Serra ou não Serra
21 de março de 2012 § 4 Comentários
Se colocar José Serra, o do “papelzinho”, competindo pela Prefeitura de SP é a única maneira de impedir que o PT conquiste o penúltimo baluarte importante que continua a rejeitá-lo no Brasil, que é a cidade de SP, que dirá para impedir que ele conquiste o último, que é o Estado de São Paulo.
É nessa ilusão que o PSDB vai se desmilinguindo e desanimando qualquer um de se filiar a ele, para alegria do melífluo Kassab, já que a unica perspectiva que se abre para quem o fizer é, na hora H, ser obrigado a sair do palco para deixar Serra, o ubíquo, sozinho nele.
Tal “estratégia” se autoalimenta pois, desse jeito, nunca o partido poderá dar a “sangue novo” a chance de testar o eleitorado e acumular cacife para campanhas futuras.
E, no entanto, daqui de onde estou o que parece não é que SP resiste ao PT porque vota em Serra. O que acontece é exatamente o contrário. SP vota puto da vida naquele Serra que disputa com Lula para ser mais Lula que o Lula porque ainda ve nele qualquer coisa de menor que aquilo que o PSDB representa. São Paulo vota em Serra apesar de Serra porque essa é a única alternativa que lhe oferecem para os candidatos criados no laboratório do sapo barbudo.
Se, de tanto insistir em Serra, o PSDB acabar convencendo o eleitorado paulista de que ele é menor que Serra, como está tentando fazer, aí sim, conseguirá o milagre de fazer São Paulo – a cidade e o Estado – se renderem ao lulopetismo que, pelo menos, não se esforça para parecer aquilo que não é.
FHC analisa o 1ro turno
5 de outubro de 2010 § 7 Comentários

Fernando Henrique Cardoso
analisou a eleição para o Vespeiro
na tarde desta terça-feira na sede do Instituto FHC
no Vale do Anhangabaú
“Se le fue la mano. Gosto muito dessa expressão espanhola. O Lula passou do limite. Foi ele quem perdeu este primeiro turno. Perdeu a compostura. O eleitor não perdoa isso…”
Escrevi estes dias, com base no que vinha ouvindo de ex-colegas de redação e outros conhecidos que representam esse setor, que foi a esquerda honesta quem puxou o movimento de fuga para longe do PT. Marina Silva é a esquerda honesta. O grupo do Manifesto pela Democracia é a esquerda honesta…
“Sem duvida. Eu mesmo, com Almino Afonso, participei da articulação do Manifesto pela Democracia no Largo de São Francisco. O Helio Bicudo indicou d. Paulo mas ele aderiu antes que falássemos com ele”.
A pergunta que vale um milhão, agora é “Quem foi que votou na Marina”? Não é nenhum contingente que possa ser classificado por critérios sociológicos…
“É isso, esse eleitorado inclui a esquerda honesta, a juventude, os evangélicos. Está disperso…
Marina simboliza um sentimento. Foi a única que fez a campanha fora da encomenda rígida dos marqueteiros, dizendo o que realmente pensa. E as pessoas captam isso no ar.
Não é, portanto, um eleitorado transferível. Não adianta só o que a Marina vier a declarar em matéria de adesão. Mas é um eleitorado assimilável por quem souber renovar seu discurso para captar esse sentimento que está no ar.
E Serra somado a Marina dá mais que Dilma…”
E de quem ela está mais próxima?
“O dela é o eleitorado da sinceridade. Começa que o Serra não está tendo de abjurar. Ele é, de fato católico. E religião é um componente importante na visão de Marina. A Dilma sim; está tendo de negar as declarações que deu sobre seu ateísmo, sobre ser favorável ao aborto.
É um mau começo para quem quer tentar seduzir o eleitorado da sinceridade.
Tudo que é discurso marketeado vai pagar handicap. E o campeão disso é o PT. O PT é o governo do marketing. São profissionais disso. Fazem marketing o tempo todo. A maior parte do que ele assume como seu foram apropriações feitas pelo marketing e não realizações concretas. Para conquistar o contingente dos que votaram em Marina, tem de se contrapor a isso”.
E o Serra será capaz disso?
“… (interroga-se).
É preciso ter noção da História. Pensar não apenas em ganhar uma eleição mas no que é que ele vai deixar. Quando ele se emocionou, naquele discurso em que usou a letra do hino, ele conseguiu…
Depois é preciso lembrar que foi Dilma quem pôs Marina para fora do governo Lula, na briga em torno de Belo Monte. Os ‘marinistas’ estão naturalmente mais próximos de Serra. Dilma e Lula estão muito mais próximos do modelo dos militares: desenvolvimento a qualquer custo, sem nenhuma consideração por sustentabilidade.
Culpar o meio ambiente pelo atraso nas grandes obras, aliás, tem sido a desculpa preferida para o que é, na verdade, incapacidade gerencial.
É a coisa mais fácil do mundo por a culpa no meio-ambiente. Mas o problema real tem sido a falta de capacidade técnica, gerencial, para por em pé projetos daquela complexidade…

Isso, aliás, é a marca registrada do Lula. O Lula faz uma política binária: nós e eles; os bons e os maus; os ricos e os pobres. Ele só consegue argumentar pondo as coisas nesses termos: o bem, comigo; o mal, com os outros. Não cultiva a tolerância. Não convive com a diversidade. Em democracia, se você apresenta o pequeno enfrentando o grande, o pequeno sempre ganha. O povo se alinha automaticamente com o mais fraco. E é esse o truque que ele sempre usa. Aprendeu no palanque do sindicalista: empregado contra patrão…
Lula afastou o Ciro para isso. Pra que ficassem só dois lados. Mas aí apareceu a Marina e confundiu tudo.
O Lula não contempla a idéia de processo. ‘Antes de mim foi o caos. Depois de mim será o caos. A opinião publica sou eu’. L’état c’est moi.
Mas, de caso pensado ou não – e pelo que Andre Singer conta, parece que não – ele fez a revolução “fordista” no Brasil. Jogou uma montanha de dinheiro na base e esse dinheiro se espalhou pela sociedade acima.
“É verdade. Ele fez realmente. Lula não tem pensamento estratégico. Mas é um excelente tático”.
O estranho é este primeiro turno ser visto como uma derrota por ele. Jogou 47 milhões de votos na Dilma, partindo do zero; ficou 14 pontos percentuais na frente dos opositores, conquistou 18 estados e a maioria absoluta nas duas casas do Congresso. Isso é uma derrota?
“Pois é. Mas não foi exatamente como ele imaginou. E o Lula não pode ser contrariado. É aí que ele revela o seu caráter autoritário. Ou, no fundo, totalitário.

Uma vitória efêmera do mérito
31 de janeiro de 2010 § 1 comentário

Leio o artigo de Boris Fausto deste domingo no Estadão e não resisto a meter minha colher.
Diz ele que: “Desde que voltamos a elegê-los diretamente o Brasil teve cinco presidentes. Dois resultaram de acidentes históricos: Sarney, pela morte de Tancredo, e Itamar, pelo impeachment. Outro, Collor, foi um aventureiro que surgiu do nada, criou um partido de ocasião e se elegeu em circunstâncias excepcionais. Dos cinco, somente dois, Fernando Henrique e Lula, são personagens centrais da trama histórica que se desenrola no Brasil a partir da luta contra o regime autoritário. O fato de serem lideres antes de serem presidentes deu-lhes condições diferenciadas para o exercício do poder (…). Além da legitimidade formal decorrente dos votos, contavam (Lula ainda conta) com a legitimidade substantiva que só a biografia política pode conferir”.
É tudo verdade, sem tirar nem por.
Mas, ainda que de natureza diferente dos outros casos mencionados, a eleição de Fernando Henrique também é fruto de um “acidente histórico”. Ou melhor, de uma cadeia de acidentes históricos não necessariamente conexos entre si.
O primeiro desta sequência foi a fundação da USP, a primeira universidade brasileira, por Julio de Mesquita Filho e Armando Salles de Oliveira, nomeado governador de São Paulo por Getulio Vargas, in extremis, numa tentativa de reduzir a oposição paulista a seu governo. Esse acontecimento já foi uma “zebra”. Fernando Henrique estava numa das ultimas turmas formadas pelos professores franceses que, no sonho do dr. Julinho, deveriam plantar a semente a partir da qual poderia nascer uma nova elite intelectual e política capaz de redimir o Brasil.
“Zebra” sobre “zebra”. Fernando Henrique, o intelectual, o acadêmico, é fruto de uma excepcionalidade dentro de uma excepcionalidade, tão “impossivel” quanto seria, hoje, uma escola publica ser fundada pelo maior crítico do PT e de tudo que ele representa e se dar o luxo de jogar o corporativismo para o alto e contratar apenas professores estrangeiros, selecionados somente em função do mérito.
E é esta a palavra que acaba de definir a absoluta “zebra” que foi Fernando Henrique na Presidência da Republica.
O intransponível abismo de comunicação entre ele e a massa dos eleitores deste país de 85% de analfabetos funcionais em plena aurora do Terceiro Milênio pode ser medido com precisão pela comparação entre o refinamento do seu discurso político e a aderente parlapatice de Lula.
A verdade é que Fernando Henrique, que não conseguiu subir à cadeira de prefeito de São Paulo só com o que era capaz de dizer, foi o único presidente brasileiro, não só da Nova mas de toda a história da Republica, que foi eleito em função de mérito nesta Meca do “amiguismo” caudilhesco e dos conchavos dentro de um Sistema que devora quem o desafia.
Foi o único que, antes de ser eleito, teve de mostrar o que era capaz de fazer.
Ele jamais chegaria à Presidência não fosse a oportunidade fortuita, acidental mesmo, de se tornar ministro da Fazenda de Itamar Franco, criar o Plano Real, acabar com a inflação e, assim, promover a maior revolução social já vivida pelo país.
Fernando Henrique foi um ponto fora da reta do que vinha sendo – e tende a continuar a ser – a pré-historia institucional do Brasil. Um fenômeno sociologicamente tão artificial, embora indiscutivelmente democrático, quanto a elite governante arregimentada pelo despotismo esclarecido de d. Pedro II no Segundo Reinado.
Com Lula, o ponto volta para dentro da reta.



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