Como se conserta uma escola

2 de outubro de 2010 § Deixe um comentário

Dei-me o trabalho de traduzir esta matéria e a liberdade de toma-la de empréstimo ao New York Times que a publicou no ultimo dia 27 para que os brasileiros possam comparar como se comportam os professores (e seus sindicatos) aqui e lá e confirmar a mentira que denunciei no ultimo artigo postado aqui (“O Silêncio dos Culpados”), que quase todos os nossos políticos compartilham, em relação ao que é preciso fazer para melhorar a qualidade do ensino publico.

Suzan Szachowicz e aluna
Sam Dillon para o New York Times

Uma década atrás a Brockton High School era uma espécie de paradigma do fracasso. E os professores e funcionários cochixavam pelos corredores a desculpa que eles mesmos se davam: os alunos têm o direito de fracassar, se quiserem. E muitos fracassaram mesmo – só ¼ dos alunos passou no exame estadual. E um em cada três caíram fora da escola.

Foi então que Suzan Szachowicz, com mais um punhado de professores, resolveu agir. Eles convenceram a administração da escola a permitir que organizassem uma campanha para que todos os professores acrescentassem lições de leitura e redação a todas as aulas sobre todos os assuntos, até as de ginástica.

O retorno veio rápido. No exame de 2001 a escola aprovou mais alunos que tinham sido reprovados no exame do ano anterior que qualquer outra escola de Massachusetts. E não parou por aí. Neste ano e no ano passado, a Brockton saiu-se melhor que 90% das escolas de Massachusetts. E essa virada foi objeto de estudo num relatório intitulado “Como uma escola pode se tornar exemplar” publicado no mês passado por Ronald F. Ferguson, um economista de Harvard que se especializou em pesquisar as razões do mau desempenho das pessoas oriundas de grupos minoritários.

O que torna o caso da Brockton surpreendente é que, com 4.100 alunos ela é um desmentido vivo daquilo que é tomado como norma nos círculos educacionais: o conceito de que a qualidade está diretamente relacionada ao tamanho.

É em função dessa tese que a Fundação Bill e Melinda Gates gastou centenas de milhões de dólares na ultima década dividindo grandes escolas em unidades menores (desde então ela mudou de estratégia, passando a focar mais a instrução mesmo).

Mas a regra do “menor é melhor” continua com muita força. Um novo filme, “Esperando pelo Super Homem”, por exemplo, conta a historia de cinco personagens em escolas publicas de Nova York, Los Angees e outras cidades – a maioria delas com poucas centenas de alunos – para provar que este é o caminho para a educação nos Estados Unidos ir para a frente.

Só que Brockton é a maior escola publica de Massachusetts e uma das maiores do pais.

Ate hoje a Dra. Szachowicz, que virou diretora da Brockton em 2004, é abordada por colegas de escolas menores nas conferencias sobre educação que vêm lhe falar do seu ceticismo em relação à possibilidade de uma escola com 4.100 alunos poder oferecer uma educação decente.

Eu simplesmente digo a eles que nos somos uma escola grande que funciona”, diz a Dra. Szachowicz, com um vozeirão faz ela parecer maior do que é fisicamente enquanto anda pela escola cumprimentando os alunos, com um walkie-talkie nas mãos.

Brockton High School

Ela e os outros professores resolveram agir quando o desastre estava iminente. Massachusetts tinha instituído um novo exame final de aprovação em 1993 e passar nesse exame seria obrigatório para a diplomação uma década mais tarde. A menos que a escola melhorasse, 750 alunos seriam reprovados a cada ano a partir de 2003.

Szachowicz e Paul Laurino, que então era o chefe do departamento de inglês, começaram a fazer reuniões nos sábados para pensar estratégias para melhorar a escola. A vergonha era sua maior motivação, especialmente depois dos resultados dos exames de 1999.

Foram horríveis”, lembra ela. Ela pintou as desastrosas medias obtidas em grandes letras, escreveu por baixo “Isso é mesmo o melhor que nos podemos fazer?”, e pregou os cartazes nas paredes da sala de reuniões dos sábados.

O grupo ficou conhecido como o Comitê de Reestruturação da escola e a administração deixou ele agir livremente. O diretor apenas “deixou as coisas rolarem”, diz o relatório de Harvard.

O primeiro passo foi voltar aos princípios básicos. Todos concordaram que ler, escrever, falar e pensar com método era o mais importante resultado esperado de uma boa educação. Então eles passaram a recrutar todos os professores da escola – não só os de inglês mas também os de matemática, ciências e até os de ginástica – para que ensinassem essas quatro coisas aos alunos.

O comitê criou um padrão para ajudar os professores a entender o que seria considerado como escrever bem e começaram a dedicar todas as reuniões de professores a ensinar os chefes de departamentos como chegar a esse padrão. A partir dai, os 300 professores da Brockton começaram a ser treinados em pequenos grupos.

Os exercícios de redação tomaram varias formas diferentes mas o foco de todas era ensinar os alunos a pensar com método. Um professor de ciências, por exemplo, fazia os alunos escreverem, passo a passo, como fazer um sanduíche, começando pela abertura da porta da geladeira para pegar a maionese até a lavagem da faca depois que o sanduíche estivesse pronto.

Muitos professores resistiram. Michael Thomas, hoje diretor de operações e então o chefe do departamento de educação física da escola, lembra que vários dos seus alunos vinham reclamar: “Isto é uma aula de ginástica; vocês não deveriam ficar fazendo a gente escrever”. E ele respondia: “Se vocês quiserem continuar estudando em Brockton, é assim que vai ser”.

O medo desanimou a muitos; medo de perder tempo com mais uma tentativa de reforma que só daria um monte de trabalho e não levaria a nada. Mas o comitê insistia.

Deixe-me ajudá-lo” era a resposta para todos que vinham expressar suas duvidas e reclamar que as novas exigências eram difíceis demais.

O primeiro grande salto foi nos exames de 2001. Ainda que as notas de Brockton continuassem muito baixas, elas deram um bom pulo. O comissário estadual de educação, David P. Driscoll, viajou até Brockton para dar seus parabéns à iniciativa.

Bob Perkins

Tinha virado tabu que menor era melhor mas não havia nenhuma prova disso”, disse Driscoll que, desde 2007, é o diretor da Comissão de Aprovação do Estado de Massachusetts e responsável por todos os exames federais. “Em escolas de qualquer tamanho – e Brockton é uma das maiores – o que importa é unir as pessoas em torno de um objetivo comum, botar as metas lá em cima e sair perseguindo-as”.

Depois dessa primeira vitoria as resistências diminuíram. De um dia para o outro o Comitê de Reestruturação ganhou enorme credibilidade e um monte de professores ate então relutantes começou a disputar as reuniões dos sábados que continuam sendo feitas ate hoje.

Brockton nunca despediu um grande numero de professores, em contraste com a política federal de hoje que incentiva as escolas com má pontuação a demitir pelo menos metade dos seus professores para conseguir uma rápida virada.

Mas a dra. Szachowicz e sua equipe não deixaram de pressionar os professores recalcitrantes e pelo menos um deles, que se recusou a aderir à reestruturação, foi demitido.

Sindicatos de professores têm resistido a processos de reestruturação em diversas escolas. Mas em Bockton isso nunca foi um obstáculo importante, em parte porque os membros do comitê eram todos sindicalizados e o contrato com o sindicato foi cumprido à risca.

Por exemplo: o contrato especificava que haveria duas horas por mês para reuniões de professores que antes eram usadas para discutir problemas administrativos banais. O comitê passou a dedicar essas duas horas para treinamento dos professores e tomou todos os cuidados para que essas reuniões não durassem nem um minuto a mais que o estipulado.

A dra. Szachowicz leva o contrato muito a serio e nos trabalhamos dentro do que ele estipulava”, conta Tim Sullivan que era presidente do sindicato local.

O comitê mudou inúmeras regras e políticas.

Um exemplo: a escola tinha um complicado sistema de acompanhamento que destinava cada aluno a uma de cinco alternativas acadêmicas. Ele foi quase inteiramente eliminado porque os cursos básicos subestimavam a capacidade dos alunos com dificuldades, o que ajudava a desmoralizá-los.

O comitê trabalhou no sentido de exigir mais desses alunos, 69% dos quais se qualificavam para ter almoço gratuito em função da baixa renda dos seus pais. A coisa ia ao detalhe de garantir junto aos professores que eles mencionassem em todas as aulas, todos os dias, a frase “Quando vocês entrarem na faculdade…

Quando a escola começou a ganhar prêmios, a novidade era anunciada em cartazes afixados por todo o prédio.

A capacidade atlética era tradicionalmente mais valorizada que o desempenho acadêmico e havia uma grande pressão para que os jogadores mais importantes ganhassem privilégios. Mas a dra. Szachowicz acabou com isso.

Mesmo assim a escola conseguiu manter seus atletas, assim como as suas diversas bandas e corais, um extenso programa de artes dramáticas e vários clubes de estudantes.

Muitos estudantes consideram o tamanho da escola – quase o de uma faculdade – e a diversidade dos alunos como pontos favoráveis e não como desvantagens.

Você encontra pessoas novas todos os dias”, diz Johanne Alexander, um haitiano. “Alguém com uma historia nova, uma cultura diferente. Eu tenho amigos paquistaneses, brasileiros , haitianos, asiáticos, caboverdeanos, africanos, guatemaltecos…

Tem até alguns americanos!” , brinca Tercia Mota, brasileira de nascimento. “Mas o que não existe são panelinhas. Dê uma olhada nas mesas do almoço. Não tem essa história. Está tudo misturado, todo mundo é amigo de todo mundo”.

Ao longo dos anos, o esquema de alfabetização foi se refinando. BoB Perkins, chefe do departamento de matemática, por exemplo, abriu a sua aula de Introdução à Álgebra II, na semana passada, misturando o tema com uma redação. Ele escreveu “3 + 7™ – 6 x 3 -11” na lousa e pediu aos alunos que descrevessem passo a passo em seus cadernos, com frases simples, como solucionaram o problema.

Eu fiz primeiro a conta exponencial, encontrando o quadrado de 7”, escreveu Sharon Peterson. “Aí multipliquei 6 x 3. Somei 3 + 49 e combinei 18 e 11 porque os dois eram negativos. Encontrei 52 – 29. A resposta final é 23”.

Alguns alunos tiveram problemas e a aula se arrastou um pouco.

Esta levando mais tempo do que eu esperava mas não é tempo perdido”, disse Perkins. “Eles estão aprendendo matemática mas também estão aprendendo a escrever”.

A performance da Brockton não é tão boa em matemática quanto é em inglês e, por isso, o comitê contratou um consultor externo para ajudar a desenvolver novas estratégias para melhorar o ensino de matemática.

O dr. Ferguson (de Harvard) disse que o caso da Brockton saltou das estatísticas para os seus olhos pela primeira vez no ano passado. Ele estava estudando as notas dos exames estaduais de Massachusetts de 2008 em seu escritório em Cambridge e notou que as notas de Brockton estavam acima das de 90% das 350 escolas do Estado.

Desde então ele começou a visitar Borckton e convidar alguns de seus professores para entrevistas em Harvard. O relatório que escreveu com mais quatro pesquisadores abordava outras 14 escolas em cinco estados. E encontrou características semelhantes em todas elas. “O desempenho começou a melhorar quando as lideranças dos professores decidiram focar e perseguir insistentemente o objetivo de melhorar a qualidade do ensino”.

Brockton era, de longe, a maior das 15 escolas examinadas, mas somente cinco tinham menos de 1000 alunos. Seis tinham mais de 1700 e duas, em Illinois, mais de 3000.

Eu nunca acreditei nesse dogma de que escolas grandes não podiam ser boas”.

Suzan Szachowicz

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