Lula e a web: liberdade calculada

15 de setembro de 2009 § Deixe um comentário

Lula não “defende o uso livre da web nas eleições”. O que Lula disse é que é impossível controlar a web. O brasileiro já está acostumado à censura.

comp analfa

O Estadão e a Folha dão titulos quase identicos para as declarações de Lula, ontem em Roraima: “Lula defende uso livre da internet nas eleições”.

Não é bem assim

O que Lula disse é que “seria loucura” proibir o uso da web, segundo a Folha, e que “seria impossivel imaginar que você vai controlar a internet”, segundo o Estadão. Ele é mais realista que o Marco Maciel que, pelo jeito, não sabe o que é a web. Sabe que é impossível, do ponto de vista prático, técnico mesmo, controlar a internet. Feita a constatação, a velha raposa da negociação de salários segue o ditado — “se não dá pra vencê-los (os blogueiros e internautas), é melhor aderir” — e sai posando de democrata, enrolando a platéia com o lero de sempre.

“Durante anos os políticos lutaram pela liberdade de expressão; agora não podem (ao menos usou o verbo certo) trancar inovações tecnológicas (…) É importante que as pessoas saibam quem é o candidato, que a vida das pessoas seja cutucada na internet porque tem coisas boas e ruins”, etc. e tal…

Tudo mentira!

censura

Se o Lula acreditasse mesmo nisso, não tinha se atirado na lama pra impedir que soubessemos mais sobre a vida do Sarney. O Estadão está sob censura ha 46 dias, e sua excelência nunca disse uma palavra sobre o jogo de empurra que o judiciário está fazendo para manter isso assim indefinidamente, pisando na Constituição por puro amiguismo de um juizinho que vive ostensivamente, fotograficamente mesmo, aos beijos e abraços com o Sarney.

E quando foi que “os políticos” lutaram por liberdade de expressão no Brasil?

As raríssimas exceções, mais excepcionais a cada dia, que me perdoem, mas não passa uma semana sem que apareça na Camara ou no Senado, quando não no Judiciário, mais um artefato para tentar implodir a liberdade de imprensa. E quem foi o político que já moveu uma palha pra acabar com a Hora do Brasil, que enfiam goela abaixo do país inteiro à força e que está aí desde o Getulio Vargas?

Tem mais jornalistas empregados hoje nas dezenas de TVs e órgãos oficiais criados para despejar mentiras – do Senado, da Camara, do Judiciário, das vereanças, do presidente e do diabo a quatro – pra cima dos eleitores sem contestação do que nas redações de verdade. E cada jornalista que está nas redações de verdade sabe que, um dia, pode ter de acabar pedindo emprego numa delas…

progr eleit gratuito

E o que dizer do eterno “programa eleitoral gratuito” que diariamente interrompe a programação da sua TV e da sua rádio, pra te impor aquelas figuras lombrosianas dizendo coisas ininteligiveis ou tremendamente agressivas à sua inteligencia? Que país que tenha ultrapassado o estágio tribal, que você conhece, tem coisa parecida?

E as regras para radios e TVs em véspera de eleição, então? Nenhum ditador assumido do Brasil jamais impôs silêncio tão absoluto e completo e tão indevassavel muralha cercando o passado e o presente de todo candidato a se dedicar, no futuro imediato, a chupar o seu sangue, quanto a que vigora neste Brasil desde a “Nova Republica”, sem que ninguem dê um pio pra reclamar.

Aqui só tem mulher de malandro. Tá todo mundo acostumado a apanhar. E, como dizia o velho Montesquieu, a existência do tirano depende essencialmente da vontade do povo de ser tiranizado…

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O Lula pode dizer essas e outras porque sabe que vão publicar qualquer coisa que disser sem contestação. Não é atoa que nunca deu uma entrevista ao longo de um mandato e meio (a não ser aquela única, pra uma misteriosa “jornalista” chapa branca homiziada em Paris, quando estourou a bomba do mensalão). Não quer perguntas. Só quer reprodução dos discursos de palanque que faz todos os dias, desde o primeiro dia do seu primeiro governo, porque sabe que existe uma confusão grassando nas nossas preguiçosas redações entre o que é matéria isenta e o que não passa de manifestação de amnésia. Alias, a maior parte da mídia silenciada (rádios e TVs), pertence ou é sócia dos políticos beneficiados por esse esquema draconiano de censura. Proibir donos de midia nas nossas casas de leis, aliás, é das providencias sine qua non pra virarmos uma democracia de verdade. Quanto à que não pertence, não pertence porque não conta, no raciocínio cara-de-pau dos nossos políticos censores. Lula, melhor que todos eles, sabe que num país onde as escolas têm professores indemissíveis, que sabem que o importante na sua carreira é a filiação partidária e não a familiaridade com os livros, peritos em manifestações de rua, invasões de reitorias, mumunhas sindicais e doutrinações gramscianas mas que raramente aparecem nas salas de aula, deixadas para os substitutos dos substitutos, a população nunca vai ultrapassar a barreira dos 85% de “analfabetos funcionais” que garante a continuação do “poder adesivo” das suas falações e das suas mesadinhas.

Daí que resulta num cálculo burro querer cercear informações numa midia incontrolavel que é preciso ler, só acessivel aos 15% que, porque sabem ler, votarão contra ele de qualquer jeito. Melhor deixar esses fora, como a prova de plantão, utilizável em qualquer discussão, de que eles são amigos da liberdade de imprensa.

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