A enchente nossa de cada verão
6 de janeiro de 2011 § Leave a comment


Chegou mais um verão.
Chegou mais uma temporada de enchentes nesta cidade construída à margem de rios em plena rain forest.
Serão mais três ou quatro meses com a imprensa e os políticos atribuíndo “culpas” pelas inundações e consequentes tragédias segundo as suas preferências partidárias e ideológicas.
Prato cheio!
Na rain forest chove forte todo dia no verão. Haverá uma safra farta de tragédias, como tem havido todos os anos desde que a cidade ocupou as áreas que seus fundadores e antigos moradores sempre souberam que são e continuarão sendo dos rios.
Não importa.
A cobrança aos políticos continuará sendo feita pela razão errada. As menininhas da Globo, com suas capas encharcadas, seguirão exigindo “o fim das enchentes” que é impossível entregar. E se sentirão reasseguradas em sua “missão” pelos noticiários internacionais mostrando catástrofes semelhantes pelo mundo afora.
“É o aquecimento global, esse filho do capitalismo!”

Não ha novidade nas enchentes dos rios tropicais, nos terremotos e tsunamis sobre as praias próximas às grandes falhas tectônicas, nos deslizamentos de encostas instáveis, nas secas e nos incêndios que sempre as acompanharam. A novidade é que os lugares onde tudo isso sempre se deu sem que houvesse ninguém para testemunha-lo estão hoje abarrotados de gente, e em geral gente miserável, sem informação ou alternativa que lhes permita precaver-se de sentar praça no centro de mapeadíssimas armadilhas nem recursos que lhes enseje remediar-se dos desastres a que por isso se condenam.
Pior que a deles é a atitude de quem supostamente “sabe das coisas”.
Enquanto jovens urbanóides nascidos e criados na era do video game onde tudo se resolve ao toque de um botão, feitos repórteres, insistirem em se comportar como gravadores com pernas resistentes à tentação de raciocinar com a própria cabeça e desafiar a cantiga decorada que repetem diante da sazonal reedição desses eventos, os políticos que realmente têm culpa no cartório – aqueles que vivem de promover invasões de áreas sujeitas a forças telúricas para depois vender por votos a promessa de regularização e “urbanização” das áreas invadidas – continuarão refestelados na sua impunidade.
O quadro exibido nesta página, pintado por Benedito Calixto no distante verão de 1892, mostra a Várzea do Carmo, hoje centro de São Paulo (a construção em arcos é o Mercado dos Tropeiros, localizado onde hoje está a rua 25 de Março), inundada como fica em todos os verões antes e depois deste que ele retratou. Só que 118 anos atras, quando ainda se olhava para o céu e se respeitava o que se via nele, os paulistanos apenas curtiam essa mudança anual na paisagem sem se incomodar com mais que o crescimento da população de mosquitos que era tudo que essas enchentes acarretavam.

Deixe uma resposta