A dentista queimada e o nosso baobá

29 de abril de 2013 § 3 Comentários

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Outro “de menor” que já tinha sido preso e solto várias vezes antes foi quem tocou fogo na dentista na semana passada.

Ou melhor, foi quem assumiu o crime do qual participaram outros três “de maior”. Como ele faz 18 anos em junho, as televisões não podem dizer sequer que ele foi “preso“. Ele foi só “apreendido” e não por um crime hediondo, mas por um mero “ato infracional”.

No máximo em três anos estará solto para queimar mais um, e com a ficha tão limpa quanto a sua ou a minha.

Esse Estatuto da Criança e do Adolescente que enfiam goela abaixo de uma Nação que o rejeita de cabo a rabo não se contenta só com a subversão dos fatos. Insiste principalmente na subversão semântica e conceitual. Quer confundir as suas idéias sobre o que é certo ou errado; sobre quem é a vítima e quem é o criminoso; sobre o que é e o que não é um crime.

Tudo isso faz lembrar os carrascos de Stalin que não se contentavam em dar o tiro na nuca do inocente que incorria nas paranóias do chefe num porão e acabar logo com isso.

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Não bastava, sequer, que a vítima confessasse o que nunca tinha feito. Eles trabalhavam incansavelmente na tortura até que, exausta e com o senso crítico despedaçado, ela acreditasse na confissão falsa que lhe tinham arrancado e na culpa que não tinha e pedisse para ser fuzilada em nome da salvação da revolução.

Foram essas profundezas abissais da alma humana que Arthur Koestler explorou magistralmente na sua obra prima “O Zero e o Infinito” que dramatiza os Processos de Moscou, o marco que separa a esquerda honesta da outra que continua vagando até hoje por aí, nos quais Stalin definiu o que é o socialismo real ao assassinar todos os seus antigos companheiros de revolução e potenciais substitutos no poder (aqui).

O ECA e todo esse movimento do “politicamente correto” que quer controlar não apenas o seu modo de falar mas principalmente o seu modo de pensar desde sobre o que você come até sobre quem você come, passando por tudo que ha no meio, deitam nesse precedente as suas raízes que, numa terra tão inculta e ha tantos anos afofada e “enriquecida” pelo adubo granmsciano quanto esta nossa, mergulham a profundidades inextirpáveis.

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P.S.: Para quem não se lembra o leitor Luiz Barros transcreve, no espaço para comentários deste texto, o trecho do livro de Saint Exupéry que diz respeito aos baobás. Obrigado, Luiz.

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§ 3 Respostas para A dentista queimada e o nosso baobá

  • Luiz Barros disse:

    O Pequeno Príncipe
    Antoine Saint- Éxupery
    Capítulo V
    Dia a dia eu ficava sabendo mais alguma coisa do planeta, da partida, da viagem. Mas isso devagarzinho, ao acaso das reflexões. Foi assim que vim a conhecer, no terceiro dia, o drama dos baobás.
    Dessa vez ainda, foi graças ao carneiro. Pois bruscamente o príncipezinho me interrogou, tomado de grave dúvida :
    – É verdade que os carneiros comem arbustos?
    – Sim. É verdade.
    – Ah! Que bom!
    Não compreendi logo porque era tão importante que os carneiros comessem arbustos. Mas o príncipezinho acrescentou :
    – Por conseguinte eles comem também os baobás?
    Fiz notar ao príncipezinho que os baobás não são arbustos, mas árvores grandes como igrejas. E que mesmo que ele levasse consigo todo um rebanho de elefantes, eles não chegariam a dar cabo de um único baobá.
    A idéia de um rebanho de elefantes fez rir ao príncipezinho :
    – Seria preciso botar um por cima do outro…
    Mas notou, em seguida, sabiamente :
    – Os baobás, antes de crescer, são pequenos.
    – É fato! Mas por que desejas tu que os carneiros comam os baobás pequenos ?
    – Por que haveria de ser? Respondeu-me, como se tratasse de uma evidência. E foi-me preciso um grande esforço de inteligência para compreender sozinho esse problema.
    Com efeito, no planeta do príncipezinho havia, como em todos os outros planetas, ervas boas e más. Por conseguinte, sementes boas, de ervas boas; sementes más, de ervas más. Mas as sementes são invisíveis. Elas dormem no segredo da terra até que uma cisme de despertar. Então ela espreguiça, e lança timidamente para o sol um inofensivo galhinho. Se for de roseira ou rabanete, podemos deixar que cresça a vontade. Mas quando se trata de uma planta ruim, é preciso arrancar logo, mal a tenhamos conhecido. Ora, havia sementes terríveis no planeta do príncipezinho: as sementes de baobá… O solo do planeta estava infestado. E um baobá, se a gente custa a descobri-lo, nunca mais se livra dele. Atravanca todo o planeta. Perfura-o com suas raízes. E se o planeta é pequeno e os baobás numerosos, o planeta acaba rachando.
    « É uma questão de disciplina, me disse mais tarde o príncipezinho. Quando a gente acaba a toalete da manhã, começa a fazer com cuidado a toalete do planeta. É preciso que a gente se conforme em arrancar regularmente os baobás logo que se distingam das roseiras, com as quais muito se parecem quando pequenos. É um trabalho sem graça, mas de fácil execução ».
    E um dia aconselhou-me a tentar um belo desenho que fizesse essas coisas entrarem de uma vez na cabeça das crianças. «Se algum dia tiver de viajar, explicou-me, poderá ser útil para elas. Às vezes não há inconveniente em deixar um trabalho para mais tarde. Mas, quando se trata de baobá, é sempre uma catástrofe. Conheci um planeta habitado por um preguiçoso. Havia deixado três arbustos… ».
    E, de acordo com as indicações do príncipezinho, desenhei o tal planeta. Não gosto de tomar o tom de moralista. Mas os perigos dos baobás são tão pouco conhecidos, e tão grandes os riscos daquele que se perdesse num asteróide, que, ao menos uma vez, faço exceção à minha reserva. E digo, portanto: “Meninos! Cuidado com os baobás!” Foi para advertir meus amigos de um perigo que há tanto tempo os ameaçava, como a mim, sem que pudéssemos suspeitar, que tanto caprichei naquele desenho. A lição que eu dava valia a pena. Perguntarão, talvez: Por que não há nesse livro outros desenhos tão grandiosos como o desenho dos baobás? A resposta é simples: Tentei, mas não consegui. Quando desenhei os baobás, estava inteiramente possuído pelo sentimento de urgência.

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  • Ari disse:

    Fernão, é provável que já tenhas visto o vídeo abaixo, do assalto de uma milícia bolivariana ao hospital universitário da Universidade de Los Andes, quando militares e policiais venezuelanos não só não intervieram como também isolaram o prédio atacado de interferências externas, o que não impediu a posterior evasão dos assaltantes.
    Se não viste, é este: http://youtu.be/mYAaYt_NTe4
    No mesmo dia em que vi essa notícia, no Brasil aconteceu esse assassinato da dentista queimada viva. Aqui não temos o Estado protegendo os criminosos através de seus agentes, mas o temos fazendo um cordão de isolamento análogo, impedindo que sejam responsabilizados, através de suas leis.

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  • flm disse:

    felizmente ainda não chegamos a esse ponto, ari, embora os ataques do mst a centros de pesquisa cheguem perto dele.
    a melhor maneira de evitar que mergulhemos na barbárie, entretanto, é não esquecer nem por um minuto que o pt está cheio de bestas feras que declaram a cada minuto a sua admiração por essas bestas feras venezuelanas.
    não esquecer nem alimentar falsas ilusões sobre essa realidade é a melhor maneira de nos defendermos contra eles.

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