Começou a queda de Lula?

29 de maio de 2012 § 3 Comentários

Que Lula nunca entendeu a natureza do jogo democrático, sempre se soube. E que nunca acreditou na possibilidade da existência de um mundo diferente do dele, com padrões éticos diferentes dos que pratica, ele tem dado provas repetidas.

Para o ex-presidente que “estudou na escola da vida“, que desdenha amargamente quem tenha frequentado as outras, e que repete à exaustão o bordão do “nunca antes na história deste país“, o mundo começou com o advento dele próprio.

Nada mais natural, portanto, que ele esteja tratando de testa-lo para ver até onde pode ir.

A tentativa de chantagem sobre Gilmar Mendes e o modo pelo qual se referiu aos demais ministros do Supremo Tribunal Federal, cujo papel na ordem das instituições democráticas ele não tem nenhuma ideia de qual seja, foi o que a vida lhe ensinou, métodos que, de 2002 em diante – e com sobradas razões – ele passou a acreditar piamente que fossem infalíveis.

Daí estar perfeitamente exato o primeiro trecho do comentário de Dora Kramer para O Estado de S. Paulo de hoje:

Lula não está fora de si. Está, isto sim, cada vez mais senhor de si. Investido no figurino do personagem autorizado a desrespeitar tudo e todos no cumprimento de suas vontades.

E por que o faz? Porque sente que pode. E pode mesmo porque deixam que faça. A exacerbação desse rude atrevimento é fruto de criação coletiva e não surgiu da noite para o dia“.

Mas não ha bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe.

A trajetória de Lula é uma linha continuamente ascendente onde não se registra nenhum fracasso; no máximo, esperas maiores do que as que ele gostaria de ter pago para atingir o próximo sucesso. E isso, como se sabe, faz mal ao ego.

Ser “ex”, ser menos poderoso hoje do que já foi um dia, é para ele uma experiência tão nova quanto insuportável, e que pode vir a se revelar fatal.

Despido da força institucional que já teve, ele se atira contra figuras ainda investidas da sua e, pela primeira vez, se dá mal. E cada vez mais mal, a julgar pela nuvem escura que se vai formando no horizonte da “sua” CPI do Cachoeira agora que o Congresso foi constrangido a abrir a fossa negra da Construtora Delta e transformá-la de nuvem de fumaça em investigação pra valer.

Essa insistência obsessiva na desastrada operação apaga Mensalão que, num país onde uma condenação dos acusados não traria qualquer consequência prática importante destoa do estilo estritamente pragmático de Lula, começa a tomar ares de um Waterloo.

Ao sair do octógono do vale tudo da luta pelo poder, na qual ele é o campeão inconteste, para cuidar de assuntos imateriais, fora da sua especialidade, como essa tentativa de limpar a própria história, Lula se atrapalhou. Está mergulhando cada vez mais fundo no inferno nessa ânsia de conquistar o céu … como sempre, “no tapetão”.

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§ 3 Respostas para Começou a queda de Lula?

  • Beto Lacerda Filho disse:

    Espero que seja o começo do fim.

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  • Varlice disse:

    Os métodos infalíveis do sr. Lula são anteriores a 2002. Remontam, se estruturaram e fortaleceram ao tempo em que era sindicalista, época em que – inconscientemente, quem sabe – cunhou esse ‘jeito meio estúpido de ser’, único, que o caracteriza tão bem.
    Foi no exercício de sua função no sindicalismo que desenvolveu tortamente o cacoete sem-vergonha de alinhavar por fora tratativas e acordos entre os ‘representantes’ das partes interessadas – e o que ali fosse decidido seria aceito pela massa crédula de manobra que sempre o apoiara. Nesses acordos, é claro, sempre sobrava algum para ele porque Requião pode ter inventado o ‘é dando-que-se-recebe’, mas foi Lula quem aprimorou à excelência o método.
    Trouxe para a presidência de um país o que sempre dera tão certo na presidência sindicalista e transformou a política brasileira, o Congresso Nacional e quase todos seus políticos em uma grande pelegada a soldo de seus interesses – todos têm um preço por que não pagá-lo?
    A droga de todo cacoete, porém, é que por ser cacoete vira hábito, um mau hábito, e é usado sempre porque dá certo, com todos. Até que se encontra um Gilmar Mendes frente e…
    Tenho reservas em relação ao ministro. É falante demais para alguém que ocupa o seu cargo, mas acredito que nesse episódio não tenha exagerado pois, convenhamos, a situação ocorrida é plausível dado o interlocutor ser quem é.
    É bom que Lula esteja cada vez mais “senhor de si”.
    Investido no papel de ser ele próprio não lhe sobra tempo, por esquecimento, para ser o pai da pátria, o pai do PAC, o pai de (quase) todos os brasileiros.
    Assim, uma a uma caem (para os que ainda acreditam nele – e há muitos!) as máscaras que compõem a figura farsesca desse sátiro do sertão nordestino, eivada de sentimentos grosseiros e que acreditou um dia enganar um país.

    .

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  • Osvaldo Vieira Cassiano disse:

    Estou indignado como muitos tambem estão. Infelismente para o Brasil. Isto mostra o que é o desejo pelo poder. Mas ja era previsto tudo isto.Bem antes das eleições que o elegeram.

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