Elucubrações sobre A Guerra do Brasil

5 de fevereiro de 2015 § 29 Comentários

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Vejo Leilane Neubarth entrevistando o governador Pezão, do Rio de Janeiro, na Globo News. O tema é bala perdida. Mais de 30 atingidos só no mês de janeiro.

De vez em quando alguma coisa faz o Brasil lembrar da maior guerra do mundo … que é precisamente a sua. Outro dia assisti, na mesma Globo News, um chororô de uma das apresentadoras da tarde em cima dos “orfãos do Ebola“. Mostrava-se indignada com o pouco que o mundo tem feito por eles, apesar da ONU ter alguns programas em curso para isso e de gente como os Gates, da Microsoft, ter investido alguns milhões para conter a praga.

Fui ao Google. O ebola, desde que começou, contaminou uns 15 ou 16 mil e matou cinco mil e poucos. Dez vez menos do que o Brasil mata a tiro por ano.

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E o Estado Islâmico, que horroriza o mundo?

Fui ao Google de novo. Em outubro passado a ONU fez um levantamento “completo” e publicou um relatório que o mundo inteiro, a imprensa brasileira inclusive, chamou de “aterrorizante“. Nos 10 meses de 2014 até aquele momento, o EI tinha matado entre 9 e 10 mil pessoas. Cinco, quase seis vezes menos do que o Brasil mata a tiro por ano…

Socorro, ONU! Socorro, Bill Gates! Nós somos cinco, seis Estados Islâmicos à solta, com tiro de fuzil calibre 308 na cabeça de bebê, gente derretida viva nos “micro ondas” nos altos de morro e o diabo e vocês nada!!!

O nosso é um país muito doente. Talvez o mais doente do mundo porque nós somos como os bêbados, como os drogados: não admitimos; quase não percebemos que estamos doentes.

E volto pra Leilane Neubarth. Ela e Pezão vão emendando as frases um do outro:

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Não adianta só polícia.; tem de criar um ambiente. Tem de ter um esforço nos tres niveis de governo, municipal, estadual e federal. Escolas, comunidades, tudo tem de ser mobilizado. Escola em tempo integral. Trancar todo mundo o dia inteiro na escola. Fechar as fronteiras do Brasil ao armamento pesado. Mudar o Estatuto do Menor que mata e não paga e mata de novo“…

Todos esperam tudo do governo. O próprio governo espera tudo do governo…

E rola a mentira. Metade mentira, metade perplexidade.

E quem é que quer ficar o dia inteiro nas escolas que temos? Quem ainda engole as escolas que temos é quem já não vai mesmo pegar no fuzil. Não é exatamente quem tem; é quem, apesar de tudo, ainda insiste em ser família.

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E a família? A instituição família? O que é que restou da família? Quem é que está destruindo a família? O quê é que está destruindo a família? O que é que não “tanto faz” nesse Brasil que sobrou? O que é que não é “tudo bem“; “normal“?

Ninguém põe a mão na própria consciência, a começar pelas TVs. Fechar as fronteiras às armas é impossível. Tem 40 vezes mais fuzil por habitante na Suíça e nada. Ou até nos Estados Unidos com aqueles malucos super “hype” que não vivem do, só se matam pelo fuzil. O que nós precisamos é fazer mais gente achar que não vale a pena viver do fuzil. Não é só punir quem usa o fuzil que resolve a coisa. É principalmente punir quem faz tanta gente no Brasil achar que nesta merda só mesmo vivendo do fuzil. Quem prova todos os dias ao Brasil que aqui só se vence pela força. Ou arrumando uma têta no governo. É tratar de fabricar as provas de que aqui se vence pelo esforço. De que quem “faz” paga, desde lá de cima. A começar por quem “faz” com o dinheiro público, com o dinheiro dos miseráveis, inclusive pra dispensar a família até de ser família.

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O que nós precisamos é tratar de criar e vender um outro horizonte ético; um outro ideal de ser que não seja a assimilação do canalha e a louvação da canalhice de todas as novelas que o brasileiro traga desde que nasce onde não ha ninguém que não traia a tudo e a todos; onde não ha ninguém que não seja canalha mas nem por isso pode ou deve ser apontado como tal. Não! “Tudo bem!“. “Normal…“. “O que é que tem?“, “Todo mundo é…“, “A culpa não é dele, coitado!“…

O que nós precisamos é descontaminar nossas escolas da estruturação “científica” da canalhice empurrada covardemente, dolosamente, goela abaixo de crianças virgens por “professores” consciente e deliberadamente acanalhados.

Não vai parar…

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Nossa doença é sistêmica. Pega-nos de cabo a rabo. Requer um tratamento sistêmico. Uma reforma das linguagens e das sensibilidades. E nessa ordem. Uma reforma; um realinhamento semântico do Oiapoque ao Chuí. As sensibilidades não se reformarão, nem antes, nem independentemente da linguagem. É preciso tomar a linguagem como um remédio. É o primeiro e o mais importante dos remédios. Se já nos esquecemos como é; se não conseguimos mais sentí-lo natural e espontaneamente, é preciso teatralizar o escândalo e o choque; produzi-los artificialmente e encena-los diante do que é escadaloso e chocante até que se restabeleçam, num novo encadeamento, as relações entre causas e efeitos.

Reforma “de base” mesmo é isso. Policiar-se para recusar adotar, no jornalismo e na vida, a linguagem e a lógica dos bandidos apenas porque são os bandidos que ganham sempre; apenas porque são eles que se tornaram a norma. É preciso voltar a ser Quixote, obrigar-se a voltar a ser Quixote. Fazer disso uma disciplina até que voltemos a tomar como normal apenas a normalidade.

Senão, não nos iludamos: a maior guerra do mundo não vai parar nos 56 mil mortos por ano.a

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§ 29 Respostas para Elucubrações sobre A Guerra do Brasil

  • Carmen Leibovici disse:

    O que digo não é conforto e nem é para se conformar,mas o fato é que o mundo todo parece que anda meio podre.
    Tem alguns “brotinhos”de vida despontando por aí,mas a sensação que dá é de que está(quase) tudo sendo tomado pelas pragas.
    Acho que não tem muita alternativa senão ir regando os brotinhos que despontam e plantando outras sementes boas.
    Eu detesto ser ou parecer negativa,mas esta parece ser a realidade “orgânica”do momento,de nascimento,vida e morte, e é essa que temos que enfrentar,superando ,dentro do possível, e aguardando…

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  • Começo 2015 animado, trabalhando alucinadamente num caótico SUS como médico cardiologista, comprei uma casa nova em Barretos e estou providenciando Sistemas de Segurança, como monitorização por circuito de TV, cerca elétrica e arame farpado, contratação de um segurança 24 horas.
    Vou deixar a casa anterior com um inquilino para detona-la e tenho certeza que minha cadelinha Pipoca vai adorar morar debaixo da churrasqueira ao lado da piscina. Se a coisa esquentar aposento-me e mudo para o Chatão Mineiro, vou pescar no Rio Grande. Se alguém falar em plantar cana, tenho um cabo de vassoura atrás da porta para abrir-lhe os miolos.

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  • Dúvida cruel, será que ainda existem peixes no Rio Grande?

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  • Alguém tem um carro blindado para vender?

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  • honorio sergio disse:

    Fui no google para confirmar sobre a guerra do Vietnã, onde mais de 50.0000 soldados americanos perderam a vida em cerca de 8 anos de guerra, aqui só o nosso trânsito leva num ano, quase essa quantia, lembrando que lá era uma guerra, com bombas, tanques ,aviões e armas de todos os tipos!

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  • Carmen Leibovici disse:

    Mas eu vou aproveitar este post e reafirmar minha concordância com a questão do voto distrital com recall,proposto pelo Fernão.
    Se um sistema assim prosperar,poderia-se controlar também a polícia por região.Seria algo como pequenos países dentro do próprio país.

    Eu vou dar de novo o exemplo de Israel que é um país pequeníssimo mas seguro.Lá você pode sair a noite e de dia em segurança que nada acontece porque a polícia,por ser tudo menor,controla melhor,e a população mantém mais contato com a própria polícia que conhece cada comunidade , e todas as suas pessoas ,porque está sempre circulando dentro daquele mesmo contexto.

    Aqui,se separarmos melhor politicamente as regiões,também teremos isso ,mesmo o Brasil sendo um país continental.

    E mesmo uma grande ideia e plaúsivel e ajudaria demais a nossa vida neste país,

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  • Carmen Leibovici disse:

    É mesmo uma grande ideia e plausível e ajudaria demais a nossa vida neste país!

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  • Carmen Leibovici disse:

    E se separarmos políticamente as regiões,teremos como melhorar não só a polícia,mas principalmente as questões de educação saude etc.

    O Brasil é muito grande,e o sistema de distribuição de nossos “representantes”está realmente muito mal feito.

    Fernão,estou certa?Seria algo como pequenos países dentro do país?

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  • Carmen Leibovici disse:

    Fernão,você poderia dar um exemplo hipotético de como seria se adotássemos o voto distrital com “clausula “de devolução do “produto”que não cumprir o que promete-recall?
    Dê ,por favor,um exemplo de como seria para uma pessoa que mora no bairro de Pinheiros em São Paulo e para outra que mora numa cidadezinha de 6000 habitantes ,no interior ou no Norte,etc.
    Como ficam as questões relativas aos hoje vereadores,aos deputados estaduais e federais etc.
    Na prática ,como seria a dinâmica?Como funcionaria,assim numa explicação sucinta e didática.

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    • fernaslm disse:

      o componente fundamental para garantir o sentido democrático do recall é o voto distrital pelas razões tantas vezes já explicadas na série de artigos que já referi aqui inúmeras vezes.
      primeiro é preciso garantir que se saiba quem é o representante de quem para que o representado traído possa se livrar do seu traidor sem entrar em propaganda enganosa.
      isso só acontece de modo democrático em círculos restritos já que cada grupo da sociedade pode e deve ter representantes diferentes entre si. não ha portanto, representante “bom” ou “ruim”, ha representante que vota segundo o interesse dos seus representados e representantes que votam contra o interesse do seu representado. e esse merece ser destituído por ele.
      ou seja, representante de esquerdista tem de votar pela esquerda e de direitista pela direita, e é bom que seja assim.
      o distrito tende a ser homogêneo, do ponto de vista sociológico. um bairro ou uma região de uma cidade tende a congregar gente de perfil sócio econômico semelhante e com interesses parecidos do ponto de vista da ação dos administradores públicos. onde o recall funciona melhor é no âmbito municipal, onde devem começar as carreiras políticas. de modo que já limpa a coisa desde os primeiros passos.
      quanto mais alto o cargo em direção ao estado e à união, maior terá de ficar o distrito e mais difícil será fazer o recall, embora seja sempre possível.
      então qualquer um, em pinheiros ou na sua cidadezinha, pode iniciar uma petição para derrubar seu representante. se conseguir assinaturas suficientes convoca-se uma votação só naquele distrito para decisão final.
      como pode-se e deve-se eleger – e não deixar que só os políticos nomeiem – os funcionários públicos mais importantes como delegados de polícia, diretores de escolas públicas, etc. fazem recall pra isso também.
      o recall não é portanto, uma panacéia que conserta tudo no ato. é um processo diferente que se implanta para mudar a direção das lealdades na relação do cidadão com o político e com o agente publico.
      o cara não tem mais de ser leal a quem o nomeou para permanecer no cargo, que é o que vicia tudo na corrupção, ele tem de passa a ser leal a quem o elegeu e pode deselege-lo a qualquer momento.
      depois de fuzilados os primeiros que não o forem, os outros entendem a nova regra do jogo rapidinho e começam a jogar a seu favor.
      é isso.

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      • Carmen Leibovici disse:

        Bom,se esse procedimento se iniciasse só para vereador,para começar,estaria bom.Como fazemos?

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      • Carmen Leibovici disse:

        Mas o que eu acho mesmo,Fernão,é que nada adianta enquanto não for resolvida a cruz do problema,e a cruz do problema ,no meu entender,está no nosso Judiciário mal resolvido.Enquanto os 3 Poderes do Brasil não forem de fato 3 poderes autônomos nada poderá ficar resolvido.

        Hoje votamos para o chefe federal(presidente)e seus deputados e senadores;estadual(governador)e seus deputados;municipal(prefeito)e seus vereadores,mas não votamos para os chefes do judiciário em nenhuma das instâncias-nem federal,nem estadual e nem municipal.
        Nós ,”simples mortais”,somos julgados basicamente por juízes concursados ,mas TODOS os *nossos*funcionários ,eleitos por nós e que cuidam do nosso patrimônio e dos nossos interesses,são julgados pelas instâncias superiores dos judiciários (Tribunais Superiores)que são NOMEADOS(!!!)pelos chefes dos executivos e dos legislativos!

        Deste jeito,com um dos poderes(talvez o mais importante) em posição de “refém”,sujeito à submissão,nada do mais funcionará.Acho que não tem como funcionar.

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      • Carmen Leibovici disse:

        “…mas (quase)TODOS os *nossos*funcionários …”

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  • Milton Golombek disse:

    Excelente crônica !

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  • Pedro Cury disse:

    Aproveito o espaço para solicitar um esclarecimento: existe voto com recall na Venezuela? (ver Hélio Schwarstman na Folha de hoje).

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  • José Luiz de Sanctis disse:

    E para piorar temos “otoridades” que defendem os direitos dos manos e preferem que os humanos direitos se danem. Sobre a impunidade:
    http://m.estadao.com.br/noticias/opiniao,prisao-esportiva-,1628707,0.htm

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  • daniela binazzi disse:

    Nossa! Você falou tudo o que eu queria falar! Mas eu quero acrescentar uma coisa: chega também da tia Leilane com suas frases feitas e conversa mole mandada pela Globo do tipo: o que acontece na Argentina com o Procurador Nizman (não sei se soletrei certo!), parece um pastelão! Meu Deus, que sensibilidade de …. Jornalista não tem que ser simpático e agradar. Tem que ser honesto e “falar”. E parar de explicar as notícias como se a população fosse toda analfabeta. Talvez seja, porque é mais fácil pra Globo, pra Petrobrás e pro Governo e tantos outros lidar com a ignorância do povo.
    Agora Dona Dilma, a senhora diz que apanhou na ditadura por abrir a boca e agora quer calar a boca de quem fala da porcaria que faz mancomunada com gente da pior categoria que eu DUVIDO que fossem seus companheiros de luta nos porões do DEOPS. Vergonha Dona Dilma. Ou a senhora acredita que quando se fica mais velho se fica mais “comodista”? Então vai pra casa cuidar do neto, Dona Dilma!

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  • indicação de filme para o final de semana:ENCONTRO COM HOMENS NOTÁVEIS- GURDJIEFF

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  • Em torno do mesmo tema (Gurdjieff, IN SEARCH OF THE MIRACULOUS – PETER OUSPENSKY

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  • A QUALIDADE DO CONHECIMENTO DEPENDE DA QUALIDADE DA INFORMAÇÃO

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  • INDICAÇÃO DE LEITURA : de PETER OUSPENSKY – “EM BUSCA DO MIRACULOSO”

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  • Ben disse:

    Muito bem colocado. Tendemos a enganar a nós mesmos. A conhecida cordialidade do brasileiro não passa de um mito. Os programas brasileiros de pegadinhas por exemplo, são agressivos, ofensivos e procuram sempre irritar e humilhar os participantes. As emissoras de TV oferecem o que o povo gosta e considera aceitável.

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