Uma vitória efêmera do mérito

31 de janeiro de 2010 § 1 comentário

Leio o artigo de Boris Fausto deste domingo no Estadão e não resisto a meter minha colher.

Diz ele que: “Desde que voltamos a elegê-los diretamente o Brasil teve cinco presidentes. Dois resultaram de acidentes históricos: Sarney, pela morte de Tancredo, e Itamar, pelo impeachment. Outro, Collor, foi um aventureiro que surgiu do nada, criou um partido de ocasião e se elegeu em circunstâncias excepcionais. Dos cinco, somente dois, Fernando Henrique e Lula, são personagens centrais da trama histórica que se desenrola no Brasil a partir da luta contra o regime autoritário. O fato de serem lideres antes de serem presidentes deu-lhes condições diferenciadas para o exercício do poder (…). Além da legitimidade formal decorrente dos votos, contavam (Lula ainda conta) com a legitimidade substantiva que só a biografia política pode conferir”.

É tudo verdade, sem tirar nem por.

Mas, ainda que de natureza diferente dos outros casos mencionados, a eleição de Fernando Henrique também é fruto de um “acidente histórico”. Ou melhor, de uma cadeia de acidentes históricos não necessariamente conexos entre si.

O primeiro desta sequência foi a fundação da USP, a primeira universidade brasileira, por Julio de Mesquita Filho e Armando Salles de Oliveira, nomeado governador de São Paulo por Getulio Vargas, in extremis, numa tentativa de reduzir a oposição paulista a seu governo. Esse acontecimento já foi uma “zebra”. Fernando Henrique estava numa das ultimas turmas formadas pelos professores franceses que, no sonho do dr. Julinho, deveriam plantar a semente a partir da qual poderia nascer uma nova elite intelectual e política capaz de redimir o Brasil.

“Zebra” sobre “zebra”. Fernando Henrique, o intelectual, o acadêmico, é fruto de uma excepcionalidade dentro de uma excepcionalidade, tão “impossivel” quanto seria, hoje, uma escola publica ser fundada pelo maior crítico do PT e de tudo que ele representa e se dar o luxo de jogar o corporativismo para o alto e contratar apenas professores estrangeiros, selecionados somente em função do mérito.

E é esta a palavra que acaba de definir a absoluta “zebra” que foi Fernando Henrique na Presidência da Republica.

O intransponível abismo de comunicação entre ele e a massa dos eleitores deste país de 85% de analfabetos funcionais em plena aurora do Terceiro Milênio pode ser medido com precisão pela comparação entre o refinamento do seu discurso político e a aderente parlapatice de Lula.

A verdade é que Fernando Henrique, que não conseguiu subir à cadeira de prefeito de São Paulo só com o que era capaz de dizer, foi o único presidente brasileiro, não só da Nova mas de toda a história da Republica,  que foi eleito em função de mérito nesta Meca do “amiguismo” caudilhesco e dos conchavos dentro de um Sistema que devora quem o desafia.

Foi o único que, antes de ser eleito, teve de mostrar o que  era capaz de fazer.

Ele jamais chegaria à Presidência não fosse a oportunidade fortuita, acidental mesmo, de se tornar ministro da Fazenda de Itamar Franco, criar o Plano Real, acabar com a inflação e, assim, promover a maior revolução social já vivida pelo país.

Fernando Henrique foi um ponto fora da reta do que vinha sendo – e tende a continuar a ser – a pré-historia institucional do Brasil. Um fenômeno sociologicamente tão artificial, embora indiscutivelmente democrático, quanto a elite governante arregimentada pelo despotismo esclarecido de d. Pedro II no Segundo Reinado.

Com Lula, o ponto volta para dentro da reta.

Marcado:, ,

§ Uma Resposta para Uma vitória efêmera do mérito

  • fernando disse:

    Fernão,
    Com toda humildade, quem sou eu, acho que FHC fez bem para as instituições e Lula para a distribuição. Com quem vamos continuar?
    Abraço.

Deixe uma resposta para fernandoCancelar resposta

O que é isso?

Você está lendo no momento Uma vitória efêmera do mérito no VESPEIRO.

Meta

Descubra mais sobre VESPEIRO

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading