Na cracolândia institucional brasileira

11 de fevereiro de 2012 § Deixe um comentário

Abuso de poder, corrupção, impunidade…

O Brasil aprende com o PT o que a Europa aprendeu com a esquerda no poder nos anos 80: não ha homens nem classes sociais melhores que as outras. O que há são homens com excesso de poder impondo-se aos demais e homens com poder de menos para resistir a essa imposição vendo-se submetidos a eles. E, normalmente, quando os caminhos da vida os levam a trocar de posição uns com os outros, cada lado assume o discurso e o comportamento que antes dizia execrar.

Ou seja: o poder corrompe; o poder absoluto corrompe absolutamente.

A mesma velha picada, 1/3 de século depois. As mesmas ilusões; as mesmas desilusões.

Todos podíamos ter poupado tanto desperdício se tivéssemos prestado atenção ao que a elite do Iluminismo que emigrou para a América já sabia lá no século 18, coisa de que os próprios americanos, os primeiros a descrever com precisão o problema e conceber um antídoto para ele, andam esquecidos hoje.

Na crise, de volta ao básico”, reza o ditado.

Não custa ouvir James Madison de novo, no 51º dos clássicos Federalist Papers (aqui):

O que é o governo, afinal, senão o maior de todos os reflexos da natureza humana?

Se os homens fossem anjos, não seria necessário haver governos. E se os homens fossem governados por anjos, seria dispensavel qualquer instrumento de controle interno ou externo desse governo.

Mas se estamos pensando em desenhar um governo para ser exercido por homens que terão autoridade sobre outros homens, a grande dificuldade está no seguinte: você terá de dar ao governo os meios de controlar os governados e, ao mesmo tempo, obrigá-lo a controlar-se a si mesmo.

Torná-lo dependente da vontade do povo é, sem dúvida, o principal instrumento de controle sobre o governo; mas a experiência nos ensinou que ha necessidade de precauções suplementares…

…o objetivo permanente é dividir esse governo e dispor suas partes de tal forma que cada uma se transforme na controladora das outras“.

E a partir daí descia para os “comos” a engenhosíssima construção…

Estava dada a pauta da democracia moderna. Mas o tempo logo provaria que a receita estava incompleta.

Esqueceram o dinheiro!

Ha outros meios pacíficos de se conquistar algum poder. Mas política e dinheiro – hoje isso é bem mais fácil de ver – são os instrumentos com que se toma e se exerce o poder a mão armada.

A jovem democracia americana quase sucumbiu a essa falha.

Antes que completasse um século com essas duas feras deixadas à solta e livres para caçar juntas, a liberdade, em nome de quem toda a revolução tinha sido feita, estertorava nos dentes delas.

Reconhecida no dinheiro a sua natureza essencial de instrumento para o poder, a fórmula de Madison foi retomada nas reformas da Progressive Era (leia mais sobre esse assunto aqui) de modo a colocar o Estado e o Capital – também e principalmente eles! – em campos antagônicos para que se moderassem mutuamente.

A crise que vai pelo mundo hoje, especialmente nas democracias, é a crise da queda dessa barreira.

A competição com os monopólios chineses, a quem a internet deu o poder da ubiquidade, matou as legislações antitruste e empurrou o Capital de volta para os braços do Estado em democracias acovardadas e economicamente debilitadas demais para pensar no luxo da liberdade.

Os Estados Unidos e a parcela da Europa que tinha marchado adiante voltam a passo acelerado para o ponto de onde o Brasil nunca saiu.

E este, com o desaparecimento da antiga referência de sucesso, perde o incentivo moral para buscar a cura e afunda-se confortavelmente nos venenos da nossa velha cracolândia institucional onde o crime convive livremente com o capitalismo de compadrio.

São variados, enfim, os caminhos que levam à servidão. Mas para a liberdade só existe o mesmo de sempre. Ainda não inventaram outro.

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