Serra x Dilma: qual é a diferença?

23 de maio de 2010 § 5 Comentários

Recebo quase todos os dias e-mails (simples e de correntes), com a discussão em torno da escolha Serra ou Dilma. E vejo, neles, todo tipo de argumento, menos aquele que acho realmente importante.

Falam do passado da Dilma na luta armada, na antipatia do Serra, no esquerdismo do Serra que seria igual ao da Dilma e vai por aí…

É verdade que o próprio PSDB e seu candidato não ajudam mantendo essa atitude de “encolha”, não querendo botar as cartas na mesa pra ver se passam pela tangente por cima da popularidade do Lula.

Pra mim o que tem de importante nessa eleição – de muito importante mesmo – é a diferença que não vejo ninguem destacar. Ideologias àparte, a diferença fundamental entre o PSDB e o PT, entre Lula e FHC, entre Dilma e Serra, é que tudo que o PSDB fez no poder trabalhou no sentido de reforçar as instituições em detrimento do personalismo. E tudo que Lula fez e faz e a Dilma promete continuar fazendo, vai na direção contrária.

O Lula desconstruiu tudo que tres gerações inteiras de brasileiros fizeram, a duríssimas penas, pra por o Brasil acima da vontade de um caudilhosinho, primeiro, dos generais, depois, e agora da pessoa do Lula.

Voltamos à estaca zero. Se o Lula está de bom humor, beleza. Se acordar com azia, cuidado…

O Lula destruiu todas as instituições do pais. Aparelhou o Estado para servir ao seu projeto de poder e não a um projeto de Nação; corrompeu o resto que sobrava do Legislativo pondo todos os fugitivos da Interpol na sua base aliada; cooptou os mais explicitos e escrachados entre os ladrões deste país de ladrões e jogou até a liberdade de imprensa no lixo pra preservar os caras que lhe garantem que os seus próprios crimes não serão julgados; aparelhou o judiciário e pôs até o Supremo Tribunal Federal de joelhos, entregando numa bandeja a ultima palavra sobre o que der e vier à pessoa dele; desmontou as agencias setoriais que estavam aí para defender a concorrência e o interesse dos consumidores; se associou a todos os grandes grupos monopolistas do país; coopta falsos empresários com ficha suja na polícia e lhes põe monopólios de setores-chave nas mãos; está acabando com a regra da licitação para os grandes contratos do governo e todos os dias faz um discurso querendo acabar até com os tribunais de contas.

Só sobrou a pessoa dele.

Lula não destruiu só o resto dos partidos podres que já estavam mesmo pra cair da árvore; destruiu o próprio partido dele. Transofrmou-o num ambiente tão insalubre para pessoas com um pingo de vergonha na cara que até a esquerda honesta se mandou do PT. Saíram os católicos, saíram os verdes, saíram os radicais que eram honestamente radicais. Sobrou a corja criada na têta do sindicalismo bandido, que disputa no tiro o dinheiro do imposto sindical.

E pra que tudo isso?

Pra ficar sozinho no palco, dando lições ao Brasil e ao mundo.

Pra ele não tem lei. Lei é só pros inimigos. Até o ultimo minuto, agora nas eleições, ele debocha das regras do jogo porque joga sem regras, mesmo quando põe a sua policia pra cobrar o cumprimento de regras por outros jogadores.

Democracia é o contrário disso. Democracia é a lei acima de tudo e igual para todos. Foi inventada pra gente nao ter de ficar o resto da vida dependendo do rei estar ou não de bom humor; ir ou nao ir com a cara da gente.

Esquerdismo ou o contrário dele é conversa pra boi dormir. Quando assinou a Carta aos Brasileiros, Lula estava passando o atestado de óbito dessa falácia. Não existe saneamento básico de esquerda ou de direita. Aritimética financeira progressista ou conservadora. Só tem um jeito de levar a economia que é o que ele herdou do Fernando Henrique e manteve. Respeitando a matemática. Abaixo disso, sim, pode-se escolher onde e como jogar o dinheiro da conta que fecha. Mas a conta que estoura, a conta do suborno eleitoral, estoura sempre nos mesmos bolsos: os nossos, e com mais força nos dos mais pobres, como veremos logo adiante.

Ele teve o mérito de instituir no Brasil o “fordismo”, com 100 anos de atraso?

Teve.

Pra quem não lembra, “fordismo” é aquela invenção do Henry Ford, um dos pais do capitalismo real que, depois que resolveu o problema das quantidades na produção, se deu conta de que tinha de criar uma nova capacidade de consumo, ou aquele monte de carros ficava sem comprador. Intuitivo e inteligente que é, o Lula aumentou na marra a renda dos mais pobres e o resultado foi o que foi. Não importa que ele tenha feito isso mais pra comprar votos e simpatia do que por qualquer outro tipo de cálculo que remeta a estados de elevação espiritual. O que importa é que ele o fez.

OK. Bravo!

Não foi só o FHC que ensinou coisas pra ele. Ele tambem provou o seu ponto. Mas não é besta de negar o que aprendeu do outro. E nem isso lhe dá o direito de tornar errado tudo o mais que é certo.

Agora isso está feito. Niguem vai ser burro de desmanchar, como ele não foi burro de desmanchar o esquema que lhe permitiu por isso em prática. Mas se deixarmos que, por conta disso, o estado brasileiro seja desmontado para servir só ao plano de poder do lulismo (porque até o petismo ele destruiu); se vendermos por esse troco o nosso direito de ter direitos que continuam sendo direitos acima da vontade pessoal de quem quer que seja, então estaremos condenando nossos filhos e netos a voltar pra Idade Média de onde a democracia, que é extamente esse “estado de direito”, tirou a pequena parcela do mundo que conseguiu escapar da servidão e do terror.

É aí que está o divisor de águas desta eleição. Tem um candidato que está acima das instituições e trabalhando para destrui-las e deixar o país inteiro dependente da pessoa dele, e outro que trabalha dentro das instituições e para reforçá-las.

No pé em que a coisa já chegou, se tivermos mais quatro ou oito anos de PT, viramos a Venezuela ou coisa pior. Não vai sobrar pedra sobre pedra e nossos netos talvez consigam começar a construir novas instituições do zero, algum dia. Se interrompermos esse processo agora para botar A Lei de volta no seu devido lugar, estaremos dando à “elite” sem crise de Brasilia – que é a unica realmente com força para decretar privilegios para si mesma à custa dos outros neste país – o recado de que tudo deve ter limite, e que esse limite deve ser igual para todos os brasileiros, inclusive e principalmente para aqueles que estão mais perto do poder e têm a capacidade de lesar multidões com os seus atos.

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§ 5 Respostas para Serra x Dilma: qual é a diferença?

  • Nélio disse:

    Aliado a isso, observo a postura de formadores de opinião dotados da “isenção modelo Pôncio Pilatos” que, mesmo vendo a hidra se formar, permanecem covardemente no muro da omissão escondidos atrás da máscara do isentismo. E imagino se durante a ascensão do nazismo na Alemanha também não houveram “jornalistas isentos”, a praticarem o “bom jornalismo” de omitirem enfaticamente o descompromisso de algumas candidaturas com valores democráticos, de citarem inequivocadamente o desconforto de alguns com a verdade, de denunciarem com ênfase os métodos bandidos destes.

    • fernaslm disse:

      Essa é uma das pragas deste momento do mundo, Nélio.
      A imprensa em crise foi tomada de assalto pelos administradores de empresas e os jornalistas ficaram a reboque.
      Às redações, antes norteadas por “valores”, foi imposto um único: correr atras de elevações do Ebitda.
      Na cabeça de quem se formou para aplicar a tudo as leis da matemática, afirmar qualquer coisa divide a platéia. Antes sabia-se que isso fazia bem para o negócio. Que pluralismo implica dois indivíduos, cada um defendendo o direito de crer no que crê, e que quando crenças antagônicas se manifestam ao mesmo tempo em um só, isso se chama, ou falta de caráter, ou bi-polaridade, estado classificado como doentio. E que jornais são indivíduos que outros indivíduos elegem para privar consigo, seja para amar, seja para odiar; seja para concordar, seja para discordar, mas dos quais a primeira coisa que exigem é um mínimo de coerência.
      Hoje esse axioma é posto em duvida. Os novos donos das redações confundem a sagrada obrigação de todo democrata de defender o direito de quem pensa o contrário pensar o contrário com a obrigação de pensar, eles próprios, algo e o seu contrário ao mesmo tempo, o que vale dizer, não pensar nem acreditar em nada, nem mesmo na importancia de se defender o pluralismo.
      O “pluralismo” com aspas que se afirma buscar faz mal ao estômago e agride as inteligências saudáveis porque não é um valor, é uma esperança de adição ao Ebitda, em função da falsa crença instilada por quem não ousa pensar, mas apenas perseguir dados de pesquisas mal formuladas, que dando uma no cravo e outra na ferradura, chamando criminoso de “infrator”, comportamento desonesto de “comportamento controvertido” e outras confissões de pusilanimidade igualmente enjoativas, você não afasta ninguém e soma leitores.
      Os números de circulação desmentem isso todos os dias mas fica muito difícil demonstrar cartesianamente a relação de causa e efeito entre o acovardamento dos títulos e a mingua de leitores em transparências projetadas em reuniões de conselhos de administração onde ha todo tipo de “especialista” em particularidades ínfimas de realidades muito específicas e nenhum especialista em manter a mente aberta por cima das aparências que enganam, como são os jornalistas.
      É uma lástima mas é verdade.
      Pessoalmente, acredito que é disso, muito mais do que da competição das novas mídias, que a imprensa como a conhecemos está morrendo…

      • Antonio Almeida disse:

        Eu acho um pouco diferente. Acho que a geração que tomou o poder nas redações, especialmente no Brasil, é órfã daquele mundo simples e bipolar de trinta anos atrás onde esquerda = bom e direita = ruim, seja lá o que isso significasse.
        É impressionante como os grandes aiatolás de nossas redações (a expressão não é minha) ainda pensam como se estivéssemos no tempo da ditadura. Isso explica porque a Lula (ao presidente operário) são permitidas coisas que seriam vetadas a qualquer outro.

  • Nélio disse:

    Agora sabemos como um partido ostensivamente antidemocrático consegue firmar-se como alternativa eleitoral em um meio democrático. A chave é omissão. Por mais que me doa, tenho que admitir que Gramsci era inteligentíssimo.

  • flm disse:

    sua avaliação é perfeitamente exata, antonio.
    só que os maiores culpados por isso são os acionistas e conselheiros que permitem que as redações fiquem nas mãos de quem vive 30 anos para traz em vez de entrega-las a quem esta pensando 30 anos para a frente.

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