Nós e a crise americana: entre nessa discussão
8 de janeiro de 2011 § 3 Comentários

Os americanos estão perdidos, culpando uns aos outros pelos efeitos da crise. Mas a globalização está aí para provar que Jimmy Carter estava certo: a salvação das conquistas dos trabalhadores só poderá se dar pelo condicionamento do acesso aos mercados nacionais ao respeito pelos direitos humanos.
Reagindo ao artigo de ontem sobre a crise americana (“O buraco é mesmo mais embaixo“) que eu tinha escrito pensando na critica que o leitor Renato Abucham me fizera na primeira vez em que tratei desse tema (em “A exclusão dos ricos“), ele renovou seus argumentos no comentário que publico a seguir em caracteres itálicos.
Comecei a escrever o artigo que publico na sequência da carta dele como uma resposta a essa réplica. Tendo ido mais longe do que pretendia a principio, resolvi trazer essa discussão do bastidor que o WordPress reserva para os comentarios dos leitores para as paginas de frente do Vespeiro. O assunto merece que mais gente entre nesse debate.
“Se o emprego subiu, mesmo que pouco, a crise americana está passando. A retomada mais vigorosa vai depender do “mood” dos agentes economicos. Esse artigo divulga pessimismo sem razāo. A frustração com a velocidade da recuperação, não deveria ensejar difusão de pessimismo pois o pessimismo só se justificaria com queda de emprego, o que não acontece ha meses. Se difundirmos otimismo pois o emprego parou de cair, a recuperação se dará mais rapidamente. Afinal de contas, economia é uma ciencia de comportamento, por isso se mede a confiança dos consumidores. A imprensa, como um importante formador de opinião deveria ter muito cuidado em difundir uma situação economica pessimista, principalmente em bases falaciosas“.
Renato Abucham
Nos estamos olhando para o ultimo dado do desemprego nos Estados Unidos a partir de perspectivas diferentes, meu caro Renato.
Você como um brasileiro que (como eu) quer ver o fim desta crise; eu como quem tem em foco o confronto permanente entre democracia e autoritarismo.
Ha muitos anos acompanho a imprensa americana e me preocupa muito a mudança para pior que essa crise esta promovendo na maneira como os americanos se vêm a si mesmos…
Mas, primeiro os fatos.
Este que destaquei no artigo que você critica – o completo desligamento entre o desempenho das empresas americanas e o efeito que isso (não) produz no emprego e no consumo domésticos – é novíssimo e não é, absolutamente, “falacioso”. É real, concreto, medido. E representa a quebra de um paradigma. Antes da globalização, sempre aconteceu o contrário: o emprego, o salário e o consumo interno melhoravam com a melhora do desempenho financeiro das empresas.
É isso que, a meu ver, confirma que o problema americano é muito mais grave do que parece justamente porque a soluçāo não está mais nas māos dos proprios americanos, que sempre souberam resolver suas afliçōes e têm instituiçōes especificamente desenhadas para lidar com a mudança.
A grande dificuldade, agora, é que a causa do problema está fora do pais; fora do alcance do aparato institucional americano. Nada do que os EUA possam fazer internamente – com exceção de reduzir salários, efeito que, à revelia da vontade de todos, já vem acontecendo ha tempo e está na raiz mais remota desta crise financeira – poderá melhorar a sua condição de competir num mercado globalizado onde o trabalho é exportavel e o custo da mão de obra é o fator que decide a parada.

E é ai que mora o perigo nestes tempos que estamos começando a viver.
Os proprios americanos, entretanto, ainda não se deram conta disso.
Esse perigo se multiplica tanto mais quanto mais a imprensa e os comentaristas que pautam o debate nacional através dela esquecem que o problema real é esse e, num tom cada vez mais ideológico e irracional, atribuem “culpas” ao governo ou a setores da sociedade pelo que esta acontecendo como se eles pudessem mas não quisessem, por pura maldade e má intenção, tomar medidas ao seu alcance para mudar as coisas.
As guerras verbais, preludio das guerras materiais, tendem, como elas, a evoluir rapidamente para um círculo vicioso. Cada agressão encomenda a seguinte. É a vingança da vingança da vingança. O compromisso cego com o que se disse no calor do dia anterior. A obrigação “moral” de manter a “coerência” (tambem com o erro). O “quiéquiéisso companheiro”, nosso velho conhecido, usado e abusado para manter as partes polarizadas…
Essa, prezado Renato, é a essencia do veneno que destroi sociedades inteiras. Acaba com a coesão interna. Conflagra uma nação.

Adoraria estar errado no sentido que voce indica. Torço, sinceramente, para estar. Mas quanto mais analiso o quadro, menos me convenço disso. Por mais que me esforce não consigo evitar a conclusão de que, numa economia globalizada que caminha a passos rápidos para os monopólios, com mão de obra e consumo sem fronteiras e onde tudo é copiavel identico ao original, ou todo mundo sobe junto ou todo mundo desce junto.
Se esse raciocinio estiver certo, quanto antes os EUA (e o resto do mundo democrático) entenderem essa realidade, melhor.
A Historia esta provando que Jimmy Carter, sem o saber, teve uma intuição premonitória ao tentar amarrar a politica externa dos Estados Unidos aos direitos humanos. A globalização veio para provar que a salvação das conquistas dos trabalhadores americanos, em particular, e ocidentais em geral, só poderá se dar pelo condicionamento do acesso aos mercados nacionais ao respeito aos direitos humanos; à elevação do nivel de direitos e salarios dos trabalhadores chineses.
Se o criterio puramente aritmético, do preço mais baixo a qualquer custo, continuar prevalecendo, os trabalhadores do resto do mundo é que terão de ter os seus reduzidos.
O cinismo de hoje deixou, portanto, de ser uma mera “opção” à escolha de quem se dispuser a ser “pragmático”. Ele tem um custo concreto devastador nas suas implicaçōes diretas e imediatas.

A opção pragmatica (sem aspas), hoje, é reconhecer esse fato incontornavel. Os Estados Unidos e o resto do mundo onde ainda se preza as frageis conquistas da democracia precisam, primeiro, identificar com precisão a fonte dos seus problemas (fator para o qual o trabalho da imprensa é decisivo) para, então, se unirem em torno dos meios e modos de ataca-los com as armas possiveis (como uma reedição da politica de direitos humanos, por exemplo).
Não é uma perspectiva animadora neste mundo imediatista entregue à adoração do bezerro de ouro. Mas é preciso, em algum momento, começar a apontar para o lado de onde as coisas reealmente vêm porque sozinhas é que elas não vão mudar. E não é isso que está acontecendo, especialmente nos Estados Unidos onde a crise pega mais forte exatamente porque quanto mais alto se estiver na escala dos direitos e salarios conquistados, maior será a queda em direçāo ao novo padrāo chinês.
Hoje cada jornal, cada articulista, cada Premio Nobel americano se manifesta em termos mais irracionais e apaixonados, jogando culpas à direita e à esquerda pelo que está acontecendo, enquanto a causa do problema continua la do outro lado do mundo; esse “outro lado do mundo” que a tecnologia da informação tornou vizinho de muro de cada um de nós.

A questão que me preocupa é o efeito que essa crescente conflagração possa vir a ter para a causa da democracia num mundo em que, cada vez mais, a afluência economica esta sendo associada ao autoritarismo e o capitalismo de Estado é o novo e formidável inimigo da liberdade e da dignidade do indivíduo a ser combatido.
Meu foco são as tendências que se manifestam na nova realidade da integração planetária das antigas economias nacionais e minha preocupação é a miopia da imprensa e dos comentaristas americanos (e não somente deles) para essa realidade, que resultam no enviezamento do sentido das pressões sobre o sistema político para uma direção que só pode ajudar a piorar um quadro que já é bastante ruim.
Não se vai curar a doença que afeta os Estados Unidos ou fazer desaparecer os efeitos que essa doença produz sobre nós e o resto do mundo, nem tomando remedios que não atacam suas causas, nem apenas fingindo ter saude.

FLM
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“Se o emprego subiu, mesmo que pouco, a crise americana está passando. A retomada mais vigorosa vai depender do “mood” dos agentes economicos. Esse artigo divulga pessimismo sem razāo. A frustração com a velocidade da recuperação, não deveria ensejar difusão de pessimismo pois o pessimismo só se justificaria com queda de emprego, o que não acontece ha meses. Se difundirmos otimismo pois o emprego parou de cair, a recuperação se dará mais rapidamente. Afinal de contas, economia é uma ciencia de comportamento, por isso se mede a confiança dos consumidores. A imprensa, como um importante formador de opinião deveria ter muito cuidado em difundir uma situação economica pessimista, principalmente em bases falaciosas“.
Não entrarei na discussão porque pouco entendo de economia. Content0-me em ler e ponderar.
Porém, peço uma correção no seu excelente texto: “economia globalizada que caminha a passos rápidos…”. Imagino um ato falho: de paço para poço sem fundo…
Abraços
Varlice
uau!
v. tem toda a razão! ato falho perde! isso deve ter raizes freudianas.
ate faz sentido. falando em paços/palácios, lembro duas coisas:
1- ja notou a tendência nos bairros ricos de SP? a onda, agora, é os super ricos comprarem os vizinhos. menos gente com palácios cada vez maiores. combina perfeitamente com o processo de monopolização da economia. menos empresas, cada vez maiores, com mais poder de corrupção; com mais poder de apertar empregados sem alternativa (de patrão).
2- historicamente, a violência das revoluções é exatamente proporcional ao luxo dos palácios. na Russia e na França eles são enormes e de ouro. resultado: guilhotina na praça, Paris virou um açougue; e na Russia inteira (e agregados) 70 anos de porrada e Gulag, uns 60 milhões de mortos.
na Inglaterra os palácios são de pedra e madeira, muito mais low profile. resultado: uma unica revolução rapidinha, la no começo dos 1600…
obrigado pelo toque.
A solução de problemas exige sacrifícios. O primeiro passo a ser dado é assumir que o problema existe, porque as pessoas só fazem sacrifícios quando não existe mais outra alternativa. Na República “Popular” da China, os trabalhadores não tem direito a nada. São menos do que nada. Trata-se de um caso claro de concorrência desleal.