Uma imensa Argentina?

6 de novembro de 2009 § Deixe um comentário

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Uma das ilusões a que mais comumente se aferram as vítimas do banditismo político é a de que existe um limite para a queda de um país.

A prova mais candente do quanto isso é falso é a Argentina. Partindo da posição que tinha na virada do século XIX para o XX entre as cinco maiores economias do mundo, o país que tinha todos os motivos para se orgulhar da sua cultura e do seu padrão de vida não encontra o fundo desde que entrou em queda livre com Juan Domingo Perón.

Ha interrupções e acidentes aqui e ali, mas nada parece ser capaz de vencer a formidável máquina de seleção negativa em que Perón transformou o sistema político argentino, por onde só o pior consegue passar.

Já falei disso aqui no Vespeiro (veja “A cadeia do escracho”). De geração em geração o padrão ético se deteriora mais e mais à medida que a memória de tempos melhores vai se perdendo.

Sim, os povos se acostumam à miséria moral.

Corrompem-se tanto mais quanto mais a corrupção política os vai afundando na miséria e tornando dependentes do Estado. Quanto mais essencial se torna o Estado; quanto mais poderoso e onipresente; mais ele se corrompe e mais ele corrompe o seu povo.

Não é um círculo, trata-se de uma espiral viciosa na qual, a cada volta, começa-se de um ponto mais baixo para chegar-se a um ponto mais baixo ainda.

Um dos traços distintivos do processo de esquizofrenia política argentino é a renitência das “dinastias” de casais. De Perón para Evita; de Perón para Isabelita; de Kirshner para Kirshner…

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Estaria aí a fonte de inspiração para o “de Lula para Dilma”

 que se ensaia aqui? Dona Marisa Letícia é brasileira demais para se enquadrar no figurino da mulher de botas e culote, instigando sindicatos pelegos contra a “zelites”. Já a Dilma…

E o que mais do que acontece por aqui nos remete ao que acontece por lá?

Quarta-feira, menos de 48 horas antes do início da 65ª assembléia da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) que se inicia hoje em Buenos Aires, o sindicato dos caminhoneiros argentinos, liderado por Pablo Moyano, filho de Hugo Moyano (sempre as dinastias), secretário geral da Confederação Geral do Trabalho (CGT), a central sindical criada por Perón, montou um piquete na porta das oficinas do Clarín e do La Nación, jornais que fazem oposição ao casal Kirshner, impedindo a sua circulação. Os dois jornais seguem bloqueados, sob o olhar complacente da polícia dos Kirshner, que se recusa a agir. O episódio se dá na sequência de uma série de golpes aplicados pelo próprio governo contra diversos órgãos da imprensa argentina que incluíram a virtual estatização das transmissões dos jogos do campeonato nacional de futebol, a suspensão da fusão aprovada por órgãos técnicos de canais de TV a cabo e a aprovação de uma nova lei de mídia que impõe o desmembramento das empresas jornalísticas locais.

“De quebra”, o governo amigo do sargento Hugo Chavez está patrocinando – pasme-se! – em plena capital argentina, o “Primeiro Encontro Internacional de Meios e Democracia na América Latina” que será aberto por Gabriel Mariotto, autor da nova lei de mídia, e do qual será a grande estrela Andrés Izarra, presidente da TV estatal que Chávez criou e através da qual dá suas ordens ao povo venezuelano. Em paralelo, a embaixada venezuelana em Buenos Aires está convocando uma passeata contra a Sociedade Interamericana de Imprensa. Hugo Chávez, recorde-se, fechou o único canal de TV venezuelano que lhe fazia oposição, fato no qual Lula e seu quase chanceler Marco Aurélio Garcia honestamente não viram nenhuma arranhão no que chamam “a plena democracia que se pratica na Venezuela”…

É de se notar, a propósito, que Chávez e os Kirshner, que primeiro calotearam o mundo e depois se venderam ostensivamente a ele, que sustenta com seus petrodolares a dívida publica argentina, já estão no ostracismo internacional e, por isso, assumem-se como o que são. Não têm nada a perder. Já o nosso Lula ainda está em pleno idílio com o establishment internacional. Os mais “refinados” governantes europeus, do alto da sua segurança institucional, não se cansam de paparicá-lo. Não quer dizer grande coisa, uma vez que governantes europeus do passado paparicaram gente como Hitler, Stalin, Mao Tsetung e outras figuras de proa da galeria de monstros da humanidade, até depois que eles já se tinham revelado como os monstros que de fato foram.

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Lula não é um monstro. Mas daí a premiá-lo como paladino da democracia…

Seja como for,  isso pode estar fazendo uma boa diferença. Até a eleição de Dilma, quando estaremos todos definitivamente amarrados, a aprovação internacional, as fotos ao lado “do cara”, os sorrisos da velha rainha, fazem as vezes da “Carta aos Brasileiros”, prometendo bom comportamento, que já vai sendo revogada.

Assim, Lula, por enquanto, só esbofeteia a liberdade de imprensa verbalmente. No país que tem o judiciário que temos, aliás, pode se dar o luxo de simplesmente se omitir, quando lhe interessa fazer mais que as bofetadas verbais. Como tem feito em relação à censura do Estadão que, para bom entendedor, pode ser posta na conta do recibo que sua excelência passa pela aquisição de José Sarney, O Intocável, por preço módico.

Não é por outra razão que o reizinho do Maranhão, depois de uma semana desafiando a suprema corte da Nação do alto da sua impunidade, dignou-se ontem a ir apresentar a rendição do Senado a um desmoralizado STF, à sombra de uma espécie de palanquim carregado por um solícito puxa-saco, como se ele fosse um d. João VI redivivo.

Aos Kirshner, o nosso presidente sindicalista não pode fazer carícias porque faz parte do show daqueles dois atirar-lhe “pontazos” às partes baixas. Mas com Chávez já fez tudo menos sexo (pelo menos até onde se sabe). E se ainda não lhe cedeu Brasília para a montagem de um meeting internacional de execração da democracia “burguesa”, já lhe emprestou a embaixada do Brasil em Tegucigalpa para esse mesmíssimo fim.

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Se, por enquanto, Lula não usa os sindicatos de que é dono e senhor para blitze ao estilo peronista-kirshneriano, não se furta a recorrer ao MST para esse mesmo fim. O banqueiro Daniel Dantas é o “judeu” da vez. Sob a desculpa das culpas que este senhor tem no cartório, que são muitíssimas, até a imprensa bem pensante entra no jogo do Rinoceronte (falo daquele do Ionesco) e se permite deixar crescer o chifre no lugar do nariz. O partido de Jose Dirceu, de Waldomiro Diniz, de Delubio Soares, de Ângela Guadagnin, de Carlos Jereissati, de Sergio Andrade e, porque não dizer, de José Sarney, não persegue Daniel Dantas sem tréguas porque ele é desonesto. Persegue-o — Estado contra indivíduo —  em vez de se aliar a ele como se aliou a tantos como ele, porque Daniel Dantas ousou desafiar – e até “levar no bico” – os sagrados sacerdotes da Previ, centro nevrálgico do projeto de poder petista.

O nível de fúria empregado na destruição da Fazenda Maria Bonita sob o olhar complacente da polícia do Pará, estado governado pelo PT, não permite enganos quanto ao grau do ódio que a entidade que o governo sustenta destila, nem ilusões quanto ao que serão capazes de fazer quando se sentir suficientemente seguro para oficializar sua relação com ela.

Cada vez mais, portanto, as diferenças entre Brasil e Argentina são apenas de grau. O programa que por aqui ainda está apenas na “fase Beta”, dos ensaios, lá já está rodando na versão 7.0. Mas, até onde já fomos – aparelhando o Estado, as empresas publicas e as estatais; desmontando suas instâncias técnicas; usando fundos de pensão e bancos publicos para financiar um projeto de poder; minando o que restava do Legislativo; ensaiando a censura à imprensa; patrocinando a desmoralização do Judiciário – não cabe a menor dúvida sobre para que lado pendem Lula e o PT nas questões que hoje enfrentam a ditadura bandalho-sindicalista dos Kirshner e o que resta da Argentina.

De modo que, tudo indica, estava errado o vaticínio de Chico Buarque.

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