O que Lula sabe sobre o Lula da televisão
8 de setembro de 2010 § Deixe um comentário

Todos os estudos sobre a comunicação mediada pela televisão (ou pelo rádio) mostram que muito mais que a mensagem em si, o que cria ou não cria empatia entre quem fala na telinha e quem ouve lá fora é a atitude ou, mais exatamente, o grau de “convicção” (com ou sem aspas) com que discursa quem se dirige ao espectador.
Se você perguntar a uma pessoa que acabou de assistir o discurso de um político na TV o que foi que ele disse pouquíssimas serão capazes de repeti-lo. Mas todas terão um adjetivo na ponta da língua para descrever o que sentiram vendo ser dito o que foi dito.
A razão pesa muito pouco nesse tipo de avaliação.
É exatamente o contrário do que acontece na mensagem mediada pelo texto, onde a idéia vem despida da circunstância em que foi engendrada e tudo que pode ser avaliado, na silenciosa intimidade dessa cerebrina transação entre comunicando e comunicado, é o seu sentido e a sua coerência interna.
Em cada uma dessas diferentes formas de comunicação atuam diferentes órgãos dos sentidos e são acionadas diferentes áreas do cérebro que, como reação, manda estimular a produção de diferentes tipos de hormônios.

Ver e ouvir, assim como palpar, degustar e farejar, são operações mecânicas comuns a todos os animais. No homem como nos demais, a capacidade de intelecção do que se apreende pelos olhos, pelos ouvidos e pelos demais órgãos dos sentidos é inata e automática. Mas as sensações que elas produzem estão presas ao momento em que ocorrem.
Já a leitura e a capacidade de avaliação lógica são construções culturais que só podem ser adquiridas pela educação e aperfeiçoadas pelo uso continuado e pela acumulação de perspectiva histórica. Mas são elas que permitem ao homem escapar dos limites do presente e fazer projeções para o futuro.
É dessa diferença que vem a hierarquia dos sentidos na qual o que se vê (ouve, palpa, cheira ou degusta) pesa mais que aquilo que o raciocínio abstrato é capaz de construir para a composição do que cada indivíduo chama de realidade. Senão por precedência histórica, pelo fato de que os sentidos todo mundo nasce com e aos produtos da cultura só uns poucos têm acesso.
O problema central da democracia, ela mesmo um produto cultural, é que à universalização do direito de voto não correspondeu a universalização do direito à educação. E para agravá-lo ainda mais, o século 20 – o do rádio e da televisão – substituiu a imagem e a comunicação unidirecional ao texto e ao contato direto, bi-direcional, como elementos primordiais da relação entre governantes e governados. E essa primazia do espetáculo e da mensagem desbalanceada pelo contraditório (vulgo marketing), mesmo nos exíguos espaços do globo onde a força deixou de ser tudo que decide no campo da política, levou à progressiva substituição do cérebro pelos órgãos dos sentidos na mediação do contato entre eles.

A democracia, o governo da maioria, nunca se restabeleceu completamente dessa avassaladora invasão dos sentidos na sua seara.
Ainda que moral e coerência ética continuem sendo medidas de aferição da qualidade da ação humana, até pela falta de qualquer outra, é impossível detectar a sua presença ou a sua ausência pela simples intermediação das cinco ferramentas dos sentidos. Um comportamento imoral, isto é, onde ha conflito entre o que a razão de quem comunica tem como certo e honesto e o que a sua língua expressa, pode até revelar-se por sinais que os sentidos são capazes de captar. Mas isso sempre pode ser trabalhado pelo cinismo.
É aí que se abre o espaço para o político “ator”.
Já um comportamento amoral, esse não pode ser detectado nunca apenas pelos cinco sentidos. Porque uma amoralidade pode ser praticada ou afirmada com tanta e tão autênticas convicção e ausência de pudor quanto a mais indiscutível e acatada das verdades. E, assim, configurar-se como um ato de comunicação perfeito do ponto de vista televisivo.
Não sei se o Lula, que é movido por doses equivalentes de inteligência e instinto, já pensou em tudo isso com tanta minúcia. Mas que ele sabe que é isso que faz dele um fenômeno de comunicação, isso ele sabe.

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