Os ambientalistas e o drama amazônico
14 de setembro de 2009 § Deixe um comentário
O drama da devastação da Amazônia e de outros ecossistemas brasileiros é mais uma daquelas típicas “conversas de surdos” que tão caro têm custado ao País e, no caso, também à Humanidade como um todo.
Tendo a natureza preservada se transformado no bem mais raro do planeta, no momento de maior afluência da Humanidade, a lei de mercado multiplica o valor desse bem minuto a minuto. Tanto e de tal forma que países que destruíram sua natureza antes que essa realidade chegasse ao que é hoje investem bilhões de dólares para refazer o que arrebentaram, não por qualquer tipo de impulso romântico, mas porque este é um dos mais prósperos negócios do mundo.
Para os raríssimos países que ainda dispõem de cenários intactos, feitos por Deus em pessoa, então, é sopa no mel. Nada rende tanto com investimento tão baixo quanto explorar as diversas formas de turismo possíveis em ambientes naturais preservados, para os quais afluem, aos milhões, esportistas de todo mundo dispostos a gastar generosamente, em poucos dias, aquilo que acumularam em meses nas cada vez mais insuportáveis áreas urbanas em que são obrigados a viver e que cobrem o planeta como cascas de uma imensa ferida.
E, no entanto, no limiar do terceiro milênio, ao ritmo frenético de 17 mil quilômetros quadrados por ano, equivalente a três campos de futebol por minuto, nós, os Midas pelo avesso, vamos transformando a Amazônia em cinzas e em pobres artefatos de madeira de terceira categoria (sim, porque a maior parte da madeira amazônica que se derruba hoje é, ainda por cima, de péssima qualidade). Ouro por m..
As explicações para isso são as de sempre: o vício cultural de “colher sem ter plantado” (que começou com o pau que deu o nome do País e já não existe), a miséria, a ignorância e, principalmente, a corrupção a serviço dos predadores de sempre. Todos estamos sendo roubados de um patrimônio insubstituível, pertencente às gerações futuras de brasileiros. A Humanidade, muito provavelmente, está sendo privada da sua própria condição de sobrevivência. E tudo para que alguns possam enriquecer rapidamente e sem esforço, deixando “terra arrasada” atrás de si (165 mil quilômetros quadrados de terras amazônicas assim “exploradas” já foram abandonadas).
É o velho padrão, enfim.
Mas o que há de mais lamentável nessa novela não é isso. O que há de mais lamentável na tragédia ambiental brasileira é que, aqui, também os paladinos da ecologia alimentam a “conversa de surdos” em meio à qual ela se desenrola, o que resulta no sucessivo levantamento de bolas na área que os ruralistas da vida chutam gostosamente ao gol.
A Amazônia brasileira tem quase 20 milhões de habitantes dispersos por pouco menos de 4 milhões de quilômetros quadrados, a maior parte deles inacessíveis. O Estado, pelo menos, com seu poder de coerção e fiscalização, não está lá, como é da definição de “área selvagem”. E toda essa gente e seu território são objeto dos interesses de nove governos estaduais e centenas de governos municipais que, juntos, constituem o baixo clero do baixo clero da política brasileira. E, no entanto, é exclusivamente em “proibições legais”, cujo cumprimento deve ser fiscalizado e exigido por eles, que nossos ambientalistas preferem apostar o destino da Amazônia, e talvez da Humanidade como espécie.
São daquele tipo de gente que acalenta a fantasia de que qualquer impulso humano detonado pelo interesse individual é igualmente condenável. E por isso apostam no exercício da autoridade, desde que pelos “bons”, para tratar de enquadrar o ser humano, “mau” que ele é, de preferência a tentar dirigir os impulsos humanos na boa direção, o que lhes parece muito pouco.
Por isso prossegue a devastação há 500 anos. O que a empurra para a frente é o interesse econômico. O que poderia empurrá-la para trás, como demonstra diariamente a parcela do mundo que já se conformou com o que a Humanidade é, é um impulso econômico mais forte.
Nossos ambientalistas descartam esta obviedade, que tem feito milagres pela restauração do meio ambiente em todo o mundo.
Muito poucas áreas de todo esse quase continente amazônico oferecem as atrações cênicas, as amenidades de clima ou as facilidades de trânsito que qualificam uma área para o chamado “turismo ecológico” de sight seeing que os nossos ambientalistas “toleram” e que se pratica em outras regiões selvagens do mundo. Mas a Amazônia inteira poderia ser transformada já, e com investimento quase nulo, na Meca mundial da caça e da pesca esportivas.
Esta é a sua manifesta “vocação natural”, senão pelos seus próprios atributos apenas, também pelo fato de estar localizada a menos de US$ 500 de vôo da Flórida, um Estado daquele país onde, anualmente, são emitidas 60 milhões de licenças de pesca e 20 milhões de licenças de caça para os esportistas mais ricos do mundo, que movimentam uma indústria cujo orçamento anual gira em torno, somente nos EUA, de US$ 170 bilhões. Se a Amazônia conseguisse atrair 2% ou 3% dessa atividade para o seu território (o que é o mínimo que se poderia esperar se nada fosse feito além de dar permissão legal para que isto acontecesse), estaria criada uma indústria local infinitamente mais lucrativa que a indústria madeireira (que, no ano passado, em todo o mundo, movimentou US$ 20 bilhões, menos de 10% dos quais na Amazônia), e que a agropecuária que, naquelas latitudes, se torna quase inviável (daí o abandono de tanta terra, depois de colhida a madeira). Uma industria capaz de empregar muito mais gente e estritamente dependente do bom estado de conservação da natureza para prosperar. Mais: poria em campo milhões de agentes empenhados na conservação (porque dela dependeria o seu ganha-pão e não daquele salarinho de fome que os fiscais do Ibama, coitados, recebem), e mais milhões de testemunhas (os turistas) interessadas na mesma causa, para fiscalizar um território que hoje só é freqüentado pelos interessados em destruí-lo.
Nossos ecologistas, porém, “não gostam de caça”, embora comam bifes. Toleram a pesca – sabe-se lá por quê -, mas “à boca pequena”. Assim, quando a discussão pega no que interessa, que é o que fazer com aqueles 20 milhões de almas e como encher os cofres daquelas prefeituras e governos estaduais todos, sugerem que todos colham borracha, como os índios faziam (na impossibilidade de simplesmente “revogá-los”, que é o que boa parte deles gostaria que acontecesse). E é aí que os ruralistas entram em cena e ganham de goleada.
Vai a tais extremos essa reação irracional que, para negar aquilo que até dinossauros paradigmáticos como Fidel Castro e os governantes da China já entenderam, apontam “a exploração sustentada de madeira”, que na Amazônia, todos eles sabem, quer dizer eliminação de habitats de forma irrecuperável, como a única “atividade sustentável” permissível! Quanto à caça e a pesca predatórias e indiscriminadas que se praticam hoje por lá, que sigam adiante, pois, como estão proibidas e ninguém vê, “não existem”, e portanto não os faz perder debates na mídia.
Eis o obstáculo que impede a criação da única alternativa econômica viável para a Amazônia que, se liberada e incentivada, eliminaria todas as outras porque serve à ganância – mas também à preservação – mais e melhor do que elas. Essa alternativa está e continuará proibida porque os nossos ambientalistas gostam, sobretudo, dos seus argumentos. Mais que das árvores. Perdem milhões de quilômetros de floresta, mas não perdem “a coerência”.





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