No labirinto da latinidade

13 de outubro de 2010 § 1 comentário

Como um velho truque jesuíta põe a verdade a serviço da mentira, atravanca o nosso processo político, justifica o pensamento revolucionário e põe a liberdade cada vez mais longe.

Leio, na madrugada, posts atrasados da minha amiga Barbara Gancia. O texto dela é sempre uma delícia. Vale a pena até quando o assunto já passou…

Mas hoje não fiquei só na curtição estilística. Parei num de 23/09 em que ela comentava a votação da Lei da Ficha Limpa no Supremo. Usava um argumento que um monte de gente usou naquele momento e que ainda vai voltar à baila na hora da decisão. E aí eu me lembrei de algo que fiquei de escrever na ocasião e acabou passando.

O ponto que mexeu com a minha memória foi este:

…a Ficha Limpa, por mais bacaninha que pareça, esbarra na Constituição. O que está sendo considerado hoje é a constitucionalidade de se fazer uma lei e aplicá-la no mesmo período eleitoral. Antes disso, a Ficha Limpa estava sendo debatida por conta do preceito básico que diz que o indivíduo só pode ser considerado culpado depois de a sentença ter transitado em julgado. Ou seja, depois que houver condenação definitiva, não existindo mais possibilidade de recurso.

Não são questões políticas, mas técnicas. E não há lado “certo” e “errado” na votação de hoje. Não dá para os talibikers e aqueles que não gostaram do que o Boris Casoy falou sobre os garis tomarem um lado e o demônio tomar o outro“.

Nessas poucas frases estão embutidos todos os elementos que compõem a armadilha em que se debate o Brasil. Não só o Brasil, aliás, mas todo o mundo latino.

Nós aprendemos a pensar com os jesuítas. Somos todos um pouco vitimas deles, que tiveram um monopólio da educação no mundo latino que, na sua ponta ibérica, durou alguns séculos a mais que no resto.

No momento em que foi inventado, o sistema de educação jesuíta não partia de perguntas nem visava a aquisição de saber. Era um sistema defensivo que foi criado para sustentar a qualquer custo uma “verdade revelada” que era o fundamento ultimo de todo um sistema de poder e de uma forma de organização da sociedade que estava ameaçada pelo nascimento da ciência moderna. Uma técnica de argumentação que fugia, literalmente como o diabo foge da cruz, da verificação empírica e da obrigação de confirmar as teorias com fatos, a novidade mais subversiva do pensamento moderno nascente que se contrapunha à “revelação”.

Nunca mais nos livramos desse vício de origem. Esses “soldados de Cristo”, foram a primeira organização ideológica radical a se estruturar segundo o modelo militar de hierarquia rígida e obrigação de obediência cega dentro dela e a criar um padrão sofisticado de proselitismo e de controle do pensamento alheio que inspirou todas as que vieram depois, inclusive as que naufragaram na Europa no final do século 20 cujos restos ainda sobrevivem no Brasil de hoje.

Isso não apenas nos custou permanecermos à margem da ciência moderna como nos acostumou a um desvio que até hoje está na raiz de todos os nossos maiores problemas.

Nós não gostamos de procurar a verdade. Preferimos “ganhar discussões”. Construir ou destruir argumentos, não importa em torno de que.

E o truque que os jesuitas nos ensinaram para conseguir isso foi, primeiro, despir toda e qualquer ideia a ser discutida da sua relação com o contexto real que a produziu para examiná-la como se ela existisse em si mesmo, desligada dos fatos ou das pessoas às quais se refere.

Sem sua circunstância, a idéia se transforma num corpo inerte, ao qual não se aplicam juízos de valor que são sempre necessariamente referidos à baliza do padrão ético e moral acatado pela sociedade num determinado momento histórico. Assim esterilizado, o raciocínio é, então, fatiado nos segmentos que o compõem, sendo a coerência interna de cada um deles examinada isoladamente nos seus aspectos formais, segundo as regras da lógica abstrata, as unicas que podem ser aplicadas a esse corpo dissecado. Feito isto, começa-se a remontar o raciocínio conferindo-se a coerência formal das diversas combinações possiveis entre suas partes e, finalmente, a do conjunto reunificado.

Se qualquer desses segmentos apresentar a menor imperfeição lógica ou puder ser colocado em contradição com qualquer dos outros, essa imperfeição contamina o todo e o debatedor está autorizado a denunciar como falso o conjunto inteiro, mesmo que, visto vivo e dentro do seu contexto, ele seja indiscutivelmente verdadeiro.

É um truque infernal porque põe a verdade a serviço da mentira, o que torna muito dificil denunciá-la. E como nenhuma proposição humana é capaz de passar incólume por esse exercício de dissecação a pessoa começa a duvidar da propria capacidade de discernimento.

Desclassificados o senso comum e a razão como instrumentos bastantes para dirimir controvérsias, tudo acaba tendo de ser decidido por um juiz segundo uma regra artificial que, de preferência, deve ser vaga o bastante para permitir as mais variadas interpretações, de modo a conferir a esse juiz uma virtual onipotência.

Está aí um excelente substituto para a “revelação”…

Os portugueses, que são os grandes mestres nessa arte de “mudar para que tudo continue igual” fizeram disso um sistema político cuidadosamente estruturado para mante-los ao largo da revolução democrática que, empurrada pela nova ciência que se ancorava na observação empírica, varreu o absolutismo monárquico de justificação divina da Europa.

E o Brasil tomou carona nessa falcatrua.

Mas o que é que o inocente comentário da Barbara tem a ver com isso?

Tudo, ainda que não haja dolo.

Pois ela que é uma das pessoas intelectualmente mais honestas que conheço se obriga a invocar o límpido preceito do “na dúvida, a favor do réu” que é uma das maiores conquistas da nova ordem em que o truque jesuita retrabalhado pelo espírito reacionário português nos impediu de entrar para justificar o movimento que, visto no cojunto do caso em discussão, tem o óbvio propósito de manter a impunidade dos representantes do povo que traem os seus representados, o que é a própria negação do sentido da democracia, regime que se ancora, entre outros pilares, justamente no do “na duvida, a favor do reu”.

A sentença do juiz que reafirma esse valor intocavel da democracia se torna, assim, inatacavel. Mas esse mesmo juiz é o que preside uma instituição que, com a pior das intenções, se cercou de tantos subterfugios e imprecisões no seu rito de operação (o Código Processual) que nenhum reu chega a ser condenado em definitivo se tiver dinheiro bastante para pagar bons advogados.

Certo, dirão os juízes. Mas isso é outra questão que não esta em julgamento neste momento. Assim, engulam os fichas sujas porque fazer de outra maneira é afrontar a democracia.

Percorrer infinitamente esse círculo do absurdo sem nunca encontrar a saída é o que justifica o pensamento revolucionário, endêmico nas culturas latinas. As melhores pessoas, as mais pacíficas e bem intencionadas, acabam sendo empurrados para ele, visto que dentro do sistema não ha como arrumar as coisas.

Só que nas revoluções, como tudo é permitido, a fera humana fica à solta. E aí…

Assim, de ruptura em ruptura, os latinos se reconstituem cada vez mais machucados, cada vez mais divididos, cada vez mais vulneráveis à exploração pelos “salvadores da pátria”.

Existe alternativa? Existe. Mas isso é assunto para um próximo artigo.

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