“Nenhum homem desta terra é republico”
28 de outubro de 2009 § 4 Comments
Ou o que os cronistas de 1650 já sabiam que explica o descalabro que são as calçadas das cidades brasileiras
A questão das calçadas das cidades brasileiras é um daqueles detalhes que dizem muito de um povo.
Ao contrário do que acontece no resto do mundo, a calçada, aqui, não pertence à cidade e ao cidadão, mas é uma extensão de cada terreno particular. Cabe a cada proprietário fazer o seu pedaço como quiser, e mante-lo.
Por que seria assim? Por que a rua, dos automóveis, é publica e mantida pelos impostos pagos por todos e a calçada, dos pedestres, não? Minha intuição me diz que a explicação está, como sempre, na segregação social. Pobre, no Brasil, é quem não tem representação política. É quem não consegue fazer-se ouvir pelo poder publico. E é isso que o pedestre é. Assim…
O Jornal da Tarde está fazendo, esta semana, uma série de reportagens sobre o estado das calçadas paulistanas. Nos meus 35 anos de jornalismo vi essa questão ser discutida dezenas de vezes. E nos meus 57 anos de vida, nunca vi nada mudar.
É o que o JT constata, pela enésima vez. Com aquela suspeitíssima precisão milimétrica das estatísticas dos famigerados “especialistas” que o Brasil parece ter em todo e qualquer assunto, sempre disponíveis para os jornalistas, afirma-se que 98,6% das calçadas estão “fora da lei”, seja pelo péssimo estado de conservação, seja por violarem toda aquela infinidade de normas para tudo que este país estabelece, não para que as coisas funcionem mas para fazer a felicidade dos fiscais.
Em todo caso, se o numero não é exato, está próximo da verdade, como se pode ver a olho nu.
A reação das autoridades às queixas constantes é a de sempre: se a lei existente não está sendo cumprida, faça-se mais uma lei em cima da atual, pra ver se pega.
Para calçadas paulistanas, já existem duas leis e três decretos mandando cada dono de cada terreno manter em ordem o pedaço de calçada em frente à sua testada sob pena de multa. E nenhum deles é respeitado.
Pudera! São Paulo tem uns 30 mil km de calçadas, segundo a reportagem. E o resto você já sabe…
É mais um daqueles aspectos amargurantes da nossa realidade. Para não falarmos do resto da população, basta pensar nos cadeirantes e nos portadores de qualquer tipo de deficiência para avaliar o quanto isso corta fundo na carne da nossa dignidade. Alem de tudo o mais, eles são uns condenados no Brasil. Não podem sair de casa….
Está claro que esse problema não terá solução enquanto o poder publico não assumir, como no resto do mundo, que a calçada é dele, e as fizer e mantiver, padronizadas em toda a cidade, com todos os recursos (pouco mais que pequenas atenções) que esse equipamento essencial para a satisfação do direito mais básico da cidadania, que é o de ir e vir, deve incluir.
Como sempre, não é por falta de dinheiro que isso não acontece. Pagamos os impostos mais altos do mundo. Só que o dinheiro é usado, antes de mais nada, para fazer felizes esses cidadãos especiais que são os funcionários públicos, e não para retornar como serviços prestados pra quem paga os impostos. E como neste “Brasil para todos”, quem corocô, corocô, não há recuos na parcela que eles comem do que pagamos de impostos. Isto sim, a Constituição garante. Logo, se um governante bem intencionado quiser resolver o problema das calçadas, começa logo a falar em aumento de imposto porque, cortar, gastos, você sabe, é ilegal neste país.
Enfim…
Não quero desanimar todo mundo que precisa de calçadas decentes e em especial, quem precisa delas mais que os outros. Mas toda vez que ouço essa história, me lembro de duas velhas crônicas do Brasil seiscentista que guardo em meu computador pra não esquecer o quanto são fundas as raízes dos nossos problemas.
Uma é de 1650 e poucos, do Padre Vieira, e diz assim:
“Em todo o estado do Maranhão não há açougue, nem ribeira, nem horta, nem tenda onde se vendam as cousas usuais para o comer ordinário, nem ainda um arratel de açúcar, com que fazer na terra. E sendo que no Pará todos os caminhos são por água, não há em toda a cidade um barco ou canoa de aluguel para nenhuma passagem. (…) para um homem ter o pão da terra há de ter roça; para comer carne, há de ter caçador; para comer peixe, pescador, para vestir roupa lavada, lavadeira; e para ir à missa ou a qualquer parte, canoa e remeiros. E isto é o que precisamente têm os moradores mais pobres, tendo os de mais cabedal costureiras, fiandeiras, rendeiras, teares e outros instrumentos e ofícios de mais fábrica; com que cada família vem a ser uma república”.
Outra é do padre Simão de Vasconcelos, escrita mais ou menos na mesma época:
“De onde nasce que nenhum homem desta terra é repúblico, nem vela ou trata do bem comum, senão cada um do bem particular. Pois o que é fontes, pontes, caminhos e outras coisas públicas, é uma piedade, porque, atendo-se uns aos outros, nenhum as faz, ainda que bebam água suja, e se molhem ao passar os rios e se orvalhem ao passar os caminhos”.


![Cadeirante[1][1] Cadeirante[1][1]](https://i0.wp.com/vespeiro.com/files/2009/10/cadeirante11.jpg?resize=150%2C150)
Fernão,
concordo plenamente com seu artigo. A calçada eh responsabilidade do poder publico.
quanto aos 30 mil km. de calçadas já deve ter secretário das finanças e vereador pensando em criar um IPTU de calçadas.
Na mosca, Carlos,
Essa não tem erro. A reportagem do JT já tocava nisso. Eu é que fui pouco explícito nesse ponto, ao resumi-la.
eh verdade fernão; depois de fazer meu comentário, vi uma entrevista sobre isto no site do estadão.
fim da picada as condições das calçadas e das ruas do país inteiro…Coitados dos exepcionais e tb das próprias pessoas comuns, pq ninguem cosegue andar por aí, se não prestar atenção e olhar p o chão podemos quebrar a perna!!!
Nojo dos nossos governantes, abaixo a corrupção!!!