É bife ou não é?

21 de abril de 2018 § 9 Comentários

O Impossible Burger,  primeiro produto do gênero a ser vendido em grande escala numa grande rede de fast food americana, a White Castle que começou a oferece-los nas suas 140 lojas de Nova York, New Jersey e Chicago esta semana, não contém carne mas tem o gosto, cheira e sangra como a coisa verdadeira.

Qual é o ingrediente secreto?

Neurociência.

Nada a ver com os hamburgueres vegetarianos que andam por aí ha tempos. Essa mistura de trigo, óleo de coco, batata e um composto vegetal que contém muito ferro nunca chegaria ao que chegou não fosse o intrincado processo de alta tecnologia que permitiu à Impossible Burguer “enganar o cérebro humano”, por assim dizer, para fazer tudo nessa massa “soar” como carne para cada um dos nossos sentidos (veja como no video).

Mas essa ainda não é a grande revolução.

O que vai mudar o mundo mais uma vez – e com todas as alegrias e tristezas que mudanças desse calibre trazem – são as carnes cultivadas em bioreatores a partir de células-tronco de fibras musculares e de gordura mergulhadas em caldos de nutrientes. Os hambúrgueres que “crescem” assim já existem. O gosto ainda é um problema porque não é fácil reproduzir tudo que um organismo vivo consome e processa para produzir as carnes que conhecemos, mas Sillicon Valley jura que acabará chegando lá (startups israelenses e européias também disputam a ponta nessa corrida).

Em 2013 desenvolver 1 quilo dessa carne custava 2,5 milhões de dólares. Desde então esse custo caiu 99% mas ainda é muito mais alto que o da carne animal. O gargalo é um ingrediente essencial: o soro fetal bovino extraído dos fetos ainda dentro das vacas prenhes. É isso que desencadeia a reprodução out ou in vitro das células. Controlar a mistura certa de carne e gordura ao longo desse processo também não é simples, mas a “carne limpa” definitivamente vem aí e é pra já.

2020 é o ano de consenso para ela ultrapassar a faixa da viabilidade comercial. Será também o ano que marcará o início do fim final da cultura boiadeira/cauboy, com todos os dramas implicados, e o início da devolução de vastas porções de terra roubadas à natureza para a criação de gado e do grande tsunami econômico que tudo isso vai provocar.

Então, para além da alegria de vermos os 2ésleys quebrarem a cara e a lavanderia gigante do PT minguar, teremos de amargar a culpa por termos destruído florestas que tecnologia nenhuma será capaz de replicar que vieram da eternidade até aqui incólumes, às vésperas disso se confirmar como um desperdício ainda mais insano e sem sentido do que já parece hoje.

Matéria condensada da Quartz 

 

 

Porque a Amazônia é fundamental

12 de agosto de 2017 § 17 Comentários

A caça e a crise da brasilidade

10 de março de 2017 § 5 Comentários

Artigo para Pesca & Companhia de fevereiro de 2017

Está legalizada a caça esportiva do javali no Brasil!

A atividade que fez do bicho “Homo” um “sapiens” e que amarra uns aos outros todos os seres vivos tinha, supostamente, sido radicalmente amputada da cultura nacional da qual fizera parte desde o primeiro dia do mundo até então ha 34 anos. Agora volta à legalidade mas pela porta da remediação. Não é, ainda, a reconciliação de um Brasil Oficial humilde com o razoável e com o eterno depois das lições tão duramente aprendidas nestas tres décadas e meia de fúria da devastação ambiental sem concorrência. Continuam vedados aos espécimes da fauna brasileira os benefícios do único artifício capaz de fazer perdiz valer mais que soja, peixes de rios íntegros mais que o quilo de sua carne e biomas renderem mais diversificados como deus os fez que reduzidos a escombros pela incuria humana. Plantar gramíneas africanas e leguminosas asiáticas (ou introduzir animais exóticos que se tornam pragas) continua sendo o único meio legalmente admitido por nossos ambientalistas e governantes de fazer a natureza produzir dinheiro nisto que foi o maior paraíso da biodiversidade na Terra…

A consequência é muito mais deletéria que o prejuízo ambiental que poderia ser evitado. Os desorientados urbanóides desta geração de brasileiros, arrancados por diletantes apaixonados por si mesmos que se julgam capazes de revogar as leis da natureza à vivência de qualquer dos processos que trouxeram a humanidade até onde ela chegou, vivem mortificados pela idéia de que a sua própria sobrevivência é fruto de um crime. A maior parte acredita piamente, já, que o que comemos vem mesmo dos fundos dos supermercados embaladinho em plástico e sem sangue.

Esse desenraizamento existencial está, com certeza, na base dessa crise “total” que o Brasil está vivendo. Sem o “pertencimento” a um todo eco-lógico muito maior que o “eu”, o “agora”, o “meu” e o “eu acho portanto submetam-se“, que só se assimila fechando a boca e abrindo os olhos e os ouvidos para aprender vivendo integralmente a floresta, a beira do rio, os oceanos; mergulhando de corpo e alma nas interações da fauna e da flora que os constroem e que são construídas por eles, o que sobra é essa trágica bateção de cabeça sem sentido em que o Brasil anda perdido.

Que a descriminalização da caça ao javali seja o primeiro passo de uma ampla reconciliação. Sem o culto e a reencenação cerimonial dos processos que definem a reciclagem da vida é impossivel entender o que somos e qual o nosso lugar na ordem das coisas.

Vento bom!

1 de março de 2016 § 11 Comentários

A magia dos algoritmos

20 de outubro de 2015 § 28 Comentários

“Um tal de Olacyr…”

4 de agosto de 2015 § 24 Comentários

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O cerrado desaparecera completamente, imerso numa névoa espessa. O casarão todo em madeira, improvável para um fim de mundo como aquele, era só um vulto maciço no meio da cerração trazida pela frente vinda dos lados da Bolívia. Fazia um frio de rachar e a cachorrada, contida pelas correntes estaqueadas ao chão no galpão por trás da sede, oferecia-se aos caçadores aos arrancos e repelões, numa algazarra de ganidos quase uivos de incontida sofreguidão.

Impossível sair para o campo naquele fog, apesar da excitação de um ano inteiro de espera…

Fica então entendido, senhores”, emendou mais uma vez o figuraça do capataz, “a partir deste ano não se pode mais caçar do lado de lá dos trilhos porque essa parte da fazenda foi vendida”.

Vendida?! Para quem?!

Um tal de Olacyr”…

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Eu estava – e só compreenderia isso muito tempo depois daquele momento – “presente no ato da criação” de um Brasil revolucionariamente novo que até hoje, ainda que sob forte ataque, é o que nos mantém à tona nos mares bravios da globalização apesar dos rombos da nossa incompetência política no casco. Nos anos que se seguiriam eu veria, passo a passo, esse novo país brotar quase miraculosamente das mãos de um homem de uma força instintiva incoercível que seria desde o primeiro minuto uma referência de admiração apesar da forte dose de ambiguidade que sempre temperou nossa amizade.

Chegar à “Fazenda Santa Virgínia”, em “Ponta Porã” – nomes cuja mera sonoridade fazia ferver a minha imaginação de adolescente sujeito desde o nascimento a uma poderosa febre atávica de nostalgia do “sertão” naqueles inícios da década de 70 — era sempre uma aventura cheia de imprevistos. Eu estava para entrar nos meus 20 anos e só havia três ou quatro que fora autorizado a me juntar às expedições de caça às perdizes no mitológico “Mato Grosso” que dois de meus tios organizavam anualmente e com que eu já sonhava desde antes de me entender por gente.

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Naquele tempo, para quem ia de São Paulo para Oeste, as geometrias impostas pelas cercas e roças desapareciam ali pela altura de Araçatuba. “Paranazão” além, então, era outro mundo. O dos campos de homogênea “macega” nativa e arvoredo esparso do finado Cerrado Brasileiro, território das perdizes, dos lobos guará, dos graxains, das emas e dos veados de rabo branco que rolava interminavelmente em leves ondulações quebradas de mil em mil quilômetros por abruptas fraturas geológicas formando chapadões sucessivos – uma lagoa, uma cabeceira d’água aqui e ali, com seus buritis elegantes, as matas de galeria sombreando águas de beber desenhando “veias” nas depressões da camparia; um gado muito rarefeito e meio brabo, criado solto naquelas vastidões quase inteiramente vazias de gente – até se juntar, pouco acima de Cuiabá, com as beiradas da Floresta Amazônica e, de lá até além do Equador, recobrir outros milhões de quilometros quadrados povoados de eternidade, de lendas, de sonhos e de tragédias potenciais, sem que praticamente nada feito por mãos humanas interrompesse aquele mistério todo.

Sertão”…

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Para Sudoeste, a partir de Bataguassu e até o Paraguai e além, a viagem só era interrompida, ou pelas muitas armadilhas do caminho, ou pelas “comitivas”, algumas gigantescas, de homens de outras eras, curtidos de sol e vento, volteando na poeira por cima de oceanos de reses montados em cavalos e bestas formidáveis aparelhadas de todos os couros, argolões e fivelas que remetiam às grandes lidas, os 38 invariavelmente nas guaiacas, facalhões e chairas cruzadas às costas no cós das calças, os berrantes retorcidos, tangendo, às vezes por meses a fio, as boiadas que, ao som de gritos guturais e estalares de chicote no ar que soavam como tiros, “ilhavam” por longos minutos de puro encantamento o nosso valente F-350 de carroceria de madeira lonada num mar de carne semovente.

Quando conheci a Santa Virgínia que, de alguma forma fora parte da implacável Companhia Matte-Laranjeira em que planta raízes a primeira versão do Estado do Mato Grosso, ela ainda era um latifúndio de 200 mil alqueires vigiados por esparsos “retireiros” instalados em velhas casas de madeira distantes quilometros de trilheiros abertos a cascos umas das outras, onde tantas vezes “viajei” ouvindo ao pé do fogo, sob mantos de estrelas que quem viu, viu, a eletricidade apagou para sempre, os “causos” das não tão longínquas lutas de morte entre “changa-y’s” e “barbacuás” (“ladrões de mate”) e os implacáveis capangas do “Império no Sertão” de Thomaz Laranjeira e seus sócios argentinos.

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A área original, dizia-se, fora doada pelo Imperador em pagamento por serviços de transporte para abastecer os exércitos brasileiros na Guerra do Paraguai aos tropeiros Prates, ancestrais da família a que a fazenda ainda pertencia. Pela borda Sul a Santa Virgínia encostava na última das tres ruas de terra delimitadas por fileiras de casas de tábuas acinzentadas pela intempérie, sem pintura e muito pobres, iluminadas a lamparina, do lado brasileiro de Ponta Porã, vila com fama de “faroeste barra-pesada, coito de bandidos e contrabandistas procurados num ou no outro lado da fronteira”, cuja rua principal, a única em que todas as construções, sempre avermelhadas pela poeira, eram de alvenaria, marcava a divisa entre o Brasil e o Paraguai.

O capataz que inadvertidamente acabara de nos anunciar o fim de seu mundo – bombachas, botas curtas e chapelão mas sem o sotaque gaucho, um bigodão recurvado à inglesa e a eterna “bomba” de “terere” nas mãos – tinha a noção de autoridade de quem se sabia detentor de poderes absolutos. A cada cinco ou seis dias fazia-se raspar a cabeça à navalha quase cerimonialmente por um menino negro, de seus 14 ou 15 anos, que marchava atrás dele – pincel, pote de sabão em louça grossa e toalha branca pendurada do braço – até uma velha cadeira de barbeiro com pedal e elevador que o moleque “bombava” a custo com todo o peso de seu corpo e depois basculava para ter acesso ao alvo, surrealisticamente plantada no meio da camparia, olhando para o infinito a 50 ou 100 passos do casarão.

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Aquela viagem não era só um estirão de infindáveis quilometros, mais da metade em chão batido coalhado de obstáculos às vezes formidáveis; era uma passagem no tunel do tempo que me despejava diretamente num ambiente mágico onde, com o 20 virando a curva dos finalmentes, tudo estava ainda referido ao século 19 e dele para tras.

Mas aquilo, eu veria com meus próprios olhos e não sem grandes dores, eram só “os últimos dias de Pompéia”.

Na caçada de 1974 já éramos hóspedes de Olacyr. A regra sempre fora quanto mais “sertão”, quanto mais “no nada”, melhor. A mudança da “mordomia” da sede da Santa Virgínia para os desconfortos do semi-acampamento da incipiente Fazenda Itamaraty-Sul era, portanto, um ganho. Punha-nos ao alcance campos “virgens” a que nunca chegavamos a partir da base anterior….

Cópia de JULIEU

Mas então “o tal de Olacyr” começou a nos mostrar quem era ele. O primeiro sinal foi o surgimento de uma ou duas máquinas de esteira amarelas, nunca vistas na região, e a súbita transformação em estrada – o que para os nostálgicos de “sertão” parecia uma agressão – de uns poucos quilometros do antigo caminho que ligava a fazenda a Ponta Porã. A própria rua principal da vila, aliás, ganhou por essas mesmas alturas, um “ameaçadoramente destoante” calçamento de lajotas hexagonais de cimento.

Mais um ano e já éramos “promovidos”, muito a contragosto, das duas casinhas de tábua de dois cômodos perdidas no meio do nada ao lado de um simpático olho d’água com seus buritis em que acampávamos com nossos 14 ou 15 cachorros, para um “hotel” de alvenaria ao lado de uma pista de aviação, tres ou quatro quartos de cada lado de um corredor, um páteo aberto onde eram servidas as refeições. Era, literalmente, um corpo estranho encravado num pequeno rasgo no manto verde que recobria o Brasil selvagem e chegara quase intacto da eternidade até ali e que, estranhamente, ainda se podia pisar, idêntico ao que sempre fora, dois ou tres metros além da área de terreno trabalhado para aquela construção. Mas daquele momento em diante o meu tão sonhado “sertão” da infância e da juventude nunca mais parou de encurtar…

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Outro ano e surgiram mais tres ou quatro casas e um laboratório de botânica. Como todo grande empreendedor Olacyr era antes de mais nada um fabricante de gente capacitada. Varejava as escolas de agronomia, identificava os melhores, trazia-os para o meio do “sertão” a peso de ouro e dava-lhes condições de trabalho que não existiam em nenhum outro lugar do país. Foi lá que vi pela primeira vez as enormes antenas parabólicas de TV, mastodônticas precursoras dos pratinhos de hoje. Tudo que pudesse contribuir para segurar aqueles jovens agrônomos e, mais especialmente, suas esposas e filhos pequenos naquelas lonjuras sem recursos era imediatamente providenciado.

Seguiram-se uns tres ou quatro anos de paz relativa em que a única novidade foi um quadrilátero medindo alguns hectares do outro lado da pista de aviação, onde plantava-se, ano após ano, uma dezena ou pouco mais de longas faixas de diferentes variedades de soja, selecionava-se e cruzava-se as sementes das sobreviventes que melhor desempenhavam e assim sucessivamente até que se chegou à planta ideal para uma operação de maior escala naquele novo habitat.

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E então a coisa literalmente explodiu. Mil, 10 mil, 30 mil, 50 mil hectares, a cada ano mais e mais “sertão” desaparecia sob a soja, mais gente chegava do Sul e mais aquele Brasil primitivo era subitamente atirado para a ponta do século 20. Tres ou quatro dos maiores fabricantes de tratores e máquinas agrícolas do mundo, farejando o futuro, instalaram ali extensas oficinas e laboratórios de engenharia para desenvolver in loco seus novos equipamentos; o hangar de aviação chegou a abrigar perto de 20 aviões entre meios de transporte e agrícolas; fabricantes nacionais e internacionais de gigantescos equipamentos de irrigação desenvolveram nos campos da Itamaraty os primeiros pivôs, com centens de metros de extensão, a serem utilizados na agricultura brasileira; as filas de colheitadeiras altas como prédios alinhadas até onde a vista alcançava para as cerimônias anuais de início de colheita lembravam um cenário de guerra e faziam tremer teluricamente o chão quando ligavam os motoroes e avançavam juntas pelo mar de soja; os silos da gigantesca “área industrial” da fazenda abrigavam impressionantes montanhas de grãos, suficientes, como Olacyr gostava de mostrar, para sustentar por um ano inteiro, primeiro, dois anos, depois, e assim crescendo sempre, ano após ano, as necessidades de proteína de uma população igual à do Brasil que se alimentasse só disso; uma cidade com tres ou quatro clubes, escolas diversas para crianças e para adultos, hospitais e igrejas de diferentes confissões, hotéis e restaurantes surgiu no meio do cerrado, fazendo sombra à própria Ponta Porã.

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Na virada da década seguinte, na sua insaciável sêde de fazer, Olacyr iniciava projeto semelhante em área ainda mais extensa dos sertões dos Parecis, já nas primeiras águas amazônicas, onde repetiria com a cana e com o algodão o mesmo milagre tecnológico que empreendera com a soja mais ao Sul.

Olacyr de Moraes liderou o último e o mais poderoso dos arrancos dessa parcela do Brasil onde, ao contrário do que aconteceu no da praia, a sociedade precedeu o Estado e, tendo desfrutado ¼ de século, pouco mais ou menos, fora do alcance das garras do vicioso “Sistema” eleitoreiro/trabalhista que nos parasita, instalou no Brasil Central uma ilha de meritocracia onde a vontade de trabalhar, a coragem de empreender e a capacidade de inovar e desenvolver tecnologias novas foram, para uma ou duas gerações de brasileiros, as únicas formas de legitimação do enriquecimento.

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Uma ameaça, é certo, para “O Sistema” que a Polícia Federal força, hoje, a nos mostrar a cara. Esses dois Brasis, está mais claro a cada dia que passa, são mutuamente excludentes. Pela virada do milênio, após uma longa e inglória luta, a Fazenda Itamaraty-Sul, já então uma referência global, era “desapropriada para fins de reforma agrária” . Virou uma favela rural.  E pelo novo Brasil ao qual ela deu início afora, a vanguarda do atraso e as máfias do privilégio políticamente adquirido atacam, atritam, invadem e destróem ritualmente centros de inovação tecnológica, enquanto a máquina do Estado, com os tentáculos aumentados pela tecnologia de informação importada, alcança cada vez mais fundo os bolsos do agronegócio, refém, por outro lado, da miséria infraestrutural de que nosso sistema nacional de transportes é um dos símbolos máximos.

Last but definitivamente not least, o deslassamento moral generalizado, com fonte original na política mas fortemente anabolizado por uma televisão nada menos que deletéria na área dos costumes, facilita a penetração de um interior até ha pouco mais apegado ao senso de honra, pela gelatinosa praga advocatício/trabalhista com que Getúlio Vargas e seus sucessores lulo-petistas tratam de nos condenar a todos à mesma miséria moral e material.

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Só um desses dois Brasis sobreviverá ao duelo final, que se está aproximando rapidamente. E não será a polícia nem o juiz Moro quem irá decidí-lo.

A reforma potencialmente possível será exatamente proporcional ao tamanho da queda que estaremos levando como sociedade. Tende a ser definitiva, portanto, para bem ou para mal. Cabe, assim, tratamento de choque para arrancar o país a esse estado de hipnose em que o mantém o incessante tiroteio de dossiês entre bandidos de que a cobertura da mídia não é só uma tradução, é também um componente, e tratar de identificar e ter prontos para uso na curta janela de oportunidade que se abrirá em algum momento dessa débacle, os mais eficientes e modernos remédios da moderna farmacopéia institucional global capazes não só de blindar o Brasil do trabalho contra o Brasil bandalho mas, sobretudo, de submeter este definitivamente àquele.

Recall neles!

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NESTE LINK, COMO O RECALL PODE CURAR AS DOENÇAS DO BRASIL

A falta que a caça faz

18 de maio de 2015 § 13 Comentários

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Subi para cá correspondência trocada com Luiz Barros nos comentários de artigo anterior em função da importância do tema:

Fernão,

Estou aqui lembrando de uns tios queridos de minha infância, e nisto vejo o Renato, de Taubaté. Ele era exímio caçador.

Acho que foi a falta de amantes da caça e da pesca que dificultou a preservação da fauna e flora, porque os esportistas, como ele era, faziam mais bem para a preservação, com amor verdadeiro aos bichos, do que os vigiólogos de gabinete.

(…) só conheço um pouco de pesca, nada de caça. Você poderia por gentileza me dizer se a descrição que faço de um homem e seus perdigueiros é correta?

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Renato chegava ao sítio bem cedinho (…) com seus dois ou três perdigueiros (…) Vestia aquelas galochas que vinham até o peito e se prendiam por suspensórios ao ombro, qual macacão fossem: para entrar no brejo, se os cães para lá o levassem.

Cão e caçador sincronizavam instinto e ação e, enquanto um levantava a caça o outro fazia mira, acompanhando o voo rápido ascendente ou rasante, em linha reta ou ziguezagueante…

Resposta:

Não ha, felizmente, falta de caçadores e pescadores esportivos no mundo, Luiz, e digo felizmente porque é como v diz: o que sobrou no planeta de natureza conservada sobrou por causa deles.

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Aqui os caçadores (os esportivos, digo, porque quem vive no mato continua como sempre foi) estão quase extintos porque o Brasil é exceção no mundo, aí incluidos ate paises como Cuba, e persegue-os furiosamente desde 1983, ultimo ano em que a caça foi aberta legalmente por aqui (com exceção do Rio Grande do Sul).

Os caçadores são essenciais pelo fato elementar de que fazem perdiz, por exemplo, valer muito mais que soja, o que torna um excelente negócio, nos países onde eles continuam livres para prestar esse serviço às gerações futuras, comprar areas de cerrado (ou savana como chamam la fora) para mantê-las íntegras o bastante para continuar produzindo o que produziram naturalmente nos ultimos bilhões de anos até que, como dizia Nelson Rodrigues, os idiotas descobrissem que são maioria e passassem a nos oprimir: isto é, perdiz.

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Nos EUA a economia da caça e pesca esportivas gira em torno de US$ 400 bi/ano (isso mesmo! ⅓ ou ¼ do PIB brasileiro. Procure o site dos censos americanos; uma edição sim, outra não, faz-se esse censo nacional, detalhadíssimo, por lá). Eles são o pais com mais área selvagem conservada do planeta, ai incluidos os africanos. Todos os seus bichos nativos têm hoje rebanhos maiores que os que se calculava que existiam no Descobrimento, graças ao que rende esse negócio.

Ainda na semana passada vi, também o balanço anual de caça da França: 1 milhão e 200 mil peças foram abatidas em 2014 (considerados só mamíferos como javalis, cervos e caprinos dos Alpes, na caça de alta montanha) gerando bilhões de euros que são investidos na compra e conservação da quantidade de florestas íntegras que é preciso manter para garantir colheitas de quantidades como essa sem abalar o equilíbrio (as cotas são estabelecidas a partir de censos anuais de caça feitos pelos cientistas e pesquisadores de campo). São milhares de empregos, entre guiagem e hotelaria, aí incluídos os de cientistas e gestores de fauna que tratam de aprender com a natureza em vez de cagar regras sobre ela como gostamos de fazer aqui.

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Também nesse tema vamos, como em tudo o mais, pelo avesso do mundo, portanto.

Aqui o cerrado, produtor das perdizes, é o bioma mais ameaçado de todos. Na verdade está praticamente extinto, condição que acredito que já seja irreversível, dada a fragmentação do pouco que sobra, o que terá implicações dramáticas para o armazenamento de água no subsolo do Brasil dos nossos filhos e netos.

O cerrado, minha primeira grande paixão de natureza, é uma floresta de cabeça pra baixo, com uma trama de raízes que penetram a grande profundidade no solo com um volume de matéria vegetal muito maior que o que ela mostra acima do solo, o que proporciona a formação dos aquíferos como o Guarani, um oceano subterrâneo de água doce que cobre mais de um terço do nosso território e gera as nascentes de mais de metade dos nossos rios. Essa trama de raízes do cerrado é que mantém o solo poroso e nas temperaturas necessárias à continuação do processo que resulta nos aquíferos.

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Hoje está tudo compactado e cada vez mais impermeável logo abaixo da superfície totalmente tomada por gramíneas africanas e leguminosas asiáticas, e isso porque nossos “ecologistas” de bermuda colorida e chinelo de dedo acham que esta é uma questão “ética” a ser tratada por critérios emocionais e decretaram “imoral” a prática diuturna de todos os demais seres vivos, animais e vegetais (caçar e ser caçado), a mesma que alimentou seus ancestrais até que dominassem o planeta a ponto da cretinice deixar de ser punida com a morte, como continua sendo na natureza, e dar o resultado que tem dado.

Sorte do Blairo Maggi!

Nos tempos em que este país ainda pensava com a cabeça havia caça regulamentada, sim, e quando abria a temporada via-se gente feliz carregando suas espingardas pelo país afora pelas ruas, nas estações e nos trens que chegavam até o Mato Grosso (a unica via para la então), e o mais que continua acontecendo em todos os países civilizados do mundo, sem que ninguém se assustasse com isso.

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Mas como aqui a Globo mancheta todo dia que “as armas de fogo mataram não sei quantos este ano”, o que me remete sempre à curiosa ideia de revólveres com pernas andando por ai e atirando em gente por conta própria, possuir uma arma de caça, ainda que não possam ser confundidas nem com os revólveres e pistolas do crime desorganizado, nem com os fuzis do organizado, é visto como um crime mais grave, mais comentado, mais noticiado e mais perseguido que os dos autores dos 56 mil assassinatos por ano com que convivemos numa boa. É prático e fácil porque quem tem arma registrada tem endereço certo e sabido, sendo portanto muito mais fácil e seguro de infernizar do que quem não tem e dá tiros na cara de quem lhe enche o saco ou até por menos que isso.

Na Globo o cara por traz da arma não conta, o crime não é crime, que supõe culpados, é “violencia” que significa outra coisa, sem dono, do que resulta que os criminosos passam a ser “infratores” que não devem ser tirados das ruas onde andam os nossos filhos porque a prisão não consegue “recupera-los”. Foda-se quem vier a ser morto por isso…

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Enfim, nós somos brilhantes, Luiz, sabemos mais e melhor que o mundo e por isso colhemos os resultados que colhemos. É justo que seja assim!

Já o seu personagem, conheci inúmeros como ele de quem morro de saudades. Também eu tive tios caçadores a cujas expedições aderi a partir da segunda metade dos anos 60. Era o tempo em que o sertão começava ali por Araçatuba, a Mata Atlântica ainda estava agarrada ao mar no litoral entre Rio e SP, quase virgem, e ia assim até a foz do Rio Doce, um dos nossos paraísos destruídos. Só recuava para Oeste da metade da Bahia para cima. O sertão da Bahia emendava com o do Rio das Mortes e daí, Amazônia acima, ia intacto até o Caribe. Conheci esse Brasil selvagem e seguro e cordial como nunca foi o “civilizado” de ponta a ponta e isso foi crucial na minha formação.

Ser caçador não é uma escolha, é uma condição de quem tem a felicidade de nascer sujeito a ela. Instala-se no imaginário do portador antes da capacidade de raciocinar. É anterior e mais forte que ele.

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A sua descrição remete a um caçador de batuíras, aves do brejo, vôo rápido e errático como o de uma borboleta à jato, tiro muito difícil, cozinha excelente, bom desafio pros perdigueiros. Vê-los caçar; recuperar o instinto ancestral como numa transfiguração instantânea assim que pisam um campo com caça, oferece ao observador a primeira experiência mais íntima com as forças do atavismo. Eram muito comuns — eles e as batuíras — no iterior de SP no tempo em que ainda havia a natureza em pé que nossos ecologistas fizeram questão de entregar para a agricultura, unica maneira legal de fazer terra render dinheiro neste país infeliz. O interior de SP era famoso pelas areas de banhados — brejos de cabeceiras dos seus muitos riozinhos onde pelo mês de outubro ocorriam as eclosões de vagalumes aos milhões que, ao anoitecer, pareciam trazer o céu ao chão. Hoje estão quase todas devidamente drenadas para que a agricultura e a “civilização” se instalassem até sobre o ultimo centímetro disponível, onde as batuíras e batuirões, também ditas narcejas ou corta-vento lá no Rio Grande do Sul (“bécasse” e “bécassine” nos restaurantes do mundo) eram rainhas.

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Agradeça aos nossos herois da natureza a extinção de tudo isso. Eles acreditam piamente, e assim ensinam às nossas crianças, que os alimentos vêm dos fundos dos supermercados, devidamente embalados em plástico e sem sangue, e que o verdadeiro amor à natureza, sem o incomodo dos insetos, do calor e dos demais componentes dos “programas de índio” (aqueles que ainda fazem parte do currículo escolar do resto do mundo, como acampar no mato e entender o que de fato acontece lá dentro), deve ser vivido em manifestações no vão do Masp, com cartazes “criativos” e fantasias de caveira contra a caça e etc..

Historicamente falando ha duas correntes de ambientalismo no mundo. A que nasce nos EUA (o Boone & Crocket Club, frequentado pelo presidente Theodore Roosevelt,  foi a origem de tudo) e na Inglaterra, onde chegou a haver uma filial dele, pela mobilização de caçadores e pescadores, seguidos de pesquisadores e cientistas que, como v diz, amam e entendem como funciona a natureza real (não a que está na cabeça dos nossos urbanóides) e deu origem à linha do WWF (World Wildlife Fund), que usa a caça e a pesca esportivas como ferramentas de conservação, e a corrente ideológica e urbanóide que surgiu de militantes franceses (como os que vieram para a USP, hélas!) que resistiam à explosão de uma bomba atomica em Mururoa no pesqueiro Rainbow Warrior e deu origem ao Greenpeace, anti-caça e bom de discurso, de marketing e de midia. WWF era “dono” das florestas, Greenpeace dos mares, até que este veio se meter na Amazônia com a minha ajuda (sem muitas ilusões, vim a ser diretor do Greenpeace do Brasil, cargo de que me demiti “atirando” em pouco mais de um ano, história que ainda conto aqui num outro dia).

É esse o ar que assume a nossa crassa ignorância sobre tudo nesse campo particular, Luiz…

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