A democracia não foi pensada para santos
16 de agosto de 2010 § 4 Comentários
Um monte de gente me mandou este vídeo, com comentários, em geral, escandalizados. E acompanhei discussões apaixonadas em torno dele nas redes sociais.
Mas, posto de lado o cafajestismo da atitude e da linguagem das duas “autoridades” envolvidas, em chocante contraste com o bom português e o bom tom do favelado que discutia com elas, não vejo nada de intrinsecamente ruim na cena registrada, muito pelo contrário.
Boa parte dos comentários que eu li falavam, em tom de escândalo, do “cinismo” do Lula explicando aos seus caronas cariocas que o prejuízo da imprensa registrar que o CIEP ficava fechado para a população que deveria usa-lo inclusive e principalmente nos fins de semana para praticar esportes ou se divertir na piscina seria muito maior que o custo de colocar dois guardas na porta para garantir o funcionamento da estrutura nos sábados e domingos.
Não vejo o porque do escândalo.
A beleza da democracia está exatamente nisso. Como não se cansavam de repetir James Madison e Alexander Hamilton nos artigos com os quais, durante mais de uma década, trataram de convencer os habitantes dos estados independentes da América a cederem uma pequena parcela da sua liberdade para aderir à federação, reunidos no clássico O Federalista, a grande virtude da democracia está no fato dela não ter sido pensada para reger uma sociedade de santos. Ao contrário, é o único sistema político construído a partir do pressuposto de que a natureza humana é mais propensa ao erro, ao egoísmo e à exploração do próximo do que a qualquer outra coisa.

A democracia não espera atitudes moralmente elevadas do homem. Esse é o departamento das igrejas e das consciências individuais e não do Estado. Considerando que o poder é a maior de todas as forças corruptoras e que ele potencializa o alcance e a força destrutiva do pendor natural do ser humano a abusar do próximo, a democracia trata, antes de mais nada, de controlar o Estado e de impor limites aos poderes dos poderosos submetendo-os, a cada passo, à prévia aprovação do povo. E, uma vez posto o Estado sob o comando da sociedade, trata também de constranger as pessoas comuns a agir na direção socialmente mais positiva ao procurar a satisfação dos seus interesses particulares, em vez de esperar, ingenuamente, que elas tomem essa iniciativa de livre e espontanea vontade.
Assim, quando o Lula se sente constrangido pela vigilância da imprensa a manter a serviço do povo aquilo que foi construído em nome do povo, para o povo e com o dinheiro do povo, a democracia está funcionando no seu mais alto estágio de perfeição. Se o Lula fosse um santo e fizesse isso por algum tipo de impulso altruísta estaríamos diante de um daqueles seres naturalmente voltados para o bem que, de tão extraordinários, costumam inspirar adoração religiosa, coisa tão rara e improvável que mesmo a existência real dos poucos que a História registra continua sendo altamente discutível. Mas ainda que Deus nos concedesse a graça de ter, um dia, um governante movido exclusivamente por um sincero amor ao próximo nada garantiria que o seu sucessor não viesse a ser o contrário dele.

Para que a sua dignidade, a dos seus filhos e a dos filhos deles esteja realmente assegurada é imprescindível escrever leis feitas para durar mais que as pessoas às quais todos devem estar submetidos. E leis mais restritivas ainda para definir os limites estritos da ação dos mais poderosos entre os homens, em especial daqueles que estiverem temporariamente à frente do Estado, sejam quais forem o grau de popularidade de que eles venham a desfrutar e os princípios em nome dos quais afirmem agir. É preciso, ainda, criar poderes independentes, como o Legislativo e o Judiciário para, sob a estrita fiscalização do povo, formular e exigir o cumprimento dessas leis, e contar com uma imprensa livre e atuante para dar ciência ao povo de como cada um desses poderes está cumprindo o seu papel dia após dia, ano após ano. Só assim a democracia poderá se realizar em toda a sua plenitude, cujo momento supremo é, justamente, aquele em que ela obriga os poderosos a se dobrarem aos direitos das pessoas comuns, por maior que seja o desprezo que, no íntimo, sintam por elas, pela simples, boa e suficiente razão de que esta é a condição para eles continuarem até o fim do mandato nos seus cargos temporários ou até, nos casos extremos, para que se mantenham fora da cadeia.
O Brasil tem de aprender essa coisa que a religião católica ajuda tanto a confundir: o importante não é o sujeito não desejar a mulher do próximo; é suficiente ele não por a mão na mulher do próximo por medo das consequências de satisfazer a sua vontade de fazê-lo. O que vai pela cabeça de cada um, só é da conta de cada um. Ninguém tem o direto de julgar o que o outro sente e pensa, para alem daquele limite intangível que se usa para escolher quem pode ou não frequentar o círculo da sua intimidade. Você não é obrigado a se relacionar com um cafajeste que abraça um padrão moral que lhe dá engulhos. Mas, se você é um democrata, tem de defender o direito dele de ser tão cafajeste e nefando quanto quiser, desde que disso não resulte nenhuma ação que prejudique o próximo.
Nós, latinos, estamos sempre propensos a julgar com mais rigor o que pensamos que os outros pensam do que aquilo que eles concretamente fazem.
A gente deve gritar, espernear e não admitir de jeito nenhum é que ele viole a lei como tem violado e saia impune como tem saído. Mas se o Lula obedecer a lei só por medo da imprensa, da polícia ou dos eleitores, ainda que murmurando entre dentes o mais imoral e pesado dos calões por ser obrigado a fazê-lo, beleza! É um direito que lhe assiste, desde que todo o resto fique preservado.

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Bom comentário.
O que você achou da fala dele dizendo que tênis é jogo de burguês ? Acho que também dava um belo artigo.
Abraço,
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