A libertação (só) do Maracanã
20 de junho de 2011 § Deixe um comentário
Anotações do fim-de-semana – 7
Sem dar nem um tiro, 750 policiais e soldados reincorporaram o morro da Mangueira ao territorio nacional depois de 26 anos de “independência”.
Com isso fecha-se o “Cinturão da Grande Tijuca” que cria uma zona desmilitarizada em torno do Maracanã.
Agora falta só o Complexo da Maré, ao longo da Linha Vermelha, que liga o Galeão ao Rio de Janeiro para que os estrangeiros que vierem ver a Copa possam ir e vir sem passar no meio do fogo cruzado.
A Rocinha, o Vidigal e outros morros ainda ocupados pelo tráfico podem ficar para depois porque só com a Olimpíada é que eles ficarão no caminho entre os turistas hospedados na Zona Sul e as competições que se darão principalmente na Barra.

Acredite quem quiser, foi mais ou menos nesses termos que O Globo comemorou a ocupação da Mangueira hoje, sob a manchete de página “Segurança no palco da Copa”.
O Globo, é obrigatório lembrar, pertence à mesma empresa da Rede Globo, que é quem mais fatura com uma Copa do Mundo no Brasil depois da Fifa e da CBF…
Não duvido que esta seja uma angulação realista. Venho denunciando essas UPPs desde o primeiro dia como uma operação “pra inglês ver”.
Mas o tom do Globo não era de denuncia. Era de comemoração! Ele se dá por satisfeito com o “Cinturão da Grande Tijuca”!!!
Pra mim isso é um escândalo muito maior que a atitude dos políticos que determinaram que seja assim.

Como sempre, a ocupação foi uma moleza. Os traficantes são business men que sabem que não podem enfrentar o Estado se este estiver disposto a coloca-los no devido lugar. Eles não precisam ocupar territórios próprios e armar os exércitos necessários para garanti-los para seguir com o seu comércio.
Faziam isso porque o histórico descaso do Estado para com a desgraça dos favelados do Rio dava-lhes de barato essa oportunidade.
A guerra pelos morros traduz apenas os delírios de vaidade dos chefões que, livres para agir, se deixam inebriar pela sensação de onipotência de ver seus súditos implorando pela vida; de ter uma corte ao redor de si onde todos lhes dizem amém e puxam-lhes o saco para ganhar privilégios; de ter o poder de distribuir pedaços desse poder.
Eles são uma versão mais primitiva dos profissionais de Brasilia, que também cairão sem disparar um tiro no dia em que a imprensa e o povo brasileiro resolverem que já tivemos o suficiente disso que eles são.

Porque as UPPs me revoltam
8 de fevereiro de 2011 § Deixe um comentário

Em menos de duas horas e sem disparar um único tiro a polícia ocupou mais nove das favelas cariocas que Leonel Brizola entregou ao crime organizado ao proibir toda e qualquer incursão policial nos morros nas duas vezes em que foi governador do Rio de Janeiro, de 1983 a 87 e de 1991 a 94.
Foi só a autoridade constituída mostrar que a disposição de exercê-la desta vez é pra valer que desapareceu a “valentia” dos chefões. Agora as até ontem “inexpugnáveis” cidadelas do tráfico nas favelas cariocas mostram cada uma mais pressa que a outra em se auto desmantelar.
Faz todo sentido porque para controlar o tráfico de drogas no Rio de Janeiro, como em qualquer outra cidade do mundo, não é nem nunca foi necessário controlar os territórios que o Estado manteve livres para quem quisesse se candidatar a ocupá-los nos últimos 20 anos ou mais. Armar e manter os exércitos particulares necessários para fazê-lo era um luxo que os traficantes cariocas se davam porque podiam arcar com ele apenas para desfrutar a sensação de onipotência que lhes proporcionava o poder de vida e morte e o exercício impune do terror permanente sobre os quase dois milhões de favelados do Rio de Janeiro, graças à corrupção do Estado brasileiro.

O que explica a bestialidade das guerras que fizeram a triste fama da antiga cidade maravilhosa, portanto, são vaidades primitivas em busca de poder deixadas livres para se lambuzar no sangue do povo por políticos corruptos. Os componentes sinistramente carnavalescos da iconografia pejada de ouro que nos permite entrever o universo mental desses brutais “imperadores” dos morros cariocas não deixa duvidas quanto à “psicologia” que inspira o fogo cruzado no meio do qual o Rio se acostumou a se esgueirar nas últimas duas décadas.
Como todas as grandes manchas negras da nossa História, esta é mais uma das que só começou a ser apagada pelos “heróis” domésticos quando o mundo lhes impôs uma atitude. Assim como a escravidão só começou a cair, entre nós, depois que a Inglaterra impôs um bloqueio naval ao país, nossos políticos só se dignaram a gastar um minuto de seu tempo com a tragédia dos descendentes desses escravos e outros desvalidos do Rio de Janeiro e com as rebarbas que dela sobravam para o resto dos cariocas (sim, porque o descaso deles para conosco é democraticamente amplo, geral e irrestrito) quando o governo Lula foi avisado pelo Comitê Olímpico Internacional e pela Fifa de que ela poderia vir a constituir um bloqueio para a Olimpíada e a Copa do Mundo por ele contratadas.
“Mulheres de malandro” exibem no Orkut presentes dos chefões
Eis porque essa tão comemorada “virada” e toda a exploração política que agora se faz em cima dela, em vez de aplacar, aguça ao nível do insuportável a minha indignação e a minha revolta.
O rio de sangue que correu; o caudal de tragédias e felicidades destroçadas nestes mais de 20 anos; os traumas a serem lentamente purgados pelas próximas gerações dos milhares de familiares e amigos das vítimas dessa guerra inútil – é o que comprova esta sucessão de debandadas dos “imperadores” dos morros – é tudo um imperdoável desperdício que poderia ter sido evitado desde o primeiro momento por um simples ato de vontade dos grandes patronos do crime e artífices das recorrentes tragédias brasileiras que são essas figuras trêfegas que, no momento como a cada quatro anos desde o restabelecimento da Republica, nos oferecem o deprimente espetáculo da falta de pudor e da sofreguidão com que disputam os pedaços do que é nosso.
Continua sendo dado aos conhecidos predadores de sempre a condição objetiva de ignorar olimpicamente tudo que nos aflige e de engatilhar nossas desgraças futuras, graças à inexpugnável blindagem que vem junto com o diploma de investimento do titular em qualquer cargo publico no Brasil, seja por eleição, seja por nomeação.
É tão completa a impotência do cidadão brasileiro diante dos seus “representantes” e “servidores” que nosso sistema político é mais suscetível às pressões internacionais que às dos seus próprios eleitores, e só ela tem nos redimido do pior quando as consequências do nosso aleijão político chegam ao paroxismo.


A velha cortina de fumaça atrás da qual eles se escondem com a cumplicidade de uma imprensa relapsa que cede fácil demais à manipulação pelas fontes e ajuda o publico a esquecer que é disso que se trata, está muito bem resumida na arte que acompanha a matéria da Veja desta semana sobre “A Cara do Congresso”:
- dos 513 congressistas recém diplomados, só 36 se elegeram com votos próprios; os outros 477 ganharam o mandato e a garantia de impunidade que vem com ele tomando carona no mecanismo fraudulento que aqui se conhece como “coeficiente eleitoral”;
- 80 dos novos deputados são filhos, netos, sobrinhos ou cônjuges de outros políticos e 288 foram reeleitos, duas indicações seguras de que, uma vez alcançada a condição de assaltar a coisa publica de dentro fica mais fácil conseguir os milhões necessários para comprar eleições num sistema tão distorcido como o nosso e seguir para a segunda etapa que é tornar vitalício e hereditário o desfrute desses privilégios;
- 71 dos novos deputados já se elegeram na condição de réus por crimes de improbidade na Justiça brasileira, aquela onde os julgamentos de quem pode pagar por esse “serviço” nunca chegam ao fim mas que, ao mesmo tempo, afirma o preceito de que só há culpa para os réus julgados até esse nunca alcançável ultimo recurso;
- no quadro das distorções regionais de que se valem os fugitivos da memória do publico para lhes impor sua volta recorrente ao poder, um voto em Roraima vale 12,5 vezes o que vale o voto de um paulista.
A libertação da condição de escravos dessa canalha começa pelo mecanismo destacado na segunda arte da mesma matéria da Veja, que explica o funcionamento do voto distrital, a ferramenta inventada ha 126 anos pelos ingleses (1885) para deixar mais claro quem representa quem numa democracia “representativa”, de modo que uns possam controlar o comportamento dos outros.
Sem esse primeiro passo elementar, que é mais que tempo de exigir, não da para começar a sonhar com um Brasil melhor.

Legalizar as drogas e preservar as Forças Armadas
6 de novembro de 2009 § 1 comentário
O crime organizado depende estritamente da corrupção. E a proibição das drogas garante o dinheiro que o alimenta. O Taleban é sustentado pela proibição das drogas e nem o exército dos EUA consegue derrotá-lo. Colocar as Forças Armadas nessa briga só vai fazer com que elas se corrompam e se tornem mais suscetíveis à política.
Anuncia-se que as Forças Armadas ganharão poderes de polícia tanto nas operações de fronteira quanto “nas demais ações ordenadas pelos poderes constituídos” e que, “diante de eventuais incidentes, seus integrantes serão julgados por tribunais militares e não pela Justiça comum como ocorre hoje”. Daí por diante, a matéria é contraditória. Diz que a nova lei “fortalece de maneira explícita” (sic) o cargo de ministro da Defesa que “passa a ter comando operacional sobre as três Forças”. E logo adiante, afirma taxativamente que ele “coordenará os chefes do Estado Maior das Forças mas não os comandará”. Quem fará isso é o presidente da Republica.
E a isto chama a redação do Estadão “um modelo moderno”!
Misturar as Forças Armadas com o crime organizado é o caminho mais curto para corrompê-las. E essa corrupção poderá vir não só do crime organizado mas tambem das forças políticas que disputam o governo. O combate ao crime exige decisões de curto prazo baseadas em critérios que dificilmente combinam com o isolamento da política em que convem manter as Forças Armadas. Com seu poder incontrastavel, elas são uma tentação forte demais para ficarem expostas às influências dos que vivem da disputa pelo poder. Hoje esta parece uma ameaça distante. Mas não é por outra razão que as democracias sentiram a necessidade de criar as polícias federais para exercer a função de combate ao crime organizado e vigilância policial das fronteiras, deixando às Forças Armadas a função clara e exclusiva de defender a Constituição, entre cujas determinações uma das mais importantes é a de garantir que a disputa pelo poder se restrinja ao campo das ideias.
As Forças Armadas devem agir exclusivamente do país para fora , por assim dizer, e nunca do país para dentro. E é por isso que bate tão duro em meus ouvidos essa história de “nas demais ações ordenadas pelos poderes constituídos”. Seguro morreu de velho…
Daqui o que parece é que a nova lei afasta as Forças Armadas de sua atribuição precípua e deixa-as mais abertas à influência “dos poderes constituídos”, ou seja, do governo de plantão. E isto somado à garantia de impunidade implícita na ideia de julgar desvios em tribunais da própria corporação cria uma receita que aponta diretamente para resultados pra lá de indesejáveis.
E o que justifica tudo isso? Será mesmo o combate ao crime organizado?
Ora, a existência do crime organizado depende estritamente da corrupção e não da falta de capacidade do Estado de exercer a violência, da qual tem o monopólio, para reprimi-lo. Assim, a primeira providência para combatê-lo de fato é iniciar uma cruzada nacional de reformas simples destinadas a reduzir a impunidade que hoje é garantida para os policiais corruptos, em vez de tentar estende-la também aos militares.
Por incrível que seja o fato dos jornais jamais tocarem nesse “pormenor”, a verdade é que o que torna toda ação policial contra o crime organizado um desperdício criminoso de recursos e de vidas é que um oficial de patente superior que pegue seu comandado em flagrante conluio com os traficantes de drogas e de armas não tem poder para expulsá-lo da tropa. Nem mesmo o comandante da PM pode fazê-lo. E nem sequer o secretário de Segurança Publica. Somente o governador em pessoa pode exonerar o policial corrupto que antes passará por um “julgamento administrativo” – isto é, feito por seus próprios pares – que correrá em duas instâncias, cada uma das quais com a possibilidade de centenas de recursos. Enquanto isso, o traidor permanecerá “afastado”, eufemismo de difícil definição pois que não implica em perda do soldo, do poder de polícia ou do direito de carregar uma arma. Em outras palavras, o traidor permanecerá sentado ao lado daqueles que traiu, o que torna a desinfecção do sistema rigorosamente impossível.
É isto que explica o Rio de Janeiro de hoje.
Quando o governador de São Paulo, Geraldo Alkmin, que não conta com a especial simpatia dos jornalistas, instituiu o julgamento sumário dos policiais corruptos e, assim, fez uma primeira limpeza da polícia paulista, a criminalidade no Estado caiu mais de 50%, apesar do silêncio da imprensa.
A impunidade do policial corrupto é um componente do esquema de impunidade geral na política. Existe para atrelar todas as lealdades ao governador e não porque isso faça qualquer sentido racional. E esta é a principal razão pela qual a imprensa deveria concentrar nesse alvo os seus tiros, em vez de apenas ecoar, de forma sensacionalista, os muitos que são disparados por falta de correção dessa distorção.
O outro componente sem o qual a questão da segurança publica jamais será equacionada é o enfrentamento do erro gritante que é criminalizar as drogas.
Hoje seria levado na piada qualquer indivíduo que viesse propor a criminalização das bebidas alcoólicas como os Estados Unidos caíram na besteira de fazer nas primeiras décadas do século XX. Essa criminalização, diga-se de passagem, deu-se por leis de iniciativa popular votadas diretamente pelos eleitores. O resultado é mais que conhecido e está imortalizado pelo cinema. As grandes cidades americanas foram transformadas em cenários de guerra que só se diferenciavam do Rio de Janeiro de hoje pelo nível de pobreza e pela potência das armas envolvidas. Felizmente para os americanos, os mesmos eleitores que propuseram e aprovaram a criminalização do álcool, propuseram e aprovaram a sua descriminalização, e os Al Capones desapareceram como que por encanto.
A questão é que, depois do álcool, veio a poribição das drogas. E a história é a que conhecemos. Os números do consumo que, em todo o mundo, cresce tanto mais quanto mais aumenta a repressão, são prova mais que suficiente do desperdício que é o sangue que corre em torno desse comércio. Por trás deles, está um fato sabido desde a pré-história, qual seja, o de que a humanidade nunca resistiu e, provavelmente, nunca resistirá ao impulso de alterar quimicamente o seu estado psíquico, moderadamente, alguns, compulsivamente outros.
Não se pode vencer a guerra contra o tráfico enquanto a proibição continuar fazendo da droga uma industria de bilhões de dolares. Não é só o PCC e o Comando Vermelho que ela sustenta. É todo o esquema do terrorismo internacional, que inclui exércitos muito mais poderosos em confronto aberto com governos nacionais. As FARC vivem da proibição das drogas. O Taleban vive da proibição das drogas. E o Exército dos Estados Unidos da América não consegue vencê-los. Como o tempo tem mostrado que é ilusório esperar que políticos, muitos dos quais lucram com o crime organizado, tomem uma iniciativa nessa direção, resta torcer para que os eleitores americanos, que têm esse poder, usem-no para por um fim a essa tragédia anunciada como fizeram com a legalização do álcool e que, com isso, inaugurem uma nova tendência mundial.
Porque se todos os que desejarem se matar com drogas conseguirem, haverá, ainda assim, imenso benefício para todos os outros e para a paz mundial, se isto puder ser feito por eles legalmente.










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