Vimos emburrecendo…

26 de novembro de 2012 § 2 Comentários

O Globo deste sabado trazia uma história interessantíssima colhida do livro O Rio de Janeiro Setecentista, de Nireu Cavalcanti (aqui).

Era o começo do verão de 1660 e Salvador Correia de Sá era o governador nomeado pelo rei. Não dava ponto sem nó. Distribuiu cargos e terras públicas para todos os membros de sua família, arranjou casamentos de parentes com os espanhóis que controlovam Buenos Aires e também as minas do Potosi, no Peru, baixou decretos ordenando que a Câmara Municipal pagasse seus gastos pessoais e com suas residencias, e por aí afora…

Isso não fez dele exatamente um homem popular. Por via das dúvidas ele resolveu, então, aumentar o contingente de soldados que o protegiam (e ao cargo) de 350 para 500 homens. Para financiar esse “melhoramento”, criou o primeiro imposto predial, tipo IPTU, da história do Brasil e mandou o projeto para a Câmara dos Veredaores.

Acontece que, se o governador era nomeado pelo rei, os vereadores eram eleitos (ainda que só pelos “homens bons” que constituiam a elite da cidade) e o imposto incidia sobre todas as moradias do Rio.

O povo estava com eles.

Aproveitando uma vigem de Salvador a São Paulo, a Câmara se reuniu, a 8 de novembro de 1660, e o destituiu do cargo, nomeando em seu lugar Agostinho Barbalho Bezerra, figura muito popular na cidade, irmão de Jerônimo Barbalho Bezerra que era o líder dos revoltosos.

Faltava, para completer o golpe, tirar Tomé Correia de Alvarenga, governador interino e primo de Salvador, do cargo no qual ele resistia. Tomé tinha sentido que a barra ia pesar e fugiu, dias antes, para o Mosteiro de São Bento, onde se asilou.

Acontece que Agostinho não tinha o mesmo espírito guerreiro do irmão Jerônimo. Quando soube que tinha sido nomeado governador correu para outro convento, o de Santo Antônio, onde tentou se refugiar, mas foi arrancado de lá a força para “tomar posse”.

Os rebeldes continuavam fiéis ao rei de Portugal, insistiam em esclarecer, e ficariam no governo do Rio apenas até Lisboa mandar um substituto para Salvador, tido como inimigo do povo.

Em São Paulo, Salvador preparava a resistência. Começou por enviar armas aos beneditinos que defendiam o primo Tomé. A Câmara do Rio tentou aliciar a de São Paulo, mas foi em vão.

Em janeiro de 1661, Salvador começou a reverter a maré. Mandou à Câmara do Rio um documento perdoando todos os revoltosos menos os sete líderes principais e suspendendo a cobrança do imposto malfadado, o que foi suficiente para desarticular a rebelião.

Na madrugada de 5 de abril, com uma tropa de mercenarios paulistas e mais pelo menos 700 índios postos sob seu comando pelos jesuítas, retomou o Rio sem enfrentar reações. Os líderes rebeldes foram presos e Jerônimo decapitado em praça pública, tendo a cabeça espetada numa estaca ficado exposta como exemplo num pelourinho onde hoje está a Praça XV.

Já seu irmão Agostinho, que desde o primeiro minuto traira a revolução, foi reconduzido ao governo tendo Salvador de Sá como seu “braço direito” (para evitar novas revoltas). Ficou no cargo por dois anos. Em agradecimento, ganhou do rei a capitania de Santa Catarina e direitos especiais de lavra de ouro nas Minas Gerais.

Morreu milionário.

Por via das dúvidas, o rei chamou Salvador de volta a Portugal onde deu-lhe polpudas sinecuras no Conselho Ultramarino. E a paz voltou ao Rio. (Só haveria outro imposto predial na cidade depois da chegada da família real em 1808).

Até que Nireu Cavalcanti publicasse suas pesquisas diretamente nos anais da Câmara e durante os 350 anos que nos separam dessa história, a versão da historiografia oficial tratava de confundir esse episódio com a “Revolta da Cachaça” ocorrida 13 anos antes quando Portugal instituiu um imposto sobre a fabricação de aguardente valendo para toda a colônia. Os anais portugueses descreviam o levante contra o imposto de Salvador de Sá como “uma rebelião de 131 chefes de famílias de grandes proprietarios”, a “zelite” de então, interessados em preserver seus privilégios. Nireu demonstrou que a rebelião contra o IPTU de Salvador de Sá envolveu, somente entre personagens citados nos anais da Câmara, 580 membros da elite e mais de dois mil revoltosos.

Moral da história: muito pouca coisa mudou no Brasil nesses 350 anos.

Os governantes seguem sendo o mesmo tipo de filho da puta de sempre, donos da coisa pública da qual dispõem como bem entendem; os que traem para aderir a eles são contemplados com pedaços do Estado e os que lhes resistem para realmente defender o que é de todos de sua sanha exploratória têm a cabeça cortada.

No fim toda essa lambança sanguinolenta vira, oficialmente, obras de benemerência às quais só “a zelite golpista”, em seu egoismo sórdido, ousa resistir.

A única coisa que mudou – para pior – é a atitude do povo e dos seus representantes diante da sanha exploratória dos donos do poder. Os legislativos, hoje, estão do lado de “lá” e os contribuintes já não reagem a quem lhes mete a mão nos bolsos.

Vimos emburrecendo…

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