Política é sexo…
29 de janeiro de 2010 § Deixe um comentário
…e brasileiro é mulher de malandro…

O editorial do Estadão de quinta-feira navega pelo intrigante tema da “imunidade adquirida” de Lula às conseqüências de sua própria incoerência, constatando que ele “é o único líder democraticamente eleito da atualidade a desfrutar de uma espécie de salvo-conduto que lhe permite, diante dos mais diversos públicos, trafegar sem restrições pelos mundos da retórica, dizendo uma coisa e seu contrário, construindo verdades de ocasião e exercendo, como já se apontou, o seu notável talento para a quase-lógica”.
O comentário partia do embevecido encantamento da platéia do Fórum Social Mundial que, por 50 minutos, “babou ovo” pra ele na terça-feira passada em Porto Alegre, a mesma que o vaiou como ladrão na sequência do escândalo do mensalão em 2005 e que esqueceu a aliança profana costurada, desde então, entre ele, Jose Sarney e Fernando Collor. E lembrava que o mesmo homem que, das bordas do pampa, verberava contra o Fórum Econômico de Davos e culpava pelos males do mundo os “loiros de olhos azuis” que patrocinam o convescote “neoliberal” da Suíça, foi homenageado por esses mesmos “branquelos” ontem, como o “Estadista Global de 2009”, na pessoa do chanceler Celso Amorim que representou o presidente ausente em função de uma crise de hipertensão…
“Assim como nenhum (antigo) radical (da ética na política) o censurou em Porto Alegre”, antecipava o Estadão, “nenhum adorador do mercado deixará de aplaudi-lo em Davos, quanto mais não seja, por polidez”.
Na mosca…
Não havia propriamente perplexidade no comentário. Não ha ingenuos na Página 3. Mas como num editorial não cabem outros recursos que não os da razão, o jornal teve de deixar apenas sugerido o que de mais provocativo evocam essas suas constatações.
A verdade é que a política, como os seres humanos que a praticam, tem dimensões e inspirações diversas, sendo o exercício da razão a menos freqüente entre elas. A tentativa de fazer a racionalidade prevalecer sobre as paixões na política descreve muito bem, aliás, o que tem sido o inglório esforço civilizatório no campo das relações humanas em geral, e no das relações de poder em especial. E a lista escassa dos preceitos fundamentais da democracia – estes que Lula pisoteia com tanta desfaçatez – não é mais do que a magra súmula das vitórias da racionalidade nesse embate de milênios.
Para entender o fenômeno Lula em sua relação com o eleitorado brasileiro, é preciso olhar para a política, digamos, no seu estado selvagem.
Quando não é o cru exercício da força nem está contaminada pelos eflúvios da religião – extremo que toca com frequencia e que, invariavelmente, a torna assassina – a política, no mais das vezes, é sexo. E tendo o povo brasileiro todas as características da “mulher de malandro”…
Bate que eu gamo!
Taí!
Quando se lê o editorial do Estadão com os temperos de Gilberto Freire, tudo se encaixa. As reações passam a corresponder às ações e a ilógica lógica desse amor quase físico entre Lula e o eleitorado se restabelece. Subliminarmente, aliás, parece que o Estadão intuiu isso quando usou a imagem da (síndrome) da “imunidade adquirida” para descrevê-la.
Essas platéias que “a julgar por sua reação, devem se considerar privilegiadas pela oportunidade de assistir ao espetáculo” de Lula “dispensando a bussola para seguir sua intuição” têm com ele uma relação 100% sentimental. De pele mesmo. Tentar avaliar suas reações com as ferramentas da razão será, portanto, tão inútil quanto usar o mesmo recurso para entender as relações de um casal ou para convencer mulheres em busca de emoções fortes a não se deixar atrair por cafajestes.
O perigo maior está na sucessão transferir o poder para os setores religiosos do PT cuja receita descarta esse charme da malandragem, temperado de promiscuidade e infidelidade, que faz o sucesso dos sedutores de platéias e remete à seca truculência daquele tipo de gente que se acha no direito de incutir suas idéias nos outros a tiros…
No mais é se conformar e, até, dar graças ao bom Deus por nos ter mandado essa versão tão genuinamente brasileira do malandro escrachado em vez da patética canastrice desses personagens de tango sujeitos a crises de tpm que, já no terceiro remake, têm feito um inferno da vida dos nossos pobres vizinhos do Sul.
Porque aquela vida mais tranqüila e previsível de quem faz questão de apoiar tais relações em instituições, ritos, processos e normas acatadas de comum acordo por todos é para sociedades maduras que já se libertaram da ditadura dos hormônios.

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