Raízes históricas da última mentira “islâmica”

10 de setembro de 2014 § 62 Comentários

aa4“Projeto para cinco anos”

Como inglês que é, e profundo conhecedor da história e da realidade presente dos povos árabes (ele foi, por muitos anos, agente do MI6, o serviço secreto inglês, destacado para aquela parte do mundo), Alastair Crooke, com dezenas de artigos disponíveis na internet, reune condições excepcionais para explicar as raízes históricas e o contexto presente do grupo terrorista conhecido como Estado Islâmico que, a partir da guerra civil na Síria, destacou-se da Al Qaeda e, depois de ocupar territórios estratégicos naquele país e no Iraque ricos em petróleo, estruturou-se financeiramente o suficiente para se constituir numa ameaça real de dominar a cena num mundo árabe desestruturado por uma sequência de convulsões.

Os terroristas do Estado islâmico abraçam a corrente do wahabismo, a mesma que, lá no início do século 18, serviu de alavanca para que o clã dos Ibn Saud que até hoje reina inconteste sobre a Arábia Saudita, começando como uma das muitas tribos beduínas que vagavam pelo deserto escaldante e miserável do Nejd guerreando-se umas às outras para roubarem-se mutumente as poucas posses, iniciasse a sua trajetória de conquista de poderes muito mais amplos.

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Abd al-Wahab viveu no século 17 quando o Império Otomano, de um lado, e o Egito, do outro, dominavam o Oriente Médio. Ele apontava essas nobrezas dominantes, que incorporavam alguns habitos ocidentais como “falsos muçulmanos” e criticava igualmente as tribos beduinas que “adoravam santos, enterravam e visitavam seus mortos e viviam mergulhados em superstições” de influência católica.

Pregava que todos voltassem aos costumes “do tempo em que o Profeta viveu em Medina” que teria sido a época de ouro do islamismo, e convocou a “guerra santa” contra todas as novidades poluentes tais como o xiismo, o sufismo e as demais variações do islamismo ou qualquer coisa que pudesse ser ligada à filosofia grega, todas elas “proibidas por deus”, em razão do que, “qualquer homem que manifestasse a menor dúvida ou hesitação sobre a correta interpretação do Islã deveria ser implacavelmente morto, ter suas posses confiscadas e suas filhas e mulheres violentadas”.

Para que não pairassem dúvidas sobre essa entrega total à única verdade, ele exigia que todos “os verdadeiros muçulmanos se entregassem à obediência cega a um único líder, o Califa”.

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Abd al-Wahab acabou sendo expulso de sua cidade em 1741 e encontrou asilo e proteção na tribo de Ibn Saud, que percebera claramente que todo aquele radicalismo seria o instrumento ideal para que ele submetesse as demais tribos e passasse a reinar absoluto.

Ibn Saud continuou agindo como sempre agira, invadindo e saqueando seus vizinhos, só que agora podia faze-lo “em nome de deus”, o que justificava também o martírio em prol da jihad. Já não lhe bastava pegar o que pudesse e voltar para casa. Agora suas forças permaneciam no território inimigo onde a opção era a conversão para o wahabismo (e a obediência cega ao seu “califa“) ou a morte. De massacre em massacre, onde mulheres e criancas não eram poupados e a tortura e as execuções públicas se transformaram em instrumentos metódicos de submissão pelo terror, por volta de 1790 Ibn Saud já dominava quase toda a Península Arábica e atacava violenta e repetidamente a Síria e o Iraque.

Nada, enfim, que nossos ancestrais católicos não muito distantes (ou os que resistissem a eles)  não tenham passado também.

É exatamente essa mesma receita que o grupo Estado Islâmico tem aplicado nos últimos anos.

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Em 1815 as forças dos Saud foram esmagadas pelos egípcios e em 1818 os otomanos capturaram a capital do wahabismo, Dariya.

Só a partir dos anos 20 do século passado os Saud, reeditando a sua “guerra santa” contra a laicização e as modernizações promovidas por Kemal Ataturk e, mais tarde, por Gamal Abdel Nasser, conseguiram reconquistar o poder. Adb–al Aziz, o protagonista da época, temendo o radicalismo de suas próprias tropas depois de uma sucessão de revoltas, fuzila todos os seus líderes.

O petróleo começava a transformar-se naquilo que se transformou em nossos dias, os Estados Unidos e a Inglaterra cortejavam os Saud e o rigor wahabista, irrigado por uma torrente crescente de petrodólares, logo se converteu numa versão institucionalizada de estado nacional e num instrumento de garantia do poder absoluto do clã que chega até os nossos dias.

Com a riqueza do petroleo, a missão dos sauditas passa a ser “reduzir a multidão das vozes dentro da religião islâmica para um único credo”, projeto no qual investiram bilhões de dólares num esquema de conquista que passa a incorporar também elementos gramscianos (pela educação e pela cultura) em vez de recorrer exclusivamente às armas e ao terror como antes (embora sem abrir mão deles).

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O resto, incluindo a crescente dependência do Ocidente da ordem saudita como barreira para a expansão soviética no Oriente Médio, é história.

Ironicamente são os próprios sauditas que plantam a primeira semente do revival wahabista incorporado pelo grupo do Estado Islâmico, no arrasto da Primavera Árabe. O primeiro impulso se dá com a violentíssima repressão da tentativa de derrubar o governo sunita de Bahrein, sob a alegação dos imperativos do wahabismo, liderada pelos sauditas que manejavam a contra-revolução da Primavera Árabe laicizante iniciada com a derrubada dos governos da Tunísia e do Egito.

O segundo foi o mandato conjunto atribuido pelos sauditas e pelas potências ocidentais para que um dos príncipes sauditas tratasse de controlar a insurreição contra Bashar al-Assad na Síria. Mas como controlar um movimento onde o mote, como lá atras, é a doutrina do “Um único líder, uma única autoridade, uma única mesquita: submeta-se ou morra”?

A história está de volta para pânico dos sauditas que sabem melhor que ninguém com o que é que estão lidando, e agora pedem socorro ao Ocidente para deter a ameaça que eles próprios ajudaram a criar.

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Começando como um grupo destacado da Al Qaeda, logo considerada moderada demais para os novos wahabistas, financiado pelos sauditas, essa facção dos insurgentes sírios foi conquistando armas e territórios até se apossar de áreas ricas em petróleo e ganhar autonomia para comprar seu próprio armamento, incorporar quadros dos governos desbaratados de Sadam Hussein e outros derrubados ao longo da “Primavera“, montar a sua própria máquina de propaganda, moderna e anconrada na rede mundial, e se organizar quase como um governo nacional com grupos destacados para cada tarefa do que pretende ser o futuro “califado islâmico“: energia, propaganda, impostos de guerra, sequestros, operações financeiras, controle religioso, relações internacionais e assim por diante.

Para o momento cuidam de exterminar os competidores mais próximos e intimidar os sobreviventes até o ponto da obediência cega usando os métodos brutais consagrados pelos séculos.

Não vai ser fácil detê-los. Só com bombardeios aéreos será impossível. Os próprios árabes ainda estabelecidos no poder terão de fazer-lhes frente porque eles não pretendem deter-se nas fronteiras do Iraque e da Síria.

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Toda a “roubada” em que se estavam metendo os sauditas foi prevista por Alastair Crooke desde, pelo menos, 2011. Mas muito antes disso ele já vem alertando os governos ocidentais sobre a visão distorcida que eles guardam do conflito com o islamismo que, segundo ele, “tem raízes muito mais profundas do que os alinhamentos políticos das potências ocidentais com Israel ou com os grupos e países em choque no Oriente Médio”.

Na verdade o que é irreconciliável, para Crooke, são as “questões filosóficas” de fundo que, não sendo consideradas como deveriam ser, levam os líderes ocidentais que tentam se posicionar no Oriente Médio segundo uma lógica de alianças e alinhamentos políticos aos sucessivos erros de avaliação a respeito do que acontece naquela região.

O ódio do Islã radical ao Ocidente traduz a recusa em aceitar o entendimento da essência humana nascido com a democracia inglesa, baseado na incolumidade do indivíduo e dos seus direitos, e no respeito à sua liberdade sustentada por um sistema de justiça racionalista, versus o approach essencialmente “espiritual” e comunitário da vida (os dois elementos que fornecem a “justificativa” para toda e qualquer barbaridade contra quem ousa resistir) que está na base do “pensamento islâmico radical” que, em última instância, é invocado para sustentar todos os poderes estabelecidos por lá.

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Esse fosso é certamente mais profundo entre o Ocidente e o Islã, mas é ele que separa também, com profundidades variáveis, o pequeno grupo das democracias originadas no movimento protestante inglês de quase todos os outros povos da Terra.

Toda corrente filosófica que se apoia no coletivo resvala para a violência e, ou namora, ou mergulha no totalitarismo que foi, basicamente, a condição sob a qual viveu toda a humanidade até o surgimento da democracia inglêsa, aí incluída toda a comunidade européia de que nós, brasileiros, somos extensão, que passou os mil anos que antecederam a revolução protestante sob um estado religioso (o papado) ou sob o absolutismo monárquico, primos mais velhos dos regimes totalitários “coletivistas” mais recentes.

Muitos, como nós, continuamos vivendo sob versões mitigadas daquele regime, submetidos, por baixo de um verniz “democrático” que não garante, nem a igualdade perante a lei, nem a meritocracia que a definem, sob os caprichos de um quase rei e seus quase barões que desfrutam “direitos” e privilégios outorgados sustentados por quase súditos.

Não é a moral cristã que liberta. Ela sempre conviveu bem com o totalitarismo e com os regimes amparados na eliminação física da dissidência, de que é um exemplo sinistramente clássico a Inquisição.

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O monoteísmo está na raiz dessa doenca crônica da humanidade pois onde só ha uma verdade a intolerância é o coroláio obrigatório, especialmente se essa verdade tiver sido transmitida diretamente “por deus”.

Só a sacralização do indivíduo na sequência da institucionalização da tolerância; a sua incolumidade e o valor absoluto de cada vida humana, conduz ao império dos direitos do homem. Contra a “felicidade coletiva” e contra as variadas formas “únicas” de “salvação”, o indivíduo não é nada e pode e deve ser massacrado.

O grupo Estado Islâmico é essa “crença” pretensamente num estado puro, como a Inquisição já pretendeu ser em relação ao catolicismo. Mas é apenas mais uma mentira como foi em todas as suas edições e reedições anteriores pois que tem, como sempre, de ser instilada pelo terror porque a inteligência humana naturalmente a rejeita.

Não é “crença” nem é o verdadeiro Islã, portanto. É só a ferramenta covarde de intimidação de sempre, a serviço de um projeto de poder, também como sempre. Só que com as condições de hoje, ela pode fazer muito mais estrago do que antes conseguia infligir só até onde alcançava a ponta da espada.

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