Democracia brasileira é enterrada como indigente

30 de maio de 2014 § 15 Comentários

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Conforme foi tantas vezes antecipado aqui no Vespeiro que corríamos o risco de que viesse a acontecer, a democracia brasileira morreu no dia 23 de maio próximo passado e quase ninguém percebeu.

Poderá eventualmente reviver com tratamento de choques e injeções de adrenalina constitucional no coração que parou de bater mas a decisão de aplicar ou não esse tratamento está, agora, nas mãos do doutor Ricardo Lewandowski e do que mais sobrou dentro do Supremo Tribunal Federal depois da saída do ministro Joaquim Barbosa que, muito provavelmente, está relacionada a esse episódio.

Sem nenhuma “participação social”, sem perguntar nada a ninguém na sua solitária decisão, a presidente Dilma assinou naquela data o decreto 8.243 (íntegra aqui), editado pelo Diário Oficial da última segunda-feira, 26, que institui a “Política Nacional de Participação Social” que determina que, doravante, “todos os órgãos e entidades da administração pública federal direta e indireta estejam obrigados a usar a participação social para a execução das suas políticas”, expediente, explica o Diretor de Participação Social da Secretaria Geral da Presidência, Pedro Pontual, que vai “transformar os instrumentos criados para este fim em um método de governo, oficializando suas relações com os novos setores organizados e as redes sociais”.

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De ministérios a agências reguladoras, portanto, tudo estará submetido, doravante, a esses “novos setores organizados”. E essa “relação oficial” com eles se dará mediante convocações dirigidas aos “nove conselhos” que a augusta presidenta houve por bem criar cujas “rotinas de trabalho (não remunerado) e métodos de escolha de integrantes serão definidos por portarias editadas pela Secretaria Geral da Presidência da Republica” (ministro Gilberto Carvalho).

Serão os seguintes os nove “conselhos”, decreta sua augusta majestade:

1) conselho de políticas públicas; 2) comissão de políticas públicas (sic); 3) conferência nacional (sic); 4) ouvidoria pública federal; 5) mesa de diálogo (sic); 6) fórum interconselhos (sic); 7) audiência pública; 8) consulta pública e 9) ambiente virtual de participação social.

O decreto não explica o que será feito do Poder Legislativo eleito por todos nós para cumprir exatamente essa função, nem tampouco do Poder Judiciário e seus órgãos auxiliares tais como tribunais de contas e agências setoriais mas, mantida essa aberração como está é fácil inferir. A lógica da coisa, mesmo vazada na linguagem quase sempre incompreensível de dona Dilma e seus auxiliares, é absolutamente transparente e auto-evidente.

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Para os leitores mais jovens recomenda-se que vão ao dicionário procurar o significado do termo “soviete” para compreender melhor o que está se passando.

Mas apesar do tamanho dessa monstruosidade jurídica, dos atentados à Constituição que ela carrega e da assinatura por baixo de tudo a confirmar que a coisa é pra valer, nenhum jornal registrou o acontecimento na primeira página e nenhuma televisão sequer mencionou o assunto.

O Estado de S. Paulo publicou uma matéria dando as informações acima na 4a feira, dia 28 de maio, no último canto da última página que dedica ao noticiário político nacional. Sua manchete, naquele dia foi “Ato vira confronto: Dilma diz que não terá ‘baderna’ na Copa”. Nenhuma das outras 12 “chamadas de 1a página” do jornal foi considerada para este assunto de somenos importância. Na 5a, 29, O Estado abriu sua seção de editoriais com uma peça contundente que dava a real dimensão do que está em curso. “Mudança de regime por decreto” era o título que comprova que ainda são jornalistas os responsáveis pela página 3 daquele matutino, página esta que é independente do resto do jornal que, já naquele dia seguinte à explosão da “bomba” que ele retratara no dia anterior como um “traque”, tinha esquecido completamente o assunto.

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A Folha de S. Paulo segue sem registrar o fato. O Globo, ainda que com atraso, teve a dignidade de noticia-lo hoje com chamada na 1a página, alertado, provavelmente, pelo editorial do Estado. Foi, portanto, uma “barriga” e não coisa pior. O espaço eletrônico de Veja que, para além da página das Notas e Informações do Estado mantem num dos seus cantos o último espaço jornalístico “de propriedade” de jornalistas de verdade depois que os manuais de redação foram substituídos pelos manuais de “melhores práticas de governança corporativa” em todas as redações do Brasil, também vem “bombando” o assunto na solitária coluna de Reinaldo Azevedo.

Nos jornais das televisões foi o do costume: nada. Continuam todos, como quer o PT, assim como no resto do espaço dos jornais de papel, discutindo apaixonadamente, em páginas e mais páginas e minutos sem fim, o tema crucial para este Brasil do Terceiro Milênio do “golpe contra a democracia”… de 1964.

O de 2014 não lhes diz respeito. Se depender deles ninguém reclamará o corpo; a democracia brasileira será enterrada como indigente.

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As ilustrações homenageiam capa de Fernando Mitre para o Jornal da Tarde sinalizando a rejeição das “Diretas Já

 

 

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§ 15 Respostas para Democracia brasileira é enterrada como indigente

  • Fausto Italiano disse:

    QUEM PODERÁ NOS SALVAR ? ! ? ! ?

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  • Carlos Gama disse:

    A democracia vai mesmo ser enterrada como indigente, porque somos elementos de segunda, tratados como de quinta categoria. Ah, as exceções! Sempre e cada vez mais raras…

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  • Gustavo Silvestre disse:

    A democracia brasileira – se é que ela existiu algum dia – já estava morta muito antes disso. Senão pelo sistema presidencialista representativo, com certeza pela conivência da imprensa em tardar a noticiar a existência do Foro de São Paulo. Morreu muito antes da constituição ter sido criada em 1988, mais precisamente, quando os militares soltaram estes cães do inferno.

    A falta de reação perante estes fatos por parte da população demonstra bem a situação letárgica em que vive o brasileiro, sem condição de entender o que se passa ao redor, com tantos fatos ocorrendo simultaneamente.

    Pesquisar por “soviete” no dicionário não traz a luz do que constitui realmente a mentalidade revolucionária. Eu sugiro iniciar com a leitura do manuscrito “Projeto Orvil”: se tivesse sido publicado pelo general Leonidas Gonçalves Pires no início dos anos 90, talvez a população estivesse em melhores condições de entender o que se passa na atualidade.

    Entretanto, associar o PT e o PCC com os movimentos anticopa é algo irreal. O Foro de São Paulo jamais chamou os anarquistas para participar de suas estruturas, do ponto de vista estratégico da tomada do poder. Se houve conexão entre o MPL e estes anarquistas, deve ter sido coisa esporádica em junho do ano passado.

    Por exemplo, no dia em que o coronel Rossi foi covardemente espancado, eu vi uma militante do MPL caracterizada de palhaço dizendo a um anarquista do black bloc: “chegando lá no terminal [bandeira] vocês podem fazer a bagunça que quiser, tá?”. O black bloc respondeu: “Vai tomar no c. a gente não obedece ninguém e faremos o que quisermos”.

    De tempos em tempos, surge um grande acontecimento político em SP. Em 2006 foi a “guerra” do PCC, em 2009 a greve violenta da USP e em 2013 as manifestações do MPL. Mas, este “frankenstein” criado pela esquerda voltou-se contra seus criadores. Por esse motivo a Dilma convidou (leia-se: convocou) os líderes do MPL para Brasília e resolveram ficar de boca fechada depois que a classe média engrossou a presença nas ruas com cartazes contra o mensalão, impostos e aborto. O PT tem controle sobre o MPL, tanto que eles se reuniram e resolveram fechar o bico.

    Mas o PT não tem controle sobre estes anarquistas. Tanto que eles tentaram “dialogar” com este movimento sem sucesso. Lembremo-nos que o Netinho de Paula conseguiu trazer para o PCdoB pelo menos um dos três organizadores dos rolezinhos. Isto não foi possível com o black bloc.

    Portanto, a partir de junho do ano passado, os únicos que resolveram dar continuidade às manifestações foram os anarquistas, ainda aproveitando-se de sua organização e contando com a participação de alunos da USP.

    Mas a esquerda inteira odeia os black blocs e estão odiando estas manifestações anticopa. Se você ler a nota do MTST, vai constatar que pelo menos dois dos coletivos que contribuíram na manifestação do dia 22/05 são coletivos anarquistas. O MPL participou, claro, para não ficar excluído.

    Não vamos nos esquecer também, estes anarquistas catalisam muito mais gente do que a esquerda juvenil tradicional. Isto porque a economia está em recessão não declarada, boa parte desta turma não trabalha nem estuda, e se movimenta no metrô fazendo “catracaços”. Portanto, entramos num ciclo vicioso em que a situação socioeconômica alimenta estes grupos. O MPL, e provavelmente também o Boulos, podem ter seus interesses em “fazer carreira na esquerda”, mas a vasta maioria está protestando porque possui ressentimento genuíno a este estado de coisas.

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  • […] Link para o texto integral do jornalista Link para o texto do Decreto n° 8243 […]

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  • Renato Naville Watanabe disse:

    O que eu nunca consegui entender é a razão dos Editoriais do Estadão serem tão diferentes (e às vezes com opiniões discrepantes) do conteúdo do restante do jornal. Alguns acontecimentos (como este citado por você neste texto) só vêm a meu conhecimento pelos editoriais. Para alguém como eu, que nunca passou perto de uma redação de jornal, é realmente incompreensível.

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  • flm disse:

    pois é, renato,
    o tipo de jornalismo que as democracias requerem é uma daquelas atividades que exigem vocaçao. nao se aprende isso na escola e nem serve para ficar milionario. dai a dificuldade que sempre existiu em conciliar os dois lados necessarios ao funcionamento de um jornal: como separar as funçoes da “igreja” e do “estado”.
    quando as empresas jornalisticas perdem um desses dois olhos ou permitem que eles envesguem e o jornlaismo seja olhado como negocio ou o negocio como jornalismo, o jornalismo e o negocio vão à breca, so se alterando a ordem por onde a coisa começa.
    essa dissintonia que voce captou muito bem reflete a invasao de uma dessas areas pela outra que resultam nessas crises de identidade e nesse comportamento dicotomico.
    as gradaçoes de proposito e atitude, no universo do jornalismo, sao muito parecidas com as da politica. ha o estadista e ha o demagogo; ha os que apelam para os ideais e os que apelam para os baixos instintos do “e-leitor”; ha os que enriquecem uma sociedade e os que exploram a sociedade para enriquecer; ha os que vivem de buscar a verdade e os que vivem de manipular as mentiras. e o problema é que as fronteiras entre cada um desses pares nunca são perfeitamente nítidas. variam conforme cada caso de que se esteja tratando. e isso explica o abismo natural que existe entre o gestor administrativo – que navega a motor, em linha reta segundo regras cartesianas e aritmeticas – e o gestor jornalistico que navega a vela e só sabe onde é que quer chegar no final da viagem, tendo que improvisar o rumo, seguir uma estrategia de navegaçao conforme o vento vai mudando
    cabe ao “supremo tribunal” das empresas que produzem jornais, seja qual for o suporte, fiscalizar o cumprimento dos limites minimos entre a funcao institucional e a funçao comercial, conter as infiltraçoes espurias nas redaçoes, trazer de volta ao chão os egos com tendencias a esvoaçar e caçar os ladroes e os falsarios que procuram o trampolim das redações para correr atras de poder, sempre se escondendo por tras dessa indefiniçao dos limites.
    quando se desmonta esses “supremos tribunais” em funçao de outras consideracoes alheias a funçao deles, ou se os infiltra de figuras que estao la para distorcer , acontece nos jornais o que esta acontecendo na democracia brasileira.
    Joseph Pulitzer, um dos inventores do jornalismo moderno que empurrou as reformas da Progressive Era que tiraram a democracia americana do mesmo brejo de corrupçao em que estamos hoje e que quase a matou na virada do seculo 19 para o 20, dizia que “A nossa democracia e sua imprensa vão prosperar ou naufragar juntas (…) O poder de moldar o futuro da democracia estará nas mãos dos jornalistas do futuro” e que “Uma imprensa cinica, demagogica e mercenaria produzira, com o tempo, uma sociedade identica a ela”.
    os processos sao muito parecidos e interdependentes, Renato, e o que esta acontecendo com a democracia brasileira e com o comportamento moral da sociedade brasileira só pôde chegar ao que chegou PORQUE aconteceu ANTES com a imprensa e a televisao brasileiras.
    é muito dificil discernir quem imita quem nesse campo; a vida ou a arte, ou o que nasce primeiro, o ovo ou a galinha.
    no resto do mundo a coisa é parecida, embora mais branda. a crise do jornalismo começou como uma crise de quebra de paradigma tecnologico, continuou como uma crise financeira e esta desaguando nessa crise politica (crise de liderança) que abriu as portas para a invasao do sistema pelos demagogos e pelos “salvadores da patria” (ou das empresas), exatamente como acontece com os paises.

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