California dreamin’

22 de janeiro de 2019 § 19 Comentários

Artigo para O Estado de S. Paulo de 22/1/2019

Queixam-se do Congresso mas o nosso maior problema está no pedir e não no que nos é entregue. A falta de qualquer referência não européia nos põe mais longe da saída que todos os outros percalços somados.

A relação interpessoal proporcionada pela internet, lamentava-se o franco-uspiano Fernando Henrique Cardoso num programa que comparava os fenomenos Trump e Bolsonaro na TV na virada do ano, bagunçou um coreto que foi armado para e pela intermediação dos partidos (sustentados pelo governo), atraves das TVs (outorgadas pelo governo), da imprensa e do resto desse nosso “sistema de representação do povo” sem povo. Do outro lado da mesa esbravejava um representante da outra corrente européia com que nos alternamos quando a terceira, a abertamente antidemocrática, dá folga. “Prendam todos! Não deixem nenhum à solta”! A provocação era trancafiar FHC também, mas essas duas faces da nossa “persona” européia se odeiam mas são gêmeas. Para uma “o sistema” é bom, o que falta é só política. Para a outra “o sistema” é bom, o que falta é só polícia. Nutrem ambas um mal confessado horror à falta de glamour e refinamento da igualdade não intermediada. À vida regida pela base da sociedade e não pela “autoridade dos melhores” (aristo-kratia). Ao império sem filtro da lei, à meritocracia e à destruição criativa.

Mas nós falamos, afinal, do “pior dos regimes políticos, excluídos todos os outros”. E é aí que encaixo Roberto Damatta relatando sua própria experiência de brazuca emigrado para os Estados Unidos no artigo “Encruzilhadas” publicado neste jornal nesta quarta-feira, 16, em que escrevo. “Passar da desigualdade para o igualitarismo requer acrobacias sociopsicológicas (…) impossíveis de praticar sem um exame aprofundado (…) de quem fomos e de quem somos porque os costumes são tão coercitivos quanto as leis”. Não temos conserto dentro desse “passado aristocrático absolutamente eurocentrado de imperadores (…) e a massa negra escravizada (…) que nossos pensadores viam (e inconfessadamente continuam vendo até hoje) como natural”.

A reforma previdenciária”, resumia Damatta, “tem de fazer parte de um movimento arrebatador. Trata-se, no fundo, de uma guerra do Brasil contra o seu lado equivocado”.

Os Estados Unidos menos americanos, o federal, estão à beira da disrupcão como farsa pela mão de Donald Trump, O Tapeador, mestre da manipulação das redes. Já a Europa saiu do feudalismo mas o feudalismo nunca saiu da Europa. De lá vieram e nos foram impostos “os costumes tão coercitivos quanto leis” que estão aí até hoje mas nós já nem sentimos. O Brasil pós-Tiradentes passou a censurar com fúria a nossa americanidade essencial de povo até então sem rei e nunca mais parou. E quanto mais privilégios os nossos “representantes do povo” independentes do povo “adquirem” e transformam em lei mais se inverte e perverte a hierarquia povo-governo que a democracia nasceu para estabelecer até transformar-se nesse esdrúxulo feudalismo constitucional a que acabamos por nos acostumar.

Para termos democracia será preciso, antes de mais nada, aprendermos a identificá-la. “Esse sistema sempre em débito consigo mesmo, inacabado e caracterizado por permanentes ajustes”, na descrição de Damatta, define-se essencialmente pela quantidade de poder que o eleitor tem antes e depois do momento da eleição para levar adiante esses ajustes. E o brasileiro não tem nenhum.

É essa a doença. Corrupção é só ausência de democracia e não vai acabar apenas com polícia. Não é da Europa que a resposta virá. A democracia real é a anti-Europa. Nasce em função da ausência do rei e caminha de oeste para leste. Da América impôs-se à Europa. Da Costa Oeste impôs-se à Costa Leste dos Estados Unidos. No Brasil será parecido. O último a entrar será o da praia.

Nos primeiros dias deste ano a Califórnia, que ainda no século 19 começou a revogar o modelo estático que nos oprime, contabilizava a safra de democracia dos 12 meses de 2018. Que Trump, que nada! 726 leis de inciativa popular, referendos de leis dos legislativos, votações de retomada de mandatos (recall), eleições de retenção de juízes e outras decisões foram diretamente votadas pelos californianos nas 9 “eleições especiais” convocadas para esse fim além da nacional de 6 de novembro. Quase uma por mês.

Dentro do sistema distrital puro, começando pela célula do bairro que elege o board de pais de alunos que vai gerir a escola publica local e seguindo pelos distritos eleitorais municipais (uma soma dos de bairros), estaduais (uma soma dos municipais) e federais, cada pedacinho do país elege apenas um representante para cada instância de governo. Como o que define o distrito é o endereço do eleitor todo mundo sabe exatamente quem representa quem. E sendo a identificação tão clara ele retem o direito de cassar o mandato do seu representante a qualquer momento mediante a coleta de assinaturas e a convocação de “eleições especiais” só no distrito afetado para decidir essas e outras questões.

As que envolvem impostos não têm exceção. Nenhum nasce ou se mexe sem voto. As que ordenam obras publicas e decidem como serão financiadas idem. Os futuros usuários decidem se as querem ou não no modelo e pelo preço proposto e estabelecem, uma por uma, quem, como e quando vai pagar por elas. Valor do IPTU, construção ou não de uma ponte, valor do salário minimo local, reajuste de planos de saude, liberação ou não da maconha, normas para compra e uso de armas, tudo é decidido no voto em cada distrito eleitoral municipal, estadual ou federal somente por quem vai usar cada bem, pagar por ele ou ser obrigado a se submeter à lei em exame.

Olhado a partir da meca planetária da inovação política, que não por acaso é também a meca planetária da inovação tecnológica, o mundo não parece, portanto, tão disfuncional quanto Fernando Henrique o vê. Essa democracia e as redes têm tudo a ver. Nós é que, desde 1808, andamos perdidos no desvio europeu.

Mudar o país de dono, vulgo democracia, é o que cura o Brasil.

Esquerdo x direitopatas, Brasil àparte

25 de setembro de 2018 § 24 Comentários

Artigo para O Estado de S. Paulo de 25/9/2018

Apesar da dramaticidade feroz do presente, é como se ele não existisse. O mais dos movimentos são determinados pelo passado. O invisível é que faz o visível. E isso torna muito complicado entender o que se passa a tempo de não cometer erros fatais numa campanha tão curta e de tão cruciais implicações para o futuro.

Jair Bolsonaro pintado como ameaça iminente para a democracia é o exemplo mais evidente. Quem tem tanques e está querendo dar golpe não sai à rua pedindo votos. Antidemocrático declarado, com papel passado, com promessa solene de volta atrás, com “plano de guerra” aprovado em convenção nacional (2015) para a desmontagem das instituições republicanas já semi-implementado, com juras de amor diárias a ditadores com mãos sujas de sangue e supremas cortes recheadas de fantoches é o PT. Todas essas figuras sinistras da América do Sul e da África que estão enchendo o Brasil e o mundo de refugiados, com poucas exceções, são amigos diletos de Luís Ignácio Lula da Silva. Boa parte desses cujas “milícias” hoje atiram contra quem lhes pede eleições limpas foi bancada pelo BNDES do PT para chegar pelo voto às posições de que agora recusam-se a apear pelo voto.

Está mais atrasada a esquerda jurássica entrincheirada no Foro de São Paulo que a China e a antiga União Soviética na revisão do seu passado totalitário. O Foro de São Paulo, para ser exato, é declaradamente uma reação a esse “revisionismo”. É porque sabe que do “sonho” não restou nada que a esquerda bolivariana reacionária é um perigo real. Pra eles ou vai, ou racha! A Lava Jato tirou o lulismo do armário. Do confronto entre ele e as instituições democráticas, está jurado, só um sairá vivo. Tanto Haddad quanto Ciro Gomes têm como primeiro compromisso de campanha eliminar sumariamente o que ha de independente no Judiciário e no Ministério Público. “Lula livre, Brasil preso“! Para o lixo com o que resta da lei e da ordem institucional vigentes!

Onde acabaria o governo que começasse assim?

O ódio de Lula à democracia vem sendo gestado, gole por gole de fel, à vista do Brasil inteiro. Mas Fernando Henrique Cardoso não acredita nele. Não é o presente, é o passado que determina esse comportamento. Pior para Geraldo Alkmin – o homem certo no momento psicológico errado – que só confessou acreditar no Lula como ele é depois que o medo de fingir que não tornou-se maior que o de aceitar que sim. Jair Bolsonaro só teve de aquiescer: “Sim, eu também vejo o que vocês estão vendo; eu também ouço o que vocês têm ouvido“. E lá veio, para começar, 1/3 do eleitorado, os “direitopatas” à frente com seus 30 anos de sapos vomitados. Memórias também!

Mas o presente é o presente. Homofobia, misoginia, racismo? De Lula para baixo, qual o habitante deste planeta que se insere em todos os milímetros de exigências de pensamento, palavras e obras dos Grandes Inquisidores das sub-ideologias de ódio que vieram para reeditar a luta de classes como farsa? Nem o esfaqueador Adélio acredita honestamente que a eleição de Jair Bolsonaro levará a um genocídio LGBT. E depois, havendo Bolsonaro volta a haver imprensa.

Já quanto à venezuelização…

Deter o lulismo é a condição para a continuação da conversa. O resto é passado. E a eleição está como está. A opção entre Bolsonaro e Alkmin está espremida entre o “poste” e o “sub-poste”. Se correr o bicho pega, se parar o bicho come. A hora é de fazer contas. E se de Brasil se tratar, é a vez do do meio se mostrar magnânimo. A distensão tem de começar já. É preciso resistir à tentação das agressões irreversíveis agora porque será necessário construir um consenso do Brasil verde-e-amarelo inteiro em velocidade recorde logo adiante.

Pelo lado dos economistas as diferenças são só de grau. O quadro é agudo e as manobras de ressureição não variam muito. A questão, como sempre, é muito mais de tirar boca de bezerro de cima de teta e mão de ladrão com e sem alvará de dentro de cofre público que de escolher que contas fazer. Tirar o presunto da janela em vez de ficar espantando mosca, enfim. E para isso o que mais pesa é com que vontade um governo afirma essa disposição. Quem dá o tom é o maestro. Só não entendeu o que o tom de Lula fez com o Brasil quem não tem idade suficiente para ter memória viva do que nós fomos para comparar com o que nós viramos e tem na “narrativa” do próprio Lula e dos seus esbirros de palco, de sala de aula e de redação as únicas referências do passado do Brasil.

Este país nunca teve antes (nem terá agora) uma vontade autêntica de resolver de uma vez por todas esse problema sentada na cadeira presidencial. Mas agora a questão é de vida ou morte. E os primeiros a saber disso são os quadros do alto escalão do funcionalismo. Ainda que, como categoria, sejam eles próprios a essência do problema, a qualidade da elite dos nossos administradores públicos profissionais é indiscutível. E a frustração dos melhores entre eles por governos sucessivos se terem mantido surdos aos seus alertas e desperdiçado o seu know how na oferta de soluções em favor das ambições de presidentes que queriam ser reis, partidos que se queriam eternos e até de ministros que queriam ser presidente está mais que registrada na crônica das muitas estações do calvário do Brasil.

O Judiciário não aparelhado, se não for resgatado agora sabe que também cai definitivamente sob o domínio do crime. E o Legislativo, mesmo com todos os restos do passado que vão permanecer lá dentro, está tão ansioso quanto o resto do Brasil para provar que pode ser melhor do que tem sido, ou morte.

É nisso que é preciso investir. Vai ter de haver uma mudança, e grande como nunca houve. E isso vai exigir o concurso de todo o melhor do Brasil. A dúvida é quanto conseguiremos aproveitar da condição extrema a que chegamos para avançar de fato e tornar parte dessa mudança irreversível. Essa deve ser a pauta da reforma política. Ela é que determinará quanto tempo ficaremos livres de ter de fazer a próxima cirurgia de emergência.

Este crime tem de ser detido!

29 de junho de 2014 § 5 Comentários

Mais informações no site http://marsemfim.com.br

Comida de restos – 1

6 de junho de 2013 § 1 comentário

(anotações da semana que não chegaram a virar artigos)

so2

Diz o Fisco que a sonegação ainda é de 23,9% do que deveria ser arrecadado, o equivalente a 8,4% do PIB.

Com os 36% do PIB que já se arrecada, a meta, então, é chegar aos 44,5% do PIB.

Mata o véio!

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juiz1Luís Roberto Barroso, que julgará o julgamento do Mensalão, manda avisar a quem interessar possa que “ninguém me pauta”.

Isto é, ele é o que ele é e se dona Dilma o escolheu em função do que ele jura ser ele não tem nada com isso.

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juiz2

Embargo infringente é recurso que cabe quando a condenação é por votação apertada.

É algo equivalente a mandar chutar de novo toda bola que bater na trave.

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juiz3De São Paulo para baixo a Saude Publica é uma calamidade.

Mas a prioridade do ministerio lá de Brasília é que as putas sejam felizes.

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OPI-002.eps

Guilherme Afif Domingos é uma evolução sobre Gilberto Kassab.

Kassab não faz oposição a ninguém. Já Afif é o opositor de si mesmo.

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1

Com novos vetos na reforma dos portos recomeça a gritaria dos “traídos” no Congresso.

Te assusta não. Pro PMDB e Cia. Ltda. virarem o cú pro cocho só mesmo quando houver certeza da derrota do partido no poder. Só então surgirão os “democratas de primeira hora” do costume.

Até lá eles seguirão se empanturrando e haverá no máximo calotes. Ou seja, aqui e ali, quando muito humilhadas e ofendidas, as excelências deixarão, por um tempo, de entregar aquilo que venderam.

***

6Dona Dilma fixou em 2,7%, sua melhor marca colhida em 2011 que já representou uma queda forte em relação ao que vinha antes, a meta para o crescimento do PIB.

Assim, se a atingir de novo, poderá comemorar estrondosamente o próprio fracasso.

Não é engenhoso?

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12

Tortura em prisão só dá chamada de primeira página na imprensa brasileira se for nos Estados Unidos.

No Brasil só é notícia – até hoje e aparentemente para todo o sempre – a tortura de 40 anos atrás que foi a última vez em que filhinho de papai entrou no pau-de-arara.

Normal.

Notícia é o extraordinário. Por isso a tortura de todo dia, assim como assassinato de pobre por aqui não dá nem notinha de rodapé. De rico e “de classe média alta” que é como a imprensa os discrimina, ainda dá não porque se assassine pouco rico proporcionalmente a população de ricos, mas porque ha mesmo muito poucos ricos neste país “sem pobreza”.

Estatisticamente eles são uma raridade.

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11

A chamada “pacificação dos morros” do Rio de Janeiro é quase oficialmente “pra inglês ver”.

O Globo sempre informa pacificamente que a obra “foi completada” porque já tem UPPs “em todos os morros no trajeto entre o Galeão e o Maracanã e deste aos bairros da Zona Sul onde estão os hotéis dos turistas que vêm para a Copa e a Olimpíada”.

Agora com essa mania de papa de visitar a favela como ela é e escolher uma fora do circuito Copa/Olimpíada, vai ser preciso dar uma segunda demão. Por isso estão asfaltando, iluminando e maquiando o entorno só dos 300 metros de ruas da Favela da Varginha que Sua Santidade vai percorrer.

O Rio “pra argentino ver” sai mais barato…

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13

Haddad propôs e Alkmin topou levantar um muro de 40 km para proteger a Cantareira de invasões agora que o Rodoanel passa no meio dela.

Cautela e caldo de galinha nunca são demais…

Vai que alguém invade!

Em questão de minutos a coisa vira “questão social“.

E aí é o Jardim Botânico; é a Fazenda Buriti. Nunca mais…

Se bobear perde-se a cidade de São Paulo.

***

14A turma lá de cima acaba de aumentar o seu território privativo de caça.

Está liberada pelo Congresso a criação de novos municípios. Serão de R$ 8 bi por ano as novas despesas “por dentro” só pra colocar a nova leva de atiradores nas suas devidas tocaias.

Quanta caça eles vão derrubar “por fora” pelos secula seculorum a partir desses novos “vantage points” ninguém sabe calcular..

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15

Ha quanto tempo você começou a ouvir falar de bilhão de dólar? E de trilhão, o novo personagem que entrou no palco pela porta das arrecadações nacionais de impostos?

Desde quando ser milionário passou a comprar só a condição do remediado de ontem, embora o numero dos que podem mesmo esse tanto pouco seja cada dia menor?

E, no entanto, a imprensa “progressista” e seus articulistas prêmios Nobel continuam impávidos clamando pelo “fim da austeridade” enquanto Ben Bernanke e Mario Draghi seguem emitindo dinheiro falso em ritmo de rotativa…

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16

Dos 13 acusados da Operação Porto Seguro só Rosemary Noronha perdeu o emprego (mas não o poder).

Dos outros 12, cinco já tiveram até aumento de salário.

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17
A 10 anos e cinco meses de distância na semana passada, dona Dilma no Rio Grande do Norte ainda acusava do palanque “o governo anterior” (aos do PT) pela falta de investimentos contra a sêca no Nordeste.

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18

Depois de ser condenado pela inglesa, Paulo Salim Maluf fez comovidos elogios à Justiça brasileira.

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O argumento indiscutível do resultado

29 de março de 2012 § Deixe um comentário

Com quase um século e meio de atraso a comunidade global embarca, com o mesmo misto de fascínio e desconfiança, na submissão de tudo o mais ao “argumento indiscutível do resultado” da aplicação das técnicas de gestão corporativa a todos os níveis da atividade humana em que embarcaram os Estados Unidos, onde essa tecnologia foi inventada, no final do século 19.

Nos primeiros arrancos, essa tecnologia produz um enorme ganho de eficiência e uma fulminante multiplicação das riquezas materiais que passam, então, a ser invocados pelos maiores beneficiários da mudança para calar toda forma de crítica ou resistência aos prejuízos que logo ela começa a produzir no campo das liberdades individuais.

Não é difícil entender como isso acontece.

É sempre mais fácil argumentar em torno de cifras e histórias estonteantes de sucesso econômico do que de direitos difusos difíceis de definir mas muitíssimo concretos como a humanidade acaba por descobrir sempre tarde demais.

O efeito econômico das tecnologias de gestão corporativa, que surge sempre bem antes dos demais, reflete essencialmente os ganhos de escala na produção que se obtém com a voragem crescente das fusões e aquisições entre empresas que antes concorriam entre si e pela “redução de custos” que, curto e grosso, decorre de demissões e/ou redução de direitos trabalhistas.

É por esse caminho que a nova ordem empurra inexoravelmente a economia para a criação de monopólios com poderes cada vez maiores sobre os consumidores e leva a um processo agudo de concentração da riqueza que tem como corolário o desenvolvimento de relações cada vez mais promíscuas entre o Capital e o Estado com a consequente exacerbação da corrupção.

Assim como os nossos barões do BNDES de hoje, os “robber barons”, ícones da crônica da corrupção nos Estados Unidos daquela época, e o poder político tornam-se íntimos, um passando a servir ao outro.

Não é a primeira vez que passa, portanto, o filme a que vimos assistindo nestes últimos anos. Mas os próprios americanos parecem esquecidos dessa página tão importante da sua própria história.

Um século de hegemonia econômica incontestável levaram-nos a esse “apagão”.

De fato, tudo levava a crer que progresso material e democracia fossem fenômenos indissociáveis naquele século 20 ao longo do qual nenhum governo autoritário ou totalitário logrou vencer a miséria, ao contrário, só a agravaram.

Hoje as coisas estão mais claras.

É que autoritários e totalitários rejeitados por populações que os recusavam dedicaram o século 20 inteiro quase exclusivamente a exercer o terror sobre seus súditos para conseguirem se impor. E populações aterrorizadas não conseguem se dedicar ao trabalho, à inovação e ao desenvolvimento.

Tendo entrado no século 21 com seu poder consolidado pela supressão pela força e pela troca de gerações de toda memória anterior, porém, o regime chinês restabeleceu a verdade a esse respeito.

E essa verdade é bem simples. Como todas as outras, a tecnologia de gestão corporativa é neutra. Um apagador de matizes em nome da eficiência e da objetividade matemáticas que serve indiferentemente a qualquer um que queira dele se servir. E serve muito melhor ainda a quem não oponha limitadores morais ou ideológicos, como direitos individuais e de trabalhadores, à essência matemática da lógica que a inspira.

Iniciado o Terceiro Milênio, a China partiu no limite mínimo no quesito direitos trabalhistas, e no limite máximo no quesito associação entre Capital e Estado, para a disputa com concorrentes que, com gradações variadas, encontravam-se nos extremos opostos nesses dois campos, conquistados ao fim de longas trajetórias de lutas.

Como “direitos” é igual a “custos” a vantagem matemática, que é o que define quem vence a disputa pelos mercados neste nosso mundo sem fronteiras, é indiscutivelmente dela.

Como conseqüência os Estados Unidos vão sendo arrastados de volta a um passado de que eles próprios já se esqueceram pela mesma força que, 150 anos atrás, fez deles a primeira vítima a embarcar no abuso da lógica corporativa aplicada sem limites em função da miragem do enriquecimento rápido: o “argumento indiscutível do resultado”, que a tudo submete. Ou seja, os direitos e a qualidade de vida de cada trabalhador deixam de ser o objetivo último do sistema; tudo passa a ser sacrificável ao dogma da redução de custos que se torna condição essencial de sobrevivência econômica.

Além disso, uma vez iniciada a corrida das fusões e aquisições, passa a ser imperativo “crescer ou morrer”. E como hoje os concorrentes são os monopólios chineses que só sobrevivem anabolizados pelo dinheiro estatal é preciso emula-los também nisso.

E por aí entra a corrupção galopante.

Foi assim que, de referência de alternativa para as populações do mundo submetidas a todos os graus de iniquidade econômica, o centro do Capitalismo Democrático passou a funcionar para o resto do planeta como Brasília funciona para o Brasil.

“Se os Estados Unidos que são os Estados Unidos ‘são’, quem ha de não ser”?

Para não deixá-los ir dormir sem um aceno de esperança, lembro que, na virada do século 19 para o 20, um quadro muito semelhante ao de hoje desaguou nas reformas da Progressive Era (ponha essa expressão na ferramenta de busca do Vespeiro e aprenda mais a respeito) que levaram a democracia ao seu apogeu.

Os ingredientes desse feito, do qual a imprensa foi o maior artífice, foram os seguintes, mais ou menos pela ordem da entrada em cena no cenário institucional:

  • reforma do funcionalismo público com drástica redução dos cargos preenchidos por nomeação, eleição direta de funcionários e facilitação da sua demissão (a partir de 1870);
  • introdução de legislações antitruste (1890) subordinando o direito de propriedade e o crescimento das empresas à preservação da concorrência em favor do consumidor;
  • despartidarização das eleições municipais e profissionalização da gestão das cidades (1º passo em 1894);

  • introdução de ferramentas de democracia direta (começando em 1898) como leis de iniciativa popular, referendo das iniciativas mais controvertidas dos Legislativos; impeachment/recall de governantes e funcionários eleitos, usadas hoje principalmente para limitar o poder dos governos de cobrar impostos, determinar as prioridades no gasto público e criar politicas de segurança pública e educação;
  • criação de agências setoriais de controle com mandatos independentes (1914) para despolitizar as decisões mais importantes nas áreas de alimentos industrializados, saúde publica, informação, energia e outros setores essenciais;
  • eleição direta de juízes de direito e possibilidade de cassação de sentenças judiciais por meios plebiscitários (atualmente em discussão).

O Brasil chegou a implementar algumas dessas reformas sob Fernando Henrique Cardoso mas voltou para trás na Era Lula.

Amanhã conto porque acredito que só partindo da despartidarização da política municipal poderemos chegar a um resultado mais sólido numa próxima tentativa.

Serra ou não Serra

21 de março de 2012 § 4 Comentários

 

Se colocar José Serra, o do “papelzinho”, competindo pela Prefeitura de SP é a única maneira de impedir que o PT conquiste o penúltimo baluarte importante que continua a rejeitá-lo no Brasil, que é a cidade de SP, que dirá para impedir que ele conquiste o último, que é o Estado de São Paulo.

É nessa ilusão que o PSDB vai se desmilinguindo e desanimando qualquer um de se filiar a ele, para alegria do melífluo Kassab, já que a unica perspectiva que se abre para quem o fizer é, na hora H, ser obrigado a sair do palco para deixar Serra, o ubíquo, sozinho nele.

Tal “estratégia” se autoalimenta pois, desse jeito, nunca o partido poderá dar a “sangue novo” a chance de testar o eleitorado e acumular cacife para campanhas futuras.

E, no entanto, daqui de onde estou o que parece não é que SP resiste ao PT porque vota em Serra. O que acontece é exatamente o contrário. SP vota puto da vida naquele Serra que disputa com Lula para ser mais Lula que o Lula porque ainda ve nele qualquer coisa de menor que aquilo que o PSDB representa. São Paulo vota em Serra apesar de Serra porque essa é a única alternativa que lhe oferecem para os candidatos criados no laboratório do sapo barbudo.

Se, de tanto insistir em Serra, o PSDB acabar convencendo o eleitorado paulista de que ele é menor que Serra, como está tentando fazer, aí sim, conseguirá o milagre de fazer São Paulo – a cidade e o Estado – se renderem ao lulopetismo que, pelo menos, não se esforça para parecer aquilo que não é.

 

FHC analisa o 1ro turno

5 de outubro de 2010 § 7 Comentários

Fernando Henrique Cardoso

analisou a eleição para o Vespeiro

na tarde desta terça-feira na sede do Instituto FHC

no Vale do Anhangabaú

Se le fue la mano. Gosto muito dessa expressão espanhola. O Lula passou do limite. Foi ele quem perdeu este primeiro turno. Perdeu a compostura. O eleitor não perdoa isso…”

Escrevi estes dias, com base no que vinha ouvindo de ex-colegas de redação e outros conhecidos que representam esse setor, que foi a esquerda honesta quem puxou o movimento de fuga para longe do PT. Marina Silva é a esquerda honesta. O grupo do Manifesto pela Democracia é a esquerda honesta…

“Sem duvida. Eu mesmo, com Almino Afonso, participei da articulação do Manifesto pela Democracia no Largo de São Francisco. O Helio Bicudo indicou d. Paulo mas ele aderiu antes que falássemos com ele”.

A pergunta que vale um milhão, agora é “Quem foi que votou na Marina”? Não é nenhum contingente que possa ser classificado por critérios sociológicos…

“É isso, esse eleitorado inclui a esquerda honesta, a juventude, os evangélicos. Está disperso…

Marina simboliza um sentimento. Foi a única que fez a campanha fora da encomenda rígida dos marqueteiros, dizendo o que realmente pensa. E as pessoas captam isso no ar.

Não é, portanto, um eleitorado transferível. Não adianta só o que a Marina vier a declarar em matéria de adesão. Mas é um eleitorado assimilável por quem souber renovar seu discurso para captar esse sentimento que está no ar.

E Serra somado a Marina dá mais que Dilma…”

E de quem ela está mais próxima?

“O dela é o eleitorado da sinceridade. Começa que o Serra não está tendo de abjurar. Ele é, de fato católico. E religião é um componente importante na visão de Marina. A Dilma sim; está tendo de negar as declarações que deu sobre seu ateísmo, sobre ser favorável ao aborto.

É um mau começo para quem quer tentar seduzir o eleitorado da sinceridade.

Tudo que é discurso marketeado vai pagar handicap. E o campeão disso é o PT. O PT é o governo do marketing. São profissionais disso. Fazem marketing o tempo todo. A maior parte do que ele assume como seu foram apropriações feitas pelo marketing e não realizações concretas. Para conquistar o contingente dos que votaram em Marina, tem de se contrapor a isso”.

E o Serra será capaz disso?

“… (interroga-se).

É preciso ter noção da História. Pensar não apenas em ganhar uma eleição mas no que é que ele vai deixar. Quando ele se emocionou, naquele discurso em que usou a letra do hino, ele conseguiu…

Depois é preciso lembrar que foi Dilma quem pôs Marina para fora do governo Lula, na briga em torno de Belo Monte. Os ‘marinistas’ estão naturalmente mais próximos de Serra. Dilma e Lula estão muito mais próximos do modelo dos militares: desenvolvimento a qualquer custo, sem nenhuma consideração por sustentabilidade.

Culpar o meio ambiente pelo atraso nas grandes obras, aliás, tem sido a desculpa preferida para o que é, na verdade, incapacidade gerencial.

É a coisa mais fácil do mundo por a culpa no meio-ambiente. Mas o problema real tem sido a falta de capacidade técnica, gerencial, para por em pé projetos daquela complexidade…

Isso, aliás, é a marca registrada do Lula. O Lula faz uma política binária: nós e eles; os bons e os maus; os ricos e os pobres. Ele só consegue argumentar pondo as coisas nesses termos: o bem, comigo; o mal, com os outros. Não cultiva a tolerância. Não convive com a diversidade. Em democracia, se você apresenta o pequeno enfrentando o grande, o pequeno sempre ganha. O povo se alinha automaticamente com o mais fraco. E é esse o truque que ele sempre usa. Aprendeu no palanque do sindicalista: empregado contra patrão…

Lula afastou o Ciro para isso. Pra que ficassem só dois lados. Mas aí apareceu a Marina e confundiu tudo.

O Lula não contempla a idéia de processo. ‘Antes de mim foi o caos. Depois de mim será o caos. A opinião publica sou eu’. L’état c’est moi.

Mas, de caso pensado ou não – e pelo que Andre Singer conta, parece que não – ele fez a revolução “fordista” no Brasil. Jogou uma montanha de dinheiro na base e esse dinheiro se espalhou pela sociedade acima.

“É verdade. Ele fez realmente. Lula não tem pensamento estratégico. Mas é um excelente tático”.

O estranho é este primeiro turno ser visto como uma derrota por ele. Jogou 47 milhões de votos na Dilma, partindo do zero; ficou 14 pontos percentuais na frente dos opositores, conquistou 18 estados e a maioria absoluta nas duas casas do Congresso. Isso é uma derrota?

“Pois é. Mas não foi exatamente como ele imaginou. E o Lula não pode ser contrariado. É aí que ele revela o seu caráter autoritário. Ou, no fundo, totalitário.

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