São as vítimas, estúpido!

16 de junho de 2015 § 5 Comentários

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Ao fazer, mais uma vez, uma minuciosa confissão do seu próprio fracasso como responsável último por ele que é, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardoso, fez mais um emocionado apelo esta tarde ao Congresso Nacional para que “não se coloquem jovens brasileiros dentro das hedionadas prisões do sistema prisional brasileiro, verdadeiras escolas do crime” por meio da redução da maioridade penal, e blá, e blá e blá…

Entre as dezenas de vezes que repetiu essa cena ao longo desta tarde, pelo menos uma vez a Globonews apresentou, na sequência, o secretário de Segurança Publica do Rio de Janeiro, Jose Mariano Beltrame, repetindo o seu mantra para que não haja retrocesso na política das UPPs, qual seja, a de levar a polícia aos morros cariocas que ficaram abandonados por décadas à lei do cão dos traficantes desde que Leonel Brizola fez um acordo com eles para conseguir se eleger. É que depois que os “ingleses” da Copa deixaram o Rio, o interesse das autoridades por aqueles “pretos“, “pobres” e “putas” só vem diminuindo…

Agência Brasil - ABr - Empresa Brasil de Comunicação - EBC

Não peguei o discurso inteiro de Beltrame com som, mas quando aumentei o volume, ele falava daquele bom “jovem brasileiro” que, apenas para se divertir, esfaqueou na virilha e chacoalhou a faca, olhando-o nos olhos, aquele cardiologista que foi trucidado e sangrou até à morte na Lagoa Rodrigo de Freitas no mes passado, apenas porque resolveu pedalar duas ou tres voltas por esse “cartão postal” do Rio de Janeiro num belo entardecer. E o que dizia Beltrame sobre esse “jovem brasileiro” em especial? Que ele já tinha sido preso 15 vezes antes por sua polícia – isso mesmo, 15 vezes! – mas foi devolvido 15 vezes às ruas, de faca em punho, pelo sistema Judiciário e pelos códigos penais que o ministro da Justiça quer manter intactos, porque não ha lei neste país que possa tirar “jovens” como esse de circulação.

É claro que ninguém pensou jamais em mandar “jovens brasileiros” para esses presídios de fato hediondos apenas por esporte ou mesmo por excesso de zelo. Mas é que “São as vítimas, estúpido”!, diria o famoso marqueteiro de Bill Clinton.

Se não temos presídios melhores para encerrá-los, temos de escolher entre manter esses jovens na rua, de faca em punho, correndo atrás de nossos filhos e mães, apenas porque são “jovens”, ou enfiá-los onde quer que seja para que pessoas como o cardilogista trucidado e os outros 55.999 brasileiros que são assassinados nas ruas deste país todos os anos tenham uma chance a mais de sobreviver.

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Nós todos adoraríamos que o senhor ministro e seu partido deixassem barato 2 ou 3% do que nos roubam para por os presídios brasileiros no melhor “padrão Fifa”. Eu, pessoalmente, acho que eles só serão arrumados quando os chefes do partido do próprio ministro e outros bandidos “excelentes” deixarem de ser recolhidos, quando flagrados com a mão na massa, em alas especialmente construidas para eles passarem o seu semestre sabático na Papuda e começarem a ser presos nos hediondos presídios que temos pelo mesmo prazo “dosimetrado” para seus comparsas “civis” no mesmo crime. Só com essa perspectiva no horizonte – a de que todo brasileiro que mereça ser preso seja julgado pelo mesmo tribunal, condenado às mesmas penas e preso na mesma prisão – veremos os correligionários do ministro, mais os seus “aliados” e os seus “adversários” na farsa que se encena em Brasilia, darem um jeito nas prisões que possam vir a frequentar.

Não tendo essa opção hoje, o jeito é mandar “jovens” que andam por aí esfaqueando gente para as prisões que houver, porque a prioridade deve ser dos esfaqueados e não dos esfaqueadores.

É das vítimas que se trata. Entendeu agora, “excelência”?

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4 desabafos sobre segurança pública

14 de abril de 2015 § 8 Comentários

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Só para não deixar passar em branco o assunto aqui no Vespeiro e oferecer a quem insiste em ser lúcido uma prova de que não está sozinho e de que fazem, sim, sentido as perguntas que assomam às vossas cabeças sempre que ouvem os mesmos argumentos desonestos ou bizarros sobre os nossos problemas de segurança pública, mesmo que a imprensa siga se recusando a fazê-las, registro aqui algumas das que mais têm ofendido a minha própria inteligência nas últimas semanas.

1 – Você tem toda a razão: a principal função da prisão não é reformar gente portadora do “perdoável” defeitinho de trucidar ou estropiar os outros só pra se divertir mas sim tirar essas pessoas das ruas para que esses “outros” (nós) possam, ao menos, continuar vivos. Logo, essas longas sessões que você tem assistido na TV em que “jornalistas”, de um lado (e falo dos com aspas, note bem, porque felizmente ainda ha os que não as requerem), e “especialistas”, do outro, especialmente convocados para afirmar olimpicamente que “baixar a maioridade penal é inutil e até contraproducente porque a prisão é uma escola do crime que não reforma ninguém”, e ponto final, não passam de atestados de desonestidade assinados em rede nacional, ao vivo e em cores.

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E o tanto de gente que deixa de ser assassinada enquanto essas “vítimas da sociedade” permanecem trancadas, não vale nada?

Repito: reformar quem se entrega ao crime é o bonus possível; mas tirar quem mata, viola e estropia das ruas e não deixá-lo voltar a elas a menos que haja provas ou atenuantes indicando que isso é minimamente seguro para os outros, antes de qualquer consideração adicional, é um imperativo elementar de justiça, prevenção e segurança pública.

A possibilidade de outros criminosos menos violentos virem a ser “reformados” dentro de prisões, aliás, depende essencialmente de que o Brasil adote o instituto elementar da igualdade perante a lei. Enquanto houver 5 Justiças diferentes e foros e prisões especiais pra todo mundo que é um pouco mais que um pé-de-chinelo, tudo vai ficar como está: celas especiais cheias de mordomias obscenas, revoltantes e instigadoras de mais ódio e de mais crimes para os ladrões de casaca e assassinos que matam multidões roubando educação e remédio de criança pobre doente que escrevem essas regras e distribuem esses privilégios, e tugúrios medievais/escolas de crime para o resto da população.

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2 – A Folha de hoje mostra estatística da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República que dá conta de que a criminalidade cresce exatamente por igual em todas as faixas etárias da população. Uns 38% a mais nos últimos cinco anos. E trata o dado como ponto a favor de quem é contra a redução da maioridade penal. Pra mim parece exatamente o contrário.

O deslassamento geral do Brasil tem, para todas as faixas etárias, os mesmos vetores: a esculhambação geral e assumida sustentada pela vitória sistemática da mentira e da impunidade “lá em cima”, e a esculhambação geral e assumida sustentada pela imposição do mais absoluto e mentiroso relativismo moral “lá embaixo”, especialmente nas 6 ou 7 horas diárias de louvação e aplauso a toda e qualquer espécie de deformidade ou ignomínia comportamental despejada pela Rede Globo, mais que como “normal“, como “desejável“, sobre todo brasileiro, dos nascituros para a frente, do Oiapoque ao Chuí.

Enquanto as escolas forem essas — traia a tudo e a todos que o governo garante e o Brasil aplaude — continuaremos matando a bala, a faca e a porrete cinco vezes mais que o Estado Islâmico por ano – e mais a cada ano – e achando que tá tudo bem — o que é que tem? — “todo mundo é assim mesmo”.

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4 – Ja a discussão do desarmamento, esta é dolosamente desonesta. Seguir afirmando que quem atira é revolver e não quem o empunha; que o maior esforço da polícia e das forças armadas deve ser para desarmar os cidadãos que seguem a lei e não os que carregam fuzis e que a Justiça deve punir com mais rigor quem mata em legítima defesa do que quem mata pra ver o tombo do otário na frente da arma com todas as provas em contrário que estão aí, batendo na nossa cara, é, a esta altura, idesculpável. Além de ser o óbvio ululante que cortar todos os “pintos” não é a solução mais justa e nem a mais eficaz contra a ocorrência de estupros, os numeros do Brasil, onde vigora a mais imbecil, draconiana e mal intencionada das leis de desarmamento são a prova cabal e conclusiva de que isso tudo é mentira.

Mas nem precisava mais uma. Toda a gente séria do mundo ja está careca de saber disso: o desarmamento indiscriminado das vítimas só faz aumentar e não diminuir a quantidade de agressões e crimes de morte pela razão simples e óbvia de que torna muito mais segura a vida do bandido e do assassino que passam a ter a certeza da ausência de revide.

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De modo que, em vez de ouvir os “especialistas” de plantão na Rede Globo, vá ver o que a Harvard University descobriu a esse respeito, procurando cientificamente a verdade pelo exame da realidade dos numeros x legislações de controle de armas em todo o mundo, neste link: http://www.law.harvard.edu/students/orgs/jlpp/Vol30_No2_KatesMauseronline.pdf

4 – O apedrejamento dos PMs nos desastres sucessivos que acontecem nas UPPs do Rio de Janeiro são outro caso que revolta-me o estômago. As UPPs, como foi inúmeras vezes denunciado com todos os indícios que o provam aqui no Vespeiro, foram antes uma “medida pra inglês ver” determinada pela contratação (eleitoreira) de uma Copa do Mundo e uma Olimpíada no Brasil com epicentro no Rio de Janeiro, do que fruto da vontade dos políticos de lá ou de Brasília de dar ao povo dos morros cariocas a mera esperança de segurança pública que eles sempre lhes negaram até que ficasse claro que logo, logo, os “loiros de olhos azuis” teriam de passar no meio do fogo cruzado de cada dia da Cidade Maravilhosa para chegar aos estádios. As tais UPPs só foram implantadas, aliás, nos morros no caminho entre o aeroporto, os hotéis da Zona Sul e os estádios, pra que não ficasse dúvida de que é disso mesmo que se trata.

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Vai daí, enfiaram soldados da PM em conteineres de lata, desses que a gente fura até com o dedo, e os depositaram bem no meio dos territórios controlados por aquelas feras que as nossas leis de desarmamento não querem alcançar e andam pra cima e pra baixo com bazucas e fuzis calibre 308, barbarizando e matando a torto e a direito.

Ha duas semanas o Fantástico mostrou o que são, por dentro, esses containeres onde os policiais/alvos-vivos são deixados para morrer. Coisa de revoltar lobotomizado! Mas eles ficam lá, dia e noite, ouvindo os “pipocos” e esperando aquele que vai matá-los, enquanto pensam em suas mulheres e filhos em casa. Um troço de enlouquecer. Não dá pra entender como é que ainda tem gente que topa essa parada. (É que atividade policial, assim como jornalismo, não é escolha, é sina, também chamada de “vocação“).

Aí, quando alguém espirra e esses alvos-vivos com o equilíbrio psicológico necessariamente destruído, puxam o gatilho, exatamente do jeitinho que esse esquema todo foi feito pra resultar, o mundo cai de pau em cima dos PMs, que “precisam ser retreinados” e o diabo.

Dá nojo!

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Civilização é só medo da polícia

27 de maio de 2013 § 15 Comentários

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Enquanto nossas autoridades seguem mergulhadas na momentosa discussão para saber se a transformação do tiro na cabeça à queima roupa numa espécie de esporte nacional é mesmo função da pobreza e se há alguma coisa que se possa fazer a respeito mais que manter seus praticantes soltos pelas ruas do Brasil enquanto se distribui dinheiro por aí, o mundo rico nos dá provas cada vez mais veementes de que a civilização não é mais que medo da polícia, bastando tirar de cena a perspectiva da cadeia para que regressemos ao estado selvagem.

Não é que o dinheiro não é capaz de curar-nos do que somos. Nem mesmo a educação é capaz disso por si só.

Ao contrário, o que os fatos demonstram é que dinheiro e conhecimento sem polícia fazem dos mais refinados e ricos entre os exemplares da espécie apenas predadores mais eficientes.

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Os produtos da Apple, por exemplo, revolucionaram todos os processos humanos, dos atos mais prosaicos do cotidiano ao modo de se abordar a mais alta ciência. E Steve Jobs, seu criador, tem sido saudado, com toda a propriedade, como o maior gênio da raça depois de Leonardo da Vinci.

Mas bastou que as ferramentas que ele próprio ajudou a inventar universalizassem as leis da economia – que ritualizam os nossos instintos básicos – antes que pudessem universalizar as leis da política – que ritualizam os diferentes graus de superação desses instintos básicos que as sociedades humanas foram capazes de atingir – para que ele próprio indicasse aos seus concorrentes a oportunidade que isso abria de voltar impunemente ao mesmo grau de exploração do homem pelo homem dos primórdios da Revolução Industrial.

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E lá migrou a empresa símbolo do auge da sofisticação científica atingida pela humanidade para os mais remotos grotões da China para explorar a miséria criada pela utopia socialista e o trabalho quase escravo de crianças para cima, em esquemas marcados por tais extremos de vilania que chegaram a produzir ondas de suicídios em massa.

O seu espetacular “sucesso” como “empreendedor” – tinto de sangue pouco importa – arrastou para os antros de miséria do mundo os empregos dos seus próprios conterrâneos que, não obstante, babavam de admiração por esse grande feito “empresarial” enquanto compravam baratinho os produtos desse esquema vil com seus salários reduzidos pela competição dos pobres do mundo.

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Graças a essa mesma oportunidade de fazer sem medo da polícia o que os levaria para a cadeia em seus próprios países, os mais “sensíveis” e “criativosdesigners de moda exportaram a produção das roupas e acessórios que criam “para tornar a vida mais confortável e glamurosa” para “fábricas” sórdidas nas Bangladeshs da vida onde trabalhadores famintos que imploram por um salário de US$ 38 por mês se amontoam em tugúrios onde mourejam de sol a sol sob o risco de morrerem envenenados ou esmagados por desabamentos.

Benetton, Mango, Primark, H&M, Tommy Hilfigher, Calvin Klein, Tchibo, The Children’s Place, Monsoon, DressBarn ou a nossa C&A, foram algumas das marcas que, por tras de seus desfiles e editoriais de moda recheados de beleza e abundância, tiveram de se desculpar pelo último desastre do gênero. Nada que outros que ainda não tiveram tanto destaque não façam também.

ban13Mas suas lojas espalhadas pelo mundo continuam abarrotadas de gente ansiosa por desfilar por aí um look cool a preço conveniente.

Bangladesh que se lixe!

O mesmo caso da nossa Vale do Rio Doce, que faz com os seus carvoeiros de Moçambique o que nem no Brasil é permitido fazer…

A civilização, repito, não é mais que medo da polícia. Está na hora, portanto, de nossas autoridades meterem mãos a obra em vez de seguirem esperando, com as nossas e as cabeças de nossos filhos como alvo, que alguma espécie de milagre convença os assassinos que andam a solta por aí a nos entregar de livre e espontânea vontade aquilo que nem os mais ricos, sensíveis e educados representantes da espécie entregam senão contra uma muito concreta certeza de acabarem seus dias numa jaula se resistirem a faze-lo.

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Maioridade penal na TV

6 de maio de 2013 § Deixe um comentário

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Continua fora de foco a discussão em torno da redução da maioridade penal que o virtual estado de conflagração nas ruas de todo o país criado pelo nosso alienado Estatuto da Criança e do Adolescente precipitou.

O Canal Livre da TV Bandeirantes, que ontem tinha como convidados o desembargador criminal Luis Soares de Melo e o ex-deputado Fernando Gabeira, além dos jornalistas da casa e mais dois ou tres “especialistas” que gravaram perguntas para os entrevistados, foi dedicado ao assunto mas, mesmo depois das intervenções de todos eles, conseguiu passar ao largo da questão essencial.

Deu para confirmar por essa amostra heterogênea de participantes, alguns com posições conhecidas no passado admitidamente reformadas por imposição dos fatos, que avançamos na boa direção.

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A admissão geral de que a qualidade do crime deve ter precedência sobre a idade de quem o comete na orientação geral da providência a ser tomada é a mudança mais auspiciosa que observei nesse embate porque a que mais se aproxima do ponto focal do qual essa discussão nunca deveria se ter afastado, que é a proteção da vítima e não a prioridade no tratamento do criminoso, a inflexão distorsiva que leva o ECA irremediavelmente para o desastre que estamos colhendo.

Mas ainda é só uma meia vitória pois que essa admissão, como ficou claro ao longo da discussão, decorre apenas de um reajuste do princípio errado de sempre. Trata-se apenas do reconhecimento de que o adolescente dos tempos da internet não é nenhum ingênuo posto que, desde o momento em que se torna capaz de ler ou, menos que isto, de assistir um filmete pode, desde ilustrar-se sobre as minúcias dos mais extremos graus de perversão sexual até aprender a construir na cozinha de casa bombas como as que foram atiradas contra os maratonistas de Boston e ainda beber nas fontes do ódio doutrinário nas quais justificam-se e incentivam-se tais atos.

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O agressor continua, portanto, no foco prioritário de atenção, embora dentro de uma visão um pouco mais realista que, só por isso, pode resultar em maior benefício para o potencial agredido.

A discussão subsequente sobre qual a idade em que o agressor pode ou deve começar a ser punido a partir da qualidade da ofensa – 13, 14 ou 16 anos – confirmou que ainda estamos longe do que interessa embora aí também registrem-se ameaças de progresso, especialmente na visão dos que lidam diretamente com a realidade que está nas ruas.

O desembargador entrevistado, por exemplo, respodeu muito realisticamente ao jornalista que insistia num dos chavões mais utilizados para justificar o ECA, que sua experiência concreta diz-lhe que ha tantas razões para se temer que um menor especialmente violento venha a ser “aluno” da “universidade do crime” em que consistiria a sua conviviência com criminosos mais velhos nas prisões, quanto que fosse ele o “professor” de maldades e perversões ainda desconhecidas para seus companheiros de cela mais velhos.

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Quem tem assistido ao vivo esses pequenos assassinos derrubando inocentes nas ruas só para ver o tombo todos os dias nos jornais da TV e registrado suas reações frias e cínicas quando “recolhidos” pela polícia não pode, em sã consciência, duvidar do que ele estava dizendo.

O excesso de benefícios na progressão de penas, foi possível constatar, é outra unanimidade. Além do óbvio, faltou apontar a causa da persistência desse problema que é a corrupção de juízes e advogados que enriquecem com essa indústria.

Não resta um pingo sequer de ideologia ou outra forma de ilusão ou engano a sustentar essa distorção que já ninguém discute. Ela continua aí porque é um excelente negócio vender impunidade, e vai aos limites que vai porque o negócio é tanto melhor quanto maior for a desproporção entre a barbaridade do crime cometido e o encurtamento da sua punibilidade, esteja-se falando de mensalões ou de massacres, tanto faz.

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Quanto à superpopulação carcerária, faltou mencionar que metade dela é constituída de gente que já cumpriu sua pena ou nunca foi condenada mas continua presa porque não tem como pagar advogados ou mal sabe se expresser, ou as duas coisas junto. E que, mesmo diante de um quadro deste grau de escândalo, a OAB, que se arvora em defensora da democracia e dos direitos humanos, proíbe a advocacia pro bono. Exige a assistência paga pelo Estado num país em que tudo que o Estado toca, ou vira lixo, ou não acontece…

Outro dos baluartes da defesa do status quo – os incrivelmente altos “indices de reincidência” no crime dos que passam pelas prisões brasileiras – não é outra coisa senão a confusão que se faz em torno do termo “cumprimento de pena” no país do vale tudo no que diz respeito à “progressão penal”.

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Na verdade não há 70% de reincidência. A esmagadora maior parte desse número refere-se, isto sim, a impunidade, pura e simplesmente.

São criminosos que as autoridades devolvem às ruas praticamente sem punição que voltam a matar e a delinquir. Basta olhar para os crimes bárbaros do dia – e hoje os temos todos os dias e para escolher – para confirmar que os autores dos piores das últimas 24 horas já tiveram cinco ou seis “passagens” pela polícia ou pelo sistema prisional e que nada justifica que tenham voltado a ser soltos. E no entanto, foram. Dão “indulto de Natal” até para estupradores de bebês…

Cada um desses, cada um dos menores que passa alguns meses ou semestres “retido” pelo “ato infracional” de trucidar covardemente alguém e volta às ruas para repetir a dose, conta como um “reincidente” quando não passa de um assassino à solta que nunca chegou a passar por “correção” que mereça esse nome.

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Este, portanto, é mais um “argumento” que tem de ser reformulado em termos que correspondam à verdade dos fatos.

E com isso chego, finalmente, ao ponto central da questão que, em nenhum momento foi abordado no programa de ontem. E o ponto central é “Qual é a função do Estado na questão da segurança pública: proteger o agressor ou as vítimas em potencial? Onde é mais toleravel que ele erre?”.

Poucos países civilizados têm dúvida quanto a esse ponto. A função do Estado na tarefa de prover seguranca pública é, como diz o nome, prover seguranca pública isto é, garantir a propriedade e a integridade física das vítimas potenciais e, acima de tudo, evitar a qualquer custo o crime irreversível que é o crime contra a vida.

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Tratar dos agressores, especular sobre as fronteiras entre a covardia, a maldade (sim, ela existe!) e a doença ou sobre o momento em que se desenvolvem os neurônios no cérebro de um adolescente e etc. são problemas para a medicina, a ciência e suas vizinhanças que podem, eventualmente, informar secundariamente as políticas de segurança pública, uma vez atendida a prioridade de prove-la na medida do possível para as vítimas potenciais, o que se faz tirando criminosos das ruas e não os devolvendo mais a elas até que haja sinais muito consistentes de que isto é seguro para os outros (antes que para o próprio agressor).

Mas de caminhar para essa obviedade ainda estamos longe posto que em nenhum momento em todo aquele programa dedicado ao tema mencionou-se a palavra “vítima”. Tudo continua a ser tratado pelo ângulo do agressor, e esta é a regra geral em toda a imprensa.

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Resta repetir, finalmente, que para atender outra questão sempre abordada para justificar o status quo – a reforma do nosso sistema prisional medieval – não ha outro remédio senão democracia.

Se e quando houver um único Brasil, com cada homem valendo um voto e todos submetidos à mesma lei, aos mesmos foros e às mesmas prisões, inclusive e principalmente a gente encarregada de escrever as leis e cuidar da coisa pública, veremos as prisões brasileiras melhorarem como por milagre.

Enquanto houver dois brasis, um que vai e fica preso sem julgamento e outro que não vai e nem fica preso nem com sentença passada pelo Supremo Tribunal Federal e, se por milagre for, fica numa prisão especial, continuará sendo como hoje: faça-se tudo pela primeira classe, e a segunda que se foda.

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A dentista queimada e o nosso baobá

29 de abril de 2013 § 3 Comentários

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Outro “de menor” que já tinha sido preso e solto várias vezes antes foi quem tocou fogo na dentista na semana passada.

Ou melhor, foi quem assumiu o crime do qual participaram outros três “de maior”. Como ele faz 18 anos em junho, as televisões não podem dizer sequer que ele foi “preso“. Ele foi só “apreendido” e não por um crime hediondo, mas por um mero “ato infracional”.

No máximo em três anos estará solto para queimar mais um, e com a ficha tão limpa quanto a sua ou a minha.

Esse Estatuto da Criança e do Adolescente que enfiam goela abaixo de uma Nação que o rejeita de cabo a rabo não se contenta só com a subversão dos fatos. Insiste principalmente na subversão semântica e conceitual. Quer confundir as suas idéias sobre o que é certo ou errado; sobre quem é a vítima e quem é o criminoso; sobre o que é e o que não é um crime.

Tudo isso faz lembrar os carrascos de Stalin que não se contentavam em dar o tiro na nuca do inocente que incorria nas paranóias do chefe num porão e acabar logo com isso.

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Não bastava, sequer, que a vítima confessasse o que nunca tinha feito. Eles trabalhavam incansavelmente na tortura até que, exausta e com o senso crítico despedaçado, ela acreditasse na confissão falsa que lhe tinham arrancado e na culpa que não tinha e pedisse para ser fuzilada em nome da salvação da revolução.

Foram essas profundezas abissais da alma humana que Arthur Koestler explorou magistralmente na sua obra prima “O Zero e o Infinito” que dramatiza os Processos de Moscou, o marco que separa a esquerda honesta da outra que continua vagando até hoje por aí, nos quais Stalin definiu o que é o socialismo real ao assassinar todos os seus antigos companheiros de revolução e potenciais substitutos no poder (aqui).

O ECA e todo esse movimento do “politicamente correto” que quer controlar não apenas o seu modo de falar mas principalmente o seu modo de pensar desde sobre o que você come até sobre quem você come, passando por tudo que ha no meio, deitam nesse precedente as suas raízes que, numa terra tão inculta e ha tantos anos afofada e “enriquecida” pelo adubo granmsciano quanto esta nossa, mergulham a profundidades inextirpáveis.

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P.S.: Para quem não se lembra o leitor Luiz Barros transcreve, no espaço para comentários deste texto, o trecho do livro de Saint Exupéry que diz respeito aos baobás. Obrigado, Luiz.

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