Por que a barra vai pesar na Líbia

22 de fevereiro de 2011 § Deixe um comentário

Outra matéria de Peter Apps para a Reuters publicada agora à noite pinta uma perspectiva sombria para a Líbia.

Se no Egito e na Tunísia a elite militar foi quem decidiu a parada tanto para os ditadores caídos quanto para o que virá depois deles, na Líbia, país totalmente fechado aos estrangeiros e onde há poucas informações precisas sobre as forças politicas em ação, a questão é muito mais complicada.

Kadafi pertence a uma tribo minoritária – os Qathatfa – cujos membros ele colocou em todos os postos de comando militares e na sua guarda pessoal. Como ele próprio deu o golpe em seu antecessor a partir dos quartéis do exército, entretanto, ele sempre desconfiou dos militares, apesar do parentesco tribal. Assim, manteve as forças armadas sempre como uma força secundária, começando por abolir todas as patentes superiores à de coronel, que era a que ele próprio tinha quando deu o golpe que o levou ao poder e a ser cultuado pela esquerda ocidental como uma espécie de “Che Guevara árabe”.

As questões-chave ele decide com mercenários que aluga pela África afora ou até mais ao Norte, cuja fidelidade é diretamente devida à família Kadafi (o pai e os filhos), a cujos membros eles estão diretamente subordinados. Daí ele não ter encontrado dificuldades para massacrar manifestantes como aconteceu no Egito e na Tunísia, onde os militares se recusaram a atirar contra seus conterrâneos.

Nos anos 90, por exemplo, ele mandou bombardear por diversas vezes grupos islâmicos de oposição usando mercenários sérvios como pilotos. Desta vez houve pelo menos algumas deserções entre seus pilotos de caça, que fugiram com seus aviões para Malta (ver foto no post anterior a este).

Mesmo assim, não tem faltado quem lhe satisfaça a sede de sangue. Até onde se sabe, Kadafi aliou-se à tribo Wafala, com cerca de 1 milhão de membros (a população da Líbia é de seis milhões). Mas ha notícias de que ele perdeu o controle da fronteira Leste do país, junto ao Egito, onde outras tribos são majoritárias. E aquela é uma das regiões mais ricas em petróleo da Líbia.

Jornalistas trabalhando a partir do Egito registraram a presença de hordas armadas com porretes e fuzis kalashnikov perambulando por essa área, mas não conseguiram identificar sob comando de quem eles estavam.

Kadafi sempre trabalhou as demais tribos conforme as conveniências do momento, dividindo para governar e comprando seus lideres com petrodólares e armas. Em função dessa prática o país é um dos mais armados da região, o que aumenta muito o risco de uma guerra civil prolongada e sangrenta.

Junto com o Irã, onde o chefe da guarda revolucionária, ao saber das primeiras manifestações dessa nova temporada, deu de ombros e disse que os que protestavam eram “apenas cadáveres que ainda estão em pé”, e onde os membros do parlamento fantoche de Ahmadinejad gritavam em plenário pedindo pena de morte aos oposicionistas presos antes do início dos novos protestos, o que se pode esperar das próximas rebeliões do Oriente Médio é tanto mais sangue quanto mais “progressistas” forem os ditadores sob ameaça.

Um Kadafi em Angra dos Reis

Lula já deu provas suficientes de que não leva em conta esses pormenores ao escolher suas amizades.

Mas ele não esta sozinho. Houve tempo (e não faz muito) em que o radicalismo, não importando quão sanguinário fosse, era “chic”. Assassinos do calibre de Muamar Kadafi se tornavam “glamurosos” desde que ao torturar, ao matar e até ao tentar genocídios, declarassem que o faziam em nome da revolução do proletariado. Isso (e mais os petrodólares) abriu as portas de círculos badalados aos Kadafi, que circulavam festivamente entre “intelectuerdas” e “patricinhas” pelo mundo afora.

Seu filho Saif Al-Islam, por exemplo, costumava frequentar o society europeu onde tornou-se amigo de alguns brasileiros notórios que, ha poucos anos, o receberam num comentado réveillon em uma ilha de Angra dos Reis, onde causou escândalo e desconforto aos circunstantes mais sensíveis o armamento pesado ostensivamente carregado pelo batalhão de capangas que o acompanhava.

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