Governos também: só com medo da polícia

28 de maio de 2013 § 3 Comentários

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Na mesma semana em que desaparecem Ruy Mesquita e Roberto Civita – cada um no seu estilo, dois dos mais intransigentes baluartes da liberdade de expressão ainda em postos de comando na já muito rarefeita imprensa independente brasileira – a Argentina de Cristina Kirshner abria mais uma frente de agressão ao que resta da imprensa livre naquele país.

Tudo começou com a Lei de Medios que, resumidamente, transforma a propriedade privada de meios de comunicação num favor do Estado reservado a quem a Presidência da Republica escolher agraciar com ele.

Seguiu com os cercos sucessivos dos leões de chácara dos sindicatos peronistas para cassar na marra edições inteiras dos diários de oposição na boca das rotativas.

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Depois veio o cerco dos fiscais da receita primeiro aos jornais (200 invadiram o Clarín de uma só vez ha um par de anos) e agora a jornalistas individualmente, que têm tido suas casas invadidas no meio da noite pelos bate-paus de Cristina.

A manipulação da publicidade oficial era desde sempre o pano de fundo de todas essas agressões mas depois veio somar-se a ela a proibição da publicação de anúncios de supermercados e lojas de eletrodomésticos com os preços de suas ofertas em jornais.

Vieram, então, as alterações na Lei de Mercado de Capitais para permitir que acionistas minoritários – como o governo argentino é dos jornais visados – decretem intervenção nas empresas jornalísticas.

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Agora a senhora Kirshner brande a estatização da única fábrica de papel de imprensa do país, pertencente a um pool de empresas jornalísticas, como golpe de misericórdia, reeditando o esquema inventado pelo grande patrono da decadência argentina, Juan Domingo Perón, que deixou os jornais de oposição de seu tempo reduzidos a seis páginas por dia.

Entre uma e outra dessas brutalidades Cristina Kirshner perpetrou todas as agressões que pôde contra empresas e produtos brasileiros produzindo ou sendo vendidos na Argentina.

Mas nada disso demoveu o PT e dona Dilma Roussef de fazer-lhe visitas cerimoniais e lamber-lhe as botas.

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Nada que surpreenda posto que a Venezuela já vai bem mais longe que a Argentina na senda do banditismo pseudo-ideológico que mistura política com tráfico de drogas e tudo mais que vai pelo meio, fechando televisões, exilando jornalistas e armando “milícias populares” para dar o devido tratamento à metade descontente dos venezuelanos e nem por isso dona Dilma e seus correligionários viram nesses acontecimentos qualquer jaça “à mais perfeita e legítima democracia” que identificam na Venezuela bolivariana que só perde, em matéria de respeito aos direitos humanos, para a Cuba dos irmãos Castro que é para onde olham como fonte de inspiração todos os membros honorários do Clube dos Cafajestes em que se transformou o Mercosul.

No quesito demolição do Poder Judiciário, a Argentina também é, entre os que têm assento de honra no Foro de São Paulo (sim, esta nossa São Paulo), criação conjunta de Lula e de Fidel Castro, o mais atrasado, descontado o Brasil.

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Ainda há um Judiciário em pé por lá, coisa que na Venezuela nem há mais, mas ele fala fino. Está impedido por lei de dar liminares em ações contra o Estado, teve o Conselho da Magistratura que nomeia ou destitui juízes inflado com novos membros nomeados pelo governo até que lhe ficasse garantida uma maioria confortável e hoje vive sob a ameaça de “julgamentos disciplinares” a juízes mal comportados.

Nada que abale a confiança de Dilma na legitimidade da democracia argentina, é claro…

Além de tentar lançar processos semelhantes no Congresso Nacional semana sim, semana não, o PT e Dilma têm em comum com a senhora Kirshner o fato de também estarem perdendo o controle sobre a economia, a inflação e a corrupção que grassa à sua volta, além do vezo de responder a tudo isso com decretos para baixar a coluna de mercúrio dos termômetros que medem a doença que se insinua e discursos irados contra “os que torcem contra o Brasil” que, naturalmente, na cabeça dela, “c’est moi”.

Enfim, parecenças…

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No front planetário, enquanto Colômbia, Peru, México e Chile, agora com Paraguai, Uruguai, Costa Rica e outros quatro sul-americanos entrando na fila para se juntar à Aliança do Pacífico, trabalham a sintonização de suas legislações pró-mercado e o crescimento de sua presença no comércio internacional com regras claras e pouca burocracia, o Brasil de Dilma e do PT segue criando barreiras protecionistas e fazendo leis exclusivas para amigos do governo enquanto multiplica embaixadas, distribui dinheiro fácil e proporciona a ditadores e genocidas do “baixo clero” da África, da Ásia e da Oceania negociatas com os seus empresários amestrados a ver se conquista a “governabilidade” de organismos multinacionais moribundos do século passado do mesmo jeito que aprendeu a fazer por aqui.

Quem ainda quiser seguir sonhando com dias róseos pela frente que o faça. Mas uma coisa é preciso ter clara. Ainda muito mais que as pessoas individualmente, também os governos só se mantêm minimamente civilizados por medo da polícia, sem a qual regridem ao estado feral e fazem estragos proporcionais ao seu peso e ao seu alcance dentro das sociedades. E a polícia dos governos é a combinação de uma imprensa livre com um Judiciário independente.

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Uma imensa Argentina?

10 de janeiro de 2013 § Deixe um comentário

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A Folha de hoje atirou no bicho certo mas exibiu o troféu errado.

A longa entrevista por ela publicada (aqui) com o Procurador Geral da República, Roberto Gurgel, continha uma revelação importante e um alerta importantíssimo, mas não foi nenhuma dessas duas preciosidades que a equipe encarregada de editá-la destacou.

A revelação importante é a de que, ao se aproximar o prazo para a sua recondução ou não ao cargo de Procurador Geral da Republica, Roberto Gurgel mandou avisar à presidente Dilma que estava terminando a peça acusatória do Mensalão, a ser apresentada dois dias depois da decisão, e que manteria nela todas as acusações que hoje o Brasil inteiro conhece contra os maiorais do PT e, mesmo assim, a presidente o confirmou no cargo.

Já o alerta importantíssimo que a Folha deixou de amplificar, pode ser resumido nestes tres pontos:

1- A luta não está ganha (vejam que manchete atraente para sair sobre uma foto de Gurgel!);

2- Não ha nada no horizonte que indique que vamos ganhá-la, ao contrário.

3- Se não ganharmos agora não haverá segunda chance.

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Ok. Foi “um esforço magnífico”, “um marco histórico”, e coisa e tal, “mas isso não basta”. “Nós não acabamos. É preciso dar efetividade a esse julgamento … É preciso que os juízos condenatórios proferidos pelo Supremo tenham as devidas consequências (tanto) na questão dos mandatos parlamentares (quanto) na questão dos mandados de prisão … Respeito a posição do ministro Joaquim (de recuar de pedir as prisões imediatas)… (mas) Meu temor é assistir cenas como as das fotos recentes do Cachoeira (condenado mas em liberdade) no resort. Isso demonstra a falta de efetividade da Justiça. Essa é a preocupação que o Ministério Público tem. Nosso sistema processual é muito generoso e muito propício a certas manobras da defesa…”

Nenhuma voz tem mais autoridade que a do acusador-chefe de um país sem prisões para nos alertar para a seriedade da ameaça que paira sobre nossas cabeças.

Roberto Gurgel, assim como Dilma, faz parte de uma elite do funcionalismo público que, já nem tão por baixo do pano assim, vem num conflito surdo com a canalha oriunda dessa grande universidade do crime que é o sindicalismo pelêgo que Getúlio Vargas nos legou e vem tomando literalmente de assalto o Estado brasileiro desde o momento em que Lula chegou “”.

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Não digo que essa elite seja constituida só de santos nem que não existam diferenças ideológicas ou de comportamento ético a diferenciar os que fazem parte dela. Nem mesmo que ela não se aproveite e componha com a outra quando se trata de preservar seus privilégios.

Mas também é indiscutível que, tomada em seu conjunto, há um verdadeiro abismo moral e, principalmente, cultural entre essa nata do funcionalismo concursado, de carreira, e a escória cevada no sindicalismo que Getúlio plantou aqui precisamente para destruir o Estado e deixar o país inteiro nas suas mãos, segundo a receita de Juan Domingo Perón e suas periguetes de palanque.

E já lá vão 10 anos ao longo dos quais para cada concursado que sai pela porta da aposentadoria são dois ou tres predadores que entram pela das nomeações “políticas“.

A Argentina está aí, descambando desabaladamente ladeira abaixo há quase um século, trágica, irrecuperável, aos trambolhões, a nos gritar que não tem fundo o abismo em que ameaçamos despencar.

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Dilma sabe disso. Mas, criatura de “deus” que é, hesita. Balança entre “o pai” e o que lhe diz a sua consciência. O dr. Gurgel mostrou que sabe o que vai pela alma dela…

Quanto às cenas como as das fotos do Cachoeira que tiram o sono do promotor-chefe, elas já estão aí, atiradas nas nossas caras.

A ocupação da tribuna do povo em Brasília pelo chefe da grei dos cuequeiros sob os aplausos da alcatéia dos vendidos num congresso nacional que parece antecipar o nosso destino bolivariano é a repetição, como farsa, do acinte do caudilho dos pampas ao amarrar seus cavalos no obelisco do Senado da Republica da antiga capital federal da Guanabara.

Por quanto tempo ainda os “condenados” do Mensalão poderão andar pelas nossas ruas e praias exibindo o seu sucesso?

No mínimo mais um ano, diz o dr. Gurgel mais em tom de torcida que de afirmação…

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O país que acompanhou por quatro meses, ao vivo, as seções solenes do Supremo Tribunal Federal para vê-las desaguar numa hermética “dosimetria” onde tudo faz lembrar o Jogo de Truco, síntese da malandragem brasileira onde nenhuma carta vale o que diz o número estampado nela, fica sabendo, depois desse primeiro balde de água fria, que a “última palavra” da nossa “ultima” corte de justiça, de ultima não têm nada. Que vai recomeçar a ciranda dos recursos e dos recursos sobre os recursos, agora batizados de “embargo” disso, “agravo” daquilo, enquanto os “condenados” refestalam-se ao sol dos vencedores na Bahia.

Que país sairá dessa travessia? O que terá restado em pé?

É preciso um esforço de união nacional aberta e francamente apoiado na única dicotomia real que, pelo mundo afora, sobreviveu à entrada do Terceiro Milênio – mocinhos x bandidos; ladrões x roubados – como a derradeira tentativa de incentivar os brasileiros honestos de todas as antigas cores que nos separavam no século passado a se unirem para gritar que “Não, nós não somos todos a mesma merda que Lula quer que sejamos”, ou seremos nós a próxima e imensa Argentina.

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Comparando masoquismos

5 de janeiro de 2012 § 1 comentário

Acho o masoquismo dos argentinos muito mais intrigante que o dos norte-coreanos.

Afinal, na Coreia do Norte ha três gerações já que a intensidade do choro que o cidadão exibe diante do desaparecimento de algum dos membros da dinastia Kim pode significar a diferença entre vir a ser um candidato a ministrar ou se tornar um candidato ser paciente de tiros na nuca enquanto na Argentina o mesmo tipo de demonstração é inteiramente espontâneo.

O puxa-saco brasileiro leva vantagem sobre ambos: não precisa prender-se a qualquer tipo de formalismo. O máximo a que pode almejar o peronista exemplar é o emprego sem trabalho, coisa que o brasileiro também consegue sem precisar, necessariamente, filiar-se a este ou àquele partido. Basta aderir a quem quer que esteja no poder. Tudo que ele conseguir agarrar a partir daí o Judiciário garante que será seu e dos seus, mesmo que haja revoluções que mudem não só os ocupantes temporários do poder mas até a natureza do regime.

É muito mais democrático e republicano.

Mas não é apenas isso que aproxima norte-coreanos de argentinos e nos distancia de ambos.

Eles valorizam muito a questão da hereditariedade. Os coreanos são literais quanto a esse ponto. Assim como os caribenhos, exigem laços de sangue no momento da sucessão enquanto os argentinos se permitam alguma flexibilidade.

Respeitados os limites da ideologia – todos têm de ser peronistas acima de tudo – nossos românticos vizinhos do Sul colocam o amor acima de todas as outras coisas.

Dessa dificuldade adicional  resulta que os Kim apenas iniciam a terceira rodada e os Castro a segunda, enquanto os argentinos já vão na quinta, considerados os dois presidentes da dinastia peronista e suas três esposas e amásias.

No Brasil, ha uma única exigência: o mais testado e comprovado desprezo pela ética. Tudo o mais, arruma-se. Fica, desse modo, plenamente assegurada a mobilidade social: qualquer um, independentemente de raça, gênero ou posses, pode acanalhar-se o suficiente para ser aceito nos círculos do poder desde que se empenhe.

A mumificação de presidentes mortos é outro traço comum a coreanos e argentinos além de comunistas em geral e egípcios do passado remoto. A particularidade que distingue nossos vizinhos é que egípcios, comunistas e coreanos respeitam a integridade física das suas múmias enquanto os argentinos são dados a arroubos com as deles que chegam, por vezes, aos extremos da perversão sexual e da mutilação.

Já no Brasil, morreu, morreu. Fica só a herança maldita.

Agora, em matéria de títulos honoríficos, nós que nos consideramos tão criativos perdemos longe. É da nossa natureza preferir o drible à marcação homem a homem. Continuamos até hoje com os herdados de Portugal – “excelência“, “meritíssimo“, “ilustríssimo senhor“… – que têm a vantagem de ser intercambiáveis, enquanto os coreanos vão de exclusivíssimos “Estrela Brilhante“, “Ilustre Comandante Nascido no Céu“, “Eterno Presidente“, “Pai“, “Grande Sucessor” e outras variações igualmente hiperbólicas que a perspectiva do tiro na nuca justifica plenamente.

Os argentinos estão divididos quanto a esse particular o que, bem em consonância com a crise mundial da identidade de gênero, pode ser um prenúncio do fim do arquétipo do amante latino. Dos diminutivos de outrora, que traduziam tão fielmente o seu inimitável mix de política com alcova, ensaiam agora um tom mais épico e imperialista, com este “Sol de America del Sur” que começam a aplicar à Cristinita.

É bom a gente ficar de olho porque cautela e caldo de galinha nunca fizeram mal a ninguém.

Sobre egípcios, comunistas e argentinos

28 de fevereiro de 2011 § Deixe um comentário

Fui jantar no final da semana passada com uns amigos e um deles estava voltando de uma viagem à Ásia.

Conversa vai, conversa vem, ele mencionou que foi ver a múmia de Ho Chi Min, exposta no seu devido mausoléu em Hanói.

Aí eu lembrei essa coisa curiosa…

Esse negócio de múmia é um privilégio de poucos. Ha os faraós do Egito e suas pirâmides, onde parece que a moda de condicionar a continuação da vida após a morte à conservação de um cadáver foi inventada. Depois deles ninguém mais perdeu tempo com essa bobagem por alguns milênios.

A Igreja Católica, que também tem lá os seus pendores necrófilos, é verdade, tem algumas dúzias dos santos da sua galeria entre pessoas que ganharam essa condição porque, por alguma razão natural, seus corpos ficaram preservados por muito tempo depois da morte. Mas pelo menos isso aconteceu por acidente e não em função da aplicação de técnicas deliberadamente desenvolvidas para essa finalidade.

Essa estranha forma de fixação macabra só voltou a entrar em cena pela porta da frente da política depois que os comunistas, que se acreditavam capazes de produzir uma engenharia das sociedades humanas cuidadosamente desenhada com base na ciência, vejam vocês,  tomaram o poder na Rússia.

A partir daí as múmias voltaram com tudo à moda. Não falo das que continuam vivas e no poder. Falo de Lênin, Mao Tsetung e Ho Chi Min, embalsamados e mofando em seus caixões de vidro dentro de duvidosas pirâmides inspiradas no realismo socialista, feito pobres cinderelas ressecadas sem esperança de resgate pelo beijo.

Fora egípcios e comunistas, lembrei aos amigos, os únicos que se entregaram, oficialmente, à prática da adoração de cadáveres na era moderna foram os argentinos. Mas lá a coisa não deu certo. É que os nossos estranhos vizinhos compositores de tangos, que gostam de levar tudo ao ultimo extremo, se apaixonam fisicamente pelas suas múmias!

Piram! Enlouquecem! Confundem tudo.  Alguns chegam a tentar fazer amor com elas!

Enquanto no resto do mundo sequestra-se pessoas vivas e paga-se resgates para mantê-las assim, na Argentina sequestram-se os cadáveres dos inimigos políticos para depois negociar a trocar de mortos por mortos.

Xô! Vade retro! Rabo de gato 44!

Gente muuuito estranha esses argentinos!

Você tá pensando que é brincadeira? Só modo de falar? Pois eu saí daquele jantar e fui fuçar essa história no Youtube, pra refrescar a memória.

Veja com os seus próprios olhos o documentário fantástico que encontrei:

La Momia de Eva Peron

Parte 1

Parte 2

Parte 3

Parte 4

Parte 5

Parte 6


Uma imensa Argentina?

6 de novembro de 2009 § Deixe um comentário

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Uma das ilusões a que mais comumente se aferram as vítimas do banditismo político é a de que existe um limite para a queda de um país.

A prova mais candente do quanto isso é falso é a Argentina. Partindo da posição que tinha na virada do século XIX para o XX entre as cinco maiores economias do mundo, o país que tinha todos os motivos para se orgulhar da sua cultura e do seu padrão de vida não encontra o fundo desde que entrou em queda livre com Juan Domingo Perón.

Ha interrupções e acidentes aqui e ali, mas nada parece ser capaz de vencer a formidável máquina de seleção negativa em que Perón transformou o sistema político argentino, por onde só o pior consegue passar.

Já falei disso aqui no Vespeiro (veja “A cadeia do escracho”). De geração em geração o padrão ético se deteriora mais e mais à medida que a memória de tempos melhores vai se perdendo.

Sim, os povos se acostumam à miséria moral.

Corrompem-se tanto mais quanto mais a corrupção política os vai afundando na miséria e tornando dependentes do Estado. Quanto mais essencial se torna o Estado; quanto mais poderoso e onipresente; mais ele se corrompe e mais ele corrompe o seu povo.

Não é um círculo, trata-se de uma espiral viciosa na qual, a cada volta, começa-se de um ponto mais baixo para chegar-se a um ponto mais baixo ainda.

Um dos traços distintivos do processo de esquizofrenia política argentino é a renitência das “dinastias” de casais. De Perón para Evita; de Perón para Isabelita; de Kirshner para Kirshner…

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Estaria aí a fonte de inspiração para o “de Lula para Dilma”

 que se ensaia aqui? Dona Marisa Letícia é brasileira demais para se enquadrar no figurino da mulher de botas e culote, instigando sindicatos pelegos contra a “zelites”. Já a Dilma…

E o que mais do que acontece por aqui nos remete ao que acontece por lá?

Quarta-feira, menos de 48 horas antes do início da 65ª assembléia da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) que se inicia hoje em Buenos Aires, o sindicato dos caminhoneiros argentinos, liderado por Pablo Moyano, filho de Hugo Moyano (sempre as dinastias), secretário geral da Confederação Geral do Trabalho (CGT), a central sindical criada por Perón, montou um piquete na porta das oficinas do Clarín e do La Nación, jornais que fazem oposição ao casal Kirshner, impedindo a sua circulação. Os dois jornais seguem bloqueados, sob o olhar complacente da polícia dos Kirshner, que se recusa a agir. O episódio se dá na sequência de uma série de golpes aplicados pelo próprio governo contra diversos órgãos da imprensa argentina que incluíram a virtual estatização das transmissões dos jogos do campeonato nacional de futebol, a suspensão da fusão aprovada por órgãos técnicos de canais de TV a cabo e a aprovação de uma nova lei de mídia que impõe o desmembramento das empresas jornalísticas locais.

“De quebra”, o governo amigo do sargento Hugo Chavez está patrocinando – pasme-se! – em plena capital argentina, o “Primeiro Encontro Internacional de Meios e Democracia na América Latina” que será aberto por Gabriel Mariotto, autor da nova lei de mídia, e do qual será a grande estrela Andrés Izarra, presidente da TV estatal que Chávez criou e através da qual dá suas ordens ao povo venezuelano. Em paralelo, a embaixada venezuelana em Buenos Aires está convocando uma passeata contra a Sociedade Interamericana de Imprensa. Hugo Chávez, recorde-se, fechou o único canal de TV venezuelano que lhe fazia oposição, fato no qual Lula e seu quase chanceler Marco Aurélio Garcia honestamente não viram nenhuma arranhão no que chamam “a plena democracia que se pratica na Venezuela”…

É de se notar, a propósito, que Chávez e os Kirshner, que primeiro calotearam o mundo e depois se venderam ostensivamente a ele, que sustenta com seus petrodolares a dívida publica argentina, já estão no ostracismo internacional e, por isso, assumem-se como o que são. Não têm nada a perder. Já o nosso Lula ainda está em pleno idílio com o establishment internacional. Os mais “refinados” governantes europeus, do alto da sua segurança institucional, não se cansam de paparicá-lo. Não quer dizer grande coisa, uma vez que governantes europeus do passado paparicaram gente como Hitler, Stalin, Mao Tsetung e outras figuras de proa da galeria de monstros da humanidade, até depois que eles já se tinham revelado como os monstros que de fato foram.

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Lula não é um monstro. Mas daí a premiá-lo como paladino da democracia…

Seja como for,  isso pode estar fazendo uma boa diferença. Até a eleição de Dilma, quando estaremos todos definitivamente amarrados, a aprovação internacional, as fotos ao lado “do cara”, os sorrisos da velha rainha, fazem as vezes da “Carta aos Brasileiros”, prometendo bom comportamento, que já vai sendo revogada.

Assim, Lula, por enquanto, só esbofeteia a liberdade de imprensa verbalmente. No país que tem o judiciário que temos, aliás, pode se dar o luxo de simplesmente se omitir, quando lhe interessa fazer mais que as bofetadas verbais. Como tem feito em relação à censura do Estadão que, para bom entendedor, pode ser posta na conta do recibo que sua excelência passa pela aquisição de José Sarney, O Intocável, por preço módico.

Não é por outra razão que o reizinho do Maranhão, depois de uma semana desafiando a suprema corte da Nação do alto da sua impunidade, dignou-se ontem a ir apresentar a rendição do Senado a um desmoralizado STF, à sombra de uma espécie de palanquim carregado por um solícito puxa-saco, como se ele fosse um d. João VI redivivo.

Aos Kirshner, o nosso presidente sindicalista não pode fazer carícias porque faz parte do show daqueles dois atirar-lhe “pontazos” às partes baixas. Mas com Chávez já fez tudo menos sexo (pelo menos até onde se sabe). E se ainda não lhe cedeu Brasília para a montagem de um meeting internacional de execração da democracia “burguesa”, já lhe emprestou a embaixada do Brasil em Tegucigalpa para esse mesmíssimo fim.

imprensa,-politicos

Se, por enquanto, Lula não usa os sindicatos de que é dono e senhor para blitze ao estilo peronista-kirshneriano, não se furta a recorrer ao MST para esse mesmo fim. O banqueiro Daniel Dantas é o “judeu” da vez. Sob a desculpa das culpas que este senhor tem no cartório, que são muitíssimas, até a imprensa bem pensante entra no jogo do Rinoceronte (falo daquele do Ionesco) e se permite deixar crescer o chifre no lugar do nariz. O partido de Jose Dirceu, de Waldomiro Diniz, de Delubio Soares, de Ângela Guadagnin, de Carlos Jereissati, de Sergio Andrade e, porque não dizer, de José Sarney, não persegue Daniel Dantas sem tréguas porque ele é desonesto. Persegue-o — Estado contra indivíduo —  em vez de se aliar a ele como se aliou a tantos como ele, porque Daniel Dantas ousou desafiar – e até “levar no bico” – os sagrados sacerdotes da Previ, centro nevrálgico do projeto de poder petista.

O nível de fúria empregado na destruição da Fazenda Maria Bonita sob o olhar complacente da polícia do Pará, estado governado pelo PT, não permite enganos quanto ao grau do ódio que a entidade que o governo sustenta destila, nem ilusões quanto ao que serão capazes de fazer quando se sentir suficientemente seguro para oficializar sua relação com ela.

Cada vez mais, portanto, as diferenças entre Brasil e Argentina são apenas de grau. O programa que por aqui ainda está apenas na “fase Beta”, dos ensaios, lá já está rodando na versão 7.0. Mas, até onde já fomos – aparelhando o Estado, as empresas publicas e as estatais; desmontando suas instâncias técnicas; usando fundos de pensão e bancos publicos para financiar um projeto de poder; minando o que restava do Legislativo; ensaiando a censura à imprensa; patrocinando a desmoralização do Judiciário – não cabe a menor dúvida sobre para que lado pendem Lula e o PT nas questões que hoje enfrentam a ditadura bandalho-sindicalista dos Kirshner e o que resta da Argentina.

De modo que, tudo indica, estava errado o vaticínio de Chico Buarque.

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