavagem cerebral por que passa todo brasileiro a cada minuto de sua trajetória por este vale de lágrimas. A própria Lígia Fonseca Pereira, cabe registrar, viveu os últimos anos de sua atividade acadêmica no exterior e foi a partir de lá, respirando ares mais livres dos carregados miasmas do Segundo Milênio que ainda predominam por aqui, que ela encontrou a paz necessária para fazer a sua pesquisa.

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Luis Gama – foi o que ela passou o programa inteiro explicando – viu nos Estados Unidos aquilo para o que a imprensa brasileira insiste em fechar os olhos até hoje: a superioridade moral da utopia e, mais especialmente, o conjunto genial de meios para realizá-la desenhados pela elite do que de melhor a humanidade produziu no seu melhor momento — o Iluminismo — que foram as instituições pelas quais a metade boa dos norte-americanos lutou até a morte contra a metade ruim, ombro a ombro com os escravos desta – e cinco milhões de pessoas perderam a vida nessa luta fratricida! – coisa que a metade boa da população brasileira não consegue encontrar motivos suficientes para fazer exatamente porque tem-lhe sido sonegada — pela escola, pela imprensa, pela televisão — uma referência pela qual valha a pena lutar.

É exatamente isto que continua pendurado no ar nesta eleição.

É disso que estão à procura os 70% de eleitores que “querem mudanças profundas”  mas não encontram quem as formule e proponha. Era exatamente isto que perambulava pelas ruas de todo o país às cegas em junho de 2013: a ausência de uma referência decente pela qual valha a pena lutar que, entretanto, está onde sempre esteve e todos os povos do mundo que “deram o salto” a encontraram, mas que a “inteligentsia” e a imprensa deste país isolado pela língua ainda se recusam a por onde nós estamos.

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Sabe com quem cê tá falando?

27 de maio de 2014 § 6 Comentários

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Você pode nem se ter dado conta. Mas entre a quarta-feira e o sábado passados rolou na quase surdina que é o dado que mais terminantemente define a profundidade do drama que o Brasil está apenas começando a viver, uma dessas histórias que explicam como e porque este país mergulhou tão profundamente no estado de anomia e prostração moral em que parece estar condenado a purgar seus pecados sabe-se lá por quantos anos pela frente ainda.

76 ônibus incendiados depois, alguns deles com gente dentro, inclusive crianças, São Paulo e outras 16 cidades da insana mancha urbana em que esta megalópole se transformou viveram, naqueles dias, os maiores congestionamentos de trânsito de toda a sua história com mais de 2 milhões de trabalhadores forçados a voltar para suas casas a pé, em longas marchas sob a chuva, enquanto pipocavam nos jornais, em sequência aparentemente absurda, as notícias dando conta de acordos salariais firmados entre sindicatos e empresas de ônibus seguidos de “greves” e depredações dos carros dessas mesmas companhias.

a1Da esquerda para a direita, Luiz e Senival Moura e “Pad”: “Parabéns a você”

Foi no meio desse tiroteio, com o prefeito Fernando Haddad acusando a polícia do governador Alkmin de não agir contra os depredadores, que a imprensa “teve acesso” a um documento bombástico: o Boletim de Ocorrência (BO) de 17 de março passado lavrado pela 6a Delegacia de Polícia de Investigações sobre Facções Criminosas e Lavagem de Dinheiro dando conta do flagrante dado no deputado estadual Luiz Moura, do PT de São Paulo, umbilicalmente ligado ao Secretário Municipal de Transportes Jilmar Tatto, numa reunião para “ajuste de condutas” com 13 membros do PCC a facção que comanda o crime organizado em todo o Brasil a partir de presídios paulistas, e mais 26 indivíduos ligados aos sindicatos e “movimentos sociais” envolvidos com o transporte público em São Paulo na sede da Cooperativa Transcooper, de “perueiros” e afins, comandada pelo ilustre deputado.

Irmão do vereador Senival Moura, também do PT, que é fundador e presidente do Sindilotação e presidente da Comissão de Trânsito e Transporte, Lazer e Gastronomia (!!) da Câmara Municipal de São Paulo, Luiz Moura vem a ser um ex-presidiário recolhido a uma penitenciária do Paraná em 1990 por flagrantes de assalto à mão armada – nada que a presidente Dilma também não tenha feito nos bons tempos – para cumprir a pena de 12 anos e meio de prisão a que fora condenado.

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Menos de um ano e meio depois, porém, Luiz Moura fugiu da prisão e passou os 10 anos seguintes na clandestinidade como foragido da polícia – nada, outra vez, que gente como o ex-ministro da casa Civil de Lula, José Dirceu, não tenha feito também.

Nesse período começou a trabalhar como “perueiro” e a construir, junto com o irmão, o que viria a ser um futuro brilhante.

Tudo começou quando Marta Suplicy se tornou prefeita de São Paulo na eleição de 2000. O primeiro “abacaxi” que ela teve de descascar foi o problema dos “perueiros” clandestinos que competiam deslealmente com os concessionários de transporte licitados pela Prefeitura e que viviam fazendo acampamentos e malcheirosas “sardinhadas” na porta do Palácio das Indústrias, de onde, na época, madame “prefeiturava”, enquanto ela lhes ofereceu resistência.

Com o tempo, o modo petista de encarar as coisas foi prevalecendo. A “culpa” por tudo, claro, era da “política econômica de desemprego do governo Fernando Henrique” o que levou a prefeita Marta Suplicy a cooptar os “perueiros” e, assim, animá-los a se transformar num problema crônico.

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Foi dentro desse contexto que o então foragido da penitenciária, Luiz Moura, apresentado à prefeita por Jilmar Tatto, fez por merecer tornar-se o homem de confiança de sua excelência para “resolver” a crise.

Mas cessa exatamente aí a hipótese de ausência de dolo na relação que, a partir de então, estabeleceu-se entre este senhor e o PT. Que Marta não conhecesse suas relações com o PCC e nem sua ficha na policia e tivesse aceitado sem saber a “ajuda” de alguém pertencente a uma organização que apoia seu sistema de poder na forma implacável como assassina quem lhe oferece qualquer resistência num momento de desespero para serenar um conflito que se estendeu por mais de dois anos de seu governo, vá lá.

Mas não foi isso que aconteceu.

Encarregado pela prefeitura, Luiz Moura, com os métodos que fazem do PCC o mais temido criminoso entre os criminosos do país inteiro, passou a “organizar” os perueiros independentes – que, naquele momento eram realmente desempregados a procura de um “bico” – em “cooperativas”.

Na verdade esses independentes eram – e continuam sendo até hoje, segundo investigações do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público – forçados a “aderir” às cooperativas que ficam donas de seus carros e das quais se tornam empregados, na maioria das vezes em “transações” que sequer envolvem papéis. Quem descumpre o que lhe foi imposto ou fala no assunto aparece invariavelmente trucidado a tiros, o que produz o terror que dificulta as investigações do que mais se passa nesse submundo.

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Desde então todo o segmento de transporte público de São Paulo e outras capitais brasileiras – por onde corre dinheiro muito grosso e é fácil desviar fundos para campanhas eleitorais – vem sendo tomado pelo crime organizado. A disputa pelos sindicatos do setor em São Paulo é conhecida pela truculência. 16 candidatos já foram assassinados. 18 diretores do Sindicato de Funcionários de Ônibus foram detidos por enriquecimento ilícito e formação de quadrilha, entre eles os dois que disputaram a última eleição, Isao Hosogi e José Valdevan de Jesus, o vencedor.

Em 2006, quarto ano do PT no poder federal, final do primeiro mandato de Lula e véspera da disputa presidencial entre ele e Geraldo Alkmin, com Cláudio Lembo recém chegado ao Palácio dos Bandeirantes para substituir o candidato do PSDB e Marta Suplicy pré-candidata ao governo de São Paulo, comandos do PCC começaram, do nada, a assassinar policiais por toda a cidade com requintes revoltantes de violência e acinte contra suas famílias e os poderes constituídos até conseguirem instalar uma guerra aberta que colocou a maior cidade do país em virtual estado de sítio.

Coincidentemente, na época, o maior trunfo eleitoral do governador Alkmin eram os números da segurança pública. Ele tinha conseguido baixar em 80% o numero de assassinatos em São Paulo, fato que foi cuidadosamente sonegado à opinião pública brasileira pela imprensa até se tornar finalmente mais “badalado” quando, ha menos de dois anos, o feito, inédito no mundo, acabou sendo saudado e recebendo um prêmio especial da ONU.

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Nesse mesmo ano de 2006, a vida de Luiz Moura começou a mudar. Orientado por bons e poderosos amigos ele assinou, em 2005, um “atestado de pobreza” para comprovar que não tinha vivido do produto dos assaltos que praticou (declarou uma renda anual de R$ 15.859,00), e conseguiu “reabilitação na Justiça por bom comportamento tanto público como privado” (aferido nas ruas?!!), com apagamento de toda a sua ficha pregressa e dos anos de prisão não cumpridos. Os pormenores desse processo que resume bem no que se transformou o Brasil podem ser encontrados neste link http://veja.abril.com.br/PDF/reabilita.pdf.

De lá para cá a Transcooper, a sua “cooperativa” pessoal com sede em Itaquera tornou-se detentora de concessões para a exploração de transporte público em três áreas da Zona Leste da cidade que lhe renderam, só nos últimos três anos, um faturamento de R$ 1,8 bilhão.

Em 2010, quando candidatou-se a deputado estadual pelo PT, a vida de Luiz Moura já tinha virado outra. Ele declarou ao Tribunal de Contas a posse de 11 propriedades e participações em empresas de transporte público e redes de postos de gasolina num valor total de R$ 5.125.587,00!

Ele enriqueceu rápido como um raio e sem medo do famigerado computador da Receita Federal igual ao da Nasa capaz de detectar qualquer centavo “suspeito” em circulação no Brasil…

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Mesmo com todo esse dinheiro no bolso, entretanto, o atual secretário de Transportes, Jilmar Tatto, cuja família se fez na “política” incentivando invasões nas margens de Guarapiranga e trocando por votos as posteriores regularizações das áreas invadidas, fez questão de se apresentar como o maior doador individual da campanha eleitoral de Luiz Moura, com R$ 201 mil. Outra que fez doações foi Marta Suplicy, com R$ 35 mil.

Hoje, segundo o Gaeco, há provas conclusivas de que quatro das nove cooperativas de transporte em operação em São Paulo pertencem ao PCC. Sobre as outras cinco só ha indícios. Senival Moura, irmão de Luiz, tornou-se o vereador mais votado do PT e a “Bancada do PCC” na Câmara Municipal de São Paulo inclui pelo menos quatro, possivelmente cinco membros perfazendo 10% do total. Luiz, ele mesmo, dá expediente na Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo.

Em março deste ano, finalmente, sua excelência, cujo sítio de internet ironicamente abre-se sob o dístico “2014, Ano de Muita Paz” foi flagrada “ajustando condutas” com nada menos que 13 membros da cúpula do PCC, entre os quais o famigerado assaltante do Banco Central no Ceará (R$ 164,8 milhões), Carlos Roberto Maia, o Carlinhos Alfaiate, foragido da Justiça. Só dois dos membros do PCC capturados nessa ocasião mantinham vínculos formais com cooperativas e empresas de transportes públicos. Os outros 11 não. Estavam lá apenas e tão somente na condição de membros graduados da organização criminosa.

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Foi em função desse “ajuste de condutas” que a organização padronizou o esquema que tem paralisado São Paulo. Como o controle dos sindicatos e cooperativas do setor é o que está em disputa a ação se dá na sequência dos acordos salariais celebrados entre eles e as empresas visadas. Uma moto com um carona encosta na janela do motorista do ônibus, aponta-lhe uma arma para a cabeça, eventualmente manda os passageiros descerem, e a dupla incendeia o ônibus (possivelmente os dos concorrentes que mais lhes resistem) ou simplesmente, com mais brandura, retalha os pneus a faca depois de atravessar o veículo na rua para fechar a passagem, forçando assim as “greves” que nem os trabalhadores nem os sindicatos desejam e de que tanto o prefeito do PT quanto o governador do PSDB ficam loucos para se livrar.

Poucos dias depois do flagrante da polícia na Transcooper cabe registrar, Luiz Moura fez aniversário comemorado numa festança comandada por ninguém menos que o ex-ministro da Saúde e candidato do PT ao governo de São Paulo, Alexandre Padilha (foto lá encima), aquele que era carinhosamente chamado de “Pad” nos telefonemas gravados pela polícia federal entre o “líder” André Vargas, do PT, e o doleiro Youssef para tramar o roubo de dinheiro da saúde dos pobres em escala suficiente para “garantir a independência financeira” de ambos. Conversas captadas, diga-se de passagem, nos mesmos “grampos” da Polícia Federal que registraram as falcatruas dos ladrões da Petrobras que o ministro amestrado de dona Dilma no STF mandou soltar da prisão.

a18Sobre Lula e as FARC, procure esta revista colombiana no Google

Quem ainda não sabe com quem está falando quando fala com o PT no Brasil, portanto, não sabe rigorosamente porque não quer.

A violência, a corrupção e o crime sempre foram o caldo de cultura no qual se criou a escória do peleguismo sindical que é o que sobrou do partido que hoje governa o Brasil conforme a receita prescrita por Getulio Vargas apud Juan Domingo Perón e Benito Mussolini. Os sindicatos são criados do nada para mamar na teta do imposto sindical e servir os donos do poder e as “eleições por aclamação” pela posse desses sacos sem fundo sempre foram disputadas pelos mesmos métodos com que o PCC disputa o controle de celas e penitenciárias país afora, os mesmos agora empregados na disputa dos pedaços do “território” privativo que o PT parece ter reservado tacitamente a mais este aliado — o dos transportes públicos — exatamente como fez com o resto das fatias em que picou o Brasil que entregou a outros criminosos de métodos um pouco menos primitivos.

As relações com o crime organizado do partido que inaugurou a jornada nacional da sua marcha para solapar o regime republicano no Brasil com o assassinato de Celso Daniel  não são propriamente novidade.

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13 tiros no rosto, furando antes as mãos que a vítima estendeu na direção de seus executores no pânico da morte foi o primeiro sinal do que viria, mas isso era coisa desde sempre previsível à qual o Brasil, enquanto ainda são, intuitivamente resistiu por quatro disputas presidenciais seguidas. Afinal, o PCC é só a feição mais recente que assumiu a organização do crime no Brasil que começou, como se sabe, com as “aulas” ministradas a criminosos comuns perigosos por terroristas da “luta armada” dos anos 70, alguns dos quais hoje governam o Brasil, nos mesmos presídios e celas em que foram ambos encerrados pelo regime militar.

As notórias relações do partido com as FARC, a guerrilha colombiana que se apossou do grosso da produção e do tráfico de cocaína em toda a América Latina e dela para o mundo, assim como os ingentes esforços do partido para impedir ações afirmativas internacionais e dar tempo a todo e qualquer genocida em ação no mundo para completar sua obra de extermínio físico de toda e qualquer oposição são a face internacional dessas “afinidades eletivas” e dessas fronteiras sempre difusas entre o lulopetismo e o crime.

Os fatos que o indicam se têm sucedido com tanta regularidade que qualquer sujeito que não tenha sido lobotomizado já considerou a altíssima probabilidade de que tão impressionante série de coincidências entre as ações do PCC e outras organizações criminosas e os interesses do PT e seus aliados internacionais possam não ser fruto de mero acaso.

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Que dirá o profissional da desconfiança que deve ser o jornalista digno desse nome!

E no entanto, embora todos os jornais e TVs brasileiras mantenham plantonistas e informantes dentro das principais delegacias de polícia, ou comuniquem-se diariamente com os palácios de governo, inclusive o dos Bandeirantes, obviamente interessado em que essa informação chegasse ao público, foi preciso que o secretário de Comunicação do Governo do Estado de São Paulo, Marcio Aith, dissesse ao vivo, no programa do Datena, da Rede Bandeirantes, durante uma altercação com Jilmar Tatto, o que constava do Boletim de Ocorrências que registrou as intimidades do deputado Luiz Moura com os chefões do PCC em plena guerra dos ônibus para que o assunto viesse finalmente a público.

Mesmo assim, os únicos órgãos da imprensa paulista a darem sequência ao caso no dia seguinte com o merecido destaque foram a Folha de São Paulo e o segmento eletrônico da Veja na coluna de Reinaldo Azevedo. O Estado de S. Paulo e as Organizações Globo como um todo fingiram que não sabiam de nada.

A Globo continua fingindo que não sabe de nada até hoje. A direção de redação do Estado acabou por registrar laconicamente os acontecimentos só no sábado, mas tomando o cuidado de fabricar mais uma manchete com o famigerado “caso Alstom”, esta perigosa ameaça contra a continuação da democracia no Brasil, para fazer-lhe a devida sombra.

E desde então esse assunto tão pouco jornalístico e irrelevante para o futuro da nacionalidade — a saber, as íntimas relações oficiais entre o partido que governa o Brasil e o “partido” que governa o crime organizado no Brasil — saiu da pauta de todos.

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O PT vem ostensivamente desmontando instituição democrática por instituição democrática do país e colocando títeres de quem exige compromissos públicos de fidelidade canina como condição para a nomeação à frente de cada instrumento de controle do Poder Executivo certamente não porque queira prolongar a vida da democracia brasileira, mas a maior parte da imprensa brasileira faz o melhor do seu esforço para evitar que a opinião pública se aperceba disso.

O Brasil chega, portanto, às vésperas de uma eleição que pode ser a última muito mais graças à irresponsabilidade dos donos de redes de televisão e empresas jornalísticas que não têm nenhuma familiaridade com a profissão e vêm a imprescindível função institucional da imprensa nas democracias, ou como um incômodo empecilho, ou como uma ferramenta para se locupletarem, do que por uma real competência do PT na arte de enganar a todos o tempo todo.

O PT é o que é. Quem está lesando a pátria é quem tem, por ação ou por omissão, insistido em manter-se conivente, seja com sujeitos disfarçados de editores que dão provas diárias de que não passam de falsificadores de fatos, seja com idiotas ineptos ocupando postos críticos do sistema imunológico da democracia brasileira — do qual a imprensa é o elemento-chave — no momento em que ela passa pela mais grave ameaça de sua curta história de ser tomada por um microrganismo mortífero.

A alternativa é irelevante. Nenhuma das duas atitudes é perdoável.

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É muita Cinderela! Mas…

25 de abril de 2014 § 4 Comentários

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Fernando Gabeira escreveu um artigo brilhante no Estado de hoje. Chama-se Bom dia, Cinderela. Tem que ler.

Ele mostra como funciona a cabeça dos petistas; de onde vem essa obsessão deles de, mais que negar, apagar na marra as consequências de seus atos, impedir que a gente as veja, e para onde essa obsessão pode nos levar.

A aliança do governo é aberta a todos os que possam ser controlados (…) Tudo que escapa, evidências, vozes dissonantes, estatísticas indesejáveis, tudo é condenado à lata de lixo da História”.

O próprio Estado também tem um editorial interessante sobre A estatização da CCEE que, além de mostrar quanto custou a brincadeira de dona Dilma para comprar votos com as contas de luz, analisa o remendo ainda mais desastrado e irresponsável que eles estão fazendo pra esconder o abalo sísmico que isso provocou mediante a destruição de mais uma instituição, a contratação de mais alguns bilhões em dívidas para serem atiradas pra cima da gente e a preparação de contas de luz dobradas de 2015 em diante.

O único defeito desse editorial é chamar tudo isso de “política energética de Dilma”.

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Não existe uma “política energética de Dilma” assim como não existe política nenhuma para nada neste país. A única coisa que existe no governo do PT é uma política eleitoreira.

Tudo está a serviço dela.

Eles se apropriaram da máquina pública, detonaram todas as empresas estatais e toda a infraestrutura do país, corromperam as instituições e esmagaram as que lhes resistiram, destruíram a indústria nacional e o comércio exterior e agora, como o Gabeira registra bem, pra “provar” que nada disso aconteceu, estão tratando de destruir todos os medidores e sistemas de alarme da Nação, arrastando junto para o lixo os equipamentos que permitem fazer estudos abalizados para orientar, no futuro, a escala de prioridades e um direcionamento adequado dos investimentos públicos.

Tudo isso pra esconder o rombo no casco e ver se o navio afunda sem que os passageiros percebam.

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Brigar com os fatos e tentar destruir quem grita que os está vendo é parte de uma cultura doente. “A concepção de aniquilar o outro não é vivida com culpa por certa esquerda, porque ela se move num script histórico que prevê o aniquilamento de uma classe pela outra“, lembra Gabeira.

Mesmo assim ele é otimista. Acha que “nem o poste nem seu inventor hoje conseguem iluminar sequer um pedaço de rua” e que nem a máquina do Estado, o prestígio de Lula, a montanha de grana gasta em propaganda e o exército de blogueiros amestrados do PT somados serão bastantes para impedir que se restabeleça um debate baseado no respeito às evidências que olhe um pouco adiante das eleições, o que acabará fazendo com que em 2014 eles “acabem se afogando nos próprios mitos“.

Ha mesmo sinais cada vez mais evidentes disso. Nos bilhões do doleiro Alberto Youssef, “irmão” de Andre Vargas e possivel sócio de ” Pad“, o ex-ministro da Saude candidato ao governo de São Paulo, Alexandre Padilha, já está claro, cabe o PT inteiro, de Lula em pessoa para baixo. Nem a “bala de prata” de sempre pra quando a Dilma der xabu, portanto, tem mais aquele efeito 100% garantido.

Mas eles ainda têm aqueles 70 milhões de cheques que distribuem todo mês, de mão em mão. É muita Cinderela pra acordar!

Mas o cheiro e o barulho já são tais que eu estou começando a acreditar que vai dar, dependendo do que mais a imprensa for capaz de desenterrar daqui pra frente.

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Lira Neto, Gramsci e os Mesquita

10 de janeiro de 2014 § 17 Comentários

Álbum JulinhoJulio e Marina Mesquita e filhos em Louveira, 1934 (Ruy Mesquita atrás, em pé)

Tentando refrear a custo o “refugão” que trotava de lado, dava cabeçadas na rédea e ameaçava disparar “Ladeirão” acima, o menino foi derrotado na passagem do portal aberto no muro alto que levava à casa da fazenda: o cavalo atirou-se contra o mourão do lado direito de tal modo que, de cima da sela, ele teve o lado do corpo e da cabeça violentamente “esfregados” na tora de madeira que arrematava o portal.

A orelha direita fervia quando, finalmente, ele conseguiu desmontar e foi só então que sentiu a sangueira que lhe descia pelo pescoço. Levou as duas mãos ao ferimento e sentiu que um rasgo se tinha aberto no ponto em que ela se ligava à cabeça.

Com a dificuldade que lhe impunha o aparelho ortopédico que sustentava a perna direita afetada pela poliomielite, subiu chorando os tres lances de escadas que levavam ao terraço da frente do casarão sem sequer notar a barulheira do rádio que chiava fortemente lá no fundo.

Ao assomar ao longo corredor que compunha o terraço pela largura inteira do frontispício da casa no segundo andar viu, lá no fundo, a figura de sua mãe, o corpo dobrado sobre os joelhos, soluçando alto.

_ Meu deus! Meu deus! Está tudo acabado! Está tudo perdido…

A cena travou-lhe o choro a meio da garganta mas o sangue continuava a descer.

_ Mamãe! Mamãe! Olhe o que me aconteceu!

Dona Marina levantou os olhos, o rosto desfeito em lágrimas, deu uma rápida olhada no machucado do filho e disse-lhe, embargada, meio às pressas.

_ Fazemos uma compressa, chamamos o Antoninho Niero e você vai com ele para São Paulo procurar tio Raul…

Álbum Ruy MesquitaRuy Mesquita

Antoninho Niero tinha o único automóvel “de praça” do vilarejo de Louveira e tio Raul era o irmão médico de minha avó. Era o 14 de junho de 1940 e o serviço de ondas curtas da BBC de Londres acabara de anunciar a queda da França.

Os nazistas estavam desfilando por baixo do Arco do Triunfo da Étoile, no centro de Paris, fato que Getulio Vargas comemoraria com um discurso que começava com estas palavras: “Uma nova aurora desponta para humanidade…

Sessenta e tantos anos depois quando, no mesmo velho casarão da fazenda Conceição do Barreiro, em Louveira, São Paulo, Ruy Mesquita descreveu, pela enésima vez, essa cena a uma roda de jovens amigos de seus filhos e netos, a voz subitamente se lhe embargou e seus olhos ficaram marejados. E para minha surpresa, senti no ato que a emoção que acabara de trair aquele senhor tão pouco afeito a demonstrações do gênero à beira dos 80 anos foi, ainda, a da criança desatendida pela mãe num momento de emergência.

Histórias…

Nunca me lembrei tanto das descrições de meu pai dos tempos da sua adolescência e juventude, morando com os tios numa casinha modesta de parede meia – a família economicamente asfixiada, os pais exilados, o jornal O Estado de São Paulo, até hoje a única fonte de renda dos que carregam esse sobrenome, ocupado militarmente pelos soldados da ditadura – acompanhando num mapa pontuado de alfinetes na parede do quarto onde dormia com os primos o desenrolar da guerra na Europa que – eles sabiam bem – selaria, para bem ou para mal, o destino da família, quanto durante a leitura do segundo volume do “Getulio”, de Lira Neto, que relata o que se passou no Brasil entre 1930 e 1945.

ju2A “guerra” de 32

E era este o cenário que aqueles adolescentes precocemente amadurecidos pela adversidade acompanhavam todas as noites ao som das ondas curtas da BBC de Londres porque simplesmente não havia de quem esperar nada aqui mesmo no Brasil.

Como disse no artigo anterior, o país inteiro – “explorados” e “exploradores” das categorias marxistas em que nossos intelectuais com carteira assinada em Brasília insistem até hoje – estava, todo ele, gostosamente entregue à exploração sem aspas da ditadura getulista.

Tendo tido acesso a documentação até então inédita para escrever seu livro, Lira Neto não pôde evitar de pintar Getulio Vargas como o monstro sanguinário, cínico, nazista, antisemita e inimigo figadal da “democracia dos liberalóides” que ele confessa ter sido a cada minuto que viveu em seu diário pessoal.

Mas mesmo enquanto descreve os atos bárbaros que lhe ditavam esses sentimentos alimentados desde o berço por sua formação primitiva, Lira Neto não consegue disfarçar a sua admiração pelo ditador e, sobretudo, a sua disciplinada antipatia pelos escassos democratas autênticos da “Era Vargas” que, na falta de fatos que lhe sustentem essa opinião, surgem sempre de passagem em seu livro, profilaticamente cercados dos apôdos de “elitista, “quatrocentão” e outros adjetivos da panela no Brasil ainda farta da luta de classes.

ju4A caminho do exílio (JMF é o 3ro em pé, da esquerda para a direita)

Ponha-se de lado o erro factual de chamar “quatrocentão” o neto de um imigrante miserável e analfabeto vindo do Norte de Portugal que, como ele, arrancava da pena o seu viver no jornal que o pai voltara contra os fazendeiros escravocratas e mais um imperador de troco em plena São Paulo do Ciclo do Café e ele próprio pusera na liderança da guerra que, sob sua batuta, São Paulo teve o desplante de declarar contra o ditador em cujas tetas o Brasil inteiro mamava.

Lira Neto chapa por baixo toda a imprensa da época como uma horda indistinta de vendidos. Registra a destruição e os empastelamens de redações de jornais e até a tortura e morte de jornalistas empregados ordenados por Getúlio. Alonga-se, sempre que pode, nas mamatas e sabujices tramadas e havidas entre o ditador e alguns donos de jornais, mas subtrai deliberadamente aos seus leitores as exceções a essa regra, não, obviamente, por desconhecê-las.

Além de ser “do ramo” e conhecer bem esse lado da história, provavelmente até por testemunhos diretos ouvidos quando, ainda nas redações, não tinha sequer concebido o plano de tornar-se historiador, Lira Neto é um pesquisador eficiente demais para merecer esse perdão.

ju9Julio Mesquita Filho e o retrato do pai

Ele torce sempre, ainda que inconfessadamente, para o bandido, no mínimo desqualificando os “mocinhos”, mesmo contra  toda a evidência dos fatos não apenas por ser gaucho como Getulio foi, o que não é coisa pouca para se superar. É que na cabeça feita de Lira Neto ha de haver, por trás de tudo que venha da “classe dominante”, uma razão de interesse pessoal, um preço, uma jogada desonesta. Nada, nunca, é fruto de um imperativo moral. Tudo sempre é fruto de um cálculo e de um interesse escuso e danem-se os fatos. Esta é a lei.

O rancor especial que ele mostra contra São Paulo e contra o jornal O Estado de São Paulo que sustentaram praticamente sozinhos a resistência contra a ditadura getulista, negando, por absoluta omissão do registro desses fatos, o preço que seus donos pagaram por nunca terem sido “Chatôs”, é a prova mais contundente dessa distorção mas não a única.

São especialmente marcantes, nesse sentido, os capítulos em que, numa mesma sequência, o autor argumenta diretamente, coisa que não se tinha permitido fazer em nenhuma outra passagem dos dois primeiros volumes de sua obra, para negar a “vitoria moral” de SP em 32, embora seja obrigado a relatar, logo na sequência, a nomeação de Armando Sales de Oliveira, cunhado de Julio Mesquita Filho, como interventor em São Paulo por um Getúlio militarmente vitorioso mas politicamente enfraquecido a ponto de ser constrangido a fazer o que mais odiava na vida: recuar e ceder.

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Em seu livro a sugestão que fica não é a de uma vitória dos paulistas mas a de um gesto gratuito de magnanimidade do ditador que os paulistas responderam mal agradecidamente e, no extremo, até com felonias.

O fato dos dois cunhados terem aproveitado esse hiato entre exílios para fundar a USP e trazer para animá-la os melhores cérebos daquela época em todo o mundo, plantando, finalmente, o primeiro centro de disseminação do conhecimento científico e de pesquisa universitária digno desse nome no Brasil, também é sonegado aos leitores de Lira Neto, com certeza em função dessa mesma “incompatibilidade de teses”.

Sua descrição da Revolução Constitucionalista de 32 acaba sendo meio enigmática pelo inexplicado conflito entre seu esforço para isolá-la como uma espécie de capricho de uma elite alienada e a realidade histórica da adesão do Estado inteiro a um movimento em que todos arriscavam a própria vida.

É tão disciplinado o seu esforço por negar o papel de Julio Mesquita Filho e de São Paulo nos acontecimentos dessa época que a grande falha do livro são os saltos que ele dá, sempre de repente, da conformidade geral reinante para as grandes manifestações, sempre brutalmente reprimidas a tiros, que estouram esporadicamente em São Paulo contra Getúlio ao longo de todo aquele período.

asp6Manifestação de estudantes contra Getulio em SP. Ruy Mesquita estava lá e houve mortos e feridos. A bandeira da foto está preservada no saguão do jornal O Estado de S. Paulo.

Ele as registra como se tivessem sempre surgido do nada, dispensando fermentação prévia, e mergulhado de volta no nada. Os paulistas – “elitistas” e “quatrocentões” ou não – que sacrificam a vida nessa luta fazem-no, em seu livro, sempre em nome de nada.

Mas há que perdoá-lo. “A nossa crise não é só política”, como escreveu Arnaldo Jabor esta semana, “é psiquiátrica”.

O livro de Lira Neto continua sendo um grande livro e foi escrito, afinal de contas, neste pais onde os 32 partidos políticos existentes sentem-se na obrigação, por imperativo de sobrevivência, de declarar-se “de esquerda”; onde “progressista” é quem recorre a qualquer grau de violência física ou moral para que tudo se conserve como sempre foi e “conservadores” são os quatro ou cinco gatos pingados que, a cada geração, pagam o preço de tomar posição a favor de que as coisas progridam para mudanças reais.

Ainda que incapaz se superar todo o errado que lhe foi incutido a vida toda como certo nesta pátria do triunfo de Antônio Gramsci, Lira Neto dá sucessiavs provas de já estar começando a desconfiar de algumas de suas certezas…

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Fazer jornal em 1935

5 de novembro de 2013 § 5 Comentários

Vídeo enviado por Cecília Thompson

Governos também: só com medo da polícia

28 de maio de 2013 § 3 Comentários

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Na mesma semana em que desaparecem Ruy Mesquita e Roberto Civita – cada um no seu estilo, dois dos mais intransigentes baluartes da liberdade de expressão ainda em postos de comando na já muito rarefeita imprensa independente brasileira – a Argentina de Cristina Kirshner abria mais uma frente de agressão ao que resta da imprensa livre naquele país.

Tudo começou com a Lei de Medios que, resumidamente, transforma a propriedade privada de meios de comunicação num favor do Estado reservado a quem a Presidência da Republica escolher agraciar com ele.

Seguiu com os cercos sucessivos dos leões de chácara dos sindicatos peronistas para cassar na marra edições inteiras dos diários de oposição na boca das rotativas.

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Depois veio o cerco dos fiscais da receita primeiro aos jornais (200 invadiram o Clarín de uma só vez ha um par de anos) e agora a jornalistas individualmente, que têm tido suas casas invadidas no meio da noite pelos bate-paus de Cristina.

A manipulação da publicidade oficial era desde sempre o pano de fundo de todas essas agressões mas depois veio somar-se a ela a proibição da publicação de anúncios de supermercados e lojas de eletrodomésticos com os preços de suas ofertas em jornais.

Vieram, então, as alterações na Lei de Mercado de Capitais para permitir que acionistas minoritários – como o governo argentino é dos jornais visados – decretem intervenção nas empresas jornalísticas.

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Agora a senhora Kirshner brande a estatização da única fábrica de papel de imprensa do país, pertencente a um pool de empresas jornalísticas, como golpe de misericórdia, reeditando o esquema inventado pelo grande patrono da decadência argentina, Juan Domingo Perón, que deixou os jornais de oposição de seu tempo reduzidos a seis páginas por dia.

Entre uma e outra dessas brutalidades Cristina Kirshner perpetrou todas as agressões que pôde contra empresas e produtos brasileiros produzindo ou sendo vendidos na Argentina.

Mas nada disso demoveu o PT e dona Dilma Roussef de fazer-lhe visitas cerimoniais e lamber-lhe as botas.

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Nada que surpreenda posto que a Venezuela já vai bem mais longe que a Argentina na senda do banditismo pseudo-ideológico que mistura política com tráfico de drogas e tudo mais que vai pelo meio, fechando televisões, exilando jornalistas e armando “milícias populares” para dar o devido tratamento à metade descontente dos venezuelanos e nem por isso dona Dilma e seus correligionários viram nesses acontecimentos qualquer jaça “à mais perfeita e legítima democracia” que identificam na Venezuela bolivariana que só perde, em matéria de respeito aos direitos humanos, para a Cuba dos irmãos Castro que é para onde olham como fonte de inspiração todos os membros honorários do Clube dos Cafajestes em que se transformou o Mercosul.

No quesito demolição do Poder Judiciário, a Argentina também é, entre os que têm assento de honra no Foro de São Paulo (sim, esta nossa São Paulo), criação conjunta de Lula e de Fidel Castro, o mais atrasado, descontado o Brasil.

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Ainda há um Judiciário em pé por lá, coisa que na Venezuela nem há mais, mas ele fala fino. Está impedido por lei de dar liminares em ações contra o Estado, teve o Conselho da Magistratura que nomeia ou destitui juízes inflado com novos membros nomeados pelo governo até que lhe ficasse garantida uma maioria confortável e hoje vive sob a ameaça de “julgamentos disciplinares” a juízes mal comportados.

Nada que abale a confiança de Dilma na legitimidade da democracia argentina, é claro…

Além de tentar lançar processos semelhantes no Congresso Nacional semana sim, semana não, o PT e Dilma têm em comum com a senhora Kirshner o fato de também estarem perdendo o controle sobre a economia, a inflação e a corrupção que grassa à sua volta, além do vezo de responder a tudo isso com decretos para baixar a coluna de mercúrio dos termômetros que medem a doença que se insinua e discursos irados contra “os que torcem contra o Brasil” que, naturalmente, na cabeça dela, “c’est moi”.

Enfim, parecenças…

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No front planetário, enquanto Colômbia, Peru, México e Chile, agora com Paraguai, Uruguai, Costa Rica e outros quatro sul-americanos entrando na fila para se juntar à Aliança do Pacífico, trabalham a sintonização de suas legislações pró-mercado e o crescimento de sua presença no comércio internacional com regras claras e pouca burocracia, o Brasil de Dilma e do PT segue criando barreiras protecionistas e fazendo leis exclusivas para amigos do governo enquanto multiplica embaixadas, distribui dinheiro fácil e proporciona a ditadores e genocidas do “baixo clero” da África, da Ásia e da Oceania negociatas com os seus empresários amestrados a ver se conquista a “governabilidade” de organismos multinacionais moribundos do século passado do mesmo jeito que aprendeu a fazer por aqui.

Quem ainda quiser seguir sonhando com dias róseos pela frente que o faça. Mas uma coisa é preciso ter clara. Ainda muito mais que as pessoas individualmente, também os governos só se mantêm minimamente civilizados por medo da polícia, sem a qual regridem ao estado feral e fazem estragos proporcionais ao seu peso e ao seu alcance dentro das sociedades. E a polícia dos governos é a combinação de uma imprensa livre com um Judiciário independente.

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