É bife ou não é?

21 de abril de 2018 § 9 Comentários

O Impossible Burger,  primeiro produto do gênero a ser vendido em grande escala numa grande rede de fast food americana, a White Castle que começou a oferece-los nas suas 140 lojas de Nova York, New Jersey e Chicago esta semana, não contém carne mas tem o gosto, cheira e sangra como a coisa verdadeira.

Qual é o ingrediente secreto?

Neurociência.

Nada a ver com os hamburgueres vegetarianos que andam por aí ha tempos. Essa mistura de trigo, óleo de coco, batata e um composto vegetal que contém muito ferro nunca chegaria ao que chegou não fosse o intrincado processo de alta tecnologia que permitiu à Impossible Burguer “enganar o cérebro humano”, por assim dizer, para fazer tudo nessa massa “soar” como carne para cada um dos nossos sentidos (veja como no video).

Mas essa ainda não é a grande revolução.

O que vai mudar o mundo mais uma vez – e com todas as alegrias e tristezas que mudanças desse calibre trazem – são as carnes cultivadas em bioreatores a partir de células-tronco de fibras musculares e de gordura mergulhadas em caldos de nutrientes. Os hambúrgueres que “crescem” assim já existem. O gosto ainda é um problema porque não é fácil reproduzir tudo que um organismo vivo consome e processa para produzir as carnes que conhecemos, mas Sillicon Valley jura que acabará chegando lá (startups israelenses e européias também disputam a ponta nessa corrida).

Em 2013 desenvolver 1 quilo dessa carne custava 2,5 milhões de dólares. Desde então esse custo caiu 99% mas ainda é muito mais alto que o da carne animal. O gargalo é um ingrediente essencial: o soro fetal bovino extraído dos fetos ainda dentro das vacas prenhes. É isso que desencadeia a reprodução out ou in vitro das células. Controlar a mistura certa de carne e gordura ao longo desse processo também não é simples, mas a “carne limpa” definitivamente vem aí e é pra já.

2020 é o ano de consenso para ela ultrapassar a faixa da viabilidade comercial. Será também o ano que marcará o início do fim final da cultura boiadeira/cauboy, com todos os dramas implicados, e o início da devolução de vastas porções de terra roubadas à natureza para a criação de gado e do grande tsunami econômico que tudo isso vai provocar.

Então, para além da alegria de vermos os 2ésleys quebrarem a cara e a lavanderia gigante do PT minguar, teremos de amargar a culpa por termos destruído florestas que tecnologia nenhuma será capaz de replicar que vieram da eternidade até aqui incólumes, às vésperas disso se confirmar como um desperdício ainda mais insano e sem sentido do que já parece hoje.

Matéria condensada da Quartz 

 

 

§ 9 Respostas para É bife ou não é?

  • eva wongtschowski disse:

    Mas ainda assim lá está o boi!!!! O soro fetal bovino. Mas o interessante é que o tema da nossa política está cansando um bocado. Vamos falar de outra coisa enquanto a política, essa que esta aí, seja dizimda. Que cresçam as árvores e definhem os políticos desavisados da chegada da nova ordem. Amém

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  • Saulo Mundim Lenza disse:

    Ótimo texto Fernão. Fica a esperança de que, nem tudo está perdido.
    Recuperar pelo menos parte do que foi devastado para se formar pastagens, já é um grande avanço. Quanto aos políticos que se deixam corromper, a Lava Jato já “cuidando” deles.

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  • Thereza Muniz disse:

    Que tristeza

    Enviado do Yahoo Mail no Android

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  • Arlete Itagyba Garzon disse:

    Excelente matéria. Como todas feitas por vc Fernão

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  • Marcos Andrade Moraes disse:

    LEU AS FALHAS DA DEMOCRACIA NO ALIÁS do dia 15? Achei assustador…MAM

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  • Ronaldo Sheldon disse:

    Muito bom. A tecnologia está mudando o mundo. Enquanto uma indústria entra em declínio outra a substitui, mais limpa, com menor impacto ambiental. Ainda bem que este setor não é dos que mais emprega. Já no caso do petróleo a coisa é diferente, mas a mudança também é saudável para o meio ambiente. O difícil é nos adaptarmos a tantas evoluções em curto espaço de tempo. Entramos num impasse, sem saber que direção seguir. Perdemos as referências que, até aqui, nos deram segurança.

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  • “2020 é o ano do consenso…”. O filme no Brasil foi lançado como “No mundo de 2020” ou “Soylent Green” no original. E acho que passaremos por esse tempo antes do futuro que tu desenhastes no texto: Nós iremos comer o “impossible”, ou seja, o Soylent Red, enquanto o campo ainda estará produzindo picanhas, alcatras e filés para a casta superior de que tanto tu falas aqui no blog. Creio que esse futuro ainda está bastante longe, até porque grande parte vastas extensões de terra são para a produção de soja, matéria prima essencial para a produção de ração para os mais diversos animais, bovinos, suínos, aves, peixes, entre outros…

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