A arte de comer sem pagar – 1

11 de junho de 2012 § Leave a comment

Plus ça change, plus c’est la même chose.

Quanto mais a coisa muda, mais ela é a mesma coisa.

Na origem tudo deita raízes na grande encruzilhada “responsabilidade individual” ou “igualdade” (a qualquer custo) que, respectivamente, nas revoluções americana (1776) e francesa (1789) abriu as duas correntes ideológicas que até hoje dividem a humanidade. Mas o sentido da versão moderna dessa discussão é cada vez mais cruamente prático.

“Austeridade x crescimento” (hoje); “ortodoxos x heterodoxos” (anos 90); “monetaristas x estruturalistas” (anos 30); tudo são só arranjos diferentes da mesma musiquinha com que os eternos donos do poder distraem a platéia enquanto se exercitam na velha arte, de que nunca deixaram de ser os mestres, de passar adiante os micos que fabricam.

Na prática, traduz-se assim:

Na hora dos bonus: a cada um segundo o seu esforço e a sua capacidade ou a cada um segundo a sua “necessidade” (caso em que alguém de carne e osso, em nome do povo e da moral, decretará que ela é mínima e se arrogará o direito de decidir o que sera feito do excedente)?

Na hora dos onus: a cada um segundo a sua responsabilidade ou a todos indiscriminadamente, incluindo quem não participou da festa que gerou a conta a ser resgatada?

Qualquer que seja a resposta é certo que a conta não desaparecerá por milagre. Tudo que se pode mudar é a escolha de quem terá de pagá-la.

E aí – a História está de prova – a coisa varia pouco. Quem SEMPRE acaba pagando é quem não participou da festa.

Veja-se as variações em torno da crise da hora.

Nos Estados Unidos “a saída” foram as operações-gigantes de resgate de bancos e fundos “grandes demais para quebrar”, feitas à custa de emissão de moeda sem lastro.

Moeda sem quê?

É o seguinte:

Sendo ele o padrão mundial, imprimir mais dólares de papel representando a mesma riqueza (ou uma riqueza menor como, em geral, é o caso nessas horas) é decretar a redução, dólar por dólar, do valor de tudo que cada indivíduo ao redor do globo conquistou com o seu próprio suor.

Foi assim que você, eu, todos nós fomos constrangidos a pagar um pedaço da conta da festa do clube do bilhão la de Wall Street que, graças a isso, nunca teve de ser interrompida. Transferido o onus cá pra fora, lá dentro segue, impávida, a festança dos super bônus.

É a mesma coisa que a Europa falida quer fazer mas a que a Alemanha que não participou da festa ainda resiste. É a mesma coisa que Brasília sempre fez com o Brasil, com exceção do interregno acidental de Fernando Henrique Cardoso e sua Lei de Responsabilidade Fiscal.

Ou seja, o mundo virou uma espécie de Brasil dos anos 80…

E a China? Quem paga as contas da grande festa da China?

Como lá tudo é do mesmo dono, a corda dá a impressão de ser mais elastica. “Eu não te pago e você não me cobra e fica tudo em casa”.

Mas há uma ponta do sistema que está fincada além da Grande Muralha. E esta não é tão flexivel.

O dinheiro nada mais é, em última análise, que uma representação da quantidade de trabalho embutida num bem.

O remnibi não é um valor internacional. Mas o trabalho hoje é.

A China passa o seu mico – financia o oceânico rombo das suas contas – “emitindo” desvalorização do trabalho em escala planetária.

Exporta o seu desemprego; mata direitos trabalhistas e massacra salários pelo mundo afora. Apropriam-se da diferença (superávit comercial) com que compram longevidade para o seu reinado os príncipes e os barões do Partido Comunista Chinês.

O medo da Europa e o único antídoto possível

8 de maio de 2012 § 1 Comment

A França ainda é um rebelde racional.

Por 3,24% de diferença, trocou a meia direita pela meia esquerda.

Um luxo que se pode conceder somente quem ainda tem menos de 10% da população economicamente ativa desempregada.

A Grécia, com 22% e 1/4 dos anéis (cortes nos salários, aposentadorias e outros gastos do Estado) ainda por entregar, já votou francamente sob o signo do medo.

As correntes democráticas da política foram literalmente apedrejadas no berço da democracia; os incendiários da esquerda e da direita, incluindo os nazistas, foram carregados pela turba enfurecida até o limiar do poder.

Não é ainda o mergulho no ódio, mas é quase.

A Itália, em eleições locais, pende para a mesma direção da Grécia. E o que se poderá esperar da Espanha, com 24,4% de desemprego? De Portugal, com 15,3%? Dessa Europa com 17 milhões de desocupados e milhões de outros na fila do bilhete azul?

A fera enterrada desde 1945 sente o cheiro de sangue e começa a dar estremeções.

A imprensa ligeirinha, cabeça século 20, fala em vitória “do crescimento” sobre “a austeridade”.

Mas a Europa não está indo pelo ralo em função do erro no emprego de palavras mágicas. O caminho pela frente é íngreme e longo. O abismo é muito fundo e não ha espaço para brincar.

Não haverá o “novo começo” prometido nas campanhas eleitorais. A França não abandonará a liderança da Europa do euro dividida com a Alemanha para liderar a rebelião aberta da Europa do Sul.

Pelo menos por enquanto.

Desde a boca de urna, antes mesmo que fosse anunciado o resultado oficial, François Hollande já procurava os meios de continuar agindo racionalmente, composto com uma Ângela Merkel agora mais disposta a concessões cosméticas para não obrigá-lo a perder a face e deixá-la sozinha.

Mas eleições na Europa – em qualquer lugar da Europa – não poderão mudar nada de muito concreto a não ser para pior se o sofrimento chegar ao ponto de fazer com que o ódio ocupe definitivamente o espaço da racionalidade, como já se começa a ensaiar.

E este é o verdadeiro problema.

A crise é global. Não pode ser resolvida com aspirinas nacionais.

Não ha como deter a queda. Pode-se no máximo tentar regular a velocidade dela.

Recessão, desemprego, desmonte de benefícios sociais, a quebra de arrecadação (que enfraquece ainda mais a capacidade dos estados nacionais de proporcionar anestesias); tudo isso é efeito do processo de redistribuição da renda proporcionado pela chegada ao mercado agora planetário de trabalho dos bilhões de trabalhadores que, congelados pelo comunismo, pelo islamismo fanático, pelo caos africano, nunca tiveram direitos, nunca tiveram benefícios sociais, nunca tiveram emprego como isso é entendido no Ocidente.

Para esse lumpen do mundo, o morno “inferno” que ameaça os confortos de um francês, de um grego, de um americano parece o mais ameno dos céus.

Os vasos todos, de repente, passaram a ser “comunicantes” e, segundo a lei da física, todo o líquido que eles contêm procura, agora, o nível médio: sobe quem estava abaixo, desce quem estava acima da média mundial na escala do valor do trabalho.

Mas os europeus e os americanos em queda estão muito ocupados culpando-se uns aos outros para ver que o que os atinge não vem dos lados – direito ou esquerdo – vem de baixo.

O processo começou ha mais de 30 anos e foi chegando aos poucos. Seu efeito foi mascarado com overdoses de crédito, numa reação autoimune das economias mais abertas, como a dos Estados Unidos, e com overdoses de anestesias políticas e proteção social nas economias mais mediadas, como as europeias. Mas agora está aí de corpo inteiro. E veio para ficar.

A solidariedade não é mais uma opção altruísta; é um imperativo de sobrevivência.

A luz no fim do túnel só começará a bruxulear de novo quando cada francês, cada grego, cada americano se lembrar que suas ilhas antes inexpugnáveis estão neste nosso mesmo sofrido mundo e que os sinos estão dobrando por todos.

Só haverá direitos do trabalho de novo quando todos tivermos direitos do trabalho. Só haverá benefícios sociais quando todos tivermos benefícios sociais.

Os salários só subirão quando subirem para todos, ou os empregos continuarão saltando pra lá e pra cá, em busca dos miseráveis de ocasião.

Lutar eficazmente por mais direitos e melhores salários em Paris ou em Nova York hoje, é lutar, a partir de Nova York ou de Paris, por mais direitos e melhores salários em Pequim.

O poder do dinheiro, agora formalmente associado ao poder do Estado e livre de fronteiras, só recuará se todos os indivíduos de todas as ilhas se derem as mãos para enfrentá-los e impor-lhes limites.

Enquanto cada um continuar olhando somente para o próprio umbigo e querendo levar vantagem em tudo num mundo onde a alternativa é vencer ou morrer, não haverá espaço para a dignidade e todas as antigas conquistas da civilização continuarão sendo apenas “custos” a serem desbastados e devidamente apropriados pelos tubarões de sempre.

Uma “causa” para todo esse protesto – 2

18 de outubro de 2011 § Leave a comment

Ficou capenga o meu artigo de ontem sobre a ausência de foco das manifestações que se espalharam pelo mundo a partir do Occupy Wall Street iniciado em Nova York ha um mês.

Eu critiquei o artigo de Nouriel Roubini por mencionar como solução a situação ideal com que todo mundo sonha, muito ao estilo dos políticos brasileiros, mas sem dar nenhuma sugestão sobre como chegar lá.

Mas acabei fazendo a mesma coisa que ele. Fiquei apenas na enumeração daqueles entre os pleitos dos manifestantes que, ainda que muito justos, não são solução para o problema. E apenas indiquei que a solução não está no Ocidente, onde se acumulam as piores consequências do processo ora em curso no mundo, mas sim na Ásia, onde ele se origina.

Recordo a síntese de que processo é esse.

Ao jogar no mercado de trabalho 2,3 bilhões de novos braços pagos a preço vil, a China e a Índia (assim como os países menores que engrossam essa conta), aviltaram o valor do trabalho no mundo todo sem aumentar de forma correspondente o numero de consumidores porque o que esse novo contingente ganha mal dá para viver.

Há muito mais trabalhadores e cada vez menos demanda.

A única maneira de reequilibrar o quadro é ajudar esses trabalhadores a serem melhor remunerados o quanto antes porque a lei do mercado sempre acerta as contas por baixo. O consumidor compra o bem mais barato, que é o produzido pelo trabalhador mais mal pago, e assim os trabalhadores bem pagos, que é a outra identidade dos consumidores, acabam sendo expulsos do mercado. Disso resulta, ao longo do tempo, que todos os salários do mundo são rebaixados até encontrar o nível em que serão capazes de concorrer com os dos trabalhadores chineses e indianos.

Ora, salários baixos são, em última instância, sinônimo de falta de democracia. Quanto mais democracia, mais poder de reivindicação e mais direitos conquistados. O inverso também é verdadeiro. Só debaixo de pau é que se consegue segurar a insatisfação de quem se mata de trabalhar por nada ou, pior ainda, de quem fica sem emprego nenhum.

Logo, se quiserem manter os seus direitos, os seus salários e a sua democracia os trabalhadores do Ocidente terão de se organizar politicamente para ajudar a acelerar a libertação dos trabalhadores semi escravos da Ásia, boicotando o consumo do que eles produzem e trabalhando ativamente pelo aumento dos direitos e dos salários deles.

Impossível?

E quem diria que seria possível levar, em menos de um mês, uma manifestação local a se transformar numa manifestação global? Não são as próprias empresas ocidentais, ao alcance da pressão direta de seus conterrâneos, as que mais se servem desses trabalhadores semi-escravos da Ásia?

É o mundo aqui fora que terá de fazer campanha salarial pelos trabalhadores chineses e denunciar quem os explora no Ocidente para aumentar seus lucros. O empenho da China em censurar a internet, o que felizmente é tecnicamente impossível, não é outra coisa, aliás, senão uma confissão da vulnerabilidade que ela sente a campanhas de mobilização por mais direitos (= a mais salários) vindas de fora da sua “muralha” que ela sabe que, mais cedo ou mais tarde, começarão a acontecer.

É hora, portanto, de tratar de criar um foco para essa mobilização mundial que já se provou possível.

O caminho para isso é uma política comercial e uma atitude de consumo condicionadas a uma política de direitos humanos, nos níveis governamentais, e uma política sindical globalmente sincronizada para exigir a elevação do nível mínimo de direitos e salários ao menos nas industrias que fabricam bens de consumo global.

E a melhor contribuição que pode dar quem analisa profissionalmente esse problema é demonstrar exaustivamente o seu componente essencial, qual seja, o de que neste novo mundo sem fronteiras o salário do trabalhador de Nova York ou de Geneve, será determinado muito mais pelo que a Foxconn estiver pagando em Shenzhen do que por qualquer ação política cosmética ao alcance do presidente Obama, do Congresso dos Estados Unidos ou do comando da União Européia em Bruxelas.

Uma vez comprendido esse dado incontornável da realidade, o resto fica mais fácil.

Uma “causa” para todo esse protesto – 1

17 de outubro de 2011 § Leave a comment

Já não é mais Jim Stark nem Marlon Brando. O mundo virou um rebelde sem causa.

A vida imita a arte…

O site da Al Jazeera em inglês trazia, neste fim-de-semana, artigo bastante didático de Nouriel Roubini (aqui) sobre “a onda global de agitação política e social” na qual ele inclui “a Primavera Árabe, a onda de saques em Londres, os protestos da classe média de Israel contra a inflação e a deterioração do padrão de vida, os protestos dos estudantes chilenos, a onda de depredação de automóveis de luxo na Alemanha, o movimento contra a corrupção na India, a crescente insatisfação com a corrupção e a desigualdade na China e, agora, o movimento Occupy Wall Street que saltou de Nova York para o mundo”.

Para Roubini, o que eles têm em comum é que todos expressam, de alguma forma “a angustia das classes média e trabalhadora do mundo todo diante do que advém para elas da crescente concentração de poder e riqueza nas mãos das elites financeira e política, qual seja, o desemprego e o subemprego crescentes, a inadequação dos sistemas de educação da juventude para a realidade globalizada, o ressentimento generalizado contra a corrupção e o aprofundamento acelerado da desigualdade social”.

Ele é preciso, também, na identificação da causa essencial (ainda que não a considere a única) do processo que levou à crise.

“A súbita adição de 2,3 bilhões de trabalhadores chineses e indianos à força de trabalho global reduziu drasticamente o número de empregos para trabalhadores não especializados e levou à exportação dos empregos de nível médio dos países industrializados (o que reduziu a capacidade de consumo de uma ampla parcela da população). Nos países anglo saxões a resposta (dos políticos) foi democratizar o crédito (o que forçou o aumento da alavancagem financeira e eventualmente desencadeou a crise). Na Europa, o buraco entre as aspirações e a real capacidade de consumo foi preenchido com serviços públicos como educação e saúde (aposentadorias e redução da carga de trabalho) que não eram financiados pela real arrecadação, o que inflou o déficit publico”.

Roubini não chegou a mencionar o último e potencialmente mais perigoso elemento dessa equação que é o que o mundo está descobrindo agora. Não é só o Ocidente que está viciado em crédito barato direta ou indiretamente subsidiado pelo Estado. Também o crescimento chinês tem sido fortemente anabolizado por um nível de financiamento da produção e do consumo determinado por cálculos políticos e não sustentado por cálculos econômicos, com consequências semelhantes às que esse tipo de expediente teve no resto do mundo que agora começam a fugir ao controle do Partido Comunista Chinês.

Nada de muito diferente disso está acontecendo também, é bom lembrar, nos chamados BRICs ou, pelo menos, no primeiro inspirador da sigla, o Brasil de Lula, onde a sustentação do crescimento também tem sido feita à força de facilitação do crédito para consumo por iniciativa do governo, sobretudo nos períodos pré-eleitorais. A diferença, no caso brasileiro, é que, ao contrário do que aconteceu na Europa e nos Estados Unidos, os governos petistas partiram de uma situação em que os bancos estavam completamente saneados e sob rígido controle da fiscalização, tudo obtido pelos sempre apedrejados PROER e ajuste das finanças do Estado executados pelo antecessor do PT na presidência, às custas da mesma (inevitável) “década perdida” que agora se inicia para os países centrais.

O que eles podem aprender de útil com o Brasil, portanto, é como sanear as finanças públicas e colocar o sistema financeiro sob controles confiáveis e não como por em risco esse patrimônio inestimável decretando que a vontade pessoal dos governantes está acima das leis da aritmética e gastando tanto mais quanto mais se aprofundar o buraco da dívida pública como a nossa Dilma tem recomendado que façam aos seus incrédulos ouvintes pelo mundo afora.

Roubini, entretanto, é muito preciso na descrição do passado mas pouco criativo na especulação sobre o futuro.

Com a redução geral do poder de compra, as empresas das economias avançadas estão, agora, cortando empregos para ajustar a oferta. Mas cortar empregos enfraquece a demanda futura porque reduz a renda e aumenta a desigualdade. E como o trabalho, que é custo para as empresas, é renda para os consumidores, aquilo que parece racional para cada empresa individualmente é destrutivo quando olhado em conjunto”.

(…)

Para estabilizar as economias de mercado será necessário voltar a um balanceamento adequado entre os mercados e a oferta de benefícios públicos. O que quer dizer afastarmo-nos tanto do modelo anglo saxão de mercados sem regulamentação quanto do modelo baseado no endividamento público da Europa Continental. Mesmo a alternativa asiática de crescimento – se é que existe uma – não conseguiu evitar o crescimento da desigualdade na China, na Índia e onde mais esteja em desenvolvimento”.

Va benne

Só que para fazer as coisas se moverem não adianta dizer onde se gostaria de chegar. É preciso mostrar como é que se chega lá.

Como quase todo mundo que tem abordado essa charada no Ocidente, Roubini, do meio para o final de seu artigo, deixa-se arrastar para a discussão ideológica em torno do problema. E os debates ideológicos não são travados em torno da questão “como resolver um problema?” mas sim em torno de “como explorar as consequências de um problema para se afirmar no poder?“, seja ele o poder político, seja o da disputa pela hegemonia de uma linha teórica sobre outra nos arraiais intelectuais.

Logo, vamos ao que interessa:

Sim, a adição de 2,3 bilhões de novos braços a uma força global de trabalho que antes não contava nem um terço desse total – adição da qual as novas tecnologias de comunicação foram o veículo – tem necessariamente de provocar a diluição que provocou.

Fixar os olhos nesse dado fundamental já é um grande passo na direção de buscar o foco sem o qual a mais ampla mobilização popular de que o mundo tem notícia em muitos anos não deixará de ser o que é por enquanto: apenas um desperdício barulhento.

É preciso, agora, identificar com precisão o que de fato é capaz de mitigar os efeitos dessa diluição.

  1.  A taxação progressiva da riqueza, penalizando proporcionalmente mais os mais ricos não vai resolvê-lo. Vai apenas tornar menos injusta a repartição das perdas que todos continuaremos a sofrer. É uma satisfação obrigatória que precisa ser dada rapidamente à ponta dos que mais estão sofrendo com a crise para que ela não degenere em espasmos de ódio sem controle. Mas não é a solução do problema.
  2. Mesmo sendo urgentemente necessária, pelas mesmas razões acima e mais algumas, a reorganização dos controles do sistema  financeiro internacional também não será suficiente para reverter a crise. Se não bastasse a enormidade do numero referido – 2,3 bilhões de novos bolsos dividindo o mesmo bolo salarial – sobram as evidências de que o principal fator a determinar o crescimento em mestástese do peso do setor financeiro nas economias ocidentais foram os 30 anos de fusões e aquisições no setor de manufaturas e empresas em geral em todo o planeta de que ele foi apenas o agente operacional, ainda que regiamente remunerado.
  3. Essa onda de fusões e aquisições conduzindo a uma acelerada monopolização em todos os setores da produção e, portanto, a um processo de concentração aguda da riqueza e a um aumento avassalador da corrupção, por sua vez, ocorreu não em função de uma conspiração política ou de maquinações dos donos do dinheiro, mas como reação à entrada em cena do capitalismo de Estado chinês que, com a sua ação planetária de dumping salarial e monetário, tomou de assalto todos os consumidores do mundo inteiro.
  4. Tendo a economia planetária se tornado uma só e um sistema vazo comunicante, não ha como reverter esse processo de monopolização que, inevitavelmente e por definição massacra o consumidor e o trabalhador assalariado, a não ser que todas as economias de peso do mundo concordem em revertê-lo ao mesmo tempo. Quem tomar essa iniciativa sozinho será inapelavelmente excluído do mercado.
  5. A maior de todas as distorções do sistema hoje é a concentração de todos os ganhos nesse processo principalmente nas mãos do Estado chinês que já não sabe o que fazer com tanto dinheiro. Enquanto os 2,3 bilhões de trabalhadores que entraram no mercado não se tornarem consumidores (isto é, não tiverem seus salários e direitos igualados aos do resto do mundo) não será quebrado o círculo vicioso descrito por Roubini (“menos consumo levando a menos produção, menos produção levando a menos empregos e salários, menos salários levando a menos consumo…“). O processo terá de começar de novo a partir do ponto a que foi rebaixado com a entrada em cena dos 2,3 bilhões de novos trabalhadores. 
  6. Nenhum governo ou partido político do mundo poderá mudar nada de significativo nessa nova realidade sozinho. Se tivermos de esperar que todos os que estão atualmente no poder caiam por força dessa circunstância, os que estão na oposição subam e por sua vez fracassem nas suas tentativas solitárias, até que o mundo se convença de que o buraco é mais embaixo, ele já poderá estar tão fundo que não haverá mais como sair dele.
  7. Não ha como evitar a abordagem ideológica entre os profissionais do poder. Mas se ao menos a grande imprensa internacional voltasse a ter um mínimo de autonomia intelectual e voz própria como já teve no passado em vez de apenas amplificar as vozes dos que se digladiam pelo poder como tem feito até aqui, haveria ao menos um discurso objetivo e desinteressado em torno desse problema.

Isso poderia contribuir para que a força desse gigantesco protesto mundial ainda sem rumo se concentrasse sobre o alvo certo e a libertação dos trabalhadores da Ásia (ou das ásias do mundo) poderia ser acelerada.

Sem ela, não nos salvamos. Doravante é assim: ou crescemos ou empobrecemos todos juntos, dando-se o “estouro” de cada parcela nacional do todo da economia global com uma diferença apenas de meses.

O resto é embromação para enganar eleitor.

O buraco é mesmo mais embaixo…

7 de janeiro de 2011 § 1 Comment

Os números decepcionantes sobre o desemprego publicados hoje nos Estados Unidos confirmam a tendência apontada aqui no Vespeiro no primeiro artigo publicado em 2011 (“A exclusão dos ricos”).

Apenas 103 mil empregos novos foram criados o que levou o nível de desemprego de 9,8% em dezembro passado para 9,4% este mês. Esse numero (103 mil), salientam os técnicos da secretaria do Trabalho não explica toda a queda percentual no desemprego. Boa parte dela se deve ao fato de um numero recorde de desempregados ter abandonado definitivamente a força de trabalho. O que diminuiu mais foi a base de comparação.

Mas o que há de muito grave nesse dado é que ele está sendo colhido ao fim do trimestre mais lucrativo da história das grandes corporações americanas desde que a Bloomberg passou a medir esse índice em 1992.

No quarto trimestre de 2010 as grandes empresas americanas ultrapassaram, na média, os 20% de margem de lucro. A Apple, que usei como exemplo no artigo citado, teve um crescimento de faturamento nesse trimestre de 47%. O nível de liquidez dessas grandes corporações (caixa menos dividas) no terceiro trimestre de 2010, o ultimo numero conhecido, tinha subido 7,3% alcançando a fantástica soma de US$ 1,9 trilhão. A relação dividas x disponibilidade de caixa é a melhor registrada nas empresas americanas desde 1956.

E, no entanto, a oferta de emprego dentro dos Estados Unidos não se movimenta de forma nem remotamente proporcional.

Por que?

Porque esses gigantes multinacionais estão empregando e vendendo muito mais fora do que dentro dos EUA. Pagam menos por trabalhadores não-americanos pelo mundo afora enquanto, em casa, se beneficiam das únicas medidas que o governo local, em sua impotência, pode tomar para não ser acusado de ficar inerte diante da crise, medidas estas que não tocam a causa estrutural da crise doméstica, consequência direta da globalização dos mercados de trabalho e de consumo.

As ações de ajuda do governo a setores da produção e os juros próximos de zero, para citar apenas os de impacto mais direto sobre os lucros desses gigantes, anabolizam fortemente o seu desempenho financeiro. Mas, além de enriquecer seus proprietários em níveis que agravam a disparidade de renda como nunca antes na história dos EUA, esses lucros aumentados não irrigam de forma proporcional o mercado de trabalho e, consequentemente, o consumo interno.

Como mostrei no artigo citado, dos US$ 179 que o consumidor americano paga por um iPhone, o presente de Natal mais vendido no ano passado, apenas US$ 11 ficam nos EUA. Os US$ 168 restantes vão parar nos bolsos de trabalhadores asiáticos de diversos paises que fabricam seus componentes ou montam os conjuntos.

Como sempre acontece, a crise afeta de modo desproporcional os diferentes grupos da sociedade americana. O lunpem, hoje, é a comunidade hispânica, onde o desemprego chega a 32,2% (15,8% entre os trabalhadores negros e 8,5% entre os brancos).

A previsão de que as coisas tendem a piorar antes de melhorar tambem parece se confirmar. Pelos dados do Fed (o Banco Central dos EUA), mais 7,4 milhões de residencias hipotecadas deverão ser fechadas e entregues aos credores até 2012.

Where Am I?

You are currently browsing entries tagged with desemprego at VESPEIRO.