Porque as reuniões do clima são uma farsa
13 de dezembro de 2010 § 1 Comment

Em Cancun, assim como nas 15 reuniões anteriores convocadas pela ONU para discutir o que, em ultima análise, é apenas um efeito da superpopulação, a palavra superpopulação sequer foi mencionada.
No começo da noite de sexta-feira, 10/12, publiquei um artigo sobre a inevitabilidade do fracasso das reuniões sobre aquecimento global promovidas pela ONU, a corrupção que alimenta essa industria nascida da instrumentalização ideológica do problema ambiental e a conivente ausência de senso critico da grande imprensa na cobertura que dá a esse tema.
No sábado, diante das manchetes de todos os jornais do pais festejando um “acordo de ultima hora” alcançado em Cancun, ainda que já convencido, pelas primeiras notícias, de que ele continuava válido quanto à essência do que tinha escrito, tirei o artigo do ar para reavaliá-lo quanto à forma, diante das novidades.
Depurado o noticiário do fim de semana, confirmei que não ha razão nenhuma para modificá-lo, muito ao contrario.
O acordo festejado pelos delegados dos 193 países participantes é, antes de mais nada, um acordo para salvar a sua própria função e garantir os próximos encontros que estavam seriamente ameaçados pelo fato de que, ha três edições da conferencia da ONU sobre clima, não se aprova rigorosamente nenhuma medida referente ao assunto que ela se propõe tratar. E nos anos anteriores aos últimos três todos os raros acordos alcançados foram apenas pró-forma. Nenhum dos países signatários estava obrigado por eles a fazer nada de prático.

Um dos objetivos da reunião de Cancun era aprovar acordos que gerassem “obrigações legais” para os signatários. Apesar de todo o estardalhaço que faz em torno desse tema, a imprensa tradicional omite sistematicamente o fato de que, dos 193 países representados na reunião, conta-se nos dedos de uma mão, se tantos, aquele cujos governos estão de fato obrigados a seguir suas próprias leis nacionais. Que dirá as internacionais. O Brasil, sob Lula mais que nunca, é um exemplo disso. E, ainda assim, comparados aos demais, somos dos que mais lembramos aquilo que de fato é um Estado de Direito.
Esse é um ponto de crucial importância para a configuração da farsa que se encena em torno do tema ambiental porque um acordo “legally binding” obrigaria os Estados Unidos, um dos poucos governos representados em Cancun obrigados a se submeter às leis do seu próprio pais, a tomar providencias reais para reduzir emissões. Nas conferencias do clima da ONU porta-vozes de ditadores ou de governos autoritários que não esperam cumprir o que propõem “puxam” as propostas de cortes de emissões a níveis impraticáveis para quem se dispusesse de fato a implementá-las para provocar sua rejeição e depois acusar esses países de conspiração para destruir o planeta.

Os dois acordos aprovados na ultima hora em Cancun tratam da outra força por traz desse movimento que é o enorme volume de dinheiro que irriga a corrupção em torno desse tema, da qual a comunidade científica é uma das principais protagonistas e beneficiárias.
Ficou definida, para a próxima reunião, o início da discussão sobre a implementação de um multibilionário “fundo verde” para “ajudar países em desenvolvimento a prevenir mudanças climáticas e/ou se proteger delas”, e outro fundo para subsidiar países que se dispuserem a proteger suas florestas. Como sempre, não se tratou do principal que é estabelecer de onde virá esse dinheiro, discussão que consumirá mais alguns anos de reuniões pelo mundo afora.
Ou seja, o que houve foi um acordo sobre a necessidade de haver um acordo para definir quem pagará pelas reduções de emissões, a mesmíssima questão que esteve em pauta nas 15 edições anteriores desse fórum.

O fato de todos os grandes jornais do mundo terem dedicado manchetes bombásticas para tão pouco (o Estadão trocou uma denuncia inédita que comprova a participação do presidente da Republica num dos mais escandalosos esquemas de corrupção em funcionamento no país por esse tanto pouco na sua hierarquia de destaques na primeira página) comprova o outro ponto que denuncio em meu artigo: a conivente predisposição da quase unanimidade dos jornalistas da “grande mídia” de desligar seu senso crítico toda vez que se trata desse tema.
A ultima e maior prova da má fé e da irresponsabilidade com que se empurra essa discussão para o impasse permanente está no fato de, em Cancun, assim como nas 15 reuniões anteriores convocadas para discutir o que, em ultima análise, é apenas um efeito da superpopulação humana que realmente ameaça a continuação da vida na Terra e requer providencias urgentes, sequer se mencionou a palavra superpopulação.

Se nestes 16 anos a ONU tivesse tratado da causa e não do efeito do problema e gasto em educação para um planejamento familiar que leve em conta a sustentabilidade da vida na Terra um centésimo do que se tem gasto para medir o imensurável e atribuir culpas pelos efeitos de menor significação dessa ameaça tão real quanto grave à saude do planeta, muito provavelmente já estaríamos colhendo resultados concretos.
São essas as razões pelas quais decidi manter o artigo abaixo deste como estava e voltar a publicá-lo, apesar do delay em relação ao acordo de ultima hora alcançado pelos participantes da 16a conferencia da ONU sobre o clima para garantir a continuação dessa enganação na 17a.

Isso tudo é, realmente, assustador. É inadimissível que nossos governantes não enxerguem o óbvio, é desesperador perceber que interesses pessoais continuem embarrerando ações concretas de proteção ambiental. Um absurdo, ainda, que o tema sequer seja discutido e ensinado,, nas escolas, às crianças que serão os adultos de amanhã, portanto, aqueles que, de alguma forma, terão os rumos do país em suas mãos. Dói ainda mais saber que até as nações mais desenvolvidas, mais endinheiras, mais aculturas, façam parte dessa imensa lista dos que adotam o “who cares”.