A crise no rio Iriri

25 de outubro de 2009 § 2 Comentários

Juninho 056

Imagine a seguinte situação.

Você mora no Pacaembu, ou no Flamengo ou em qualquer outro grande bairro de qualquer grande cidade brasileira. Existe em algum ponto do bairro um imóvel abandonado disputado por diferentes grupos de sem-teto. Preocupado com sua vida, mergulhado no seu trabalho, concentrado em garantir o futuro dos seus filhos, você não tem nenhuma idéia de que isto está acontecendo. Mas a briga lá entre os marginais disputando algo que não é de nenhum deles está esquentando. E então, uma freira estrangeira, que toma o partido de um dos grupos que disputam o imóvel, acaba sendo assassinada pelo grupo contrário.

Nada, enfim, que não aconteça de fato quase todos os dias em alguma grande cidade brasileira.

Mas em vez da corriqueira ação policial para caçar o assassino e da ação judicial para decidir quem tem a posse do imóvel, o presidente da Republica em pessoa, sem mais aquela, decreta que o bairro inteiro está desapropriado e todos os seus moradores terão, do dia para a noite, de arrumar outro lugar para morar.

Pois é isso que está acontecendo no rio Iriri, com o agravante de que, ao contrário do que acontece nos bairros de grandes cidades, os moradores das margens daquele rio, ali instalados há várias gerações, tiram o seu sustento das suas águas e das matas do seu entorno. Não têm nenhuma reserva de alimentos ou, muito menos, de dinheiro. Vivem do que pescam, do que colhem em pequenas roças de subsistência e do que caçam na mata, de um dia para o outro.

Não têm eletricidade nem geladeira; não contam com transporte publico nem com qualquer coisa que se pareça com assistência social. Não sendo nem índios, nem “quilombolas”, nem tendo qualquer título ou traço racial que os torne elegíveis por ONGs ou os defina como pertencentes a um dos grupos de brasileiros definidos como “especiais” pela nossa legislação mais recente, são absoluta e rigorosamente ignorados pelo Estado, que dispõe dos seus destinos como se eles não existissem.

Nos últimos anos, a vida estava melhorando no Iriri. A castanha do Pará, resgatada das populações isoladas a preço vil pelos atravessadores, é a ultima ponte a conectá-los com o mundo civilizado onde nada se faz sem dinheiro depois que os produtos da caça foram proibidos e que o fim do subsídio à borracha tornou a seringa anti econômica (ouça, abaixo, o relato de um castanheiro em  A vida dura do coletor de castanha).

Iriri - 2005 - 2 019

Mas o turismo chegou para salvar a situação.

A Pousada do Iriri, que recebe brasileiros e, sobretuto, europeus e americanos interessados na pesca esportiva, na observação de pássaros ou, simplesmente, em ver um lugar que continua como Deus o fez, operou o milagre de resgatar os antigos castanheiros da miséria sem obrigá-los a abandonar o seu estilo de vida. Eles conhecem aquele rio e aquelas matas como você conhece a sua casa. Desde que a Pousada chegou, em vez de migalhas em troca do trabalho extenuante de coleta de castanha, recebem, como guias e “piloteiros”, salários fixos e gorjetas em dólares.

Mas a alegria durou pouco.

Mataram uma freira na “Terra do Meio” (o Iriri corre por milhares de quilômetros no sentido Sul-Norte cortando ao meio a “Terra do Meio”, o território delimitado pelos cursos paralelos dos rios Tapajós e Xingu, do qual ele é tributário), e agora, vá você saber porque, toda a população ribeirinha tem de pagar por isso.

Desde 2006, o Iriri se transformou no verdadeiro rio da dúvida.

O que fazer?

Para onde ir?

A Pousada vai fechar?

Como sustentar as crianças, que pela primeira vez, estão freqüentando escolas em Altamira?

O governo vai pagar pela desapropriação?

Vai arranjar outro lugar para morarmos em que possamos viver de pescar e caçar que é o que sabemos fazer?

Quando?

Onde encontrará espaço desocupado com essas características?

Não se fala mais das fruteiras que estão atraindo caça, da onça que anda rondando o barraco de Zé Boi, dos poções onde está dando peixe, de como conter os pescadores profissionais que descem, em balsas, de Altamira, das castanheiras mais produtivas…

Agora, só há um tema nas conversas ao pé do fogo das noites do Iriri: a duvida.

Pelos barrancos mais altos do rio, já são diversas as casas abandonadas – o barro amarelo claro socado, a grossa cobertura cor de palha feita de grandes folhas de babaçu. Fica todo o equipamento de coleta e processamento de castanha. Levar pra que? Levar como? As roças tomadas pelo mato.

O povo do Iriri não tem quem fale por ele…

E pra onde está indo essa gente?

A vida virou uma aventura. E do pior tipo: aquela que lhe é imposta (veja, abaixo, como Juca quase morreu tentando mudar de vida em Aventura na Guiana Francesa).

Juninho 044

Com o avanço inexorável da ocupação econômica do território nacional, áreas como a do Iriri só podem ter um entre dois destinos: o desmatamento e a incorporação à economia agrícola ou a conservação para fins turísticos. Com terras pobres que, no passado, foram fundos de oceanos, destiná-las à agricultura é uma falsa solução. É sob esse pretexto que madeireiros mancomunados com os políticos locais se locupletam colhendo o que não plantaram. Não há maneira de esconder uma atividade visível até do espaço sideral, cujo produto são toras gigantescas que têm de atravessar vastos territórios e sair por portos marítimos.

O que explica o desmatamento desenfreado da Amazônia é mesmo a corrupção. Portanto, não ha solução pelo caminho das proibições que nunca são cumpridas. O Brasil está de prova…

Mas a pressão econômica é o fato incontornável que tem de ser considerado antes de todos os outros, se quisermos uma solução real. E aí é que a política ambiental brasileira naufraga. Presa a preconceitos ideológicos do século passado impostos por ambientalistas que dominam a formulação das políticas governamentais, ela rejeita soluções econômicas e insiste em propostas baseadas em devaneios “morais”, em posturas autoritárias, e na fé na repressão que, historicamente, não tem feito de prático mais que a felicidade dos corruptos.

E, no entanto, a Amazônia toda está a menos de US$ 500 dolares de distancia de vôo dos Estados Unidos. O valor de reservas virgens se multiplica a cada minuto num mundo onde isto é cada vez mais raro. O produto sustentável, por excelência, das áreas preservadas, são a caça, a pesca e os frutos. E a prova disso é a presença do homem, que sempre viveu deles, na Terra.

Hoje, o único produto da terra que vale mais que a soja é a perdiz. Mas nossos ambientalistas não perdem tempo com considerações realistas nem com cálculos “imorais” de “capitalistas cínicos”. Proíbem, em nome de mal costurados argumentos “morais”, a caça que sustentou seus antepassados e trouxe a humanidade até aqui, embora tolerem a pesca. Autorizam, no entanto, o “manejo sustentável” de florestas para a coleta de madeira, embora saibam melhor que ninguém que isso é uma mentira. Antes de mais nada porque, por critério nenhum,  pode-se chamar de “sustentável” o corte de arvores de mil anos. E eles sabem que ainda que se conseguisse fazer que o corte seja mesmo seletivo, o que nunca acontece, serão as milenares as árvores mais cobiçadas pelos madeireiros e pelas serrarias. Nossos ambientalistas aprovam esse tipo de predação cujo rastro um milênio inteiro não apagará, mas não permitem a coleta de fauna, que produz “safras” todos os anos, tanto mais abundantes quanto melhor for a condição de conservação da floresta.

mapa

E mais, não querem o homem amazônico integrado. Querem-no – índio ou coletor – congelado no tempo e no espaço…

Somos o único país do mundo a ancorar nossa política ambiental numa coleção de contradições tão gritantes. E os resultados, como não poderia deixar de ser, são os que colhemos todos os anos, ha 509 anos, e escandalizam o mundo.

Mesmo assim, recusamo-nos a aceitar a lição dos fatos.

Não seria possível sustentar todos os 20 milhões de habitantes da Amazônia Legal apenas com programas de turismo ecológico e de caça e pesca esportiva. Mas certamente seria possível sustentar com isso toda a parcela dessa população que ainda vive dos rios e da floresta, praticando exatamente uma coleta ponderada de caça, de pesca e de frutos da floresta conservada. Seria possível preservar com ela tudo que ainda é necessário preservar, na Amazônia: ambientes e modos de vida dependentes da conservação da saúde da floresta. Um esquema como este, baseado na expectativa de lucros com a conservação ambiental, substituiria a “fiscalização” de agentes mal remunerados de governos corruptos de hoje pela fiscalização de investidores em hotelaria e logística para a coleta de caça e pesca cuja remuneração dependeria do bom estado de conservação da floresta. Se ultrapassassem os limites do sustentável, poriam a perder o seu investimento.

O tamanho das industrias de caça e pesca esportiva no mundo hoje são prova mais que suficiente do sucesso dessa receita em todo o planeta.

Tudo que é necessário para fazer esse esquema funcionar no Brasil é que nossos ambientalistas admitam o que o resto do mundo – de Cuba à China, passando por tudo que está no meio – já admite e pratica.

Aventura na Guiana Francesa

guiana

A vida dura do coletor de castanha

juca3

Juninho 064

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§ 2 Respostas para A crise no rio Iriri

  • Joao Chiarelli disse:

    Fernão
    Como sempre otima leitura.
    Ressalta a falta de humildade dos governantes em adotar as boas ideias e praticas ja comprovadas em outros paises.
    Siga educando, um dia a ficha vai cair.

    • fernaslm disse:

      água mole em pedra dura…
      mas tem de ter muuuita paciência!
      às vezes tenho a impressão de que o Brasil é um canal em branco e preto que só passa filmes muito velhos…

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