Para inverter tudo e abraçar o nada…

8 de abril de 2011 § 1 Comment

Que mundo é esse em que adolescentes, por “falta de atenção”, porque foram “zoados”, porque não são o que queriam ter sido, deixam uma casca oca perambulando aí por fora enquanto arquitetam um “outro” por dentro – finalmente secreto, só seu – que remói, que organiza a sua frustração, que apura, gota a gota, o seu ódio?

Que mundo é este em que adolescentes planejam com a razão como esmagar a razão? Como ferir impossivelmente, impensavelmente? Como impor a dor gratuita, a dor at random, a dor sem sentido para que doa mais?

Que dor é esta que lhes possa ter doído tanto?

Porque foi tão rara no passado e é tão comum hoje?

É a dor dos “com parâmetro”; a dor dos “com modelo”; a dor dos “com referência”. “Ha uma revolução de meios e uma indefinição de fins“. Esta é a dor com “ferramentas”. A dor informatizada. A dor insuportável da prova provada da própria insignificância.

É a dor dos que não se pertencem. Da geração que vive a vida exposta. Desse mundo sem paredes onde tudo está ao alcance de todos os olhares. A dor dos ubíquos, que “navegam” a sua solidão aos saltos por uma realidade aos pedaços, sem edição, onde se ganha ou se perde; onde se mata ou se morre.

Esta é a dor dos que “espiam”. Dos que “espiam” a vida radiante, perfeita dos “famosos”, dos lindos, ou o vale tudo para vir a se-lo dos donos das TVs e dos que eles fazem saltitar no picadeiro, bundas de fora, atrás da fuga do anonimato.

Já houve um “ódio de classes” que justificou massacres hediondos.

Hoje ha um ódio de ser. Um ódio de ser o que não se queria ter sido. Um ódio da consciência do que não se é.

O antes de ser; o antes de construir já foram a condição default da humanidade. E o alcançar, o caminhar, o fazer-se, o método universalmente aceito para superá-la.

Mas, na vida que realmente se vive, estamos na era da impaciência. A era do “click”; a era do Google, da resposta no milisegundo, da satisfação imediata, do passe de mágica que faz tudo surgir instantaneamente na tela.

Porque ele e não eu?

A vida em que realmente se está é a que se vive na solidão do quarto. A vida sem calores nem cheiros dos amigos-mensagens, dos amigos-avatares. A vida sem fronteiras, sem limites, sem percursos, sem distâncias. A vida sem bem e sem mal; sem “podes” nem “não podes”. Espiando, espiando…

A humanidade saltou para o outro lado do espelho.

As ruas, as pessoas, a vida sequencial, física, limitada no espaço, com potências e impotências, onde o começo vem antes do meio e o meio antes do fim; a vida impossível de plasmar, que não se distorce nem muda de cor com o passeio de um dedo sobre a tela da paisagem; a vida onde não se pode “curtir”, nem deletar, nem bloquear, é só o interlúdio entre os mergulhos, de espelho em espelho, atrás dos quais, sim, encontramos a realidade familiar, reconhecível, transitável do infinito desconexo, do mundo aos pedaços que nós sabemos operar; da vida sobre a qual temos controle, onde podemos escolher o que queremos ser e onde queremos nos colocar.

A morte? A morte já foi a eterna companheira. A que era recebida em nossas casas. A morte já foi percurso, já morou conosco, já foi onipresente como continua sendo no Discovery Channel. A vírgula entre os elos da cadeia alimentar. O recomeço da vida.

Hoje ela é a falência da tecnologia. A intrusa. A quebra da ordem. O intolerável. O inadmissível.

A vida já teve segredos. Já foi sua, já foi minha, já foi deles.

Hoje a vida não é de ninguém. “Caiu” o direito autoral até da biografia ao vivo que está em curso. Tudo é exposto, tudo é visto, tudo é filmado. Para cada pensamento, para cada ato, um modelo está prescrito. Não ha mais modelos de estar. Ha um modelo de ser. E ai de quem não for! É proibido destoar! Tudo está sendo vigiado; tudo está sendo medido; tudo está sendo julgado! Cada palvra, cada gesto têm de ser exatos!

Não existem mais O Mundo, a solitude, os mundos. Olhar os astros; sonhar com o maior que nós. Não existe mais mistério.

Deus.

Comemos da árvore do conhecimento e nos estrepamos!

Não estamos mais no mundo. Nós somos a ameaça para o mundo. Nós não somos mais a vida. Somos a ameaça contra a continuação da vida.

Não ha mais perigos. Nós somos o perigo…

Atire-se nas crianças. Em quaisquer crianças. Na cabeça.

Não para ferir; nem para vingar; nem para ver a dor.

Para nada.

Para inverter tudo e abraçar o nada.

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§ One Response to Para inverter tudo e abraçar o nada…

  • alberto mattos de faria disse:

    o que temos hoje, é um bando de gente que governa e, se acha o máximo, dando espelho a esse infelizes covardes, que só veem o outo lado do espelho. muito bom o artigo!!!

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