A bolha da corrupção vai estourar na China?

20 de agosto de 2010 § 1 comentário

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A “bolha” imobiliária chinesa, filha

da corrupção, pode ser cinco vezes maior que a americana.

Ha boas lições para Lula nessa história

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Está tendo enorme repercussão entre gestores de grandes fundos de investimentos operando na China, sempre os primeiros a farejar o que vem vindo por aí para o mercado financeiro, a matéria escrita por Yi Xianrong, economista da Academia Chinesa de Ciências Sociais publicada no Diário do Povo, jornal oficial do Partido Comunista, afirmando que há 64,5 milhões de casas, apartamentos e condomínios desocupados na China, o que constituiria uma “bolha” cinco vezes maior que a dos Estados Unidos que desencadeou a crise mundial.

Ainda que a matéria tenha sido publicada apenas na edição internacional do jornal, o fato de um assunto com esse teor explosivo ter vindo a publico num órgão oficial do PCC atesta o grau de preocupação do governo com a “bolha” imobiliária chinesa e o nível a que chegaram as dissensões dentro do Politburo, que se prepara para alterações na cúpula do governo marcadas para 2012.

O artigo de Xianrong baseia-se nas medições da companhia chinesa de energia elétrica que informou que 64,5 milhões de novas residências em diversas cidades do país monitoradas ao longo dos últimos seis meses registraram consumo zero de energia. A pesquisa veio dar substancia técnica à observação empírica de analistas e empregados de multinacionais ocidentais na China que, para tentar avaliar a dimensão da “bolha” imobiliária de cuja existência se suspeita ha muito tempo, usavam o expediente de visitar à noite as áreas onde grandes condomínios vem sendo construídos e constatavam que apenas uma pequena parcela deles exibia luzes acesas nas janelas, embora os construtores confirmassem que em torno de 90% ou mais das unidades tinham sido vendidas.

Mas o maior “mistério” por trás desse achado – qual seja, a confirmação de um gigantesco excesso de oferta no setor imobiliário – é que ele está em frontal contradição com o constante aumento do preço das novas residências em toda a China, que se acelerou nos últimos meses a ponto de tornar proibitiva a compra da primeira residência pela esmagadora maioria da multidão de chineses que o boom econômico dos últimos anos tem empurrado para cima da linha do consumo de subsistência.

A explicação, como se verá logo adiante, é a desenfreada corrupção que se dissemina pelo país da qual a cadeia de valor da industria de construções é a grande alavanca motriz e onde a principal moeda de troca são os produtos dessa industria. Essa “economia paralela”, segundo cálculos muito bem substanciados, pode montar a 1/3 do PIB chinês.

A ponta desse iceberg que aflora para o chinês comum é o preço proibitivo dos imóveis que de fato chegam ao mercado, uma pequena parcela da massa dos que são construídos, constam nas estatísticas como “vendidos” mas nunca chegam a ser ocupados ou, sequer, oferecidos de fato ao mercado.

Segundo Yu Yonding, membro do Comitê de Política Monetária do Banco Central da China que escreveu outro artigo a respeito que circulou em meios restritos recentemente, a inflação na área imobiliária está provocando “um imenso ressentimento”, capaz de levar a manifestações publicas de insatisfação que podem degenerar naquilo que o governo mais teme: uma ruptura da paz social num pais onde ha centenas de milhões de trabalhadores insatisfeitos que não dispõem de canais institucionais por onde essa insatisfação possa se expressar, o que poderia levar a um processo incontrolável.

Segundo observadores ocidentais e gestores de empresas do Ocidente operando na China, a pressão por aumentos de salários, que está diretamente relacionada à inflação no setor imobiliário, não se confina às suas empresas mas, ao contrario, é ainda maior nas empresas do governo onde greves veladas vêm se repetindo com freqüência crescente. Os trabalhadores entram nas fábricas, batem o ponto, sentam-se em suas bancadas mas passam o dia inteiro sem se mexer. Ao fim do dia, batem novamente o ponto e saem disciplinadamente das fábricas.

Yonding dizia, a propósito, que as recentes medidas de contenção do crédito anunciadas pelo governo visam, antes de mais nada, forçar a queda do preço dos imóveis. Mas elas foram claramente insuficientes. A alta dos preços nos últimos dois meses apenas se deteve. Em Pequim o preço dos imóveis subiu nesse período apenas 0,2% depois de ter triplicado desde 2007, quando o processo inflacionário se acelerou, e se multiplicado por oito entre 2003 e 2007.

Xianrong considera que a ameaça de descontrole não estará afastada até que o preço dos imóveis caia 30%. E é nesse ponto que o Politburo se divide, diante de um quebra-cabeças de proporções nada menos que … chinesas.

Onde há funcionários do Estado com o poder de autorizar ou vetar negócios; de abrir e fechar porteiras para os bancos do Estado subsidiarem negócios privados que envolvem diretamente o Estado, lá estará a corrupção. Na China, como em toda parte, a corrupção tem o tamanho desse tipo de envolvimento do Estado na economia. E a China é a maior economia estatal do mundo…

A corrupção usa diversas moedas e canais indiretos de operação. Dinheiro em espécie, que deixa rastros, diz-se na China, “só para os trouxas”. Compra-se e vende-se gente, no varejo, com cupons de supermercados e das grandes lojas de departamentos e outras pequenas ninharias desviadas das empresas do governo. Mas nos círculos onde corre o grosso da economia subterrânea as ferramentas de operação envolvem toda a cadeia de valor da industria de construções. E aí os operadores são gente poderosa o suficiente para “embaçar” as tentativas de reação do governo central.

Se você quer entrar no grande jogo da corrupção na China”, diz um relatório do Greater China Fund, “compre um construtor chinês. E se quiser atuar na economia subterrânea da China, compre as propriedades que eles constroem”.

Um típico “capitalista de relacionamentos” como tantos que conhecemos, ungido por algum figurão do partido para operar nesse setor, o construtor terá de ter uma licença do Estado para executar cada um dos seus projetos. Uma vez ultrapassada essa porteira, pleiteará um financiamento de um banco do Estado para desenvolve-lo. Em seguida, terá de procurar uma instancia local de governo de quem comprará o terreno em que será edificado o seu projeto. Na China comuno-capitalista todas as terras “pertencem ao povo”. Assim, caberá a um “representante do povo” vende-las para cada projeto particular. E esta é a mais importante fonte de renda de todos os governos municipais da China. É a primeira grande ramificação que leva a têta a um numero maior de bocas: as da camada intermediária do Partido Comunista Chinês.

Uma grande parcela do que é construído ao fim dessa alegre corrida de obstáculos vai sendo distribuído por antecipação para pagar os porteiros de cada uma dessas porteiras. O que sobra, encalha num mercado onde não ha salários suficientes para pagar por imóveis com preços inchados pela escassez que resulta desse enorme ralo invisível, e acaba voltando para o banco que financiou o início da operação na forma de hipotecas.

Mas isso explica 64,5 milhões de imóveis vazios?!!

Um caso ilustrativo foi divulgado pelo Diário do Povo na mesma semana em que o artigo de Xianrong foi publicado. Hao Pengjun, ex funcionário na área de mineração na província de Shanxi, no Norte da China, pegou 20 anos de prisão em abril passado depois que foi pego com a mão em cima de 305 milhões de yuans sem origem. Quando começaram a investigá-lo mais a fundo, descobriram que ele era dono de 35 propriedades em Pequim, incluindo 17 em um único empreendimento imobiliário…

Essa é a mecânica do processo. Ainda que se desconte muito esse numero em função de possíveis imprecisões na forma encontrada para medi-lo, o que sobrar ainda será uma enormidade.

Um estudo do Crédit Suisse publicado recentemente pela China Reform Foundation calculou em US$ 1.4 trilhões, quase 30% do PIB chinês, o tamanho da renda não contabilizada (o dinheiro da corrupção) em circulação no país. O estudo foi feito ao longo de 2009 e se baseou em entrevistas com mais de 4 mil famílias em 64 cidades de 19 províncias. E o que ele encontrou foi uma renda média “por habitação” de 32.154 yuans, o que corresponde a 104% a mais que o numero oficial aferido em 2008, de 15.780 yuans. 20% das residências mais ricas concentram 81,35 do total da renda. Os 10% do topo dessa pirâmide fazem 139 mil yuans por ano, mais que o triplo do numero oficialmente admitido. Os 10% de baixo, 5.350 yuans, 13% a mais que o numero oficial.

Quando o poder do governo e o capital se unem”, escreve Wang Xiaolu da China Reform Foundation, “a livre competição passa a ser substituída por monopólios nas mãos de ‘capitalistas de relacionamentos’, o que leva a distorções na distribuição da renda e da propriedade, à continua perda de eficiência econômica e a conflitos sociais agudos”.

Até os chineses já sabem aquilo que Lula ainda haverá de aprender…

Deter esse processo, já se vê, não é apenas uma questão de monitoramento do crédito e de medidas macroeconômicas. A corrupção finca raízes profundas e engendra interesses poderosos. Ha um braço de ferro entre o governo central e todas as camadas intermediárias do Partido Comunista Chinês, que vivem do esquema de venda de terras publicas para os grandes incorporadores. Abaixo dessa “elite” ha uma multidão de abridores de porteiras, todos membros do partido único no poder, que tambem mordem o seu pedaço. E o lado mais sério do problema é que os municípios tiram mais de metade de sua arrecadação dessas vendas de terras.

Vai ser, portanto, uma luta entre o Partido Comunista Chinês e o Partido Comunista Chinês. E esta – lembrem-se de Tianamen – é uma batalha que o governo central não pode se permitir perder.

Como complicador do problema está a crescente consciência das autoridades chinesas de que índices anuais de crescimento de dois dígitos empurrados com crédito fácil são insustentáveis e que, num mundo mergulhado numa crise que dá mostras todos os dias de que vai durar bastante tempo, não será possível continuar mantendo esse ritmo apenas com investimentos estrangeiros e exportações. Mas como reduzir a velocidade num país onde esse ritmo de crescimento mantém as esperanças em pé e funciona como anestésico de expectativas não satisfeitas?

Não se espera nenhuma virada brusca ou movimento radical. Mas é certo que estão se aproximando alterações de rumo para empurrar a China na direção de apoiar seu crescimento no fortalecimento do seu mercado interno. E, seja qual for a velocidade estipulada, este será um parto carregado de dores pela vertente política.

Os efeitos dessa gestação para o resto do mundo serão igualmente dramáticos. De modo que é possível que esse processo, que começa pela necessidade da China enfrentar o seu problema de corrupção, acabe obrigando um Brasil igualmente sedado para esse tipo de “pormenor” pela embriaguez de um crescimento puxado pela fome de commodities da China, a também enfrentar o seu.

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