O lugar vago a que Putin se candidata

26 de janeiro de 2022 § 11 Comentários

Não é de hoje a decepção dos fugidos do totalitarismo com a constatação da negação, pelo Ocidente que seus reformadores admiravam, dos fundamentos da sua própria cultura humanística.

Desde a Queda do Muro, já lá vão 33 anos, eles vêm constatando, com a reiterada surpresa de quem viveu acordado o pesadelo com que os outros estão apenas sonhando, que as trajetórias desses dois lados do mundo andam invertidas, com cada lado caminhando para o lugar que o outro ocupava.

Agora o movimento de “roque”, como no xadrez, está completo. Na visão do ex-chefe da polícia política soviética e presidente eterno da Russia, Vladimir Putin, “neste momento em que o mundo atravessa uma fase de disrrupção estrutural, a importância de um conservadorismo baseado na razão é cada vez mais urgentemente necessário, precisamente porque os riscos e perigos vêm se multiplicando tanto quanto a fragilidade de tudo à nossa volta”(…) 

“Todo poder, se quiser ser grande, tem de apoiar-se num conjunto de ideias que apontem para o futuro. E quando essa ideia se perde, o poder deixa de ser grande ou simplesmente se desintegra. Isso aconteceu com Roma e com a Espanha do século 17. Aconteceu também com a União Soviética quando a idéia do comunismo que a sustentava se perdeu. Ela era falsa, mas estava lá. Isso aconteceu com as potências europeias que ficaram cansadas e abandonaram suas ideias em favor de um pan-europeísmo que ainda os empurrou para frente por um tempo mas também se está esfarelando”.

Vladimir Putin candidata-se ao lugar vago.

Ele acredita que se for capaz de delinear uma ideologia conservadora consistente a Russia pode transformar-se num modelo e num polo de atração não só para os países da antiga União Soviética que têm eleito governos conservadores, como a Hungria e a Polônia, mas até para as forças conservadoras da Europa e dos próprios Estados Unidos.

O liberalismo progressista (que é como a esquerda americana chama a si mesmo) apoia proibições na sua estrutura ideológica. Não está aberto às instituições e políticas que não se alinhem com os seus instintos. Cada vez mais restringe o espaço de manobra dessas correntes, estejam onde estiverem, dos direitos dos pais ao conceito de soberania. É abertamente hostil até mesmo a princípios fundamentais do liberalismo tais como a liberdade de expressão. Tem se voltado até mesmo contra a vontade expressa dos eleitores em eleições e referendos”.

Ironicamente o mundo está prestes a entrar, portanto, numa nova Guerra Fria com papéis invertidos com o Ocidente carregando a bandeira do liberal-progressismo-comunista e a Russia a do conservadorismo.

O Clube de Discussões Valdai é um thinktank criado pelo próprio Putin em 2004, que patrocina anualmente o Forum Econômico Internacional de S. Petersburgo em Vladivostok. 

Seguem, abaixo, extratos do seu discurso na edição de outubro de 2021:

(…) a crise que estamos enfrentando é conceitual e até, mais que isso, civilizatória. Uma crise dos princípios que regem a própria existência humana na Terra (…) vivemos num estado de permanente inconstância, de imprevisibilidade, uma infindável transição (…) enfrentamos mudanças sistemáticas vindas de todas as direções – da cada vez mais complicada condição geofísica do planeta até às mais paradoxais interpretações do que é ser humano e quais as razões de nossa existência”…

“As mudanças climáticas e a degradação ambiental são tão obvias que mesmo as pessoas mais desatentas não podem mais ignorá-las. Alguma coisa tem de ser feita (…) e qualquer desavença geopolítica, científica ou técnica perde o sentido num quadro em que os vencedores não terão água para beber ou ar para respirar (…) nós temos de rever as prioridades de todos os estados”.

(…) o modelo atual de capitalismo não oferece solução para o crescimento da desigualdade (…) em toda a parte, mesmo nos países mais ricos a distribuição desigual da renda está exacerbando as diferenças (…) os países mais atrasados sentem essa diferença agudamente e estão perdendo a esperança de se aproximar dos mais adiantados. E a desesperança engendra as agressões e empurra as pessoas para os extremos” (…) 

“O fato de sociedades inteiras e gente jovem em diversos países ter reagido agressivamente às medidas de combate ao coronavirus mostrou que a pandemia foi só um pretexto: as causas dessa irritabilidade toda são muito mais profundas, e por isso a pandemia transformou-se em mais um fator de divisão em vez de levar à união”.

Mas a pandemia também mostrou claramente que a ordem internacional ainda gira em torno dos estados nacionais (…) as super plataformas digitais não conseguiram usurpar a politica e as funções do Estado (…) pesadas multas começam a ser-lhes impostas e as medidas anti-monopólio estão no forno (…) somente estados soberanos podem responder efetivamente aos desafios do tempo e às demandas dos cidadãos (…) quando as crises verdadeiras se desencadeiam só um valor universal fica de pé, a vida humana. E cada Estado decide, com base em suas habilidades, suas condições, sua cultura e suas tradições, qual a melhor maneira de protege-la”.

O Estado e a sociedade nunca deve responder com radicalismo ou com a destruição de sistemas tradicionais às mudanças de qualidade na tecnologia ou no meio ambiente. É muito mais fácil destruir do que criar. Nós, aqui na Russia, sabemos amargamente disso. Os exemplos da nossa historia nos autorizam a afirmar que as revoluções não são um meio para resolver crises; elas só as agravam. Nenhuma revolução vale o dano que produz nas capacidades humanas”.

Os advogados do auto-proclamado ‘progresso social’ acreditam que estão empurrando a humanidade para um nível de conscientização novo e melhor. Não ha nada de novo nisso. A Russia já esteve lá. Depois da revolução de 1917 os bolchevistas também diziam que iam mudar todos os comportamentos e costumes, a própria noção de moralidade e os fundamentos de uma sociedade saudável. A destruição de valores solidamente estabelecidos e das relações entre as pessoas até o limite da completa destruição da família, o encorajamento para que as pessoas denunciassem seus entes queridos, tudo isso foi saudado como progresso e amplamente festejado mundo afora” (…) 

Olhando o que está acontecendo no Ocidente fico embasbacado de ver de volta as práticas que eu espero que nós tenhamos abandonado para sempre num passado distante. A luta pela igualdade e contra a discriminação transformou-se numa forma agressiva de dogmatismo que beira o absurdo (…) Manifestar-se contra o racismo é uma causa nobre e necessária mas essa nova ‘cultura de cancelamento’ transformou-se numa discriminação reversa que não é mais que racismo pelo avesso. A ênfase obsessiva na raça está dividindo cada vez mais as pessoas (…) o contrário do sonho de Martin Luther King”

O debate em torno dos direitos do homem e da mulher, então, transformou-se numa perfeita fantasmagoria (…) e crianças pequenas, sendo ensinadas à revelia de seus pais, que meninos podem se transformar em meninas e vice-versa sem problema nenhum (…) Com o mundo de disrrupção em disrrupção a importância de um conservadorismo racional é fundamental (…) confiar em tradições testadas pelo tempo, um alinhamento preciso das prioridades, relacionar as necessidades com as possibilidades, estabelecer metas prudentes e, principalmente, rejeitar o extremismo como método (…) Para nós, russos, estes não são postulados especulativos mas lições da nossa trágica história. O custo de experiências sociais doentiamente concebidas é impossível de ser pago. Essas ações não destroem apenas bens materiais mas principalmente os fundamentos espirituais da existência humana, deixando atras de si um naufrágio moral onde nada pode ser reconstruído por muito, muito tempo”.

É claro que ninguém tem receitas prontas. Mas eu me arrisco a dizer que nosso país tem uma vantagem (…) nossa sociedade desenvolveu uma imunidade de rebanho ao extremismo que pavimenta o caminho para a reconstrução depois do cataclismo socioeconômico (…) O nosso é um conservadorismo otimista, que é o que mais importa. Nós acreditamos que o desenvolvimento estável e continuado é possível. Tudo depende estritamente dos nossos próprios esforços”.

Obrigado por sua paciência”.

Para a íntegra do discurso, vá a https://www.memri.org/reports/russias-new-conservative-ideology-counter-liberalism

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§ 11 Respostas para O lugar vago a que Putin se candidata

  • plonios disse:

    Críticas aos exageros do “progressismo” existem aos montes, profundas e publicadas nos países cuja cultura ainda é fundamentalmente liberal. Essas críticas vêm, é claro, da “direita”, mas em muitos casos também de pessoas que são consideradas “de esquerda”. O importante é que elas aparecem dentro de um ambiente onde elas podem se manifestar.

    Já esse discurso do Putin, apesar de se apropriar de algumas dessas críticas, na verdade pode-se resumir a uma simples frase:

    Aqui quem manda sou eu.

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  • Me incomodo com discursos conservadores que julgam necessário impor ordem social contrariando a natureza da humanidade. Homossexualismo foi reprimido desde sempre. Por anos os negros foram submetidos a perversidades e mulheres levadas a se submeter ao poder masculino. São questões arraigadas que refletem até os dias de hoje. Achar que impor conservadorismo vai melhorar é um perigo. O que é bom costume? Qual mal maior? Deixar-se viver d acordo com sua natureza ou submeter o povo a costumes estipulados por um governo ou pela religião?

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    • ALEXANDRE CUNHA disse:

      No conservadorismo, Putin à parte, não se pretende reprimir o homossexualismo ou submeter as mulheres ao poder masculino. Isso aí é uma visão caricata do conservadorismo. O que se vê hoje por aí é o radicalismo de movimentos identitários querendo interditar certos debates (como no caso recente com o Risério).

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  • Paulo disse:

    Jussara e Plonios, como é bom acordando ser tocado por vida inteligente! Obrigado

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  • cadu43 disse:

    Aqui seria eleito.

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  • Vácuo no poder?
    O Ocidente vem perdendo força com tanto liberalismo, leia-se individualismo, e vem o Putin agora lembrar que nem tanto ao mar nem tanto à terra, referindo o passado recente da sua terra natal.
    Não há nada de mal no Conservadorismo, entretanto não será com autocracias que haverá candidatos a líderes nesse novo tempo em que vivemos.

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  • rubirodrigues disse:

    “Vladimir Putin candidata-se ao lugar vago.” Esse movimento da inteligência russa já foi percebido em https://segundasfilosoficas.org/sem-categoria/cosmovisao-eurasianista/ Em https://segundasfilosoficas.org/sem-categoria/cosmovisao-metafisica/ são destacados fundamentos filosóficos. Para quem quiser aprofundar no tema. Parabéns Fernão: outro tiro na mosca a produzir luminosidade.

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  • JJnatalin disse:

    Vida longa ao Sr. Putin e às suas ideias e disposição para defender o mundo conservador e destruir os progressistas. Digo destruir, pois eles não são mais adversários e sim inimigos, que nos querem mortos. Vejam os uivos de satisfação pela morte do grande professor Olavo de Carvalho. Quem planta ódio colherá de suas sementes e se arrependerá.

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  • Ao que parece até um V. Putin repaginado e ciente das mazelas comunistas que arrasaram a URSS parece ser menos repugnante que a dominação dos meta-capitalistas globalistas. Haja Clube Bilderberg, Fórum Econômico mundial-WEF, Comissão Trilateral, Bancos Centrais, Banco Mundial, FMI, G Soros, Open Society Found.,Saul Alinsky, Hilary, Obama, Biden, Escola de Frankfurt, etc…para impôr o caminho da servidão e pôr de joellhos nações soberanas…

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  • Nivaldo disse:

    Tudo isso não tem eco dentro da própria casa dele, haja visto não haver oposição ao “seu pensamento”, e ainda ele tenta exportar suas ideias para quem quer e quem não quer aceitá-las. É um tremendo vigarista e déspota. O alemãozinho de bigode guardadas as devidas proporções também queria a unicidade de pensamento, de cultura e de organicidade, e aí de quem não se encaixasse. Tem também um outro asiático metido a homogeneizar pensamentos. São todos país do povo. Eles estão querendo fazer de forma impositiva o que os babacas dito progressistas fazem no varejo e de forma furtiva. Precisamos usar forte e rapidanente um freio de arrumação para nosso planeta, esses que estão aí não servem

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  • Sonia Carvalho disse:

    Feliz ou infelizmente, Putin é muito mais inteligente do que todos os atuais líderes ocidentais, tanto dos EEUU quanto da Europa, inclusive da OTAN e da ONU!!
    E um notável estrategista, com uma visão geo-política do mundo que os despreparados e patéticos ocidentais não conseguem ter!!

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