Alkmin mostra “a paz de resultados” que a imprensa insistia em não ver

15 de abril de 2011 § 1 Comment

A Globo mostrou ontem cenas chocantes dos leões de chácara do vereador miliciano Déco convocados para depor numa delegacia onde chegaram num carro que tinha um verdadeiro arsenal no porta-malas.

Havia pistolas, fuzis e munição suficiente para uma dúzia de massacres de Realengo e mais socos-ingleses, facas e outras ferramentas especializadas para torturadores e aterrorizadores de mulheres e crianças que é o “trabalho” a que se dedica esse tipo especial de ser humano que é o ex-policial “miliciano”.

Chamavam a atenção as imagens de um dos chefes daquele esquadrão da morte, delegado de polícia ainda na ativa, que andava livremente pela delegacia e enfrentava as câmeras e os colegas que ousaram rendê-lo com um insuportável ar de arrogância.

Desta vez foram presos (sabe-se lá por quantas horas), em função do tamanho do acinte. Mas já devem estar soltos a esta hora.

Enquanto isso, Antônio Ferreira Pinto, secretario de Segurança Publica de São Paulo, onde a criminalidade violenta caiu quase 80% nos últimos anos, dava uma entrevista amplamente noticiada pelo jornal Valor e registrada também pela Folha de São Paulo, explicando as mudanças administrativas ordenadas pelo governador Geraldo Alkmin que levaram a esse resultado.

Ha anos que venho dizendo aqui no Vespeiro que o Brasil inteiro devia se espelhar em Alkmin se quisermos mudar o padrão da segurança publica neste país onde se assassina mais gente por ano do que morre na guerra do Iraque e cobrando da imprensa o seu inexplicável silêncio a respeito desse feito único desde que começou a haver registros de crimes nesta terra.

O que Alkmin mandou fazer não é nada mais que o básico e essencial. Primeiro, determinou que corressem em rito sumário os processos administrativos sem os quais os policiais flagrados em atos de corrupção não podiam sequer ser demitidos e encaminhados à Justiça. Ha dois anos, acrescentou a isso a providência comezinha de subordinar a corregedoria da Policia Civil diretamente ao gabinete do secretario. Antes ela se reportava a ninguém menos que o chefe dos próprios investigados. É como continua sendo no Rio, onde o secretário da segurança tem de recorrer à Policia Federal para investigar a corrupção policial. A corrupção la é de tal modo generalizada que com a sua própria gente, é impossível faze-lo. (A entidade que faz as vezes de corregedoria na PM, que sempre atuou com severidade muito maior, permanece como estava porque a legislação militar em vigor a coloca fora da alçada da Justiça comum e do governador. Mas o plano de Alkmin, que enfrenta dificuldades legais e constitucionais, sempre foi unificar as duas polícias).

No primeiro ano após essa providência – 2009 que foi quando Ferreira Pinto tomou posse – 67 policiais corruptos foram demitidos e entregues à Justiça. No segundo, que foi 2010, 223 policiais corruptos foram varridos da corporação.

A reação foi a de sempre. Sindicatos de policiais comandados pelo PT armaram uma verdadeira guerra na porta do Palácio dos Bandeirantes em 2008, quando sentiram pela primeira vez que a intocabilidade de que sempre se valeram estava começando a cair. Hoje, estão prometendo outra baderna do gênero, a pretexto de estarem entre os policiais mais mal pagos do Brasil (ainda que possa ser justa a reivindicação, ja que todo mundo tem direito de querer ganhar sempre mais, os indices de São Paulo provam que mais dinheiro não muda nada no desempenho das policias, ao contrário).

Ao longo de todos esses anos, a imprensa inteira noticiou amplamente as “injustiças” sofridas pela policia civil paulista sem mencionar jamais o resultado que a ação disciplinar determinada pelo governador vinha produzindo nos índices de criminalidade. Foi de tal ordem a “demonização” do governo de São Paulo que o “mau tratamento da policia”, juntamente com o dos professores da rede publica, outra corporação violentíssima que vive tentado derrubar os muros do Palácio dos Bandeirantes, foi um tema recorrente do PT na campanha eleitoral. E os eleitores estavam tão mal informados a respeito do que realmente estava acontecendo que muitos se deixaram enganar por isso.

E, no entanto, qual é a verdade dos fatos? O que a imprensa estava sonegando à opinião publica paulista e brasileira?

Ouçamos um pouco do que o secretario relatou ao Valor:

Casos como o dos traficantes colombianos Juan Carlos Ramirez Abadia e Ramon Manoel Yepes Penagos (El Negro), que ha anos pagavam suborno a policiais civis para poderem atuar como queriam, foram resolvidos e os policiais envolvidos foram exonerados (…) o Detran foi desligado da pasta de segurança e passou para a tutela da secretaria de Gestão, acabando com esquemas de corrupção tão antigos quanto a presença de automóveis na cidade; 162 corruptos foram demitidos e 1.349 policiais antes dedicados só a atividades relacionadas ao transito voltaram a proteger os cidadãos (…) A Divisão de Vigilância e Capturas, com 140 mil mandados de prisão para cumprir, tinha 10 delegados. A Delegacia Fazendária tinha 82; inverti a conta (…) Os serviços de inteligência das duas policias foram interligados. O arquivo fotográfico da PM, o Fotocrim, com 400 mil registros e 1,4 milhão de fotografias de criminosos, além de informações como local de ação, apelido e tatuagens, está agora online, disponível também para a Policia Civil (…) Na PM, os melhores coronéis e tenentes são mandados, agora, para comandar batalhões na periferia. Só quem se destaca lá é promovido. Quando cheguei era o contrário. Os preteridos nas promoções eram mandados para a periferia e os “melhores comandantes“ ficavam nos gabinetes (…) O PCC não tem mais condição de afrontar o Estado (…) começamos com apreensões em larga escala de pasta de cocaína (o grande negócio da facção) (…) desenvolvemos um sistema de inteligência nas prisões com escutas telefônicas autorizadas (…) hoje todos os líderes do PCC estão na mesma prisão de Presidente Venceslau, onde o rigor do cumprimento da pena é extremado. É talvez o presídio mais seguro da América do Sul. Quem passa por lá pensa duas vezes antes de cometer falta grave e voltar para aquele regime”.

Como disse, nada mais que o básico e essencial.

E o resultado disso é uma queda de mais de 80% nos crimes violentos.

O Brasil, para deter a corrupção que assola todas as instâncias do Estado, passar a “ser da paz” e se tornar tão rico quanto qualquer país não precisa mais que fazer o básico e o essencial em matéria de administração publica. Se fizer isso conseguirá reduzir em 80% ou mais não apenas os crimes violentos mas também a roubalheira que faz desta terra naturalmente tão rica palco de tantas misérias inexplicáveis.

E uma das principais razões porque não consegue fazer isso é o comportamento da imprensa. Dos políticos nos ja sabemos, todos, o que podemos esperar. Para que atuem a nosso favor, têm de ser forçados a tanto. Mas a imprensa, de modo geral, prefere destacar qualquer imbecilidade dita e promover nacionalmente todas as falsas soluções propostas pelos interessados em que tudo continue como sempre esteve, a destacar as relações de causa e efeito entre os raros casos de boa gestão e os resultados fulminantes que essa boa gestão rende onde quer que tenha a chance de ser praticada neste país flagelado pela corrupção.

A matéria que o Valor publica hoje, resgatando uma divida de vários anos, entra para a história do jornalismo brasileiro como um marco da sua omissão.

Desarmem a Rede Globo!

11 de abril de 2011 § 2 Comments

É só trovejar que a Rede Globo começa a pedir mais um plebiscito sobre o desarmamento, coisa tão inteligente e eficaz para reduzir a criminalidade quanto a providencia do corno portugues de tirar o sofá da sala para garantir a fidelidade da mulher adultera, com a diferença de que tirar sofás de salas é possível mas tirar todas as armas de circulação é óbvio que não.

Mas quem se importa com a realidade?

Eu que tenho alguma prática no assunto já acho que uma das principais razões da propagação de crises (as financeiras que são movidas a expectativas especialmente) e da multiplicação de todas as formas de brutalidade que assolam o mundo é o modo como as televisões, em especial, espetacularizam esses acontecimentos.

Essa espetacularização não se dá, necessariamente, de forma proporcional à importancia do acontecimento. Ela responde fundamentalmente à competição por audiência. Os diretores de jornalismo das redes têm um aparelho em suas mesas que mede em tempo real a audiência que sua programação está gerando. E enquanto o ponteiro não começa a cair, eles não mudam de assunto.

Disso decorre que os repórteres, comentaristas e “especialistas” – e hoje os há para tudo inclusive para aquilo em que, por definição, não dá para se especializar – têm de permanecer no ar, enchendo aquela linguiça até que alguém os mande parar, independentemente de haver ainda o que perguntar e o que esclarecer.

Daí o festival de perguntas e sugestões cretinas que são atiradas sobre o publico nesses momentos.

Alem disso, a maioria das redações, quando paga bem, paga bem aos caras errados. Os pauteiros, por exemplo, são hoje em dia sujeitos sem muito critério que vivem com medo de “tomar furo” (como se isso importasse alguma coisa num mundo em que os “furos” duram pouco mais que 10 segundos). Por isso ficam ligados nas TVs e, qualquer “linha de cobertura” que elas inventam, eles se sentem na obrigação de replicar.

É assim que as coisas se espalham, das “exuberâncias irracionais” às falsas expectativas que acabam se auto-realizando para derrubar bolsas e destruir riquezas reais; das perguntas idiotas às respostas cretinas que, de repente, se tornam epidêmicas.

Com certeza a multiplicação, em todo o mundo, dos assassinos suicidas querendo escapar do anonimato também inclui algum ingrediente dessa sopa. A internet ajuda muito oferecendo aos esquizofrênicos um segundo mundo quase real para eles poderem desenvolver a sua segunda personalidade e até para aprenderem como torna-la mais perversa. Mas, quase sempre, o que eles realmente desejam com esse esforço todo é a audiência ainda imbatível das redes de TV.

A turma de “especialistas” que a Globo convoca para dizer que é preciso exigir do governo que não consegue controlar nem a porta do Tesouro Nacional, que é umazinha só, que recolha todas as armas em circulação no país, sem escapar nenhuma, porque só assim o Rio e o resto do Brasil “serão da paz”, é uma das que está permanentemente de plantão. E também uma das mais desonestas que frequentam as telinhas. Torcem tudo quanto é estatística e agridem a inteligência da patuléia com a maior falta de cerimônia. E podem fazer isso porque, não sei se por ordens superiores ou o quê, qualquer repórter posto diante deles se sente na obrigação de fingir que é idiota e não reage a nenhum absurdo que o tipo se prestar a proferir.

Alguém que pensasse como a Globo poderia usar isso como pretexto para exigir que se amordaçasse a Rede Globo e todas as outras televisões ou, para chegarmos a um paralelo mais exato, que o governo tomasse providências para proibir a venda de televisores do Oiapoque ao Chuí.

Eu não penso assim. Nem por isso acho que não haja nada a fazer.

O Alkmin reduziu em 80% os crimes violentos em São Paulo instituindo um rito sumário nos julgamentos de casos de corrupção policial e construindo prisões para manter fora de circulação os bandidos que a polícia tira das ruas e eu nunca vi a Rede Globo dizer uma palavra a esse respeito.

Mais recentemente, não se sabe bem porque, baixou uma luz nas trevas lá do Jardim Botânico e alguém na Globo teve a feliz idéia de usar aquela força toda para algo de útil e razoável com relação à segurança pública. E com seis meses de campanha para que se tomasse a providência óbvia de fazer a polícia ocupar os morros cariocas, nas mãos da bandidagem desde que eles cometeram o erro trágico de entregar a cidade ao Brizola, o Rio de Janeiro foi para o céu.

Mas, mesmo assim, a Globo não aprendeu que o crime prospera graças à impunidade e não por falta de passeatas com fantasias ou cenas de tratores esmagando velhas espingardas enferrujadas de caçar passarinho.

Mas chega de reclamar. A gente não pode querer tudo.

Por enquanto dou-me por satisfeito enquanto a imprensa não começar a campanha pela evicção de todos os penis diante de algum aumento no numero de estupros, sob o argumento de que é um perigo evidente qualquer um poder carregar livremente essa arma no meio das pernas…

Para inverter tudo e abraçar o nada…

8 de abril de 2011 § 1 Comment

Que mundo é esse em que adolescentes, por “falta de atenção”, porque foram “zoados”, porque não são o que queriam ter sido, deixam uma casca oca perambulando aí por fora enquanto arquitetam um “outro” por dentro – finalmente secreto, só seu – que remói, que organiza a sua frustração, que apura, gota a gota, o seu ódio?

Que mundo é este em que adolescentes planejam com a razão como esmagar a razão? Como ferir impossivelmente, impensavelmente? Como impor a dor gratuita, a dor at random, a dor sem sentido para que doa mais?

Que dor é esta que lhes possa ter doído tanto?

Porque foi tão rara no passado e é tão comum hoje?

É a dor dos “com parâmetro”; a dor dos “com modelo”; a dor dos “com referência”. “Ha uma revolução de meios e uma indefinição de fins“. Esta é a dor com “ferramentas”. A dor informatizada. A dor insuportável da prova provada da própria insignificância.

É a dor dos que não se pertencem. Da geração que vive a vida exposta. Desse mundo sem paredes onde tudo está ao alcance de todos os olhares. A dor dos ubíquos, que “navegam” a sua solidão aos saltos por uma realidade aos pedaços, sem edição, onde se ganha ou se perde; onde se mata ou se morre.

Esta é a dor dos que “espiam”. Dos que “espiam” a vida radiante, perfeita dos “famosos”, dos lindos, ou o vale tudo para vir a se-lo dos donos das TVs e dos que eles fazem saltitar no picadeiro, bundas de fora, atrás da fuga do anonimato.

Já houve um “ódio de classes” que justificou massacres hediondos.

Hoje ha um ódio de ser. Um ódio de ser o que não se queria ter sido. Um ódio da consciência do que não se é.

O antes de ser; o antes de construir já foram a condição default da humanidade. E o alcançar, o caminhar, o fazer-se, o método universalmente aceito para superá-la.

Mas, na vida que realmente se vive, estamos na era da impaciência. A era do “click”; a era do Google, da resposta no milisegundo, da satisfação imediata, do passe de mágica que faz tudo surgir instantaneamente na tela.

Porque ele e não eu?

A vida em que realmente se está é a que se vive na solidão do quarto. A vida sem calores nem cheiros dos amigos-mensagens, dos amigos-avatares. A vida sem fronteiras, sem limites, sem percursos, sem distâncias. A vida sem bem e sem mal; sem “podes” nem “não podes”. Espiando, espiando…

A humanidade saltou para o outro lado do espelho.

As ruas, as pessoas, a vida sequencial, física, limitada no espaço, com potências e impotências, onde o começo vem antes do meio e o meio antes do fim; a vida impossível de plasmar, que não se distorce nem muda de cor com o passeio de um dedo sobre a tela da paisagem; a vida onde não se pode “curtir”, nem deletar, nem bloquear, é só o interlúdio entre os mergulhos, de espelho em espelho, atrás dos quais, sim, encontramos a realidade familiar, reconhecível, transitável do infinito desconexo, do mundo aos pedaços que nós sabemos operar; da vida sobre a qual temos controle, onde podemos escolher o que queremos ser e onde queremos nos colocar.

A morte? A morte já foi a eterna companheira. A que era recebida em nossas casas. A morte já foi percurso, já morou conosco, já foi onipresente como continua sendo no Discovery Channel. A vírgula entre os elos da cadeia alimentar. O recomeço da vida.

Hoje ela é a falência da tecnologia. A intrusa. A quebra da ordem. O intolerável. O inadmissível.

A vida já teve segredos. Já foi sua, já foi minha, já foi deles.

Hoje a vida não é de ninguém. “Caiu” o direito autoral até da biografia ao vivo que está em curso. Tudo é exposto, tudo é visto, tudo é filmado. Para cada pensamento, para cada ato, um modelo está prescrito. Não ha mais modelos de estar. Ha um modelo de ser. E ai de quem não for! É proibido destoar! Tudo está sendo vigiado; tudo está sendo medido; tudo está sendo julgado! Cada palvra, cada gesto têm de ser exatos!

Não existem mais O Mundo, a solitude, os mundos. Olhar os astros; sonhar com o maior que nós. Não existe mais mistério.

Deus.

Comemos da árvore do conhecimento e nos estrepamos!

Não estamos mais no mundo. Nós somos a ameaça para o mundo. Nós não somos mais a vida. Somos a ameaça contra a continuação da vida.

Não ha mais perigos. Nós somos o perigo…

Atire-se nas crianças. Em quaisquer crianças. Na cabeça.

Não para ferir; nem para vingar; nem para ver a dor.

Para nada.

Para inverter tudo e abraçar o nada.

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