O buraco é mesmo mais embaixo…
7 de janeiro de 2011 § 1 comentário

Os números decepcionantes sobre o desemprego publicados hoje nos Estados Unidos confirmam a tendência apontada aqui no Vespeiro no primeiro artigo publicado em 2011 (“A exclusão dos ricos”).
Apenas 103 mil empregos novos foram criados o que levou o nível de desemprego de 9,8% em dezembro passado para 9,4% este mês. Esse numero (103 mil), salientam os técnicos da secretaria do Trabalho não explica toda a queda percentual no desemprego. Boa parte dela se deve ao fato de um numero recorde de desempregados ter abandonado definitivamente a força de trabalho. O que diminuiu mais foi a base de comparação.
Mas o que há de muito grave nesse dado é que ele está sendo colhido ao fim do trimestre mais lucrativo da história das grandes corporações americanas desde que a Bloomberg passou a medir esse índice em 1992.
No quarto trimestre de 2010 as grandes empresas americanas ultrapassaram, na média, os 20% de margem de lucro. A Apple, que usei como exemplo no artigo citado, teve um crescimento de faturamento nesse trimestre de 47%. O nível de liquidez dessas grandes corporações (caixa menos dividas) no terceiro trimestre de 2010, o ultimo numero conhecido, tinha subido 7,3% alcançando a fantástica soma de US$ 1,9 trilhão. A relação dividas x disponibilidade de caixa é a melhor registrada nas empresas americanas desde 1956.
E, no entanto, a oferta de emprego dentro dos Estados Unidos não se movimenta de forma nem remotamente proporcional.
Por que?

Porque esses gigantes multinacionais estão empregando e vendendo muito mais fora do que dentro dos EUA. Pagam menos por trabalhadores não-americanos pelo mundo afora enquanto, em casa, se beneficiam das únicas medidas que o governo local, em sua impotência, pode tomar para não ser acusado de ficar inerte diante da crise, medidas estas que não tocam a causa estrutural da crise doméstica, consequência direta da globalização dos mercados de trabalho e de consumo.
As ações de ajuda do governo a setores da produção e os juros próximos de zero, para citar apenas os de impacto mais direto sobre os lucros desses gigantes, anabolizam fortemente o seu desempenho financeiro. Mas, além de enriquecer seus proprietários em níveis que agravam a disparidade de renda como nunca antes na história dos EUA, esses lucros aumentados não irrigam de forma proporcional o mercado de trabalho e, consequentemente, o consumo interno.
Como mostrei no artigo citado, dos US$ 179 que o consumidor americano paga por um iPhone, o presente de Natal mais vendido no ano passado, apenas US$ 11 ficam nos EUA. Os US$ 168 restantes vão parar nos bolsos de trabalhadores asiáticos de diversos paises que fabricam seus componentes ou montam os conjuntos.
Como sempre acontece, a crise afeta de modo desproporcional os diferentes grupos da sociedade americana. O lunpem, hoje, é a comunidade hispânica, onde o desemprego chega a 32,2% (15,8% entre os trabalhadores negros e 8,5% entre os brancos).
A previsão de que as coisas tendem a piorar antes de melhorar tambem parece se confirmar. Pelos dados do Fed (o Banco Central dos EUA), mais 7,4 milhões de residencias hipotecadas deverão ser fechadas e entregues aos credores até 2012.

Se o emprego subiu, mesmo que pouco, a crise americana está passando. A retomada mais vigorosa via depender do “mood” dos agentes economicos. Esse artigo divulga pessimismo sem razāo. A frustração com a velocidade da recuperação, não deveria ensejar difusão de pessimismo pois o pessimismo só se justificaria com queda devemprego, o que não acontece ha meses. Se difundirmos otimismo pois o emprego parou de cair, a recuperação se dará mais rapidamente. Afinal de contas, economia é uma ciencia de comportamento, por isso se Mede a confiança dos consumidores. A imprensa, como um importante formador de opinião deveria ter muito cuidado em difundir uma situação economica pessimista, principamente em bases falaciosas.