Torquemadas de todo o mundo, uni-vos!

17 de novembro de 2015 § 28 Comentários

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Artigo para O Estado de S. Paulo de 17/11/2015

Só ha um deus e Maomé é seu profeta“, diz a bandeira do Estado Islâmico. “Alá é grande” é a última coisa que ouvem as vítimas da sua truculência. Mas esses deuses absolutos têm muito pouco a ver com aqueles outros que nasceram para explicar as maravilhas e consolar as dores deste mundo. Só aparecem, na história da humanidade, depois que ela aprende a se organizar pela violência.

O wahabismo, a tal “corrente radical do Islã” em que “se inspira” o grupo Estado Islâmico é só uma tática de assalto ao poder que, como o leninismo, funciona exatamente porque não põe nenhum limite à violência que emprega para conquistá-lo e mante-lo. Não é uma questão de sutilezas na interpretação da palavra de deus (ou de Marx). O wahabista (como o leninista) é aquele que se dispõe a empunhar a arma e puxar o gatilho; a torturar e estuprar filhas diante de seus pais. Os islâmicos sem mais nem menos (como os que por aqui saltavam “o muro”) são os que levam os tiros, os que são estuprados, os que se atiram ao mar.

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Alá o escambau!

O tamanho do prêmio é quanto basta para explicar essa brutalidade toda. “Fazer deste mundo o inferno é o caminho para o céu aqui mesmo na terra”, é o sinal com que a realidade instalada no Oriente Médio de hoje acena. Se você tiver estômago para ser implacável o bastante pode se tornar o rei da sua própria arabia saudita.

Deus será você mesmo!

Só o assassinato randômico rende a onipotência, grau máximo da embriaguez pelo poder. Por mais unânimes, bizarras e degradantes que se tornem as demostrações públicas de “” das vítimas tentando evitar o suplício, elas nunca serão suficientes. O fatalismo é um ingrediente imprescindivel. É preciso que tudo agrida a lógica e o senso de justiça; é preciso que não haja explicação; é preciso que não exista meio de garantir isenção ou prevenir o pior. A onipotência alimenta-se de doses regulares de sangue. Não ha ponto de chegada. Quando todos os “hereges” se tiverem “convertido“, os assassinos redefinirão a heresia para continuar assassinando.ei8

A primeira, de todos os tempos, é a mais básica. Mate para não ser morto. É daí que vêm os “soldados”. O resto da “mensagem” são “os meios” de cada momento. A de hoje é a do congraçamento planetário do mal. Porque não se agora dá? Torquemadas de todo o mundo, uní-vos! Que venham os psicopatas e os suicidas! Adeus ao tédio do crack e da heroína. Ha muito mais emoção em explodir e ser explodido.

A humanidade já viu isso em todos os tempos, em todas as línguas e em todas as latitudes. Essa é a história de todos nós. A barbárie é o padrão e o terror tem sido o instrumento universal da conquista e da manutenção do poder desde que há memória, inclusive nessa Europa das monarquias absolutistas que vieram cruxificando, degolando e queimando hereges até “ontem“.

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Mas desde a fatídica sexta-feira 13 de Paris ha uma avalanche de tentativas de explicação mais sofisticadas da barbárie. É um perigo pois discutir as “razões” de assassinatos em massa é abrir espaço para que seus autores as forneçam e para que se apresente quem as aceite. A idéia de que a barbárie tem de ter uma “causação” racional decorre daquela crença de que o homem é essencialmente bom e tem de haver a interferência de algo externo para corrompê-lo. A história e a ciência apontam para o contrário. A barbárie é que é o estado natural da espécie, e ela tende a se tornar total sempre que é aparelhada de uma “religião“.

O Estado Islâmico é o fenomeno dos morros cariocas com ambições exponencialmente multiplicadas; o crime organizado com domínio sobre um território e amado/odiado por uma população imersa no horror que não tem a quem mais recorrer, só que sentado em cima de um mar de petróleo. Em que momento o chefe de uma quadrilha vira um rei e um complexo de favelas vira um estado nacional como o Iêmen do Sul? Historicamente a resposta tem dependido tanto da geografia quanto da oportunidade. Lá foram a corrupção e a guerra; aqui foi a corrupção sozinha que se encarregou dessa metade da receita. O resto depende do tamanho do butim.

August 9, 2014

A luta pelo poder sem limites tem uma lógica própria. Perder o poder que se instala e se mantém pelo assassinato significa a certeza de ser assassinado. Daí o vale-tudo. A cada “chefão” morto corresponderá uma nova guerra pelo seu espólio. Foi para deter a infindável espiral da barbárie nesses infernos dentro dos quais o suicídio na flor da idade passa a ser uma opção racionalmente palatável que a democracia foi inventada. Mas foi preciso esperar pelo surgimento de um território isolado por um oceano de distância do mundo culturalmente dominado pelos degoladores e torturadores de sempre e seu aparato “religioso” para que a idéia do império da lei encontrasse um chão onde pudese fincar raízes sem ser arrancada, supliciada e queimada viva à vista de todos para reafirmar o império do terror.

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Fala-se, agora, num “sofisticado aparato” que teria sido necessário para perpetrar os assassinatos de Paris. Mas o que houve de essencialmente diferente neles dos que Al Capone protagonizava na Chicago do século 20, dos que o PCC perpetrou em São Paulo em 2006, ou ainda, das chacinas endêmicas do Brasil? O problema é o inverso; é a facilidade com que qualquer um pode perpetrar uma barbaridade, especialmente se não fizer questão de sair vivo da experiência.

O terrorismo é uma doença crônica tanto quanto o crime organizado e diferencia-se dele muito mais pelo tamanho das ambições envolvidas do que pelas condições que os tornam resilientes. Deus só entra nisso como coadjuvante e confundir as coisas é fazer o jogo do inimigo. As multidões que têm invadido a Europa não escolheram esse caminho. Gostariam de ter ficado em casa se o Estado Islâmico não estivesse lá. A solução para os dois problemas é uma só e a mesma. É imprescindível “ocupar os morros” e garantir a segurança neles, ou nunca haverá paz “no asfalto”. E para isso é necessário que todas as vítimas joguem juntas e a favor de uma “polícia” que faça por merecer essa confiança.

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Raízes históricas do wahabismo

E pro Berzoini, nada?

9 de janeiro de 2015 § 18 Comentários

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Nenhum jornal ou televisão da dita “grande mídia” se lembrou de perguntar ao ministro Berzoini, das Comunicações, formalmente mandatado pelo PT para “executá-la”, isto é, para “instituir o controle da mídia” no Brasil, o que é que ele achou dos acontecimentos dos últimos dias em Paris.

O mundo não fala em outra coisa senão do valor supremo, inegociável, absoluto da liberdade de expressão. As multidões estão nas ruas, ao redor do globo para jurar sobre os cadáveres dos mártires do Charlie Hebdo que nenhum sacrifício será alto demais para preservar esta que todos sabem ser a primeira condição da democracia e da liberdade. Nossas televisões e jornais online estão em plantão permanente enquanto o sítio a Paris se desdobra em novos atentados.

Mas ninguém se lembrou de fazer suar um pouco o carrasco da liberdade de expressão no Brasil expressamente mandatado pelo PT para executá-la, arguindo-o para que esclareça o país sobre quais, para além da radicalidade da “solução kalashnikov” para os incômodos que ela impõe aos loucos por Maomé, são as outras diferenças – quanto a objetivos e justificação, por exemplo – entre aquela e a “solução petista” para os incômodos que insiste em lhe infligir a “grande mídia”.

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A “presidenta” Dilma evoluiu da recomendação de “diálogo” com mascarados de faca na mão e vítimas, também jornalistas ainda que americanos, agarradas pelo cangote prontos para a degola da barbárie de semanas atras para uma condenação veemente do “ato intolerável e do ataque inaceitável, com lamentáveis perdas humanas, contra um valor fundamental das sociedades democráticas: a liberdade de imprensa” da barbárie de ontem.

É, sem dúvida, uma evolução.

Mas a “presidenta” Dilma é, como se sabe, quem “assopra” no tema da censura à imprensa dentro dessa realidade mais que especial que é o universo dos “valores” e da “lógica” do PT.  Já o ministro Berzoini é quem “morde”, e foi exclusiva e declaradamente por ser quem mais e com mais força “morde” que ele foi guindado por Lula em pessoa ao comando do ministério que, além de cuidar da infraestrutura do mais básico insumo das economias modernas, o que é de somenos importância para os critérios petistas de seleção de ministros, passa a ter agora a atribuição precípua e expressa de livrar o PT do permanente incômodo que lhe causa a renitente indiscrição da “grande mídia” para com os seus “malfeitos”, tendo o “homem da mala” da igreja do bispo Macedo, o transparente pastor George Hilton, como “back-shooter“, tocaiado no Ministério dos Esportes.

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Dilma assumir esse compromisso ao qual, justiça seja feita, ela sempre resistiu foi, para ser mais exato, a condição exigida pela “ala moderada” do PT, que seria a “Construindo um Novo Brasil” – veja você! – para não se rebelar abertamente contra a perda de espaço no ministério Dilma 2 para a “ala radical” minoritária, dita “Democracia Socialista”.

E ninguém mais indicado para isso que o sr. Berzoini que, embora de Comunicações afirme não entender nada, como é regra entre os ministros petistas, destaca-se dentro do partido como o mais figadal inimigo da “grande mídia”. Em sua mais recente entrevista a esse respeito, significativamente concedida a “blogueiros” e “ativistas” de organizações não governamentais organizadas pelo governo convocados expressamente para ouví-lo de preferência a meros jornalistas, ele repetiu que “Como cidadão e agente político entende que a grande mídia no Brasil tem lado e é historicamente contra as conquistas dos trabalhadores”, heresia que, no seu entender, pede a imposição de um severo e irreversível remédio.

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Eu, como profisional do ramo que passei a vida toda em contato direto com jornalistas e com o jornalismo, diria, pelo que conheço do nosso mercado, que de cada 100 jornalistas empregados no Brasil hoje não haverá mais que cinco ou seis que recebam seus salários da imprensa juridicamente classificada como “privada”.

A maior redação do Brasil, longe da segunda, é a da ciclópica Empresa Brasileira de Notícias que produz A Voz do Brasil imposta diariamente a todos os brasileiros, do Oiapoque ao Chuí, no “horário nobre”, coisa que, neste Terceiro Milênio, só tem paralelo em lugares como a Coréia do Norte e a Venezuela. É ela, também, que se encarrega de rechear, “grátis“, os jornais, televisões e rádios do país inteiro das notícias do agrado do Poder Executivo federal, dos seus 39 “ministérios”, cada um com a sua redaçãozinha própria, das duas instâncias do Poder Legislativo onde, além dos dois canais dedicados de TV e dos demais órgãos impressos, sites e periódicos da instituição, cada um dos 513 deputados e 81 senadores tem a sua própria mini redação particular, dos nossos 5 diferentes Poderes Judiciários, cada qual com as suas redações e os seus diferentes canais de TV, periódicos e sites na internet. Há ainda reproduções desse mesmo conjunto de aparatos de “informação” e “assessoria de imprensa” em cada autarquia e em cada estatal federal. E, finalmente, tudo isso se reproduz, se desdobra e se multiplica nos pares quase exatos de cada uma dessas estruturas mantidos por cada um dos 26 governos estaduais da federação, mais o do Distrito Federal, e em cada um dos 5.570 municípios deste vasto país, com suas respectivas Câmaras Municipais, repartições e empresas públicas.

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Os jornalistas a serviço do Estado são, em resumo, legião, e não ha um profissional desse ramo, em formação ou em ação, no Brasil que, ou não tenha passado alguma temporada servindo esse tipo de patrão, ou não tenha em seu horizonte, especialmente nesses tempos de ruptura de paradigmas e crise do setor, a perspectiva de, mais cedo ou mais tarde, vir a pedir um emprego a esse mesmo patrão.

Tudo isso, naturalmente, cobra um preço em matéria de, digamos, arrefecimento do entusiasmo de muitos desses profissionais em fiscalizar e denunciar os “malfeitos” desses seus possíveis futuros empregadores, mesmo entre aqueles, raros, que não têm nenhum parente próximo — pai, mãe, irmão — em algum outro emprego público a pressiona-los para não atacar o ganha pão da família.

Mesmo assim, não é esta a “grande mídia” que é alvo do imensurável amor do PT pela democracia.

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Descontada essa legião, sobram os cinco ou seis em cada 100 jornalistas empregados, se tanto, nas folhas de pagamento da imprensa juridicamente classificada como “privada”. A maior parte dela, no entanto, embora classificada assim, encontra-se hoje em mãos de políticos com mandato no Congresso Nacional onde todo mundo salvo uns gatos pingados faz parte da “base aliada” do PT, especialmente no que diz respeito a rádios e televisões, setores nos quais estes felizes proprietários de “mídia”, que têm a prerrogativa exclusiva de “conceder” esses canais a quem bem lhes aprouver, são maioria esmagadora.

Escoimada a conta de mais estes, sobrarão, talvez, algumas dezenas de órgãos entre rádios, televisões, jornais impressos e redações estruturadas de produtos jornalísticos online pertencentes a proprietários privados sem cargos públicos ou eletivos. Mas não é esta, ainda, a “grande mídia” que fere o senso de equilíbrio e equidade dos democratas petistas. A conta ainda terá de ser subtraída de todos, entre estes, que por servirem a igrejas ou outras grandes estruturas de negócios a serviço do engrandecimento dos quais estão, acima de tudo, os seus “jornalistas“, ou por viverem exclusivamente da publicidade governamental ou diretamente de suborno pago por políticos ou pelos doleiros que a maioria deles tem hoje a seu serviço como o famigerado Alberto Youssef, constituem-se na segunda linha entre os mais irados defensores das “ideias” petistas, principalmente esta do controle da “grande mídia” que, junto com os petistas, odeiam mais que tudo. Ao fim de 12 anos de vigor dos métodos de conquista de “aliados” do PT, esta é uma lista que vai longe como já ficou sinalizado nas delações premiadas do “petrolão” onde esses nomes, ao lado dos seus “salários”, e até redações inteiras ricamente estruturadas na internet aparecem aos borbotões.

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Com isto chegamos à primeira linha de fogo da artilharia de mídia petista, que é a que vive nas sombras da internet, abaixo das camadas já arranhadas na contabilidade clandestina dos doleiros,  cujo tamanho ninguém consegue medir com precisão mas que tem estruturas oficiais de comando dentro das mais altas instâncias do Partido dos Trabalhadores e hoje é praticamente onipresente na rede.

É, portanto, entre os que já vão longe nas casas centesimais da unidade sobrante daquela centena inicial, que começam a ser contados os jornalistas que trabalham para a dúzia e meia de órgãos realmente independentes que restam na imprensa brasileira – aí incluídos jornais, rádios e televisões – que se esconde a tal “grande mídia” que fere a sensibilidade democrática e a sede de “equilíbrio de opiniões” e “compromisso com a verdade” do PT ainda precisando de remédios definitivos contra a sua “monopolística tendenciosidade“.

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Mesmo dentro dessas redações, entretanto, ha uma significativa proporção de agentes infiltrados do petismo zelando para que você não saiba nunca qual é a conta real do jornalismo independente da “grande mídia” versus a legião dos que trabalham pela divulgação da “verdade oficial”, por exemplo, o que explica porque você nunca viu nessa mesma “grande mídia” qualquer matéria mostrando os interessantes pormenores do tema aqui esboçado, tão obviamente interessante para ela, “grande mídia“, assim como para a opinião pública brasileira em geral no momento em que o governo da República declara ser este um dos maiores vícios a minar a vitalidade da nossa democracia. São esses quintas-colunas que zelam diuturnamente, também, para que nada do que possa ferir essa “verdade oficial” venha à luz, para que ganhe o menor destaque possível quando for inevitável que venha, para que, nessas raras eventualidades, nunca deixem de ser publicadas, seja ao lado de outra matéria atribuída a um vago “especialista” afirmando o contrário do que diz a que não pôde ser surrupiada, seja justaposta a um “vazamento” a que o jornal misteriosamente “teve acesso” em que o delator da falcatrua da hora aparecerá “envolvido” em outra falcatrua possivelmente maior ainda.

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E agora sim, chegamos ao que interessa: o que sobra de tudo isso é que é a “grande mídia” de que está doravante encarregado de “controlar” segundo os padrões “econômicos” copiados da Argentina kirshnerista e da Venezuela chavista, o paladino Berzoini daquela “democracia excessiva” que faz o gosto de Lula e seus seguidores.

Mesmo assim, nem com o planeta inteiro mobilizado na defesa da liberdade de expressão e a sua própria sobrevivência em jogo, essa nossa pequena “grande mídia” encurralada, com sentença de morte passada, conseguiu enxergar, até o momento, qualquer relação que merecesse ser apontada ao público ou atirada ao rosto do sr. Berzoini entre o que se está passando em Paris e o que acontece dentro do seu próprio galinheiro invadido pela horda das raposas.

Não ha, portanto, nenhuma diferença muito essencial entre o que se passou com os Tres Poderes da República aparelhados até o limite da impotência para garantir a defesa da democracia, e a ínfima fatia independente ou quase do “Quarto Poder“, à frente do qual proprietários mergulhados em torneios de vaidades, sem nenhuma familiaridade com a dimensão institucional daquilo que ficou reduzido a não mais que o “negócio” dos seus “acionistas”, os únicos a merecerem prestações de contas de seus atos, ou ignoram olimpicamente ou titubeiam diante do que acontece dentro das suas redações, seja porque sabem menos de jornalismo e do papel que essa instituição tem numa democracia que o último morador de rua francês e o menos credenciado dos ministros do PT sobre os seus próprios ministérios, seja por uma mistura de omissão e covardia, coisas que nesta altura dos acontecimentos no Brasil são, todas elas, crimes de lesa-pátria, com variações apenas do grau de dolo.

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O eleitor brasileiro que está elegendo democraticamente os agentes juramentados da destruição “por dentro” da nossa democracia não é, portanto, o maior culpado pelo seu próprio comportamento. A ordem dos fatores é decisiva e altera radicalmente o resultado nos processos de morte das democracias. Esse comportamento suicida da parcela mais vulnerável do eleitorado é, em grande medida, involuntário. Desde a escola ele vem sendo deliberadamente induzido a erro, em sua ignorância e em sua boa fé, e a imprensa não tem cumprido à altura a sua missão de fazer a verdade aflorar e prevalecer.

Felizmente ainda ha exceções com as quais o pais pode contar. Porque, assim como quando uma democracia morre é porque sua imprensa já tinha morrido antes, enquanto a imprensa estiver viva não ha o que possa matar uma democracia. Daí ser o objetivo Nº 1 de todos os seus inimigos “controlar a mídia“, seja com o tipo de “tiro” que for.

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Pronto! Mídia controlada!

7 de janeiro de 2015 § 8 Comentários

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Raízes históricas da última mentira “islâmica”

10 de setembro de 2014 § 62 Comentários

aa4“Projeto para cinco anos”

Como inglês que é, e profundo conhecedor da história e da realidade presente dos povos árabes (ele foi, por muitos anos, agente do MI6, o serviço secreto inglês, destacado para aquela parte do mundo), Alastair Crooke, com dezenas de artigos disponíveis na internet, reune condições excepcionais para explicar as raízes históricas e o contexto presente do grupo terrorista conhecido como Estado Islâmico que, a partir da guerra civil na Síria, destacou-se da Al Qaeda e, depois de ocupar territórios estratégicos naquele país e no Iraque ricos em petróleo, estruturou-se financeiramente o suficiente para se constituir numa ameaça real de dominar a cena num mundo árabe desestruturado por uma sequência de convulsões.

Os terroristas do Estado islâmico abraçam a corrente do wahabismo, a mesma que, lá no início do século 18, serviu de alavanca para que o clã dos Ibn Saud que até hoje reina inconteste sobre a Arábia Saudita, começando como uma das muitas tribos beduínas que vagavam pelo deserto escaldante e miserável do Nejd guerreando-se umas às outras para roubarem-se mutumente as poucas posses, iniciasse a sua trajetória de conquista de poderes muito mais amplos.

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Abd al-Wahab viveu no século 17 quando o Império Otomano, de um lado, e o Egito, do outro, dominavam o Oriente Médio. Ele apontava essas nobrezas dominantes, que incorporavam alguns habitos ocidentais como “falsos muçulmanos” e criticava igualmente as tribos beduinas que “adoravam santos, enterravam e visitavam seus mortos e viviam mergulhados em superstições” de influência católica.

Pregava que todos voltassem aos costumes “do tempo em que o Profeta viveu em Medina” que teria sido a época de ouro do islamismo, e convocou a “guerra santa” contra todas as novidades poluentes tais como o xiismo, o sufismo e as demais variações do islamismo ou qualquer coisa que pudesse ser ligada à filosofia grega, todas elas “proibidas por deus”, em razão do que, “qualquer homem que manifestasse a menor dúvida ou hesitação sobre a correta interpretação do Islã deveria ser implacavelmente morto, ter suas posses confiscadas e suas filhas e mulheres violentadas”.

Para que não pairassem dúvidas sobre essa entrega total à única verdade, ele exigia que todos “os verdadeiros muçulmanos se entregassem à obediência cega a um único líder, o Califa”.

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Abd al-Wahab acabou sendo expulso de sua cidade em 1741 e encontrou asilo e proteção na tribo de Ibn Saud, que percebera claramente que todo aquele radicalismo seria o instrumento ideal para que ele submetesse as demais tribos e passasse a reinar absoluto.

Ibn Saud continuou agindo como sempre agira, invadindo e saqueando seus vizinhos, só que agora podia faze-lo “em nome de deus”, o que justificava também o martírio em prol da jihad. Já não lhe bastava pegar o que pudesse e voltar para casa. Agora suas forças permaneciam no território inimigo onde a opção era a conversão para o wahabismo (e a obediência cega ao seu “califa“) ou a morte. De massacre em massacre, onde mulheres e criancas não eram poupados e a tortura e as execuções públicas se transformaram em instrumentos metódicos de submissão pelo terror, por volta de 1790 Ibn Saud já dominava quase toda a Península Arábica e atacava violenta e repetidamente a Síria e o Iraque.

Nada, enfim, que nossos ancestrais católicos não muito distantes (ou os que resistissem a eles)  não tenham passado também.

É exatamente essa mesma receita que o grupo Estado Islâmico tem aplicado nos últimos anos.

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Em 1815 as forças dos Saud foram esmagadas pelos egípcios e em 1818 os otomanos capturaram a capital do wahabismo, Dariya.

Só a partir dos anos 20 do século passado os Saud, reeditando a sua “guerra santa” contra a laicização e as modernizações promovidas por Kemal Ataturk e, mais tarde, por Gamal Abdel Nasser, conseguiram reconquistar o poder. Adb–al Aziz, o protagonista da época, temendo o radicalismo de suas próprias tropas depois de uma sucessão de revoltas, fuzila todos os seus líderes.

O petróleo começava a transformar-se naquilo que se transformou em nossos dias, os Estados Unidos e a Inglaterra cortejavam os Saud e o rigor wahabista, irrigado por uma torrente crescente de petrodólares, logo se converteu numa versão institucionalizada de estado nacional e num instrumento de garantia do poder absoluto do clã que chega até os nossos dias.

Com a riqueza do petroleo, a missão dos sauditas passa a ser “reduzir a multidão das vozes dentro da religião islâmica para um único credo”, projeto no qual investiram bilhões de dólares num esquema de conquista que passa a incorporar também elementos gramscianos (pela educação e pela cultura) em vez de recorrer exclusivamente às armas e ao terror como antes (embora sem abrir mão deles).

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O resto, incluindo a crescente dependência do Ocidente da ordem saudita como barreira para a expansão soviética no Oriente Médio, é história.

Ironicamente são os próprios sauditas que plantam a primeira semente do revival wahabista incorporado pelo grupo do Estado Islâmico, no arrasto da Primavera Árabe. O primeiro impulso se dá com a violentíssima repressão da tentativa de derrubar o governo sunita de Bahrein, sob a alegação dos imperativos do wahabismo, liderada pelos sauditas que manejavam a contra-revolução da Primavera Árabe laicizante iniciada com a derrubada dos governos da Tunísia e do Egito.

O segundo foi o mandato conjunto atribuido pelos sauditas e pelas potências ocidentais para que um dos príncipes sauditas tratasse de controlar a insurreição contra Bashar al-Assad na Síria. Mas como controlar um movimento onde o mote, como lá atras, é a doutrina do “Um único líder, uma única autoridade, uma única mesquita: submeta-se ou morra”?

A história está de volta para pânico dos sauditas que sabem melhor que ninguém com o que é que estão lidando, e agora pedem socorro ao Ocidente para deter a ameaça que eles próprios ajudaram a criar.

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Começando como um grupo destacado da Al Qaeda, logo considerada moderada demais para os novos wahabistas, financiado pelos sauditas, essa facção dos insurgentes sírios foi conquistando armas e territórios até se apossar de áreas ricas em petróleo e ganhar autonomia para comprar seu próprio armamento, incorporar quadros dos governos desbaratados de Sadam Hussein e outros derrubados ao longo da “Primavera“, montar a sua própria máquina de propaganda, moderna e anconrada na rede mundial, e se organizar quase como um governo nacional com grupos destacados para cada tarefa do que pretende ser o futuro “califado islâmico“: energia, propaganda, impostos de guerra, sequestros, operações financeiras, controle religioso, relações internacionais e assim por diante.

Para o momento cuidam de exterminar os competidores mais próximos e intimidar os sobreviventes até o ponto da obediência cega usando os métodos brutais consagrados pelos séculos.

Não vai ser fácil detê-los. Só com bombardeios aéreos será impossível. Os próprios árabes ainda estabelecidos no poder terão de fazer-lhes frente porque eles não pretendem deter-se nas fronteiras do Iraque e da Síria.

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Toda a “roubada” em que se estavam metendo os sauditas foi prevista por Alastair Crooke desde, pelo menos, 2011. Mas muito antes disso ele já vem alertando os governos ocidentais sobre a visão distorcida que eles guardam do conflito com o islamismo que, segundo ele, “tem raízes muito mais profundas do que os alinhamentos políticos das potências ocidentais com Israel ou com os grupos e países em choque no Oriente Médio”.

Na verdade o que é irreconciliável, para Crooke, são as “questões filosóficas” de fundo que, não sendo consideradas como deveriam ser, levam os líderes ocidentais que tentam se posicionar no Oriente Médio segundo uma lógica de alianças e alinhamentos políticos aos sucessivos erros de avaliação a respeito do que acontece naquela região.

O ódio do Islã radical ao Ocidente traduz a recusa em aceitar o entendimento da essência humana nascido com a democracia inglesa, baseado na incolumidade do indivíduo e dos seus direitos, e no respeito à sua liberdade sustentada por um sistema de justiça racionalista, versus o approach essencialmente “espiritual” e comunitário da vida (os dois elementos que fornecem a “justificativa” para toda e qualquer barbaridade contra quem ousa resistir) que está na base do “pensamento islâmico radical” que, em última instância, é invocado para sustentar todos os poderes estabelecidos por lá.

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Esse fosso é certamente mais profundo entre o Ocidente e o Islã, mas é ele que separa também, com profundidades variáveis, o pequeno grupo das democracias originadas no movimento protestante inglês de quase todos os outros povos da Terra.

Toda corrente filosófica que se apoia no coletivo resvala para a violência e, ou namora, ou mergulha no totalitarismo que foi, basicamente, a condição sob a qual viveu toda a humanidade até o surgimento da democracia inglêsa, aí incluída toda a comunidade européia de que nós, brasileiros, somos extensão, que passou os mil anos que antecederam a revolução protestante sob um estado religioso (o papado) ou sob o absolutismo monárquico, primos mais velhos dos regimes totalitários “coletivistas” mais recentes.

Muitos, como nós, continuamos vivendo sob versões mitigadas daquele regime, submetidos, por baixo de um verniz “democrático” que não garante, nem a igualdade perante a lei, nem a meritocracia que a definem, sob os caprichos de um quase rei e seus quase barões que desfrutam “direitos” e privilégios outorgados sustentados por quase súditos.

Não é a moral cristã que liberta. Ela sempre conviveu bem com o totalitarismo e com os regimes amparados na eliminação física da dissidência, de que é um exemplo sinistramente clássico a Inquisição.

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O monoteísmo está na raiz dessa doenca crônica da humanidade pois onde só ha uma verdade a intolerância é o coroláio obrigatório, especialmente se essa verdade tiver sido transmitida diretamente “por deus”.

Só a sacralização do indivíduo na sequência da institucionalização da tolerância; a sua incolumidade e o valor absoluto de cada vida humana, conduz ao império dos direitos do homem. Contra a “felicidade coletiva” e contra as variadas formas “únicas” de “salvação”, o indivíduo não é nada e pode e deve ser massacrado.

O grupo Estado Islâmico é essa “crença” pretensamente num estado puro, como a Inquisição já pretendeu ser em relação ao catolicismo. Mas é apenas mais uma mentira como foi em todas as suas edições e reedições anteriores pois que tem, como sempre, de ser instilada pelo terror porque a inteligência humana naturalmente a rejeita.

Não é “crença” nem é o verdadeiro Islã, portanto. É só a ferramenta covarde de intimidação de sempre, a serviço de um projeto de poder, também como sempre. Só que com as condições de hoje, ela pode fazer muito mais estrago do que antes conseguia infligir só até onde alcançava a ponta da espada.

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Brasil e Oriente Médio: desgraças paralelas

10 de julho de 2014 § Deixe um comentário

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Nesta terça-feira, 8, dia do “Mineiratzen” pelo que pouca gente deve te-lo lido, O Estado de S. Paulo publicou um artigo de Mathieu Atkins, que cobriu para o New York Times a luta entre as inumeras “facções do islamismo” que compõem os grupos armados do “Estado Islâmico no Iraque e no Levante” (o tal “Isil) e os que lutaram contra ele na cidade de Alepo que foi tomada por esses partidários da ressurreição de um “califado islâmico” modelo Século 7 e, em seguida, retomada por outros grupos armados não necessariamente ligados ao governo desafiado pelos primeiros.

A matéria — “A promessa dos radicais de Alepo” neste link — é uma confusão não porque seja defeituosa do ponto de vista jornalístico mas porque descreve, com a fidelidade possível, uma realidade que é uma tremenda confusão na qual, da Al Qaeda para cima – ela também dividida em diferentes “facções” e “correntes” – o confronto inclui de tudo e mais alguma coisa daquilo que, do Século 7 em diante, quer ser chamado de “variação do islamismo“.

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Tentar entender as nuances que separam esses grupos e essas supostas “variações” usando o racional e os padrões de definição política, ideológica ou religiosa das democracias do Ocidente só pode conduzir – seja o jornalista, seja o funcionário do Departamento de Estado, seja o presidente dos Estados Unidos – de erro em erro, a catástrofes que acabam sempre do mesmo jeito: à derrubada de cada tirania estabilizada sucede uma tirania instável que passa a matar muito mais que a anterior para se estabilizar, pois que é, sempre, de medição de forças entre “chefões” e não de qualquer outra coisa mais substancial ou sutil que se trata.

A cada banho de sangue que se procura deter em nome de critérios humanitários, portanto, segue-se em geral um banho de sangue ainda pior. E a dificuldade está em que “to disengage” e deixar isso correr, como Obama anunciou que faria, joga tanta lenha nessa fogueira de vaidades e ambições que, dado o poder das armas de hoje, põe a continuação da humanidade em risco.

Se correr o bicho pega, se parar o bicho come…

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Para um brasileiro acostumado a viver no meio de uma guerra que mata mais que qualquer uma das declaradas do Oriente Médio sem sequer se dar conta de que assim é porque aqui a mortandade não está assumidamente relacionada à luta política (embora esteja de fato), não é difícil entender porque as sucessões são como são no Oriente Médio.

Desde que a “hegemonia cultural” socialista morena se instalou nas nossas escolas, igrejas e meios de comunicação no nível requerido para que passasse a se reproduzir sozinha “educando” as classes dominadas a tomar como natural e conveniente a sua submissão à classe no poder, a nossa disputa política passou a ser semelhante às das “variantes do islamismo” em que se fragmenta o Oriente Médio: só ha diferenças de grau de radicalismo em torno da mesma única “verdade” geral admitida, nas madraças lá, nas escolas aqui, “verdade” esta cujo principal objetivo é tornar impossível àquele país e àquela população dominada fugir para a modernidade.

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As verdades capazes de conduzir a ela são proibidas sob pena de apedrejamento físico, lá, e de apedrejamento moral, aqui, e de forma tão implacável e eficiente que, depois de algum tempo acabam sendo esquecidas e nem chegam mais a existir no horizonte das possibilidades.

A representação política de toda a rica diversidade humana e mais a da variedade das ambições em disputa — que continuam insistindo em ser ricamente diversa, uma, e variada, a outra, seja como for que se as cerque — fica, portanto, obrigada a se acomodar nesse estreitíssimo espaço que sobra.

Assim torna-se tão difícil diferenciar uma “corrente” do islamismo da outra entre as que estão, por exemplo, em luta pelos pedaços do Iraque neste momento, quanto é estabelecer as diferenças existentes entre os 30 e tantos partidos políticos que disputam os pedaços do Brasil agarrados a alguma “corrente” ou variação do “socialismo“.

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Quem, tentando compreender tudo isso de fora, for suficientemente realista para sair de dentro do seu próprio sapato e calçar o de quem está dentro dessas realidades falsificadas haverá, entretanto, de concordar com o que diz na matéria referida um chefe de um dos bandos em luta, um certo Abu Bilal da “Brigada Tawhid”.

Os comandantes dos supostos grupos seculares do Exército Sírio Livre vinculados ao governo sírio no exílio que os governos ocidentais vêm apoiando“, diz ele, “são como as ONGs: sabem como dizer o que o doador quer ouvir. Mas na realidade são só contrabandistas de diesel que controlam uma parte da fronteira. Não empreendem nenhum combate sério”.

Quem assiste os nossos “Programas Eleitorais Gratuitos” sabe exatamente o que ele está querendo dizer.

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La como cá, uma vez no poder, esses grupelhos que não representam mais que as ambições pessoais do seu chefe tanto quanto qualquer “cappo” dono de quarteirão disputando um pedaço de uma cidade dos velhos filmes da Máfia, mostram-se todos iguais: os sobreviventes compõem-se entre si e instalam uma mistura de roubalheira com violência institucional na dose que for necessária para não perder o pivilégio de ser ele a comandar o saque da população do território conquistado de que, no fim das contas, todos eles participarão em algum grau para permitir uns aos outros que o saque prossiga, de forma organizada, pelo maior tempo possível.

Não faz diferença nenhuma as alegadas nuanças da fase de disputa pelo poder, assim como não faz grande diferença que uns segurem o território conquistado com kalashnikovs e os outros com dinheiro. O certo é que tudo isso não tem nada a ver, nem com islamismo, nem com socialismo, que é coisa que nunca existiu no universo da realidade, nem, muito menos, com democracia, além de ser sempre muito difícil chegar a uma conclusão sobre qual dessas duas formas de se sustentar no poder mata mais.

Lá como cá, estancar a sangueira e fugir para a modernidade depende estritamente de se encontrar os meios de colocar as “religiões” e os dogmas nos seus devidos lugares e tratar de por as relações entre os homens e as deles com o Estado dentro dos limites estritos das leis e das instituições as mais impessoais, objetivas e invioláveis possíveis, de modo a permitir que, respeitados esses limites, cada um estabeleça a sua relação com deus e busque a própria felicidade da maneira que melhor lhe der na telha.

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