A doença do mundo, para variar

4 de dezembro de 2015 § 21 Comentários

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Deixemos a nossa de lado por um momento…

Depois de viver a dúvida cruel – foi terrorismo ou foi só mais um simples massacre doméstico? – a polícia americana conclui pela 2a hipótese no morticínio de San Bernardino. Isso deixa estabelecido ubi et orbi, que existe agora essa nova opção do suicídio com massacre revestido de uma embalagem “ideológica” que tem tudo para “pegar” já que, até que deixe de ser novidade, renderá mais minutos de fama que os outros…

Um dos maiores conhecedores das raízes históricas do terror no mundo islâmico já tinha, aliás, aventado a hipótese de que a onda de ataques inaugurada com o de Paris reflete as derrotas que o Estado Islâmico, que se divorciou da Al Qaeda pela sua opção estratégica essencialmente não internacionalista e de ocupação de territórios, vem sofrendo no Oriente Médio. Em um ano ja perdeu mais de 25% dos que tinha ocupado. Vai daí, a legião dos deformados dos países com lei com planos de aderir ao grupo para refestelar-se no sangue massacrando e massacrando de novo lá no “Califado”, estão deixando de correr para debaixo dos bombardeios na Síria e no Iraque e agindo por conta própria em seus territórios de origem sem uma coordenação central a partir de Raqqa, a “capital” do grupo na Síria. Daí os autores do atentado na França serem todos franceses, os da América americanos e assim por diante.a2

A central estaria “assumindo” todos os assassinatos porque cadáveres são essencialmente o “produto” da sua “industria” e, afinal de contas, o que abunda não prejudica…

Seja como for – suicídios com massacres “ideológicos” ou suicídios com massacres puros e simples – a pergunta que sempre me vem à cabeça é quantos dos problemas mais cabeludos da modernidade não são, de alguma forma, criaturas da mídia? Haveria esses massacres não fossem os “15 minutos de fama” que eles proporcionam? Quantos malucos das eras pré-midiáticas haveria que, na solidão dos seus delírios depressivos, teriam espontaneamente a idéia de se equipar do armamento apropriado, fantasiar de Rambo ou de jihadista e massacrar seus vizinhos antes de se despachar desta para a melhor? Quanto desse sangue todo não é mais que o produto de uma forma perversa de moda?

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Seja qual for a resposta, haverá que se conviver (ou con-morrer) com ela. A tragédia sem fim do Oriente Médio é um problema sem solução dentro dos parâmetros morais do Ocidente. A única escolha que existe é entre assassinos sob algum controle e assassinos totalmente fora de controle porque o poder de estado — com as pouquíssimas exceções que vão sendo inexoravelmente engolidas pelos adeptos da regra — só se estabelece, naquela realidade cultural ainda tribal pelo assassinato em massa e só se mantém pela regularidade dos assassinatos “de reconfirmação“.

A Arábia Saudita é o Estado Islâmico estabelecido e consolidado. Tudo que Abu Bakr al-Bagdadi quer é ser Abdullah bin Abdul Aziz Al-Saud. Como ele ainda não tem uma “Arábia Bagdadita” para chamar de sua, escancara o seu “ou eu ou a morte” “wahabista” na rede mundial enquanto sua majestade Al-Saud que, ao fim de quatro ou cinco gerações de morticínios e autos-de-fé em praça pública igualmente “wahabistas”, já frequenta círculos civilizados, tenta manter aterrorizado com o “ou eu ou a morte” dele apenas o circuito fechado do público doméstico.

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Ninguém me tira da cabeça, aliás, que a farta colheita de psicopatas que essa exposição planetária rendeu ao Estado Islâmico é um “bonus” que deve ter surpreendido os seus competentes “marqueteiros” que, pensando apenas e tão somente em horrorizar, acabaram por seduzir com o seu “reality show” sanguinolento.

Sim, senhores, o mal existe! Era Freud e não Rousseau quem estava certo…

Mas não acredito que fosse isso que eles queriam provar. Eles são só os autores involuntários da desoberta da nova dimensão que assumiu a doença da humanidade com a chegada da geração videogame à idade de substituir o “joystik” por um “kalash” de verdade…

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Bashar Al Assad é a versão “anti-wahabista” da mesma maldição. Se cair, engendra outro Bashar Al Assad, mas requerendo muito mais sangue para se consolidar no poder do que os rios que o atual tem vertido para se manter nele.

Nos dois casos instala-se o mesmo círculo vicioso. Como quem resiste às bestas-feras são sempre os melhores, os melhores são sempre os primeiros a serem assassinados. Permanece vivo quem se conforma à ordem do terror que se apoia, essencialmente, no instituto da delação “at random” como fator decisivo de sobrevivência: passa-se a matar e a fazer matar para não ser morto, e a única saída desse estágio “colaborativo” do horror é cruzar o Mediterrâneo. Mas aí o que fica, fica cada vez pior…

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