Como sair desse buraco
17 de junho de 2015 § 97 Comentários
Artigo para O Estado de S. Paulo de 17/06/2015
O que assusta mais é a desproporção entre a quantidade e a qualidade do alarme e o tamanho do desastre. A unanimidade dessa alienação é inquietante. A fronteira hoje é o mundo e já passamos longe o limite a partir do qual não se cabe mais no mercado global. Os tempos dos verbos em uso em Brasília estão defasados. Não é que a conta vai estourar. A conta já estourou. A indústria nacional já está cataléptica. Ninguém – fora os barões do BNDES – consegue andar com as próprias pernas. Os empregos estão sumindo em velocidade vertiginosa. A inflação que se vê é só a primeira onda do tsunami que vem vindo.
O estado tende geneticamente ao absolutismo e democracia é a única barreira capaz de impedi-lo de ocupar todos os espaços. Nos períodos de imunodepressão institucional — quando a “razão de estado” impõe-se sobre os direitos individuais e os demais poderes são avassalados pelo Executivo – o estado incha, a segurança jurídica acaba, a produção e o emprego minguam e a inflação dispara.
Já vimos esse filme. O estado brasileiro saiu do regime militar maior que nunca e, como consequência, a desorganização da economia foi ao paroxismo, passando dos 80% de inflação ao mês. Mas havia, então – ao menos na imprensa – a consciência de que era disso que se tratava e nenhuma barreira auto-imposta à crítica do regime. Graças a isso, apesar da feroz oposição do PT à desmontagem da obra econômica da ditadura com as 540 estatais que o partido tratava de colonizar, foi possível fazer a estatização recuar até o ponto a que a trouxe o governo FHC.
Trinta anos de progressiva ocupação do sistema educacional e dos “meios de difusão ideológica da burguesia” por um discurso único eficiente o bastante para, na contramão do mundo, “criar mercado” para 30 e tantos partidos políticos, todos “de esquerda”, e ao fim de outros 12 de ódio ao mérito, truculência regulatória, agressões à aritmética e aparelhamento do estado e até da economia “privada” para “um projeto de poder hegemônico“, o fosso que se havia estreitado ganha as proporções de uma falha tectônica.
O efeito prático é essa combinação aberrante: apesar da renda per capita de Brasília, onde nada é produzido, ter passado a ser o dobro da do Brasil e 1/3 maior que a de São Paulo, síntese precisa do sistema de castas em que nos transformamos, os temas do tamanho do estado, da privatização, do privilégio e da desigualdade perante a lei estão quase completamente ausentes do debate; tudo que se discute é como o “ajuste” vai tomar mais do país para dar mais ao estado.
Para que a trajetória volte a ser ascendente é o contrário que tem de acontecer. Será preciso recuar até o ponto anterior àquele em que a economia parasitária passou a consumir mais do que a economia produtiva é capaz de repor. A questão é que o PT não é hoje muito mais que a representação política dos “servidores” do estado de modo que reduzir o tamanho do estado significa reduzir o tamanho do PT (e de todos os “caronas” que, até segunda ordem, ele admite carregar na boléia da “governabilidade”). O tema oficial do 5º Congresso Nacional do PT – “Um partido para tempos de guerra” – nos dizia do grau de mobilização dessa casta na defesa dos seus privilégios. O tom só abrandou porque ninguém está desafiando o status quo. Mas a impossibilidade matemática de mantê-lo e ao mesmo tempo evitar o desastre econômico e a conflagração social que vem com ele não é um bom presságio para a democracia no Brasil.
Mesmo assim, nem imprensa, nem “oposição” parecem se dar conta disso.
Nas votações da única parte do “ajuste” em que as propostas reuniam o legalmente possível ao justo e ao desejável, com ligeiro constrangimento do desperdício no setor público, o PSDB, fiel depositário de metade das esperanças da nação, simplesmente oficializou a sua condição de não existência. Renegou bandeiras históricas para assumir-se como nada mais que a imagem invertida do PT. Tudo que tem a propor como alternativa ao que está aí é que seja ele a presidir a festa.
A reforma política, sem a qual não há esperança de romper a blindagem que veda qualquer forma de redução do peso do estado, é outro atoleiro. Sempre que pressionados os políticos sentem-se confortáveis para jogar na arena as surradas “propostas do costume” pela simples razão de que nem os mais agressivos “cães bravios” do nosso “jornalismo watchdog” resistem a esses “biscoitinhos”. “Fim da reeleição” em pleno início de um quarto mandato por interposte pessoa? “Financiamento de campanha” em face de uma economia nacional inteira destruída para comprar votos? Mais leis anti-corrupção no país dos foros especiais? Enquanto os eruditos da irrelevância se distraem debatendo infindavelmente o que quer que se lhes atire, os “jabutis” que aumentam o tamanho do problema passam ao largo gargalhando.
Ao fim de cinco séculos levando com a porta das reformas na cara sem conseguir iniciar uma que fosse, já era tempo de aprendermos que pouco importam as firulas e as beiradinhas conceituais desses preciosismos em que adoramos nos dividir e nos perder, o que é imprescindível é abrir finalmente essa porta e mantê-la aberta daí por diante.
É do mais elementar bom senso e da experiência pessoal de todos nós a noção de que, em qualquer estrutura hierárquica, manda quem tem o poder de contratar e demitir; manda quem tem a prerrogativa da última palavra nas discussões.
O Brasil terá de se reconstruir de alto a baixo para voltar a caber na arena global. E não há “pacote” de reformas que possa incluir tudo que é necessário para tanto. As mudanças terão de se dar num processo, ou seja, num movimento que começa e não se detém mais.
É exatamente isso que proporciona o sistema de voto distrital com recall, a reforma em que são os eleitores que mandam, que começa e não acaba nunca e que, sendo assim, inclui todas as outras.
TUDO SOBRE VOTO DISTRITAL COM RECALL
COMO O POVO CONTROLA O JUDICIÁRIO NOS EUA
Fidel, Pinochet y otras cositas mas
22 de agosto de 2013 § 7 Comentários
Blá, blá, blá, e pau! Foi…
Vão enfiar 4 mil “médicos” cubanos no Norte e no Nordeste, os bastiões que o PT ainda segura bem a golpes de “bolsas”. O salário vai ser pago diretamente ao governo cubano o que formal e precisamente caracteriza “trabalho escravo” na legislação brasileira, tipificação de crime que, em grande parte é obra do PT. Quem será que vai mandar nesses caras, o Ministério da Saúde ou os velhotes lá de Cuba a quem eles terão de estender a mão todos os meses pra recuperar um pedacinho do que estaremos lhes pagando?
Agora, divertido mesmo é imaginar o que faria o PT se o governo brasileiro da época resolvesse importar médicos chilenos e pagar o salário deles ao general Pinochet…
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O PMDB atua em relação aos governos que “apoia” (e ele apoia rigorosamente todos) com a mesma abordagem de um especulador profissional da Bolsa. Não lhe interessa a mínima se o governo ou o país estão indo para cima ou despencando para o inferno. Tudo que ele tem a fazer é colocar-se sempre na contramão de modo a ganhar tanto “na alta” quanto “na baixa”.
Dilma enfraqueceu? A economia vai mal? Ameaça ficar fora de controle?
Ótimo! Toca ameaçar derrubar os vetos da Presidência que podem agravar essa situação. Chove dinheiro! (As emendas parlamentares saltaram de R$ 1,4 bilhão nos sete meses anteriores para R$ 1,2 bilhão nos primeiros nove dias de agosto).
O PT elegeu um “poste“? É preciso fincá-lo forte?
Ótimo! Quanto foi que custou a maré de alta até aquele pico de mais de 70%?
Pra frente ou pra trás, o PMDB “se enche” sempre, e tanto mais quanto maiores forem as oscilações. Sobretudo se bastantes para por o país em pânico.
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Flagraram o Renan comprando uma casa de R$ 2 milhões em Brasília. Salário de senador, é claro, não dá pra isso e nós estamos carecas de saber que não é atrás dele que corre quem se lança àquelas alturas. Mas cabe especular: será que ele já está gastando por conta da “supersafra” de desgraças?
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Desde que se iniciou a sequência de marolinhas vindas da expectativa de mudança da política de expansão monetária dos Estados Unidos, por aqui é um tsunami atrás do outro.
Fomos, em ritmo de cavalo-de-pau, do dedo na cara do mundo para o dedo no…
O real foi a moeda que mais se desvalorizou no planeta, o que vale dizer que o governo do PT é, neste momento, o mais desacreditado do mundo.
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O crescimento do emprego está minguando em todos os setores da economia. Nas capitais já está andando 11 mil pra trás pela primeira vez desde 2003.
No comércio, onde a situação é a pior de todas, as contratações decresceram 93%.
A agricultura, onde governo não chega, é como sempre quem segura as pontas. Ainda está contratando forte.
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Na contramão, continuam crescendo exponencialmente os gatos de dólares por brasileiros no exterior.
Não vai parar.
A camada mais alta da “nova classe média” descobriu, lá fora, quanto custa essa nossa tão festejada malandragem; esse sistema de corrupção socializada onde não ha quem não desfrute – pessoa, categoria ou classe – de pelo menos um privilegiozinho concedido por algum político.
Tudo, lá em Nova York ou Miami onde não tem privilégio nem “legislação super avançada” pra “beneficiar” ninguém, do luxo ao lixo, custa 1/3 do que custa aqui. De modo que o dolar pode subir tres vezes antes que começe a ser mau negócio comprar lá e não aqui.
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O “bolsa-empresário” do BNDES dividido entre aquela dúzia e meia de “campeões nacionais” escolhidos a dedo entre os amigos do presidente custa, entre subsídios e custos das dívidas que os sustentam, 24 bi por ano, exatamente o mesmo que custa a “bolsa família”, dividida entre 11 milhões de lares com uma média de quatro miseráveis em cada um.
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Não dá mais pra segurar. Ou a gasolina sobe ou a Petrobrás explode. Daqui a pouco o povo vai ter de pagar pra se livrar do carro que ganhou da Dilma.
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E no meio desse tiroteio todo só mesmo a nossa boa Marta Suplicy, vanguarda do proletariado e da libertação sexual, continua impávida, zelando pelos interesses nacionais. Ela acaba de liberar R$ 2,8 milhões da Lei Rouanet de apoio à cultura para o estilista Pedro Lourenço fazer desfiles de moda em Paris.
“Isso fortalece a imagem do Brasil no exterior”.
Encara a tua doença, Brasil!
13 de junho de 2013 § 5 Comentários
Ao fim de seis anos de furiosa torcida pelo declínio e morte da “democracia burguesa” e de incontáveis milhares de quilômetros de palavras justapostas para vaticinar a “irreversível decadência americana”, é para lá que corre o dinheiro do mundo em busca de um abrigo seguro enquanto se vão acumulando, um por um, os fatos que indicam que, mais uma vez, serão eles que sairão da crise reformados e mais fortes enquanto o resto do mundo – a velha Europa Latina e seus rebentos d’além mar em especial – seguem atolados no brejo de sempre.
Choverá todo tipo de amarga “denúncia” para tirar-lhe o mérito do feito acompanhadas das acusações do costume sobre como o “Império” impõe aos outros os ônus da abundância de que desfruta, mas o fato que a História sempre reafirma e que a plêiade dos países grandes ou pequenos, ricos ou miseráveis de recursos naturais que adotaram o modelo americano de democracia confirma, é que o que determina o sucesso ou o fracasso das sociedades no campo econômico (e não só nele) é a qualidade do sistema político que elas constroem.
A democracia americana não admite poder ou dinheiro que não seja fruto do mérito, e foi concebida para aperfeiçoar-se constantemente. Se não é isso, 100%, o que obtém, é o que continua perseguindo com afinco. E isso faz toda a diferença.

Com um mínimo de regras básicas “imexíveis” e a da igualdade perante a lei como a mais sagrada entre todas, o sistema é absolutamente flexível, podendo reformular-se à vontade para adaptar-se a toda e qualquer circunstância.
O jogo lá é fluido e as vitórias e derrotas se alternam segundo a capacidade de cada um sem que seja necessário alterar as regras fundamentais.
Já entre os que vivemos desde os tempos das caravelas em “economias de conquista”, colhendo sem ter plantado, de preferência à “economia de produção” onde a riqueza tem de ser criada pelo esforço, cada vitoriazinha transforma-se num novo “direito adquirido” inscrito na lei ou até na Constituição que “O Sistema” passará a garantir em seus tribunais onde nenhuma regra é clara e nenhum processo tem prazo para terminar.
Pulverizadas nesses arquipélagos de interesses mesquinhos, com cada grupelho agarrado ao seu pequeno privilégio e dependente de um poder concedente que, para continuar a garanti-lo, precisa voltar a eleger-se, essas sociedades não conseguem mais identificar qualquer coisa que se possa definir como de interesse coletivo.
Constituídas de ilhotas sem comunicação umas com as outras, sua representação política é igualmente pulverizada entre traficantes de privilégios cujo negócio é criar e depois zelar por interesses particulares em troca de votos.
Nossos 30 ou 40 partidos políticos (lá sabe alguém quantos eles são hoje em dia?), cada um, por sua vez, dividido em “tendências” correspondentes ao número dos indivíduos que o integram, representam fielmente o que eles próprios fizeram de nós aqui fora.
Eles nos representam ou nós é que os representamos? É uma estranha inversão…
Perdido nesse cipoal com incontáveis pontos de enraizamento que a tudo amarram e onde nenhum membro do corpo social pode movimentar-se livremente, todo súdito de tais arapucas consciente da sua finitude logo perde qualquer esperança de mudar as coisas antes que a morte o colha, por mais longevo que seja, restando-lhe, assim, a única alternativa existente: a de conformar-se com ser explorado ou a de transformar-se ele próprio em explorador.
No Brasil do passado o sonho do escravo era sair do eito para a Casa Grande ou transformar-se, ele próprio, no feitor. No Brasil de hoje, o sonho do contribuinte explorado é entrar para o serviço público; o do achacado, tornar-se achacador; o do opositor chutado de casuísmo em casuísmo, passar à “Situação” que distribui as botinadas a torto e a direito e está dispensada de seguir as leis que edita com o único propósito de perenizar-se no poder.

O sistema ajusta-se à nomenclatura e aos limites internacionalmente aceitos de seu tempo, enfim, mas não muda essencialmente nem um milímetro.
Nem o refinamento formal é capaz de dobrá-lo. O esforço de cercear suas manifestações sem alterar a essência da sua natureza acaba sempre na recriação da relação explorados/exploradores, ainda que sob formatos menos evidentes. Como o da Europa Latina de hoje onde, vedadas as formas mais explícitas de tempos idos, ela ressurge nesta última versão que aí está em que uma geração de hedonistas preguiçosos explora a geração seguinte porque esta não tem representação política suficiente para defender-se.
E lá está aquele triste espetáculo de pais aferrados aos seus pequenos confortos e privilégios sacando contra o futuro de seus filhos, não por acaso desempregados e jogados ao deus dará.
Não ha alternativa nem meio termo, brasileiros! Ou é a servidão, ou é o mérito.
E nada de desanimar porque a primeira condição para a cura é reconhecer-se doente e entender a natureza do mal que o aflige.
Utopias cibernéticas e outras ilusões de noiva
6 de agosto de 2012 § Deixe um comentário
Em plena era do “mundo em rede“, enquanto os arautos da utopia global saúdam o Terceiro Milênio como o portal de um novo tempo de liberdade e transparência, o futuro visível da humanidade começa a ser decidido numa reunião secreta de 9 pessoas de uma entidade que não se pauta por nenhuma regra conhecida ou publicada dentro de um quarteirão murado de um longínquo balneário no litoral chinês.
É lá que será decidida a sucessão dentro do órgão máximo de decisão da China e, em função dela, a velocidade em que passará a andar a claudicante economia mundial.
Se ha uma ilustração poderosa das contradições e ilusões que o rompimento de novas fronteiras tecnológicas põe em campo, esta é das mais eloquentes.
As minorias ilustradas e “conectadas” que, em diferentes países da região, protagonizaram a Primavera Árabe estão sentindo na carne o amargo despertar da ilusão vivida ha um ano e meio de que a graça alcançada de “poder falar” que lhes coube como efeito colateral do milagre das novas tecnologias, bastaria para transformar minorias em maiorias ou para igualar às suas, tomadas de culturas exóticas, as expectativas e horizontes sedimentados por milênios de isolamento e servidão das massas miseráveis dos seus compatriotas que agora ameaçam empurrar os países “libertados” de ditaduras laicas para ditaduras religiosas.
Assim com o resto do mundo.
As novas tecnologias tornaram-no menor. Ficou mais difícil manter o isolamento.
Mas o que não estava suficientemente percebido é que era à numericamente insignificante minoria politicamente civilizada – ou quase – que esse isolamento favorecia, e não o contrário.
Tudo ficou mais perto, sim, mas como sempre primeiro para os tubarões.
E aí está o mundo do trabalho com direitos, com proteção social, com tribunais; aí está o mundo que respeita minorias, põe a lei acima da força e tem a liberdade como um valor indiscutível, desarvorado, em pânico com a dissolução das suas conquistas no grande oceano dos sem nada, dos que trabalham por migalhas debaixo de pau e agradecem aos céus por isso, predando seus mercados, transformando seus direitos em luxos insustentáveis, arrastando para baixo os que sonhavam que bastaria abrir as comportas para que todos viessem para cima.
Beidaihe, o balneário preferido da nomenklatura chinesa, posto em verdadeiro estado de sítio para que nunca se chegue a saber como nem porque foram tomadas as decisões que vierem a ser anunciadas ao fim desse misterioso evento, tem sido o retiro de verão de gerações sucessivas dos poderosos da nova dinastia que tomou a China a partir de 1949.
A cidade em torno do quarteirão murado de três quilômetros a beira-mar, feito versão moderna da Cidade Proibida dos imperadores em Pequim, está paralisada desde sexta-feira quando chegaram em seus carros pretos de janelas escuras, os membros quase desconhecidos do Comitê Central do Politburo do Partido Comunista Chinês para começar a discutir a sucessão dos nove membros do órgão que tem poder de vida e morte sobre 1/5 da população da Terra e de regular a velocidade daquela que, com a unificação global dos mercados, se tornou o motor de uma economia mundial por isso mesmo em crise.
À distância – e com tanta precisão quanto a que se podia esperar dos oráculos do passado ancestral – os jornalistas mais bem equipados do mundo, sem wi-fi, tentam captar os sinais cifrados que os ajudem a antecipar o que poderá sair de trás daqueles muros.
“Teoricamente todos os membros da liderança do Partido Comunista Chinês são eleitos pelos membros do Comitê Central“, lembram estudiosos do labirinto chinês citados pela imprensa inglesa, “mas na verdade o sistema funciona muito mais de cima para baixo do que o contrário, mesmo nesse círculo restrito. O secretário geral do partido ainda tem força para impor a maior parte das suas decisões“.
E, sendo assim, a tendência darwiniana é, salvo acidentes de percurso, que ele garanta a perpetuação da sua própria genética política.
A expectativa é, portanto, a de que prevaleçam as escolhas do premier Hu Jintao, tido como um “liberal” pelos padrões chineses, expectativa esta que se sustenta em um único acontecimento, ou num acontecimento e meio, de acordo com os mais otimistas.
Foram eles o expurgo, em maio passado, de um membro do comitê central, Bo Xilai, tido como um “linha dura” acusado de ensaiar namoros com as massas em vez de conchavos com seus pares para subir na hierarquia do partido e, mais recentemente, a nomeação de outro conhecido “liberal” para o mais alto cargo da hierarquia militar, onde se abriga a ala mais forte da resistência à continuação da “ocidentalização” da economia chinesa, “ocidentalização” esta que, como o mundo sabe melhor hoje, é mais de fachada que de fato.
Se tudo der certo pouco mudará, é pelo que se torce mais do que o que se sabe aqui fora.
Mas os sinais que vêm de dentro da China são de que é preciso haver mudanças, mas ninguém sabe bem quais, nem como promovê-las sem que o circo pegue fogo.
De certo mesmo, nesta nova era da “economia do conhecimento“, restam-nos os sinais de que o que antes levava cem anos para acontecer, agora leva menos de 10. Fica por decidir se tal multiplicação de velocidade se dará no sentido ascendente ou descendente. Ou, se quisermos ser otimistas, quanto ainda teremos de descer antes que a orientação geral do todo vire para cima de novo.
A arte de comer sem pagar – 2
11 de junho de 2012 § Deixe um comentário
Comecei a escrever A arte de comer sem pagar – 1 na sexta-feira entre os feriados. Tentei engatar, no final, a idéia de que a China exporta tembém o seu modelo econômico concentrador e monopolista e isso predispõe o Ocidente para outras distorções e crises, mas logo vi que seriam idéias demais para espaço de menos.
Domingo o artigo de Pedro Malan para O Estado de S. Paulo (aqui) veio me ajudar.
A frase do ex-presidente do Conselho de Ministros da Fazenda da União Européia com que ele abre seu texto explica tudo:
“Não é que as lideranças políticas europeias não saibam o que fazer; o que elas não sabem é como se reeleger, depois de tentarem fazer o que precisa ser feito“.
Retomo, então, de onde parei no artigo anterior:
A China não exporta só o seu desemprego e o seu padrão de remuneração do trabalho. Desde que o processo começou (e já lá vão uns bons 30 anos desde o início da globalização como função da revolução da informática) ela vem exportando também o seu modelo econômico concentrador e monopolista, uma vez que, para competir com a escala de produção dos seus monopólios servidos por quase escravos, só criando monopólios servidos por quase escravos do lado de cá também, via o tsunami de fusões e aquisições que, ha décadas, vêm inflando desmedidamente o setor financeiro.
Isso inicia um processo de causação circular cumulativo, outro conceito de que Malan trata em seu artigo (ainda que em um contexto diferente).
As empresas tornam-se “grandes demais para quebrar” e os governos, diante da ameaça de crise social como função do desemprego que seria criado pela falência de uma delas (ou até de banimento da democracia por eleitores revoltados, como acontece agora na periferia da Europa), entram com as operações de resgate financeiro (com emissão de moeda), o que acaba realimentando a irrresponsabilidade dos gestores dessas empresas (moral hazard) e preparando o terreno para novas crises.
Esse conluio cada vez mais íntimo entre governos e empresas privadas das quais eles vão se tornando sócios-proprietários, vai rebaixando a função fiscalizadora de uns sobre as outras ficando os assalariados/consumidores cada vez mais órfãos na outra ponta.
E com isso o mundo inteiro vai se tornando cada vez mais parecido com a China anti-democrática onde, se não ha o problema de se reeleger depois de tomar medidas impopulares, há o de evitar a qualquer custo explosões como a de Tianamen, em 1989, que ocorrem em países sem canais democráticos se a pressão sobre o assalariado/consumidor passar do limite.
O Partido Comunista Chinês, tornado “capitalista selvagem” graças ao seu poder ilimitado, corrompe-se cada vez mais e, para comprar mais longevidade no poder, cava buracos financeiros que, depois, precisam ser tapados com “enxurradas de obras”, que são os equivalentes dos resgates financeiros para preservar empregos do Ocidente ou às “enxurradas de crédito” para manter o crescimento em voga no Brasil do PT. É assim que eles têm construído aquelas cidades inteiras onde não mora ninguém que fazem o mundo se perguntar até quando esse tipo de expediente pode aguentar.
Com o que, voltamos ao ponto de partida: debater “ortodoxias” e “heterodoxias” pode ser um esporte atraente para a Academia mas, na vida real, todo mudo sabe o que precisa ser feito; o problema é como manter-se no poder depois de faze-lo. Ou, se a empurração com a barriga for suficientemente longe, como manter-se democrático num ambiente de concentração crescente da riqueza e dissolução das fronteiras entre o público e o privado.
Ou seja, essas crises sem fim em que o mundo tem vivido atolado começam e acabam, a cada volta dos processos de causação circular cumulativos que as vão agravando cada vez mais, com a compra de poder politico (e/ou de poder econômico) com dinheiro alheio pelos mesmos espertalhões de sempre.






















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