Aproveite a Dilma enquanto durar

5 de abril de 2011 § 1 comentário

Tem que acabar com esse preconceito contra políticos (ele se referia à resistência da Dilma em distribuir-lhes cargos). Se Geddel (Vieira Lima, um dos “Anões do Orçamento”) foi ministro porque não pode ser vice-presidente da Caixa? Se o Iris (Resende) foi governador como não pode comandar a Sudeco (o equivalente da Sudene para o Centro Oeste)? É verdade que o Lula aceitava mais políticos em cargos técnicos. Até porque o ex-presidente tinha uma formação mais política e mais sensibilidade para essa questão. Não se pode exigir da Dilma, em tão pouco tempo de exercício do poder, o desempenho de Lula nas questões políticas e a capacidade dele para entender essas necessidades. Até porque ela nunca exercitou antes esses temas políticos, ja que era uma executiva“.

Esse discurso não me sai da cabeça desde que o li no Globo de domingo passado.

Considerando-se que quem o proferiu foi Henrique Eduardo Alves (RN), deputado ha mais de 40 anos que, neste seu 11ro mandato, fez por merecer o posto de líder do PMDB na Câmara, o leitor há de concordar comigo que ele é uma das descrições mais dolorosamente perfeitas,ouvidas ultimamente, disso em que se converteu o que chamamos de política no Brasil.

A primeira coisa que chama a atenção é o quanto o cachimbo pode entortar uma boca ao longo de quatro décadas de imersão no promiscuo troca-troca dos que vivem de partilhar “a governabilidade” deste país.

Esse preconceito contra político … em cargo técnico” quer dizer, sem mais nem menos, esse “preconceito” contra a roubalheira institucionalizada.

Sim, porque, do ponto de vista do governo, não existe nenhuma explicação razoável para se colocar um sujeito num cargo do qual ele nada entende ou num cargo desnecessário criado especialmente para este fim (e o Brasil já tem 37 ministérios!) a não ser que seja para pagá-lo antecipadamente pelos votos que, contra essa nomeação, ele promete dar a projetos do Executivo no Congresso, sejam eles de interesse nacional ou não.  E do ponto de vista do nomeado, nada justifica que ele aceite o posto no qual não poderá dar nenhuma contribuição técnica, senão para usá-lo para fazer-se remunerar pelos votos que, antecipadamente, promete vender em troca dessa oportunidade de se locupletar.

É particularmente desanimadora a candura sincera com que “sua excelência” declara ao país o que pensa a esse respeito, candura esta que coloca-o aquém da imoralidade, naquele território dos que não são mais capazes de discernir o que é e o que não é ético no jogo da política.

É como o drogado que, na euforia do desfrute do seu “barato”, ainda não se dá conta de que está doente, o que o põe além da possibilidade da cura.

Se o tomarmos como padrão – e certamente ele não seria eleito primus inter pares do partido que tem cadeira cativa em todos os governos desde a inauguração da “Nova Republica” se não o fosse – teremos uma medida desanimadora do quanto estamos longe da possiblidade de nos tornarmos uma “democracia” apta a dispensar as aspas.

Mas Henrique Eduardo é peixe pequeno.

Naquele mesmo fim-de-semana a revista Época publicava o relatório final do Mensalão entregue pela Policia Federal ao Supremo Tribunal Federal, onde se reafirma, tim-tim por tim-tim, que é rigorosa e detalhadamente verdadeiro tudo quanto o Procurador Geral da Republica, Antônio Fernando de Souza, imputou aos 40 membros da “organização criminosa” chefiada pelo ex-titular da Casa Civil da Presidência da Republica, José Dirceu, a partir da sala vizinha à do presidente Lula no Palácio do Planalto. E, no entanto, ele passou os últimos 6 anos dizendo que o Mensalão não passava de uma mentira urdida pelas “elites golpistas” e ameaçando dar ele o golpe nas liberdades democráticas fundamentais antes delas, se elas continuassem relatando ao povo o que a policia e o Ministério Publico diziam de seu governo.

Nas 332 páginas desse relatório descreve-se em minucias como o “publicitário” Marcos Valério inventava contas e “serviços prestados” para dar origem ao dinheiro que os 40 ladrões do PT manipulavam para comprar políticos no Congresso e fora dele, para comprar eleições ou para melhorar a vida da companheirada. Mostra-se como o Banco do Brasil foi usado para essa vasta operação de “técnica política” por meio da conta Visanet, e como o amigo de 20 anos e, naquela altura, guarda-costas pessoal do presidente em pessoa, Freud Godoy, mordeu o seu pedaço, confessadamente “para pagar despesas de campanha” do senhor presidente.

Lula, como nos lembra o líder do PMDB e todos nós pudemos comprovar ao longo dos seus oito anos de governo, “tinha mais sensibilidade (que a Dilma) para essas questões e … para entender essas necessidades” da politica, simplesmente porque nunca fez outra coisa na vida.

Para nosso alívio o experiente líder peemedebista constatava também que “não se pode exigir de Dilma o mesmo desempenho de Lula … até porque ela nunca exercitou antes esses temas políticos, já que era uma executiva”.

O nosso cândido Henrique Eduardo esqueceu outro ingrediente que não é de somenos nessa “falha de desempenho” de Dilma, que é o fato dela nunca ter sido membro do PT, agremiação que se transformou numa escola tão exigente quanto a esse tipo de prática de que o seu líder supremo é o paradigma quanto as madrassas do Talibã em relação aos preceitos dos aiatolás. Não ha escolha: é segui-las ou ser expulso do partido.

Eu que sou um cara propenso a me iludir a respeito da natureza humana (hoje, confesso, isso já é uma “ilusão” que ponho conscientemente entre aspas porque não faz sentido ser jornalista sem ser otimista em relação a possibilidade de ver as coisas mudarem um dia) ainda alimento a expectativa de que Dilma está consciente de que os índices de popularidade colhidos nestes primeiros 100 dias (47%, o que é mais que Lula teve no mesmo momento de sua trajetória), se devem mais ao que ela mostra de diferenças do que pelo que ela tem de semelhanças em relação a ele. E talvez isso a anime a aprofundar essas diferenças.

Mas mesmo que a coisa seja só questão de tempo, como pensa o líder do PMDB, podemos aproveitar bastante a Dilma enquanto ela durar, já que seria necessário muito mais tempo do que ela provavelmente vai ter no poder para que “se exercitasse” nessas práticas o suficiente para fazer com que sua experiência como executiva fosse definitivamente apagada por sua prática como politica.

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