Sobre desejar a mulher do próximo

14 de setembro de 2011 § 3 Comentários

Não basta não tomar a mulher do próximo; é preciso não desejar a mulher do próximo…

Dizia Octavio Paz que nós, católicos, vivemos confortavelmente demais dentro da mentira.

É a pura verdade.

Mas este não é um atributo inato. Não são as pessoas naturalmente inclinadas para a mentira que procuram o catolicismo. É esse vezo diabólico do catolicismo de perquirir não apenas as suas palavras e atos, mas também e principalmente os seus pensamentos que empurra cada um dos nascidos nessa fé a se exercitar na mentira como um recurso essencial de sobrevivência.

O resto é puro Darwin…

Se hoje o mau pensamento pode lhe render a ameaça quimérica de uns poucos séculos a mais no purgatório ou no máximo da eternidade no inferno, até ha pouco tempo era ele que – tendo ou não atravessado alguma vez a sua mente, pouco importa – deixava a sua carne viva sempre à mercê dos muito concretos alicates e ferros em brasa do Inquisidor e permanentemente ameaçado, no extremo, de arder até aos ossos numa fogueira em praça publica.

Pois provar o que você concretamente fez ou deixou de fazer e até o que você disse ou deixou de dizer é fácil, mas provar o que você pensou ou deixou de pensar lá dentro da solidão do seu cérebro é absolutamente impossível.

Uma coisa resolve-se com testemunhos e álibis que se sobrepõem e submetem a vontade de quem julga. Isso estabelece a verdade como instrumento privilegiado de acionamento das instituições e a impessoalidade como seu fundamento básico. E, em ultima instância, acaba por traduzir-se na segurança jurídica, na inviolabilidade do indivíduo e na democracia.

A outra só pode ser dirimida pela tortura e pela arbitrariedade de quem julga, o que sanciona moralmente a mentira como recurso de sobrevivência e deságua no casuísmo, no privilégio e na insegurança jurídica que alimentam o conchavo e a dissimulação.

Um ambiente engendra o desenvolvimento da ciência. No outro é a ideologia que prospera.

Fundar uma sociedade num documento básico que tem 250 artigos nesta sua oitava versão em 189 anos (media de 23 anos cada uma), emendados 67 vezes e vazados numa linguagem que o seu destinatário comum não entende, e atirar por cima de tal “constituição” uma dúzia de códigos com milhares de normas cada um diariamente reescritas, emendadas e reinterpretadas por meia dúzia de tribunais diferentes tem exatamente o mesmo propósito que tinha antes o poder que a autoridade se arrogava de por em cheque os seus supostos pensamentos: mantê-lo sempre a mercê dos caprichos de um juiz todo poderoso, vedada a realidade demonstrável como prova ultima da verdade.

Quem entra na Justiça acusando ou se defendendo no Brasil de hoje, tem tanta certeza sobre como poderá sair de la quanto tinha o acusado de ter maus pensamentos ao entrar num tribunal da Inquisição de outrora.

Aqui não ha certo nem errado e ha que se viver consciente de que tudo pode, a qualquer momento, vir a ser decretado o oposto de si mesmo.

O resto é só survival of the fitest. Nós nos sentimos confortáveis demais dentro da mentira porque desde sempre os vencedores são os que têm “se acertado” melhor, seja por que meios forem, com quem tem o poder de decidir independentemente dos fatos. Os que, por amor à verdade, insistem em afastar de si esse cálice, tendem a desaparecer antes de deixar descendência…

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