Vender preservação é um alto negócio
4 de abril de 2011 § 2 Comentários

Na semana passada os jornais mencionaram uma discussão que estaria começando a correr nos meios ambientais do governo para ceder a exploração (turística) de nossos parques e áreas preservadas pela iniciativa privada.
Seria um passo decisivo para mudar o quadro dramático de absoluto analfabetismo ambiental que assola o Brasil.
Entre os muitos aleijões que a escravidão prolongada produziu neste país, o analfabetismo ambiental conta entre as piores.
O mato, para o colonizador português de beira de praia, sempre foi apenas e tão somente o limite do canavial além do qual só havia “bugres, feras e miasmas”. Eles nunca puseram os pés nele nem para caçar o de comer quando isso era absolutamente necessário. Sempre tiveram o escravo, índio ou negro, para fazer isso por eles, ou para, preferencialmente, empurrar a ferro e fogo o mato para mais longe.
Quando, finalmente, entramos pelo interior adentro, já o fizemos com motosserras, tratores de esteira e “correntões”. Destruímos nossas floresta sem nunca termos tido sequer de entrar nelas.
Isso criou uma distorção que é única no mundo, especialmente nestes tempos em que, com a exceção deste glorioso país com verde na bandeira, todo o mundo valoriza cada vez mais conviver de fato com a natureza selvagem.

A indústria do turismo outdoors é uma das grandes forças econômicas do planeta. E paga-se tanto mais caro quanto mais puro e básico ele puder ser. Finalmente juntou-se a conservação com a necessidade de conservar, uma valorizando a outra. Mas aqui, para a esmagadora maioria de uma população de urbanoides que dificilmente viram mais mamíferos vivos que um cachorro ou um rato de esgoto, isso ainda é “programa de índio”.
Os programas de TV que miram esse segmento, dito “da aventura”, expressão que remete diretamente para as noções de risco e inospitalidade, ainda chamam eucaliptais e campos plantados de braquiária de “áreas verdes” a serem “curtidas” e até “amadas” (porque hoje “gostamos”, do que quer que seja, à americana).
E a primeira providencia dos nossos “ambientalistas” ao criar um parque nacional ou uma área de preservação é proibir a entrada do publico nela, para que não haja o mais remoto perigo de virmos a ter, um dia, algo que se pareça com uma educação ambiental de fato, que nada mais é do que viver uma boa parte da vida nesses ambientes – em geral a melhor porque é lá que se vai para fugir do trabalho e ter prazer. As pessoas lutam por lugares de que se sentem donas. E se sentem donas dos lugares que fazem parte das suas melhores memórias de vida.
Mas entre nós, educação ambiental não é uma prática. É uma ideologia. Uma cagação de regras que raramente fazem sentido. E, no mato pra valer, só se entra clandestinamente, para destruí-lo. Até os cientistas têm sua condição de estudar o que é preciso estudar na natureza para poder conviver razoavelmente com ela restringida de forma absurda quando não ridícula pelos ambientalistas mais radicais.

Na África, com apoio da Cites que é o órgão da ONU para espécies ameaçadas, diversos países reservam as terras lindeiras com reservas e parques nacionais exclusivamente para fazendas de caça ou outras formas de exploração de esportes de natureza, porque isso aumenta a extensão da área preservada, cria uma guarda realmente interessada em coibir abusos (para proteger investimentos e interesses econômicos concretos) sem custo para os cofres públicos e bem menos subornável que as dos governos.
Isso interessa aos investidores pela razão simples de que o parque, lá atrás, repõe caça nas fazendas lá na frente, e caça é a única coisa que vale (muito) mais que soja. A coisa funciona sozinha, em função de mutuo interesse, portanto. É só deixar que aconteça.
Mas nossos “ambientalistas” decretaram que a atividade que define a nossa espécie e garantiu que o homo sapiens chegasse até os dias de hoje é “imoral”. Temos de ensinar nossas crianças que os dentes caninos estão na nossa boca por acaso e os frangos e bifes que comemos todos os dias são fabricados, já com a conveniente embalagem de plástico, nos fundos dos supermercados, sem sangue nem custo ambiental algum, e que a equação da sustentabilidade não se refere nem à superpopulação humana nem ao que temos de derrubar e suprimir para abrir espaço para fabricar o que comemos e o que vestimos, mas sim aos malvados dos americanos e seu “modo perverso de produção”.
Tudo bem! Concedo! Religião não se discute!

Mas vamos, pelo menos, adaptar as ideias civilizadas que deram certo. Que tal incentivar os gringos – e também os ricos brasileiros, porque não! – a comprar bem mais barato terras no entorno dos restos do nosso cerrado, da mata atlântica, nas beiradas da Amazônia, em volta dos nossos “invioláveis” parques nacionais, na beira dos nossos rios só para esses “esportes de aventura”, nem que seja esses do critério politicamente correto (dependendo do horário) das nossas redes de TV?
Ha meses que o Brasil discute apaixonadamente a proibição da venda de terras a estrangeiros, como se eles pudessem carregar o que comprarem debaixo do braço para fora daqui.
Para ser franco, nunca entendi porque estrangeiros investirem para produzir soja ou outra commodity agrícola aqui teria efeitos mais perversos que estrangeiros investirem para produzir automóveis ou televisores aqui.
Criados os empregos, pagos os impostos, passados todos os trâmites legais para exportar essa produção, o que, de fato estaríamos perdendo? Se queremos impedir que a China fabrique proteína animal lá com a proteína vegetal plantada aqui para exportar mais valor agregado, a questão a ser atacada não é o “custo Brasil” sobre a mão de obra (desqualificada), a infraestrutura (sucateada) e os impostos (excessivos para sustentar gastos obcenos de uma casta política privilegiada) que tiram a condição de competir da indústria nacional?

Pra exportar mais valor agregado é preciso domar o PT e o resto dos políticos e não os chineses.
Aos chineses nós devíamos é propor que comprem três alqueires de terras para conservação a cada alqueire de terra para agricultura, por exemplo.
Se ha uma fonte de dinheiro sem custo virtualmente inesgotável, hoje, é essa: todo bilionário do mundo, toda grande empresa do mundo quer enfiar seus bilhões, antes de mais nada, em preservação ambiental. Estão comprando áreas para preservar ou até para devolver à natureza em toda a parte e só não fazem isso aqui porque o governo não deixa.
Se apenas lhes oferecêssemos a oportunidade de comprar para preservar áreas do nosso quase extinto cerrado, nas bordas do que resta da mata atlântica ou em terras amazônicas nesta véspera daquela região ser eletrificada, o que vai multiplicar de forma devastadora a velocidade da devastação, nossos filhos poderiam dormir um pouco mais tranquilos.
Insisto: ha maneiras melhores de gastar neurônios com o binômio terras x estrangeiros do que escolher que tipo de dinheiro pode ou não explorar aquelas que já estão entregues à sanha da agricultura. Muito mais importante – para o Brasil e para o resto do mundo – é convocar os donos de todo dinheiro ocioso ou culpado do mundo (e se incluirmos este já não escapa quase nenhum) a vir comprar uma chance de subir para o purgatório evitando que o que ainda não foi engolido pela fronteira agrícola venha a sê-lo logo ali adiante.

A crise no rio Iriri
25 de outubro de 2009 § 2 Comentários
Imagine a seguinte situação.
Você mora no Pacaembu, ou no Flamengo ou em qualquer outro grande bairro de qualquer grande cidade brasileira. Existe em algum ponto do bairro um imóvel abandonado disputado por diferentes grupos de sem-teto. Preocupado com sua vida, mergulhado no seu trabalho, concentrado em garantir o futuro dos seus filhos, você não tem nenhuma idéia de que isto está acontecendo. Mas a briga lá entre os marginais disputando algo que não é de nenhum deles está esquentando. E então, uma freira estrangeira, que toma o partido de um dos grupos que disputam o imóvel, acaba sendo assassinada pelo grupo contrário.
Nada, enfim, que não aconteça de fato quase todos os dias em alguma grande cidade brasileira.
Mas em vez da corriqueira ação policial para caçar o assassino e da ação judicial para decidir quem tem a posse do imóvel, o presidente da Republica em pessoa, sem mais aquela, decreta que o bairro inteiro está desapropriado e todos os seus moradores terão, do dia para a noite, de arrumar outro lugar para morar.
Pois é isso que está acontecendo no rio Iriri, com o agravante de que, ao contrário do que acontece nos bairros de grandes cidades, os moradores das margens daquele rio, ali instalados há várias gerações, tiram o seu sustento das suas águas e das matas do seu entorno. Não têm nenhuma reserva de alimentos ou, muito menos, de dinheiro. Vivem do que pescam, do que colhem em pequenas roças de subsistência e do que caçam na mata, de um dia para o outro.
Não têm eletricidade nem geladeira; não contam com transporte publico nem com qualquer coisa que se pareça com assistência social. Não sendo nem índios, nem “quilombolas”, nem tendo qualquer título ou traço racial que os torne elegíveis por ONGs ou os defina como pertencentes a um dos grupos de brasileiros definidos como “especiais” pela nossa legislação mais recente, são absoluta e rigorosamente ignorados pelo Estado, que dispõe dos seus destinos como se eles não existissem.
Nos últimos anos, a vida estava melhorando no Iriri. A castanha do Pará, resgatada das populações isoladas a preço vil pelos atravessadores, é a ultima ponte a conectá-los com o mundo civilizado onde nada se faz sem dinheiro depois que os produtos da caça foram proibidos e que o fim do subsídio à borracha tornou a seringa anti econômica (ouça, abaixo, o relato de um castanheiro em A vida dura do coletor de castanha).
Mas o turismo chegou para salvar a situação.
A Pousada do Iriri, que recebe brasileiros e, sobretuto, europeus e americanos interessados na pesca esportiva, na observação de pássaros ou, simplesmente, em ver um lugar que continua como Deus o fez, operou o milagre de resgatar os antigos castanheiros da miséria sem obrigá-los a abandonar o seu estilo de vida. Eles conhecem aquele rio e aquelas matas como você conhece a sua casa. Desde que a Pousada chegou, em vez de migalhas em troca do trabalho extenuante de coleta de castanha, recebem, como guias e “piloteiros”, salários fixos e gorjetas em dólares.
Mas a alegria durou pouco.
Mataram uma freira na “Terra do Meio” (o Iriri corre por milhares de quilômetros no sentido Sul-Norte cortando ao meio a “Terra do Meio”, o território delimitado pelos cursos paralelos dos rios Tapajós e Xingu, do qual ele é tributário), e agora, vá você saber porque, toda a população ribeirinha tem de pagar por isso.
Desde 2006, o Iriri se transformou no verdadeiro rio da dúvida.
O que fazer?
Para onde ir?
A Pousada vai fechar?
Como sustentar as crianças, que pela primeira vez, estão freqüentando escolas em Altamira?
O governo vai pagar pela desapropriação?
Vai arranjar outro lugar para morarmos em que possamos viver de pescar e caçar que é o que sabemos fazer?
Quando?
Onde encontrará espaço desocupado com essas características?
Não se fala mais das fruteiras que estão atraindo caça, da onça que anda rondando o barraco de Zé Boi, dos poções onde está dando peixe, de como conter os pescadores profissionais que descem, em balsas, de Altamira, das castanheiras mais produtivas…
Agora, só há um tema nas conversas ao pé do fogo das noites do Iriri: a duvida.
Pelos barrancos mais altos do rio, já são diversas as casas abandonadas – o barro amarelo claro socado, a grossa cobertura cor de palha feita de grandes folhas de babaçu. Fica todo o equipamento de coleta e processamento de castanha. Levar pra que? Levar como? As roças tomadas pelo mato.
O povo do Iriri não tem quem fale por ele…
E pra onde está indo essa gente?
A vida virou uma aventura. E do pior tipo: aquela que lhe é imposta (veja, abaixo, como Juca quase morreu tentando mudar de vida em Aventura na Guiana Francesa).
Com o avanço inexorável da ocupação econômica do território nacional, áreas como a do Iriri só podem ter um entre dois destinos: o desmatamento e a incorporação à economia agrícola ou a conservação para fins turísticos. Com terras pobres que, no passado, foram fundos de oceanos, destiná-las à agricultura é uma falsa solução. É sob esse pretexto que madeireiros mancomunados com os políticos locais se locupletam colhendo o que não plantaram. Não há maneira de esconder uma atividade visível até do espaço sideral, cujo produto são toras gigantescas que têm de atravessar vastos territórios e sair por portos marítimos.
O que explica o desmatamento desenfreado da Amazônia é mesmo a corrupção. Portanto, não ha solução pelo caminho das proibições que nunca são cumpridas. O Brasil está de prova…
Mas a pressão econômica é o fato incontornável que tem de ser considerado antes de todos os outros, se quisermos uma solução real. E aí é que a política ambiental brasileira naufraga. Presa a preconceitos ideológicos do século passado impostos por ambientalistas que dominam a formulação das políticas governamentais, ela rejeita soluções econômicas e insiste em propostas baseadas em devaneios “morais”, em posturas autoritárias, e na fé na repressão que, historicamente, não tem feito de prático mais que a felicidade dos corruptos.
E, no entanto, a Amazônia toda está a menos de US$ 500 dolares de distancia de vôo dos Estados Unidos. O valor de reservas virgens se multiplica a cada minuto num mundo onde isto é cada vez mais raro. O produto sustentável, por excelência, das áreas preservadas, são a caça, a pesca e os frutos. E a prova disso é a presença do homem, que sempre viveu deles, na Terra.
Hoje, o único produto da terra que vale mais que a soja é a perdiz. Mas nossos ambientalistas não perdem tempo com considerações realistas nem com cálculos “imorais” de “capitalistas cínicos”. Proíbem, em nome de mal costurados argumentos “morais”, a caça que sustentou seus antepassados e trouxe a humanidade até aqui, embora tolerem a pesca. Autorizam, no entanto, o “manejo sustentável” de florestas para a coleta de madeira, embora saibam melhor que ninguém que isso é uma mentira. Antes de mais nada porque, por critério nenhum, pode-se chamar de “sustentável” o corte de arvores de mil anos. E eles sabem que ainda que se conseguisse fazer que o corte seja mesmo seletivo, o que nunca acontece, serão as milenares as árvores mais cobiçadas pelos madeireiros e pelas serrarias. Nossos ambientalistas aprovam esse tipo de predação cujo rastro um milênio inteiro não apagará, mas não permitem a coleta de fauna, que produz “safras” todos os anos, tanto mais abundantes quanto melhor for a condição de conservação da floresta.
E mais, não querem o homem amazônico integrado. Querem-no – índio ou coletor – congelado no tempo e no espaço…
Somos o único país do mundo a ancorar nossa política ambiental numa coleção de contradições tão gritantes. E os resultados, como não poderia deixar de ser, são os que colhemos todos os anos, ha 509 anos, e escandalizam o mundo.
Mesmo assim, recusamo-nos a aceitar a lição dos fatos.
Não seria possível sustentar todos os 20 milhões de habitantes da Amazônia Legal apenas com programas de turismo ecológico e de caça e pesca esportiva. Mas certamente seria possível sustentar com isso toda a parcela dessa população que ainda vive dos rios e da floresta, praticando exatamente uma coleta ponderada de caça, de pesca e de frutos da floresta conservada. Seria possível preservar com ela tudo que ainda é necessário preservar, na Amazônia: ambientes e modos de vida dependentes da conservação da saúde da floresta. Um esquema como este, baseado na expectativa de lucros com a conservação ambiental, substituiria a “fiscalização” de agentes mal remunerados de governos corruptos de hoje pela fiscalização de investidores em hotelaria e logística para a coleta de caça e pesca cuja remuneração dependeria do bom estado de conservação da floresta. Se ultrapassassem os limites do sustentável, poriam a perder o seu investimento.
O tamanho das industrias de caça e pesca esportiva no mundo hoje são prova mais que suficiente do sucesso dessa receita em todo o planeta.
Tudo que é necessário para fazer esse esquema funcionar no Brasil é que nossos ambientalistas admitam o que o resto do mundo – de Cuba à China, passando por tudo que está no meio – já admite e pratica.
Aventura na Guiana Francesa
A vida dura do coletor de castanha
Os ambientalistas e o drama amazônico
14 de setembro de 2009 § Deixe um comentário
O drama da devastação da Amazônia e de outros ecossistemas brasileiros é mais uma daquelas típicas “conversas de surdos” que tão caro têm custado ao País e, no caso, também à Humanidade como um todo.
Tendo a natureza preservada se transformado no bem mais raro do planeta, no momento de maior afluência da Humanidade, a lei de mercado multiplica o valor desse bem minuto a minuto. Tanto e de tal forma que países que destruíram sua natureza antes que essa realidade chegasse ao que é hoje investem bilhões de dólares para refazer o que arrebentaram, não por qualquer tipo de impulso romântico, mas porque este é um dos mais prósperos negócios do mundo.
Para os raríssimos países que ainda dispõem de cenários intactos, feitos por Deus em pessoa, então, é sopa no mel. Nada rende tanto com investimento tão baixo quanto explorar as diversas formas de turismo possíveis em ambientes naturais preservados, para os quais afluem, aos milhões, esportistas de todo mundo dispostos a gastar generosamente, em poucos dias, aquilo que acumularam em meses nas cada vez mais insuportáveis áreas urbanas em que são obrigados a viver e que cobrem o planeta como cascas de uma imensa ferida.
E, no entanto, no limiar do terceiro milênio, ao ritmo frenético de 17 mil quilômetros quadrados por ano, equivalente a três campos de futebol por minuto, nós, os Midas pelo avesso, vamos transformando a Amazônia em cinzas e em pobres artefatos de madeira de terceira categoria (sim, porque a maior parte da madeira amazônica que se derruba hoje é, ainda por cima, de péssima qualidade). Ouro por m..
As explicações para isso são as de sempre: o vício cultural de “colher sem ter plantado” (que começou com o pau que deu o nome do País e já não existe), a miséria, a ignorância e, principalmente, a corrupção a serviço dos predadores de sempre. Todos estamos sendo roubados de um patrimônio insubstituível, pertencente às gerações futuras de brasileiros. A Humanidade, muito provavelmente, está sendo privada da sua própria condição de sobrevivência. E tudo para que alguns possam enriquecer rapidamente e sem esforço, deixando “terra arrasada” atrás de si (165 mil quilômetros quadrados de terras amazônicas assim “exploradas” já foram abandonadas).
É o velho padrão, enfim.
Mas o que há de mais lamentável nessa novela não é isso. O que há de mais lamentável na tragédia ambiental brasileira é que, aqui, também os paladinos da ecologia alimentam a “conversa de surdos” em meio à qual ela se desenrola, o que resulta no sucessivo levantamento de bolas na área que os ruralistas da vida chutam gostosamente ao gol.
A Amazônia brasileira tem quase 20 milhões de habitantes dispersos por pouco menos de 4 milhões de quilômetros quadrados, a maior parte deles inacessíveis. O Estado, pelo menos, com seu poder de coerção e fiscalização, não está lá, como é da definição de “área selvagem”. E toda essa gente e seu território são objeto dos interesses de nove governos estaduais e centenas de governos municipais que, juntos, constituem o baixo clero do baixo clero da política brasileira. E, no entanto, é exclusivamente em “proibições legais”, cujo cumprimento deve ser fiscalizado e exigido por eles, que nossos ambientalistas preferem apostar o destino da Amazônia, e talvez da Humanidade como espécie.
São daquele tipo de gente que acalenta a fantasia de que qualquer impulso humano detonado pelo interesse individual é igualmente condenável. E por isso apostam no exercício da autoridade, desde que pelos “bons”, para tratar de enquadrar o ser humano, “mau” que ele é, de preferência a tentar dirigir os impulsos humanos na boa direção, o que lhes parece muito pouco.
Por isso prossegue a devastação há 500 anos. O que a empurra para a frente é o interesse econômico. O que poderia empurrá-la para trás, como demonstra diariamente a parcela do mundo que já se conformou com o que a Humanidade é, é um impulso econômico mais forte.
Nossos ambientalistas descartam esta obviedade, que tem feito milagres pela restauração do meio ambiente em todo o mundo.
Muito poucas áreas de todo esse quase continente amazônico oferecem as atrações cênicas, as amenidades de clima ou as facilidades de trânsito que qualificam uma área para o chamado “turismo ecológico” de sight seeing que os nossos ambientalistas “toleram” e que se pratica em outras regiões selvagens do mundo. Mas a Amazônia inteira poderia ser transformada já, e com investimento quase nulo, na Meca mundial da caça e da pesca esportivas.
Esta é a sua manifesta “vocação natural”, senão pelos seus próprios atributos apenas, também pelo fato de estar localizada a menos de US$ 500 de vôo da Flórida, um Estado daquele país onde, anualmente, são emitidas 60 milhões de licenças de pesca e 20 milhões de licenças de caça para os esportistas mais ricos do mundo, que movimentam uma indústria cujo orçamento anual gira em torno, somente nos EUA, de US$ 170 bilhões. Se a Amazônia conseguisse atrair 2% ou 3% dessa atividade para o seu território (o que é o mínimo que se poderia esperar se nada fosse feito além de dar permissão legal para que isto acontecesse), estaria criada uma indústria local infinitamente mais lucrativa que a indústria madeireira (que, no ano passado, em todo o mundo, movimentou US$ 20 bilhões, menos de 10% dos quais na Amazônia), e que a agropecuária que, naquelas latitudes, se torna quase inviável (daí o abandono de tanta terra, depois de colhida a madeira). Uma industria capaz de empregar muito mais gente e estritamente dependente do bom estado de conservação da natureza para prosperar. Mais: poria em campo milhões de agentes empenhados na conservação (porque dela dependeria o seu ganha-pão e não daquele salarinho de fome que os fiscais do Ibama, coitados, recebem), e mais milhões de testemunhas (os turistas) interessadas na mesma causa, para fiscalizar um território que hoje só é freqüentado pelos interessados em destruí-lo.
Nossos ecologistas, porém, “não gostam de caça”, embora comam bifes. Toleram a pesca – sabe-se lá por quê -, mas “à boca pequena”. Assim, quando a discussão pega no que interessa, que é o que fazer com aqueles 20 milhões de almas e como encher os cofres daquelas prefeituras e governos estaduais todos, sugerem que todos colham borracha, como os índios faziam (na impossibilidade de simplesmente “revogá-los”, que é o que boa parte deles gostaria que acontecesse). E é aí que os ruralistas entram em cena e ganham de goleada.
Vai a tais extremos essa reação irracional que, para negar aquilo que até dinossauros paradigmáticos como Fidel Castro e os governantes da China já entenderam, apontam “a exploração sustentada de madeira”, que na Amazônia, todos eles sabem, quer dizer eliminação de habitats de forma irrecuperável, como a única “atividade sustentável” permissível! Quanto à caça e a pesca predatórias e indiscriminadas que se praticam hoje por lá, que sigam adiante, pois, como estão proibidas e ninguém vê, “não existem”, e portanto não os faz perder debates na mídia.
Eis o obstáculo que impede a criação da única alternativa econômica viável para a Amazônia que, se liberada e incentivada, eliminaria todas as outras porque serve à ganância – mas também à preservação – mais e melhor do que elas. Essa alternativa está e continuará proibida porque os nossos ambientalistas gostam, sobretudo, dos seus argumentos. Mais que das árvores. Perdem milhões de quilômetros de floresta, mas não perdem “a coerência”.


















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