Feche os ouvidos! Abra os olhos!

25 de abril de 2017 § 9 Comentários

Artigo para O Estado de S. Paulo de 25/4/2017

É meio como a coisa dos assassinatos depois que passaram a ser filmados nas ruas. A gente sabe como as pessoas se matam desde Caim e Abel. Mas ver isso ao vivo é sempre muito chocante. Assistir às autópsias, então, faz a maioria das pessoas passarem a “raciocinar” com o estômago.

É o ponto em que estamos. Às vezes revolta, às vezes abre um ôco na alma ir à minucia de cada queda delatada, mas novidade mesmo não ha. Sempre foi essa a regra do jogo e ela sempre foi clara. A coisa chegou onde chegou porque nos ultimos 30 anos ninguém, eleitor ou, principalmente, autoridade judiciária, jamais cobrou sua aplicação. É perfeitamente possível, hoje como antes, apurar quem, com “caixa 1” ou “caixa 2”, arrecadou para financiar eleições, quem aproveitou para se locupletar e quem, junto com isso, vendeu leis, vendeu a pátria, vendeu a alma ao diabo pelos faustos do poder. Pode-se traçar de onde saiu e onde foi parar cada tostão movimentado. As “contrapartidas” viraram leis, MPs, contratos e contas na Suíça. Nada que se possa ocultar. Estão nos anais do BNDES, bilhão de dolar por bilhão de dolar, as operações de cooptação de um “baixo clero da ONU” que extenderia para além das fronteiras da América Latina bolivariana os sonhos de poder e os métodos para conquista-lo desenhados no Foro de São Paulo e ensaiados no “mensalão”.

Ha, portanto, enormes diferenças na motivação e na extensão da ação e dos danos produzidos por cada ator da novela da destruição do Brasil. Isso de condenar a regra que não se aplicou em vez do desleixo de não te-la aplicado é o padrão que deságua sempre nas insidiosas “jabuticabas” que nos têm mantido fora do mundo e na miséria.

A continuação da parte dessa história que tem como horizonte o “excesso de democracia” praticado na Venezuela depende de se conseguir apagar essas diferenças. É nessa confluência que a força reacionária da “privilegiatura”, pela primeira vez ameaçada de recuo pelas reformas de Temer, se veio somar à correnteza do “lulismo”. Mas o pior foi mesmo ter o acaso conspirado mais uma vez contra o Brasil ao fazer coincidir tudo isso com o auge da Operação Lava Jato. É nesse cruzamento infeliz de forças que, uns arrastando, outros sendo arrastados pelos vazamentos sucessivos, viram-se os guardiões da justiça forçados a abrir o pacote da Odebrecht “em bruto”, o que aplainou as diferenças e de novo “zerou” o placar eleitoral.

A situação do Brasil, entretanto, não tem mais conserto com paliativos. O acerto de contas entre os dois Brasis não é mais uma questão de opção. É uma impossibilidade matemática não faze-lo. Só falta saber em quantas etapas sucessivas e com que dose adicional de desperdício e morticínio ele se dará.

O estado toma 36% do PIB em impostos e mais 10% do PIB na forma de deficits. São 2 trilhões e 500 bilhões de reais. Na União, 54% dos gastos são com aposentadorias e outros benefícios para inativos, 41% são com salários de funcionários ativos. Só 5% é investido em qualquer coisa que não seja pessoal. A média das aposentadorias pagas no “nosso” Brasil é de R$ 1,6 mil. No “deles”, de R$ 9 mil no Poder Executivo que propõe a reforma e de R$ 25 mil no Legislativo, R$ 28 mil no Judiciário e R$ 30 mil no Ministério Publico que, em voz alta ou em voz baixa, resistem a ela. Dentro de cada um desses poderes o abismo entre os salários básicos e os balúrdios acumulados por dentro e por fora da lei, com fraude em cima de fraude, pelos respectivos “marajás” é ainda mais fundo que o que existe entre salários e aposentadorias dos brasileiros de 1a e 2a classe. Como “eles” são, ao todo, 10 milhões e os “marajás” muito menos ainda, tem-se que perto de 40% do PIB fica nos bolsos de menos de 5% da população, um grupelho que, em pé, não enche a Praça dos Três Poderes, com a maior parte dessa fatia concentrada nos de uma ínfima minoria dentro dessa minoria. Se, portanto, a reforma da previdência privada é um imperativo demográfico, a da publica é um imperativo de salvação nacional. Ou nós acabamos com isso ou “eles” acabam conosco.

O que a extensão das delações está provando é que de PSOL a pastor, de Odebrecht a trabalhador braçal aliciado por advogadozinho achacador, tudo que ingressa no “sistema” ou apodrece ou é expelido. Sem reformas que o alterem na essência não existe hipótese de salvação.

Corrupção é, essencialmente, déficit de democracia; impotência do representado diante da falcatrua do representante. “Estatizar” o financiamento de campanhas não conserta isso e implica a “lista fechada” que agrava essa impotência. O atrelamento dos sindicatos ao imposto sindical por Getulio Vargas condenou à morte a democracia no Brasil. O cerco foi fechado com uma “justiça do trabalho” que, ao institucionalizar o achaque, passou a corromper a base da sociedade. O “apelegamento” dos movimentos sociais e partidos políticos pela Constituição de 88 foi a pá de cal. É impossivel pensar em “democracia representativa” num país onde todas as fontes primárias de representação da sociedade são sustentadas por impostos e independentes de seus representados. Contornar a industria do achaque pela “terceirização” é condição essencial para a ressurreição do emprego no Brasil. Mas acabar com o imposto sindical é inverter o polo do mais antigo e fundamental dos vetores de forças negativas que atuam sobre o “sistema”. O financiamento de campanhas pelo estado vai na direção contrária. O que torna eleições baratas de modo orgânico e saudavel é encurtar o raio do território onde um político está autorizado a pedir votos. E isso se consegue com eleições distritais, método que, de quebra, torna explícito o laço de dependência entre eleitores e eleitos sem o qual é impossivel uns controlarem os outros.

Sim, a Lava Jato é intocavel. Mas feche os ouvidos ao barulho e abra os olhos às evidências. Sem reformas não vamos a lugar nenhum. E faze-las aos pedaços vai custar mais do que podemos pagar.

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§ 9 Respostas para Feche os ouvidos! Abra os olhos!

  • Renato Pires disse:

    A parte menos visível, na verdade invisível, do Sistema Predador é o cartório financeiro, o “mosquito da Dengue”, que espalha o caos e a corrupção através das predação financeira do Erário, da permanente lavagem das rendas dos predadores via dívida pública.O Palofi ameaçou entregar o Cartório Financeiro. Agora ele sai da cadeia, vivo ou morto. Não se mexe com o tigre dentro da jaula…

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  • disse:

    Lucidez!
    Onde foi parar a lucidez da mídia que nasceu das concessões públicas de rádio e TV ?
    Eis a questão !
    CONTRATO$$$$ PUBLICITÁRIO$$$$$ governamentai$$$$$$$ !
    Perdemos nossa autonomia e agora vemos Fernão, como João, pregando dentro do deserto do oportunismo exploratório instituído :

    ARRENPENDEI VOS DE VOSSOS PECADOS !

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  • Renato Pires disse:

    Bradescos, Itaus e Unibancos da vida: Uni-vos que vem aí a Lava Jato do Cartorião Financeiro, a desgraça deste País-Colonia. Vão ter de lavar o aeroporto inteiro, não apenas o jato. Parla, Palofi….

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  • José Silverio Vasconcelos Miranda disse:

    Total concordância. Sem reformas corretas de nada adianta a LavaJato.
    Vamos protelar o enterro. Quem viver verá.

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  • Marcelo Schunn Diniz Junqueira disse:

    Infelizmente a maioria dos brasileiros, ainda analfabetos funcionais, não compreendiam o seu texto. Mas está claro que a profundidade do problema é maior do que a Lava Jato pode solucionar.
    Lendo hoje, neste mesmo jornal, o artigo que fala da armadilha do MPF para com a Lava Jato, tenho que admitir que no Brasil o Estado nasceu antes da Nação. Tudo ocorreu porque o filho queria tirar a fazenda das mãos do papai e assim disse: “Independência ou morte”. Triste.

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  • Se perguntar não ofende, pergunto ao Fernão, aonde estava a imprensa investigativa enquanto a pátria mães era explorada em tenebrosas transações. Bebendo cachaça e comendo torresmo ou simplesmente fechando os olhos para o roubo em nome da causa, que os companheiros praticava desbragadamente. Todos temos culpa, nós os eleitores por elegermos esses crápulas, a imprensa por nada ter visto e, nada ter informado, a justiça por ser uma justiça cara, arcaica e inoperante. Puta que pariu, estamos “fudidos” com tanta incompetência juntas.

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    • Fernão disse:

      não é só incompetência não, paulo.
      como tenho denunciado ha anos aqui, tem interesse pessoal da parte de muitos jornalistas e irresponsabilidade criminosa de muito herdeiro de empresa jornalistica que não é jornalista, uma coisa ajudando a outra…
      a pequena corrupção sendo alimentada pelo egoismo, pela vaidade e pela incuria como em tudo o mais neste país

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  • VARLICE RAMOS disse:

    Como sempre, que beleza de texto, Fernão!
    Correção nas ponderações e constatação mais do que triste do que vivemos neste país.
    Beijo.

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