Lulinha paz e amor 0 x 1 Lula de verdade, ou…

4 de outubro de 2010 § 1 comentário

…como Lula se condenou a ser o seu próprio personagem

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As televisões procuravam, esta manhã (4/10), “a causa” da “virada” que arrancou o doce do poder de dentro da goela do lulo-petismo, pela qual ele já escorregava a meio, pra ver só lá adiante como é que vai ficar.

Não me convenço de que novidades de ultima hora do tipo dessas que estão sendo aventadas (polemica sobre aborto e assemelhados) sejam explicação suficiente para o fenômeno. Pode ter tido até algum peso, mas não o bastante. E quanto à “onda verde” pode ter mobilizado uma parcela da juventude, movimento que ficou registrado desde o início da campanha. Mas o timing da mudança que resultou no segundo turno a associa claramente a outros fatores.

Continuo achando que o que determinou a virada foi a debandada da esquerda honesta para longe do PT, seguindo os passos da liderança da esquerda honesta que já tinha feito isso ha mais tempo (veja o artigo Não vale tudo não, seo Lula! publicado no ultimo dia 30/09 aqui no Vespeiro). Marina Silva e os verdes são uma parcela dessa esquerda honesta. O grupo que tomou a iniciativa de lançar o Manifesto pela Democracia no Largo de São Francisco representa outro segmento importante dela. E as “bases” das redações da imprensa livre – o instinto de Lula para identificar amigos e inimigos realmente não falha – são uma espécie de síntese das duas.

Treinado como sou na convivência com esse pessoal com quem fiz jornal por mais de 30 anos, ha muito vinha sentindo o crescente horror que lhes provoca a idéia de ter contribuído decisivamente para colocar no poder a horda da esquerda bandalha que se assume explicitamente como aquela que veio para dar o tiro de misericórdia na esperança de ética na política e que, salivando em cima da expectativa de um massacre no primeiro turno capaz de “exterminar” toda e qualquer oposição, já namorava abertamente a idéia de por mais uma bala no tambor dessa arma para fuzilar também a própria democracia.

Mais que o “caso Erenice”, que é só mais um na longa lista de escândalos que embala toda a administração petista, foi a reação apoplética de Lula à exposição da roubalheira na Casa Civil, pontilhada de ameaças muito menos que veladas contra a liberdade de imprensa e outros pilares da democracia que precipitou essa debandada.

O outro contingente que debandou foi a parcela da população que, embalada na vertigem da afluência econômica, foi despertada da hipnose do “Lulinha paz e amor” pela gritaria ameaçadora e rancorosa do Lula de verdade que a “viagem” do poder absoluto ressuscitou.

Não pára de me voltar à cabeça a descrição precisa e insuspeita de André Singer, ex-porta-voz do “cara”, sobre a gênese do lulismo, onde se mostra com precisão matemática como ele comprou, com o Bolsa Família, a confiança das camadas mais pobres da população que constituíram, em todas as eleições anteriores, o núcleo duro da rejeição à ameaça de “baderna” que Lula representava (e voltou a representar), mas que continua com os dois pés atrás em relação ‘ao PT (veja artigo).

Se quiser permanecer “lá”, sua excelência terá de assumir para sempre o personagem que criou. O Lula que essa população aprova é aquele da “Carta aos Brasileiros, que respeita a democracia e tem a humildade de reconhecer que aprendeu com FHC e de preservar o que ele construiu. O enraivecido, o gritão, o que quer fechar jornais e extinguir partidos de oposição é o Lula que o Brasil profundo sempre rejeitou.

O fato de Luladilma ter perdido votos em todas as regiões do pais e em todos os segmentos da população desde que o Lula de verdade ressurgiu na televisão, sugere que esta é a explicação mais plausível para a virada. E o mapa do Brasil dividido horizontalmente – Norte e Nordeste, Luladilma; Sudeste, Centro Oeste, Serra – nos fala de quantidades de dependentes totais do Bolsa Familia, de um lado, e de beneficiários indiretos da ascensão economica que o programa ajudou, mas não necessariamente escravizados a ele, do outro.

Marina Silva é, mais que tudo, a depositária fortuita dos votos desses fugitivos. A troca, aí, foi mutua. Serra salvou-se para o segundo turno graças a Marina, e Marina salvou-se do gueto dos 10% graças a rejeição que se acentuou com a “pegada” mole do Serra diante dos redobrados coices do lulismo. Se ela vai conseguir ou não converter esse prêmio da loteria em riqueza permanente é outra história.

Por enquanto, ela própria não se vê como a legitima proprietária dessa avalanche de votos que a deixou tão perplexa e atordoada que sua primeira reação foi recusar a responsabilidade que eles implicam e repassá-la a uma plenária do partido.

Os problemas que se colocam agora são principalmente, três:

  • ver até que ponto os contendores vão entender a razão da correção de rumo do eleitorado, o que determinará se essa correção será mantida e aprofundada ou revertida. Lula vestirá as sandálias da humildade de forma convincente? Serra conseguirá entender que é por aí e se colocar como a alternativa democrática capaz de exorcizar uma ameaça autoritária que ele e só ele terá de provar que é real?
  • o país teve tempo de corrigir o rumo. Mas o Congresso, em seu proverbial oportunismo, saltou na dianteira e já está lá na frente, moldado do jeitinho que o lulismo queria. A ameaça às garantias constitucionais que isso implica pode ser um poderoso argumento para Serra se ele se decidir a usá-lo. Mas e se ele for eleito? Como governará com esse Congresso? O PMDB, é verdade, será sempre governo, qualquer que seja o governo. O problema, aí, é só de preço. Foi divertido, aliás, ver aquela indisfarçável cara de “Será que embarquei em canoa furada?” que Michel Temer, mais “mordomo de filme de terror” do que nunca, apresentava ao lado da Dilma quando ela reconheceu a derrota. O grande problema – na verdade o enorme problema – seria governar debaixo da onda de sabotagem que fatalmente se levantaria na máquina publica, tomada de assalto pelo petismo, e da violência aberta a que certamente se entregaria a vanguarda da tropa de choque do partido que mal se disfarça sob o eufemismo “movimentos sociais”.

  • o terceiro problema ocorreria se Lula, sentindo-se encurralado, der a tudo isso uma conotação aberta de confronto de classes, o que resultaria no perigo da sua derrota virar uma crise institucional.

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A verdade sobre a eleição eletrônica

Durante toda a manhã, como em todos os pleitos desde que a novidade foi introduzida, pipocou nas televisões o “porque me ufano do meu pais” em torno das lições que o Brasil poderia dar ao mundo em matéria de rapidez na apuração da eleição.

Sempre me espanta ver, em pleno Terceiro Milênio, a total ignorância, mesmo dos profissionais da informação, a respeito das eleições americanas, que são sempre o parâmetro que se oferece para provar esse “feito” tecnológico brasileiro.

Acontece que na ultima eleição americana 60 quesitos foi a media de itens inseridos nas cédulas eleitorais daquele pais. Tantos que alguns estados já estão enviando a cédula um mês antes aos eleitores para que eles possam preenche-la com o necessário vagar. Seria impossível preencher tudo isso, eleitor por eleitor, numa máquina. A fila daria a volta ao mundo.

No Brasil, o eleitor só é chamado para a “disputa de pênaltis” das eleições majoritárias num jogo previamente decidido pelos caciques dos partidos. Lá, a coisa começa pelas prévias onde é o povo e não os caciques que decide quem, em cada partido, terá direito de pedir seu voto na futura eleição. E nela, alem do presidente, dos governadores e dos representantes nas duas casas do Congresso, eles escolhem pelo voto (e podem cassar a qualquer momento) os funcionários públicos mais importantes (pra que a distribuição de cargos não vire a “zona” que é aqui) e votam dezenas de leis de iniciativa popular sobre os mais variados temas, incluindo desde a aprovação ou rejeição de impostos até coisas como aborto e casamento homossexual. A cédula é, portanto, diferente em cada cidade de cada estado do pais e chega a ter o tamanho quase de uma pagina de jornal.

Daí a demora na apuração: eles têm uma democracia de verdade, onde o povo decide tudo, enquanto nós temos só algo que se parece vagamente com ela.

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São Paulo x Brasil

Olhar somente para as totalizações de votos pode induzir ao erro que seria por esses resultados numa ótica “São Paulo contra o Brasil”, como Lula, aliás, tentou irresponsavelmente fazer na reta final da campanha, quando já sentia o cheiro do que vinha vindo pela proa.

O corte é educacional e de renda.

Nos poucos estados onde a escolarização e o nível de renda são mais generalizados e altos, Serra vence. Mas ele vai melhor também em quase todas as capitais de quase todos os Estados, onde essas condições estão mais presentes que no interior.

A trajetória dos estados de ponta para os grotões é tradicional na política brasileira, como resposta ao desgaste do poder.

A diferença é que o lulismo, pelas razões que André Singer aponta, já nasceu nos grotões sem ter passado antes pelos espigões.

Construção x demolição

Lula sempre foi melhor para destruir que para construir (muito especialmente, instituições).

E sua “vingança” contra o Senado que lhe impôs as poucas derrotas sofridas neste ultimo mandato, foi “maligna”. A queda da CPMF em 2007 e as CPIs iniciadas, que fizeram ferver o menino que não sabe perder que existe nele, levaram-no a dedicar a reta final da campanha, que ele considerava ganha, ao “extermínio” de velhas eminências pardas como Marco Maciel, Tasso Jereissati, Heloisa Helena, Heráclito Fortes, Artur Virgilio, Marconi Perillo, Raul Jungman, Mão Santa.

Dilma pagou o preço desse desvio no foco da campanha.

O Brasil pagará (pesadamente) o da deterioração da qualidade do Legislativo.

Tributo a FHC

Os 11 milhões de votos para o pouco conhecido e nada sexy Aloysio Nunes Ferreira soam como um reconhecimento de São Paulo a Fernando Henrique Cardoso, o seu grande avalista e patrocinador.

De onde viria o dinheiro?

Se Serra ganhasse e tivesse de cumprir as promessas feitas no desespero, levando o mínimo para R$ 600 e dando 10% de aumento aos aposentados, o rombo da Previdência simplesmente dobraria.

E onde o candidato que se apresenta como a antítese da gastança irresponsável arranjaria dinheiro pra isso?

Estelionato oficial

Tiririca, o palhaço paulista, com o seu 1,3 milhão de votos, e Garotinho, o palhaço carioca, vão levar a bancada do seu partideco (o PR) de 23 para 40 cadeiras.

É o preço que o Brasil vai pagar pela “esperteza” desinformada dos que acham que estão fazendo um protesto inteligente atirando no próprio pé, ou melhor, no próprio bolso.

Já vai tarde

Já dei, aqui no Vespeiro, as razões pelas quais não acho a graça que alguns vêm em Plínio de Arruda Sampaio. Felizmente o eleitorado também não lhe dá a importância que a imprensa lhe atribui. Faltou pouco para que o seu PSOL recebesse tudo a que tem direito, ou seja, nada.

Debates para o eleitor

E falando em Plínio, me lembro: já que o Supremo acabou com a censura sob a qual elas viviam ha 13 anos (em silêncio), não estaria na hora das TVs sacudirem a poeira e começarem a fazer debates com regras definidas pelos eleitores e não pelos que pretendem se eleger?

Se bancassem essa idéia e deixassem os que resistissem sem canal pra falar com o povo, viravam o jogo fácil.

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§ Uma Resposta para Lulinha paz e amor 0 x 1 Lula de verdade, ou…

  • roby disse:

    Vou tentar comentar educadamente , apenas dizendo que tenho muita esperança de dar uma virada…..quem sabe???? O povo brasileiro é ignorante, mas está constatado que sabe tudo….O Plinio, voto protesto no Tiririca…..GO GO GO BrasiUUUUUU

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